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Na reunião ministerial, Heleno apoiou Moro e ficou contra Bolsonaro
Carlos Newton
O futuro político de Jair Bolsonaro e dos filhos está nas mãos do ministro Celso de Mello, que deu prioridade total ao inquérito contra o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, aberto pelo procurador-geral da República, por ordem do presidente da República. Muita gente está desconhecendo esse importante detalhe, julgando que se trata de um inquérito movido por Moro contra Bolsonaro.
Naquela sexta-feira, dia 1º, a determinação presidencial causou tumulto na cúpula da Procuradoria da República, porque Bolsonaro exigiu que o ex-ministro Moro fosse imediatamente incriminado.
EM ALTA VELOCIDADE – O procurador-geral Augusto Aras agiu com presteza e criou uma espécie de força-tarefa que redigiu a longa petição numa velocidade impressionante. E assim, ao final da tarde do mesmo dia em que Moro se demitiu, chegava ao Supremo a petição para investigá-lo por sete crimes, a começar por denunciação caluniosa.
Acontece que, em sua portentosa ignorância jurídica, Bolsonaro pensou (?) que, por ser presidente da República, suas afirmações e atitudes não podem ser contestadas. E o pior foi ter desrespeitado uma realidade jurídica absoluta: ao convocar um advogado para fazer uma acusação contra outra pessoa, é preciso relatar com precisão a verdade dos fatos, caso contrário o processo pode ser revertido. E foi justamente o que aconteceu.
MORO NÃO MENTIU – Bolsonaro disse a Aras que o então ministro Moro tinha mentido sobre os acontecimentos. E a petição feita pela Procuradoria ao Supremo foi baseada nesse suposto fato, mas em momento algum Moro mentira.
Assim, logo ao ser iniciado pelo relator Celso de Mello, o inquérito mudou de figura, porque o ex-ministro prestou depoimento apontando as incongruências contidas em declarações do próprio Bolsonaro, inclusive naquela mensagem à Nação, com o constrangido Ministério perfilado à sua volta, na mesma sexta-feira, dia 1º.
Portanto, o inquérito passou a ter duplo objetivo e agora está investigando, ao mesmo tempo, o ex-ministro e o presidente, e não adianta o procurador recuar, dizendo “desculpe, foi engano”.
VÍDEO DA REUNIÃO – O ponto principal é o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, quando Bolsonaro ameaçou demitir Moro, e o ministro Augusto Heleno, que funciona como uma espécie de primeiro-ministro, então disse claramente ao presidente da República que ele não tinha direito de exigir relatórios sobre inquéritos da Polícia Federal, conforme Bolsonaro cobrava de Moro, à frente de todos.
Para fazer juízo de valor e decidir esse imbróglio, o ministro Celso de Mello certamente vai assistir a esse trecho da filmagem, onde há o diálogo entre Heleno e Bolsonaro. Na verdade, nem precisa conferir a gravação, basta receber a transcrição dos termos dessa conversa, na qual o presidente da República adotou uma postura nada republicana.
DEPOIMENTOS IMPORTANTES –Os depoimentos, no entanto, também serão importantes para que os brasileiros saibam o caráter de determinados cidadãos que hoje nos governam. Alguns dirão a verdade, outros tentarão se esquivar. Para não desagradar ao presidente, haverá quem diga que naquele momento da reunião estava distraído, fazendo apontamentos ou atendendo a uma mensagem urgente no celular.
Como se sabe, quando o presidente conta uma mentira, os áulicos sempre o acompanham, porque não têm o menor compromisso com a verdade nem com o interesse público. Infelizmente.
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P.S. – Nos livros de História, a biografia de Celso de Mello terá como grande destaque essa firme atuação no inquérito contra o ex-ministro Sérgio Moro, que inevitavelmente colocará Bolsonaro na marca do pênalti do impeachment. E la nave va, cada vez mais fellinianamente. (C.N.)
P.S. – Nos livros de História, a biografia de Celso de Mello terá como grande destaque essa firme atuação no inquérito contra o ex-ministro Sérgio Moro, que inevitavelmente colocará Bolsonaro na marca do pênalti do impeachment. E la nave va, cada vez mais fellinianamente. (C.N.)