Eleição marcada pela rejeição: Lula tem 45% e Flávio, 46%
Deu no O Globo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) concentram os maiores índices de rejeição entre os candidatos à Presidência, segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira (21). São 46% os eleitores que afirmam que não votariam em Flávio de jeito nenhum, enquanto 45% dizem o mesmo sobre Lula.
Em relação ao levantamento anterior, divulgado em julho, a rejeição de Flávio oscilou 2 pontos percentuais pra baixo, enquanto a de Lula variou um ponto percentual. O petista tinha 46% em julho.
REJEIÇÃO – O Datafolha perguntou aos eleitores em quem eles não votariam de jeito nenhum no primeiro turno. Na sequência aparecem Pablo Marçal (PRTB), com 22%; Romeu Zema (Novo), com 16%; Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD), ambos com 14%.
Rui Costa Pimenta (PCO) registra 13% de rejeição, seguido por Samara Martins (UP) e Edmilson Costa (PCB), com 10% cada. Clariana Barão (DC) tem 9%, enquanto Veterinário Wilson Grassi (Democrata), Hertz Dias (PSTU), Escritor Augusto Cury (Avante) aparecem com 8% cada. Do total de entrevistados, 2% afirmaram que não votariam em nenhum dos candidatos, enquanto outros 2% disseram que votariam em qualquer um ou não rejeitam nenhum. Outros 2% não souberam responder.
O Datafolha ouviu 2.058 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 18 e 20 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro no TSE é BR-04496/2026.
PGR diz que caso não tem relação com fraude no INSS
Mariana Muniz O Globo
A Procuradoria-Geral da República (PGR) recorreu a um precedente relatado pelo ministro Luiz Fux para defender que a investigação sobre a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e da empresária Roberta Luchsinger na promoção de interesses do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, seja retirada do Supremo Tribunal Federal (STF) e enviada à primeira instância.
O julgamento citado pela PGR ocorreu em 2024 e estabeleceu que a simples menção ao nome de uma autoridade com foro privilegiado não é suficiente para deslocar uma investigação para um tribunal superior. Segundo o entendimento adotado pela Primeira Turma do STF, é necessário que existam indícios de participação “ativa e concreta” da autoridade nos crimes investigados.
SUSTENTAÇÃO – A PGR usou esse entendimento para sustentar que não há, no caso envolvendo Lulinha, elementos concretos da participação de uma autoridade com direito a foro no Supremo. O parecer foi apresentado ao ministro André Mendonça, relator do inquérito.
O precedente mencionado é a Reclamação 69.164, relatada por Fux. O processo teve origem no Ceará e discutia uma investigação sobre suspeitas de desvio de recursos públicos envolvendo o então prefeito de Pacatuba. A defesa alegava que o Ministério Público estadual havia realizado atos de investigação sem a supervisão do Tribunal de Justiça, onde o prefeito tinha foro. Fux rejeitou a reclamação, e a Primeira Turma confirmou a decisão por unanimidade.
Na ocasião, o STF entendeu que diligências preliminares podem ser realizadas para verificar se há elementos suficientes para instaurar uma investigação contra uma autoridade com foro. O acórdão ressaltou ainda que informações “fluidas e dispersas” ou a mera citação ao nome de uma autoridade não bastam para deslocar a competência. Para isso, segundo o precedente, é “imprescindível a constatação da existência de indícios da participação ativa e concreta do titular da prerrogativa em ilícitos penais”.
INVESTIGADOS – Ao analisar o caso de Lulinha, a PGR afirmou que a jurisprudência do Supremo exige “elementos concretos da efetiva participação” de uma autoridade com prerrogativa de foro nos ilícitos investigados. Segundo o órgão, esse requisito não é preenchido pela “simples referência nominal” nem pela possibilidade abstrata de envolvimento de uma autoridade.
A investigação foi aberta para apurar suspeitas de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, tráfico de influência e lavagem de dinheiro. Além de Lulinha e Roberta, estão entre os investigados o Careca do INSS, Fernando Bittar, Gustavo Marques Gaspar, Marco Aurélio Santana Ribeiro e Swedenberger do Nascimento Barbosa.
Segundo a PGR, os fatos investigados dizem respeito à suposta atuação de um grupo liderado por Roberta e Lulinha para promover interesses empresariais do Careca do INSS no mercado de canabidiol junto ao governo federal. O documento afirma que os dois teriam feito gestões perante autoridades administrativas sobre as quais supostamente possuíam algum tipo de influência.
SEM CONCLUSÃO – O parecer também registra que foram identificados pagamentos de Antunes a Roberta, mas ressalta que a representação da Polícia Federal não aponta a conclusão de nenhum negócio entre o empresário e o poder público que demonstrasse o efetivo atendimento das pretensões que o grupo buscava intermediar.
Outro argumento usado pela PGR para defender o envio do caso à primeira instância é a ausência de conexão entre os fatos investigados e a Operação Sem Desconto, que apura o esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.
Para a Procuradoria, a Sem Desconto possui objeto delimitado: a atuação de organizações criminosas especializadas na apropriação de recursos retirados indevidamente de benefícios previdenciários por meio de entidades associativas, além do pagamento de vantagens a agentes públicos para manter o esquema e da ocultação dos recursos obtidos.
CONEXÃO LÓGICA – Já os fatos relacionados ao mercado de canabidiol, segundo a PGR, não guardam relação com esse conjunto de crimes. O órgão afirma que não existe “nenhuma conexão lógica de causa e efeito, tampouco instrumental” entre as duas apurações.
A única ligação, diz a manifestação, é o fato de que os elementos que deram origem ao novo inquérito foram encontrados no celular de Roberta Luchsinger, apreendido durante a Operação Sem Desconto. Para a PGR, trata-se de uma “mera casualidade”, insuficiente para manter reunidas as investigações.
Atualmente Fux integra a Segunda Turma, que será o colegiado onde eventual recurso no caso pode ser julgado. Além dele, fazem parte da turma André Mendonça, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes.
Candidato afirma que a prestação de contas “já aconteceu”
Marcelo Copelli Revista Fórum
Flávio Bolsonaro diz que “Dark Horse” é página virada. As contas, porém, continuam abertas. Em uma coletiva no Mercado Municipal de São Miguel Paulista, o senador e candidato à Presidência afirmou que a prestação de contas do filme “já aconteceu”. Não detalhou quanto foi efetivamente gasto, quem financiou a produção, por onde os recursos circularam nem quais documentos sustentariam sua afirmação. Limitou-se a dizer que um material teria vazado de um processo e que estaria tudo em ordem.
A afirmação contrasta com um compromisso assumido pelo próprio candidato. Em 19 de maio, diante da repercussão sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e os recursos destinados à produção sobre a trajetória política do pai, Flávio havia anunciado que a produtora apresentaria um relatório detalhando as despesas e a destinação dos valores.
PRAZO NÃO CUMPRIDO – O prazo terminou em 18 de junho. Mais de dois meses depois, esse detalhamento não veio. Em seu lugar, Flávio tomou como suficiente um material que já constava de outro processo e que não responde integralmente às perguntas que deram origem à cobrança. O ponto central está aí: sua declaração procura tratar como encerrada uma apuração que os elementos apresentados ainda não permitem esclarecer por completo.
Trata-se de uma perícia privada, contratada pela defesa da produtora, que aponta custo de aproximadamente R$ 75 milhões — R$ 20,9 milhões gastos no Brasil e o restante nos Estados Unidos. O laudo atribui a origem dos recursos analisados ao Havengate Development Fund, veículo americano administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, e sustenta que os valores examinados têm natureza privada.
O ponto decisivo está no que a perícia não esclarece. O documento não identifica integralmente os financiadores por trás do fundo nem oferece documentação suficiente para reconstruir, de ponta a ponta, a movimentação dos recursos. A lacuna ganha relevância porque o Banco Master, de Daniel Vorcaro, transferiu ao Havengate cerca de US$ 10,6 milhões — aproximadamente R$ 61 milhões — em operação relacionada ao financiamento da produção.
RESPOSTA PARCIAL – Um laudo que informa quanto foi gasto, mas não esclarece integralmente a origem dos recursos, não corresponde ao detalhamento que havia sido anunciado. É uma resposta parcial apresentada como suficiente. O ponto não é impedir Flávio de afirmar que as contas estão corretas. É exigir que essa afirmação seja acompanhada da documentação capaz de sustentá-la.
O compromisso anunciado ia além de informar o custo total da obra. Envolvia esclarecer como os recursos entraram, por onde circularam e a quem foram destinados — além de colocar à disposição das autoridades brasileiras os valores relacionados a Vorcaro. Nada disso está suficientemente esclarecido na perícia, nem foi detalhado na declaração do candidato. Há uma cifra, mas não há rastreabilidade suficiente para reconstruir toda a operação. Sem possibilidade de conferência independente, a transparência permanece incompleta.
Diante dessa lacuna, Flávio preferiu deslocar o foco para fatos e personagens de outras investigações, em vez de detalhar a origem e a destinação dos recursos que estão no centro da controvérsia. Essa mudança de eixo, porém, não responde às perguntas que permanecem abertas sobre os cerca de R$ 61 milhões transferidos por Vorcaro para o fundo relacionado à produção.
REPASSES – A controvérsia tampouco se limita ao debate político. A Polícia Federal apura os repasses relacionados à produção e eventual uso de emendas parlamentares em entidades ligadas à produtora, enquanto o episódio chegou à Câmara dos Deputados como objeto de fiscalização. Há, portanto, instituições formalmente examinando a origem e o trajeto de valores milionários enviados ao exterior. Nesse contexto, declarar o assunto encerrado não constitui uma conclusão: significa antecipar um desfecho que as investigações ainda não produziram.
A lisura de uma operação financeira se sustenta em documentos que possam ser examinados e confrontados, não apenas na palavra de quem dela participou. Se está tudo certo, como afirma o candidato, a resposta mais consistente seria apresentar os elementos que permitam essa verificação. É justamente isso que continua faltando.
Flávio pode sustentar que as contas estão corretas, contestar as investigações e considerar a controvérsia encerrada. Pode defender sua versão dos fatos e atribuir a outros as responsabilidades que entender cabíveis. O que não pode fazer é pedir que sua palavra ocupe o lugar dos documentos que a própria natureza da controvérsia exige.
RASTREAMENTO – Prestação de contas não é um ato de autoridade. Não se encerra quando quem deve explicações declara que já as deu. Exige que os números possam ser rastreados, os valores identificados e os documentos examinados por quem tem o direito de conferir. A transparência não nasce da confiança que o político reivindica, mas daquilo que ele consegue demonstrar.
É por isso que a questão permanece aberta. A explicação ainda não foi oferecida em toda a extensão que o compromisso anunciado exigia. No espaço público, uma controvérsia não se resolve por decreto: quando faltam elementos para conferir a conta, ela continua aberta.
É exatamente onde “Dark Horse” permanece: não na página que Flávio decidiu virar, mas na conta que ainda espera pelos documentos capazes de fechá-la.
Decisão valida traçado acordado entre municípios e Estado, mas não determina transferência da Zona de Expansão
(Foto: reprodução/Prefeitura de São Cristóvão)
A Justiça Federal em Sergipe homologou, na manhã desta sexta-feira, 21, o Termo de Concordância Técnica que consolida o traçado da linha divisória entre os municípios de Aracaju e São Cristóvão. A decisão é resultado de um acordo técnico construído entre o Estado de Sergipe e os dois municípios, com participação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O acordo define, por meio de coordenadas geográficas, por onde passa a divisa entre as duas cidades. Para chegar ao traçado, foram realizados estudos históricos, análises de imagens da região e vistorias de campo.
Um dos principais pontos analisados foi a localização de um antigo marco que servia para indicar a divisa entre os municípios, na região do pontal norte da barra do Rio Vaza-Barris. Segundo a decisão, o marco não existe mais fisicamente. A área sofreu alterações na linha de costa ao longo das últimas décadas, e o local atualmente está submerso ou coberto por dunas móveis.
Diante disso, Aracaju e São Cristóvão concordaram em utilizar como referência o chamado “ponto 6”, indicado em um mapa do IBGE de 1983. A Justiça considerou que a solução permite definir, de forma tecnicamente segura, o local da divisa previsto na legislação.
A decisão também registra que o IBGE já atualizou as bases territoriais e as estimativas populacionais de Aracaju e São Cristóvão com base no traçado definido. O instituto também encaminhou ao Tribunal de Contas da União (TCU) informações para os ajustes relacionados ao Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
Com a homologação do acordo, a Justiça considerou cumprida a etapa de definição técnica da divisa entre os dois municípios e encerrou o processo.
Zona de Expansão
Apesar da definição da linha divisória, a decisão não significa que a Zona de Expansão tenha sido transferida automaticamente para Aracaju. A Justiça Federal deixou claro que uma eventual mudança na divisão territorial entre os municípios precisa ser tratada em um novo processo, pelas vias administrativas e legislativas previstas na legislação.
A decisão ressalva que Aracaju e São Cristóvão podem utilizar a documentação técnica produzida e homologada pela Justiça para buscar uma eventual alteração territorial pelos caminhos administrativos e legislativos próprios.
Pedido à Alese
A Prefeitura de Aracaju encaminhou, na última quinta-feira, 20, ofício à Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese), solicitando atenção especial e celeridade na tramitação do processo legislativo que trata da delimitação territorial da Zona de Expansão. O documento solicita o início do Estudo de Viabilidade Municipal (EVM) e destaca que Aracaju e São Cristóvão chegaram a um consenso quanto ao traçado georreferenciado e às coordenadas geográficas da área em discussão.
Segundo a Prefeitura de Aracaju, o estudo deverá considerar aspectos como viabilidade econômico-financeira e fiscal, infraestrutura e oferta de serviços públicos essenciais, condições urbanísticas e sociais, além da identificação georreferenciada dos limites territoriais envolvidos.
O objetivo, segundo a gestão municipal, é avançar nas etapas previstas na legislação para que a população possa ser consultada dentro dos instrumentos legais. Após o cumprimento dessas etapas, caberá à Justiça Eleitoral promover a consulta direta, por meio de plebiscito, às populações de Aracaju e São Cristóvão sobre a definição territorial da área.
A CDLIDH - Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa, manifesta solidariedade à Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA). Na manhã desta quinta-feira (20), o deputado estadual – e candidato à reeleição – Diego Castro e integrantes de sua equipe invadiram o Campus, protagonizaram cenas lamentáveis, cometeram atos de vandalismo contra as instalações e chegaram a deixar um estudante ferido.
A exemplo de outras vezes em que invadiu prédios públicos, o parlamentar e sua equipe aproveitam a confusão para gravar vídeos de campanha. Na UFBA, ele alegou que invadiu o local para registrar a presença de material político-eleitoral nas dependências da instituição. Houve confronto verbal e físico entre a comitiva do parlamentar e membros da comunidade universitária, as atividades foram interrompidas, um estudante ficou ferido e o diretor da Facom foi desrespeitado e ameaçado.
A CDLIDH da ABI repudia esse comportamento violento, que desrespeita o direito dos outros e contraria os princípios básicos da vida em sociedade e da democracia.
Lula anuncia reunião com Motta e Alcolumbre para avançar MP do fim da 'taxa das blusinhas'
Tempo de leitura: 6 minutos
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou na última quinta-feira, 20, que discutirá com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), o fim da chamada “taxa das blusinhas”. O encontro está previsto para a próxima quarta-feira, 26. Segundo Lula, os três devem tratar da aprovação da medida provisória que permite zerar o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50. A proposta está em análise no Congresso e precisa avançar antes do prazo de validade.
Lula também afirmou que pretende aproveitar a reunião para tentar destravar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1. Em discurso no Rio Grande do Norte, o presidente defendeu a eleição de mais parlamentares alinhados ao governo e disse que a composição do Congresso será decisiva para aprovar as duas medidas. O petista afirmou ainda que tanto o governo quanto a oposição estão dando maior atenção à disputa pelas vagas no Legislativo, especialmente no Senado.
A proposta que trata da tributação das compras internacionais entrou em vigor em maio, mas depende da aprovação do Congresso para se tornar permanente. O texto recebeu uma prorrogação de 60 dias e, conforme o prazo informado pelo governo, precisa ser votado até 24 de setembro. No entanto, o Planalto pretende acelerar a tramitação e buscar uma deliberação durante a semana de esforço concentrado do Congresso, prevista para 31 de agosto a 4 de setembro.
- O governo sustenta que a mudança busca ampliar a conformidade tributária e aduaneira nas compras internacionais, além de combater práticas como subfaturamento e fracionamento artificial de encomendas. O fim da “taxa das blusinhas” ganhou espaço na estratégia política do governo para 2026. Lula classificou a redução da cobrança como uma “questão de justiça” e afirmou esperar que Hugo Motta e Davi Alcolumbre coloquem a proposta em votação.
Transposição do São Francisco
O governo federal pretende concluir ainda em 2026 a transposição do rio São Francisco. O projeto da transposição começou a ser executado em 2007, durante o segundo mandato de Lula, e se tornou alvo de disputas políticas entre diferentes governos. Em sua fala durante evento em Natal (RN), o Presidente Lula atribuiu os atrasos a gestões anteriores e afirmou que a conclusão da obra exigiu decisões políticas para superar resistências de governadores, parlamentares e integrantes do próprio governo.
Pesquisa presidencial
O Datafolha divulgará nesta sexta-feira, 21, a primeira pesquisa de intenção de voto para a Presidência da República desde o início oficial das campanhas eleitorais. Encomendado pela Globo e pelo jornal Folha de S.Paulo, o levantamento testa os 13 candidatos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e também apresenta quatro cenários de segundo turno: Lula (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).
Casas Bahia: o peso do jornalismo investigativo em um negócio “de família”
Curiosamente foi uma voz do mercado, e não um jornalista, que fez a ligação da crise de reputação das Casas Bahia na derrocada da empresa, que anunciou o pedido de recuperação judicial no domingo passado (16).
Com uma pergunta no título “Casas Bahia, passivo reputacional ou crise do varejo?” Camila Farani, investidora de capital de risco há 15 anos, presidente da G2 Capital respondeu em sua coluna no Estadão: “A resposta é os dois, um alimentou o outro de formas que o balanço não consegue mostrar sozinho”. E avisou: “Tem uma história anterior ao balanço que precisa ser contada”.
O interessante é que foram os jornalistas que levantaram os fatos que a investidora descreve como anteriores ao balanço, embora agora a maior parte das reportagens tenha se fixado na “crise do varejo”, que está longe de ser nova, ao explicar o endividamento de 17 bilhões do grupo que, na era pré-Amazon e Mercado Livre, foi um dos mais influentes no país, e também um dos maiores anunciantes da mídia também abalada pela Internet.
“Samuel Klein, o fundador, construiu a Casas Bahia do zero. Imigrante polonês que sobreviveu à guerra, chegou ao Brasil sem nada e ergueu uma das maiores redes de varejo da América Latina. A narrativa do self-made man foi repetida por décadas pela imprensa, pelos livros de gestão, pelas palestras de empreendedorismo. O que ninguém contou, até a Agência Pública investigar em 2021, é que Klein manteve por décadas um esquema de aliciamento e exploração sexual das crianças e adolescentes dentro da própria estrutura da empresa. O caso ganhou nome: ‘Caso K’”, pontua a investidora.
Farani também lembra o caso do filho de Samuel, Saul Klein, que se tornou réu em maio deste ano por favorecimento à prostituição, tráfico de pessoas incluindo menores de idade e organização criminosa. Se o pai não foi processado, porque a imprensa silenciou até depois da sua morte, mesmo com a existência de registros policiais e judiciais desde os anos 1990, o caso Saul mereceu maior cobertura depois que passou a ser investigado pelo Ministério Público no final de 2020.
Ainda assim, o escândalo do fundador das Casas Bahia rendeu consequências depois da publicação da reportagem da Pública, em abril de 2021, a primeira a fazer justiça às vítimas, muitas delas menores quando os crimes foram cometidos, e que só adultas descobriram que os crimes já haviam prescrito.
“Entre outros impactos, a reportagem resultou em um Projeto de Lei, o PL Caso Klein, que propõe alterar o Código Civil para ampliar de 3 para 20 anos o prazo de prescrição para as vítimas de crimes sexuais cometidos contra crianças e adolescentes. Aprovado pela Câmara em 2023 está parado no Senado desde então.
Até a família Klein reagiu às revelações suspendendo as atividades do Instituto Samuel Klein, criado pelos netos de Samuel depois da sua morte, em 2014, para preservar um legado, manchado pela revelação dos crimes do patriarca. Embora parte das ações da família nas Casas Bahia tenha sido vendida em 2013, e a empresa tenha se tornado uma sociedade aberta em 2019, até hoje a família tem presença na administração: Raphael Klein, neto de Samuel e filho de Michael Klein, faz parte do Conselho de Administração e participa dos comitês de Finanças e de Pessoas e Governança.
Como observa Farani, o que as Casas Bahia vendiam era o sentimento de pertencimento e confiança aos clientes de baixa renda, que adquiriam carnês a juros que engordavam o patrimônio dos Klein, mas os permitiam realizar sonhos de consumo de bens que já eram essenciais para os mais endinheirados, como fogões, geladeiras e TVs. Essa confiança foi quebrada quando esses bens se tornaram “presentes” para as filhas de famílias pobres exploradas sexualmente por Samuel Klein, como mostraram as manifestações feitas às portas da sede das Casas Bahia depois da reportagem da Pública.
É por isso que apesar da crise do varejo desde a chegada do e-commerce e do peso dos altos juros que dificultam toda a economia brasileira (sobre isso veja a coluna de Clara Saliba), não se pode ver esse caso apenas como financeiro: “A crise financeira tem solução técnica. Renegocia dívida, fecha loja, corta custo, busca comprador. É doloroso, é caro, mas tem caminho. A crise de identidade é outra coisa. Ela acontece quando o que estava no fundamento da marca é exatamente o que não pode mais ser dito”, diz Farani.
Se isto serve de lição para os empresários, para nós, jornalistas, dá a medida da importância do jornalismo investigativo independente, que rompeu o pacto de silêncio na imprensa, talvez cultivado pelo peso do anunciante. Também mostra porque apesar de tantas crises enfrentadas pelo próprio jornalismo, ele continua a ser uma ferramenta essencial para a sociedade, a justiça, a democracia.
Com todas as mudanças na comunicação, e com os novos donos da mídia, as bigtechs, são as revelações advindas da apuração e da coragem dos jornalistas que têm o poder de mover a sociedade, expondo as injustiças e os crimes cometidos por gente como Samuel e Saul Klein, Daniel Vorcaro e outras figurinhas de sucesso no meio empresarial e político.
Um trunfo do país também nessas eleições, ameaçadas por mentiras e desinformação nas redes sociais e até por interferência estrangeira - como Donald Trump e os Bolsonaro não nos permitem esquecer. De olho neles!
Para compreender as engrenagens por trás dos ataques às urnas, da influência do governo Trump e das alianças internacionais da extrema direita, inscreva-se no curso “Extrema Direita e Eleições no Brasil”, ministrado pelo cientista político Guilherme Casarões. Serão duas aulas ao vivo e online para você analisar os riscos à democracia, entender os cenários para o pleito e, de quebra, apoiar o jornalismo independente da Agência Pública.