quinta-feira, maio 07, 2020

Planalto ia “alegar” ao Supremo que íntegra da reunião ministerial citada por Moro não existia


Bolsonaro tinha dito que encontros do primeiro escalão eram filmados
Jussara Soares
Estadão
Após o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega do vídeo da reunião ministerial citado em depoimento pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, o Palácio do Planalto tentou alegar que as gravações são pontuais e curtas e, portanto, não haveria a íntegra do conteúdo. A gravação gera preocupação no governo.
Além da suposta pressão que o presidente Jair Bolsonaro teria feito sobre Moro para trocar o comando da Polícia Federal, o vídeo também conteria o registro de um desentendimento entre os ministros da Economia, Paulo Guedes, e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho.
CONTRADIÇÃO – O argumento de que não havia um registro com a íntegra do encontro do conselho de governo confrontam uma declaração do próprio presidente que, no dia 28 de abril, admitiu que os encontros do primeiro escalão são filmados, e os vídeos guardados em um cofre.
Bolsonaro chegou a prometer que divulgaria o vídeo da reunião com Moro para mostrar como ele trata os ministros, mas depois recuou alegando que recebeu o conselho para “não divulgar para não criar turbulência.”
DESENTENDIMENTO – O Estado apurou que um dos motivos para Bolsonaro não ter apresentado o vídeo da reunião do dia 22 de abril, a última com a presença de Moro, foi o desentendimento entre Guedes e Marinho.
Diante dos colegas de Esplanada, os dois divergiram sobre gastos públicos para incentivar a retomada da economia após o fim da pandemia da coronavírus. Neste mesmo encontro, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, teria feito críticas ao ministro do STF.
Conforme mostrou o Estado, o vídeo da reunião está sob responsabilidade do secretário especial de Comunicação, Fabio Wajngarten. Além dele, o chefe da assessoria especial da Presidência, Célio Faria Junior, e o ministro-chefe da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, foram citados no despacho de Celso de Mello da noite de terça-feira, 5, que obriga a apresentar as gravações.
INTERFERÊNCIA – O pedido do vídeo foi deferido no inquérito que apura as acusações do ex-ministro Sérgio Moro de tentativa de ‘interferência política’ de Bolsonaro no comando da Polícia Federal.
Os três foram notificados nesta quarta-feira e têm 72 horas para responder ao pedido. O decano mandou as autoridades citadas a ‘preservar a integridade do conteúdo’ da gravação e impedir ‘que os elementos nela contidos possam ser alterados, modificados ou, até mesmo, suprimidos’.
SECOM – Ao Estado, Célio Faria negou ter mantido e apagado o vídeo da reunião, reforçando que se trata de uma atribuição da Secom. Procurada pela reportagem, a Secretaria-Geral da Presidência confirmou que recebeu a solicitação do STF, mas informou que “não captou nenhum vídeo ou áudio e nem mantém a guarda deste material.”
Questionada sobre a existência do vídeo e protocolos sobre gravação e armazenamento das reuniões ministeriais, a Secom informou apenas que “o Planalto não comentará”.
Interlocutores do Planalto afirmam que, antes da citação do ministro Celso de Mello, Bolsonaro estava “tranquilo” sobre a divulgação do vídeo, alegando que a cobrança teria sido feita a todos os ministros, não apenas a Moro. O presidente, em conversas reservadas, tem reconhecido que falou sim que poderia demitir quem quisesse, mas pondera que também faz essas mesmas declarações em público.
COBRANÇA –  Em clima tenso, Bolsonaro também cobrou o ex-ministro publicamente sobre prisões, consideradas por ele como “ilegais”, de pessoas que furaram a quarentena imposta por prefeitos e governadores para evitar a propagação do novo coronavírus.
Quando admitiu a existência do registro das reuniões de conselho de governo, Bolsonaro alertou que tinha pedido autorização dos ministros para divulgar. “Nossa reunião é filmada e fica no cofre lá o chip”, comentou Bolsonaro. “Mandei legendar e vou divulgar. Tirem as conclusões de como eu converso com os ministros”, acrescentou.
Depois, ao desistir da divulgação, alegou se tratar de uma reunião reservada. “Último conselho que tive é não divulgar para não criar turbulência. Uma reunião reservada, então é essa a ideia. Talvez saia, mas por enquanto não”, disse.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – A alegação do Planalto era de um primarismo constrangedor. Jamais são feitas gravações pontuais e curtas, para efeito de divulgação pela Secretaria de Comunicação. Isso não existe. A gravação é sempre completa e dela então se retiram alguns trechos curtos e pontuais para serem divulgados. A desculpa do Planalto era ridícula e agredia à inteligência alheia, bem ao estilo dos terraplanistas. No início da noite, o procurador-geral Augusto Aras deu nova versão ao pedido ao ministro Celso de Mello que deixe de requisitar a fita, porque há assuntos delicados gravados, referentes à política interna e externo. Ou seja, há um festival de mentiras .(C.N.)

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