sexta-feira, julho 11, 2025

Lula faz ofensiva internacional e publica artigo contra tarifas de Trump em nove países

 Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil/Arquivo

O presidente Lula (PT)10 de julho de 2025 | 21:45

Lula faz ofensiva internacional e publica artigo contra tarifas de Trump em nove países

economia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou um artigo em tom contrário ao excesso de tarifas comerciais entre os países um dia após o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de sobretaxar o Brasil em 50%. O texto foi publicado em nove países.

“A lei do mais forte também ameaça o sistema multilateral de comércio. Tarifas abrangentes corrompem as cadeias de valor e empurram a economia global para uma espiral de preços altos e estagnação”, diz o texto assinado pelo presidente, publicado em inglês.

Sem mencionar Trump e o aumento da sobretaxa aos produtos brasileiros, o texto também cita um esvaziamento da OMC (Organização Mundial do Comércio) e diz que “ninguém se lembra da Rodada de Doha” (ciclo de negociações comerciais que ficam sob controle da organização).

Nesta quinta-feira (10), em entrevista à Rede Record, Lula também citou a OMC e a possibilidade de recorrer à organização contra as sobretaxas americanas. Uma ação do tipo, porém, teria efeito apenas simbólico, uma vez que a organização internacional está há anos paralisada por um boicote liderado pelos EUA.

O artigo foi publicado em veículos de China, Argentina, Inglaterra, Japão, Itália, Espanha, Alemanha, França e México.

Lula também voltou a criticar as omissões dos países diante das guerras, em uma nova menção ao conflito na Faixa de Gaza.

“A falha em agir frente a frente ao genocídio em Gaza representa uma negação aos valores mais básicos da humanidade. A incapacidade de superar diferenças está preenchendo uma nova escala de violência no Oriente Médio, cujo último capítulo inclui os ataques ao Irã”.

“Em tempos de crescente polarização, termos como ‘desglobalização’ se tornaram lugar-comum. Mas é impossível ‘desplanetizar’ nossa existência compartilhada. Nenhum muro é alto o suficiente para preservar ilhas de paz e prosperidade rodeadas por violência e miséria.”

O artigo termina com novo apelo ao multilateralismo e afirma que faltam lideranças coletivas na esfera internacional.

“Se organizações internacionais parecem ineficientes, é porque a estrutura delas não reflete mais a realidade atual. Ações unilaterais e excludentes são pioradas pela ausência de liderança coletiva. A solução para a crise do multilateralismo não é abandoná-lo, mas reconstruí-lo em fundações mais inclusivas e justas”, escreveu ainda.

Mariana Brasil/Ricardo Della Coletta/FolhapressPolitica Livre

Tarcísio, com tarifaço de Trump, mina retórica de moderação encenada sobre o STF

 Foto: Francisco Cepeda/Arquivo/GOVSP

Tarcísio Freitas, governador de São Paulo11 de julho de 2025 | 06:49

Tarcísio, com tarifaço de Trump, mina retórica de moderação encenada sobre o STF

brasil

O aumento de tarifas ao Brasil imposto por Donald Trump expôs o nó político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que tenta se equilibrar entre fidelidade ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o respeito à Justiça e à democracia.

Na avaliação de dois presidentes de partidos, de deputados federais e estaduais aliados ao governador e de integrantes de sua equipe, a imagem de Tarcísio entre os bolsonaristas sairá arranhada caso ele não apoie as medidas de Trump nem as trate como reflexo de uma suposta perseguição antidemocrática sofrida pelo ex-presidente.

Por outro lado, se endossar as barreiras comerciais impostas pelo governo americano, o desgaste será com o mercado financeiro, o setor agropecuário e com eleitores fora do campo bolsonarista.

Bolsonaristas de São Paulo, segundo apurou a reportagem, esperavam que os Estados Unidos anunciassem sanções contra o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes —não contra o país inteiro. As primeiras reações de Tarcísio seguiram essa linha e tiveram de ser recalibradas ao longo da semana diante da impopularidade das medidas.

Na segunda-feira (7), quando Trump publicou um texto em defesa de Bolsonaro, Tarcísio rapidamente reverberou a mensagem, tratando a iniciativa como uma vitória do bolsonarismo e atacando indiretamente a legitimidade do STF para julgar o processo criminal contra o aliado.

“Jair Bolsonaro deve ser julgado somente pelo povo brasileiro, durante as eleições. Força, presidente”, disse, na ocasião.

Na quarta (9), logo após o anúncio das tarifas, o STF saiu do foco do governador. Em uma nova publicação, ele associou o tarifaço a posturas políticas do presidente Lula (PT), como “prestigiar ditaduras, defender a censura e agredir o maior investidor direto no Brasil”.

“Não adianta se esconder atrás do Bolsonaro”, escreveu —desconsiderando que Trump abre a carta enviada a Lula com críticas ao tratamento dado pelo Brasil ao ex-presidente.

Já nesta quinta (10), com a crise em proporções mais claras e reações negativas do setor empresarial consolidadas, Tarcísio adotou outro tom, falando em “diálogo” e “negociação” durante entrevista em um canteiro de obras do metrô em São Paulo.

“[Tem] uma série de posturas que não condizem com a nossa tradição democrática e eu espero que o Brasil sente na mesa e resolva o problema das tarifas”, disse.

Mas, ao ser questionado sobre uma possível interferência no Supremo para suspender o julgamento de Bolsonaro —como sugerido por Trump—, desconversou: “Não estou falando isso, estou falando que agora o esforço do governo brasileiro tem de ser resolver a tarifa”.

Aliados de Tarcísio dizem ver em episódios anteriores —como o vídeo que gravou usando um boné com a frase “Make America Great Again” (faça os Estados Unidos grandes de novo)— acenos ao eleitorado bolsonarista, que muitas vezes considera o governador pouco leal a Bolsonaro.

Um deles afirmou que a classe política reconhece o bom trânsito de Tarcísio com ministros do Supremo, mas avalia que, para ser o candidato apoiado por Bolsonaro em 2026, ele precisará subir o tom contra a corte —sendo, ao mesmo tempo, um nome do bolsonarismo e da centro-direita.

O discurso de Tarcísio na última manifestação de Bolsonaro, na avenida Paulista, em junho, já havia sido alvo de críticas do entorno do ex-presidente. Apesar de ter defendido justiça e anistia a Bolsonaro, concentrou-se em atacar o governo Lula e repetir o slogan “Fora PT”, o que foi interpretado como discurso de candidato. Ele poupou, na ocasião, os ministros do STF, que foram duramente criticados nos demais discursos.

Embora diga que no ano que vem disputará a reeleição ao governo paulista, Tarcísio é considerado o candidato de uma coligação que uniria Republicanos, PL, PP, União Brasil, MDB e PSD contra Lula.

Um dirigente partidário disse que, embora o setor produtivo estivesse próximo a Tarcísio, há expectativa de que migre para Lula por uma questão de sobrevivência política —para reforçar o presidente nas tratativas de reversão das medidas de Trump.

Pouco antes da entrevista de Tarcísio no canteiro do metrô, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), havia criticado o governador, insinuando que ele seria um “candidato vassalo” dos americanos. O governador mandou o ministro “falar menos e trabalhar mais”.

Ao falar com os jornalistas, Tarcísio disse que também buscou canais de diálogo com representantes dos Estados Unidos para tentar reverter o cenário —mesmo sendo identificado como um nome do bolsonarismo. À Folha um de seus aliados relatou esperança de que um eventual desfecho positivo agrade tanto ao eleitorado fiel a Bolsonaro quanto ao restante da população.

Bruno Ribeiro e Juliana Arreguy/Folhapress

Tarifaço de Trump pode tirar 0,3 ponto de crescimento do PIB brasileiro em um ano

 Foto: Reprodução/Instagram

O presidente dos EUA, Donald Trump10 de julho de 2025 | 22:00

Tarifaço de Trump pode tirar 0,3 ponto de crescimento do PIB brasileiro em um ano

economia

O principal efeito da tarifa de 50% imposta por Donald Trump sobre importações vindas do Brasil deve recair sobre a balança comercial e repercutir de forma negativa no Produto Interno Bruto (PIB) do País. Nos cálculos do economista Roberto Dumas, o tarifaço pode tirar, no mínimo, 0,3 ponto porcentual de crescimento da economia brasileira em 12 meses a partir da sua vigência. “Mas esse valor pode ser maior”, afirma o professor de Economia Internacional do Insper.

Como base de comparação, a variação do PIB esperada para 2025 é de 2,23% de alta, conforme o mais recente Boletim Focus, do Banco Central, que apura as expectativas do mercado — divulgado na segunda-feira, 7, quando ainda não estava no radar a sobretaxa americana. Para 2026, a estimativa é de crescimento de 1,86%.

Além de reduzir essas projeções, o atual cenário adverso para comércio internacional oferece riscos de maiores dificuldades para que o Brasil redirecione suas exportações a outros mercados, piorando ainda mais o resultado da balança comercial. Isso, em razão de possíveis retaliações por parte do governo americano a parceiros comerciais que decidissem comprar produtos brasileiros.

No cálculo do efeito negativo sobre o PIB, Dumas não considerou os impactos indiretos de uma possível depreciação cambial. Com a entrada menor de dólares em razão da redução das exportações, o real poderia se desvalorizar em relação ao dólar e pressionar os preços no mercado interno, elevando a inflação. O desdobramento desse movimento seria, segundo o economista, a manutenção da taxa de juros em um nível elevado por mais tempo.

“Aquela perspectiva de que a taxa de juros cairia no segundo trimestre do ano que vem pode começar a diminuir e a inflação acabar ficando mais pegajosa, mais resiliente”, observa Dumas. Ele frisa que tem mais receio dos efeitos indiretos do tarifaço de Trump na economia brasileira do que os impactos diretos.

Paulo Vicente dos Santos, professor de Estratégia da Fundação Dom Cabral, diz que a piora nas exportações brasileiras é o principal efeito da tarifação de 50% sinalizada por Trump. “Supondo que em 1º de agosto essa tarifa vá entrar em vigor como está hoje, isso pode ter impacto em uma parcela significativa das exportações, o dólar deve subir por causa da menor entrada de divisas, a Bolsa deve cair e isso pode atrapalhar ainda mais a inflação”, avalia o professor.

Embora a participação dos EUA nas exportações brasileiras tenha recuado de quase 25% no início dos anos 2000 para 12% em 2024 (US$ 41 bilhões), os economistas do BTG Pactual destacam, em relatório, que o mercado norte-americano segue como o segundo principal destino das vendas externas do Brasil, sendo “o mais relevante para bens manufaturados de maior valor agregado, como aeronaves, autopeças e máquinas”.

Para o professor do da Fundação Dom Cabral, o risco de estrago provocado pela tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras existe, mas não é motivo de desespero no curto prazo. “O estrago no curto prazo existe, mas não é desesperador; no médio e no longo prazos ele até pode ser, se não houver negociação”.

O BTG Pactual, por exemplo, estima, em relatório, que a elevação da tarifa dos EUA reduz as exportações em US$ 7 bilhões em 2025 e em US$ 13 bilhões em 2026. Os economistas do banco assumem nesse cálculo que ocorra um redirecionamento gradual e heterogêneo entre os diferentes produtos da pauta de exportação.

Imagem do Brasil ficaria arranhada

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), acredita que o Brasil deixará de exportar para os Estados Unidos entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões por ano, se a nova taxação de 50% entrar em vigor.

Além da redução nas exportações para os EUA, Castro adverte para outra dificuldade que o tarifaço pode provocar. Ele acredita que o Brasil enfrentaria obstáculos para redirecionar as exportações.

“Ter a maior taxação por parte do Trump passa a imagem que o Brasil cometeu uma infração gravíssima”, diz Castro. Essa imagem negativa pode levar a empresas que queriam fazer negócios com o Brasil pensar duas vezes antes de fechar contratos, temendo que haja algo de errado com o País.

Outro temor dessas companhias diz respeito a alguma represália por parte do governo americano a essas empresas ou países por comprarem produtos brasileiros. “Trump pode impor a quem comprar do Brasil alguma penalidade. Na dúvida, ninguém faz negócio e fica difícil redirecionar as exportações”.

Insegurança jurídica

Outro desdobramento do aumento das tarifas recai sobre contratos já firmados entre empresas. Silvia Rodrigues Pachikoski, sócia da área de Solução de Disputas no escritório L.O. Baptista, alerta para repercussões jurídicas. “A guerra tarifária e a fixação das novas alíquotas repercutirão diretamente nos contratos, pois significarão aumento no preço de insumos e prejudicarão o livre comércio como negociado pelas partes, trazendo um desequilíbrio contratual inesperado”.

Esse desequilíbrio, observa a advogada, poderá acarretar o não cumprimento de obrigações assumidas pelas partes, por conta de aumentos de custos, levando à renegociação de preços. “A consequência natural é o aumento do número de arbitragens e processos judiciais para tratar dessas questões”, afirma.

A insegurança jurídica por causa da elevação das tarifas preocupa o setor produtivo, diz Silvia. O impacto é aumento de disputas judiciais entre empresas e também na Organização Mundial de Comércio (OMC) por violação às regras multilaterais de comércio.

Márcia De Chiara/Estadão

Julgamento no STF que endureceu regras contra big techs impulsionou decisão de Trump de retaliar Brasil

 Foto: Reprodução/Arquivo

Donald Trump11 de julho de 2025 | 06:33

Julgamento no STF que endureceu regras contra big techs impulsionou decisão de Trump de retaliar Brasil

brasil

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% ao Brasil foi tomada há poucos dias, surpreendendo até mesmo assessores da área, e impulsionada pelo recente julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) do Marco Civil da Internet.

Segundo três pessoas com acesso às discussões de eventuais sanções ao ministro Alexandre de Moraes, a atuação do Supremo no caso foi vista como uma espécie de afronta ao aumentar a responsabilização das redes sociais.

O Marco Civil, em vigor desde 2014, estabelecia que redes sociais só poderiam ser responsabilizadas por conteúdos postados por usuários se descumprissem ordem judicial de remoção. Com o julgamento, daqui para frente, as empresas terão mais obrigações, como ter de remover uma lista de conteúdos proativamente.

Na segunda-feira (7), um integrante do governo Trump disse à Folha que o STF tem tomado uma série de decisões ruins para silenciar a liberdade de expressão e desestabilizar a democracia a fim de sustentar “um governo impopular”.

As redes sociais foram no Brasil um dos principais instrumentos para impulsionar o discurso contra a lisura das urnas eletrônicas.

Na avaliação de aliados de Trump, a decisão do STF amplia o que eles veem como censura à liberdade de expressão enquanto os EUA buscariam um gesto justamente na direção contrária. Depois do julgamento, Moraes afirmou que as big techs foram instrumentalizadas e as associou à invasão dos três Poderes em 8 de janeiro de 2023.

Isso se somou, segundo pessoas envolvidas na discussão, à contrariedade por decisões emitidas contra empresas americanas, como o Rumble, e à avaliação de Trump de que Bolsonaro sofre perseguição, em processo semelhante ao vivido por ele nos EUA —com a diferença que o ex-presidente não pode se candidatar no Brasil por estar inelegível.

Até a semana passada, segundo três pessoas ligadas ao tema, a discussão sobre uma resposta ao que assessores de Trump e bolsonaristas dizem ver como elementos de risco à democracia do Brasil passava apenas por uma punição financeira e de proibição de visto a Moraes. Isso mudou com algumas reuniões para tratar de Brasil que ocorreram nos últimos dias.

Trump teria participado de ao menos uma delas e optado por usar as tarifas para pressionar o Brasil no caso. Isso, segundo duas pessoas, foi até mesmo antes da cúpula dos Brics no Rio de Janeiro, que serviu como mais um elemento para desgastar a relação do Brasil com os EUA.

O deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o ex-apresentador Paulo Figueiredo, que têm liderado a ofensiva anti-Moraes nos EUA, insistiam por sanções ao ministro, mas não descartavam a hipótese de tarifas. Esta seria, disse um envolvido no debate, a última opção no plano traçado para pressionar Moraes e que acabou sendo escolhida pelo presidente americano. As sanções a Moraes ainda estão sobre a mesa, mas sem definição de quando seriam implementadas.

Integrantes do próprio governo Trump foram pegos de surpresa com o anúncio das tarifas de 50%. Negociadores do USTR, o órgão que trata de comércio externo, conversaram com representantes brasileiros na sexta (4). Segundo a Folha apurou, os americanos trabalhavam em taxas para produtos específicos e não houve uma recomendação do órgão a Trump para que fosse aplicada uma tarifa de 50% ao país.

Nessas discussões da semana passada, big techs e aliados de Bolsonaro fizeram chegar a Trump a informação sobre o julgamento do Marco Civil. Avaliaram também que integrantes do Judiciário brasileiro não sinalizaram que chegariam a acordo sobre as queixas dos bolsonaristas, por isso era preciso avançar com a pressão.

Havia a expectativa de um gesto depois de o secretário de Estado, Marco Rubio, ter dito em maio que era grande a chance de sancionar Moraes. Pessoas no entorno do presidente americano acreditam em eventual recuo por parte das autoridades brasileiras, por mais que elas tenham afirmado reiteradamente que isso não ocorrerá e que qualquer medida nesse sentido seja vedada pela Constituição.

Uma pessoa ligada a Trump lembra o caso da Colômbia, que liberou um pouso com pessoas deportadas depois de o americano anunciar uma tarifa de 27,5% contra o país, como exemplo.

O advogado da plataforma Rumble, Martin de Luca, disse nesta quinta (10) que reconhecer a ilegalidade das ordens de Moraes contra a rede, que sustenta conteúdos da Truth Social (rede de Trump), ajudaria a rever o curso das tarifas. “Quando se trata de liberdade de expressão e empresas de tecnologia, acho que primeiro é preciso reconhecer que as ordens que Moraes deveriam ser rescindidas”, disse.

Na prática, integrantes do governo Lula e ministros do Supremo dizem que a chance de isso acontecer é nula.

No campo político, Trump não deixou claro os caminhos para eventual negociação que poderia evitar o Brasil de ser alvo das tarifas de 50% —além da própria mudança de ideia do próprio republicano, o que já aconteceu antes.

Ele elencou uma série de reclamações e atribuiu a implementação de tarifas “devido, em parte, aos ataques insidiosos do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”.

A carta enviada fala ainda em centenas de decisões secretas mirando plataformas de mídias dos Estados Unidos, que ele chama de ilegais. O presidente refere-se a pedidos para retirada de conteúdo e contas em redes sociais e, sem citar o nome, trata do caso do Rumble, plataforma de vídeo bastante usada pelo público de direita. Trump menciona que as decisões do STF expulsam empresas americanas do mercado brasileiro.

Hoje, o Rumble está bloqueado no Brasil e está sujeito ao pagamento de multa determinada por Moraes por não cumprir ordens.

Na carta em que fez o anúncio das tarifas, Trump escreveu o trecho padrão que tem encaminhado aos demais países, dizendo que, se o Brasil estiver disposto a abrir fábricas nos EUA, as tarifas poderiam ser renegociadas. Mas não está claro como será a negociação.

Julia Chaib/FolhapressPolitica Livre

Tarifaço de Trump contra Brasil é pura interferência política

 

Tarifaço de Trump contra Brasil é pura interferência política
Não há espaço para teorias da conspiração na análise do tarifaço decretado por Donald Trump contra o Brasil. A carta enviada pelo presidente dos Estados Unidos ao presidente Lula deixa escancarada a motivação da punição comercial: interferir na Justiça e na política brasileira, imiscuindo-se no julgamento do golpe contra a democracia e em decisões do Supremo Tribunal Federal sobre a inelegibilidade de Jair Bolsonaro e ilegalidades praticadas pelas big tech. 

A carta de Trump concentra-se nesses pontos, enquanto as alegações de que o Brasil estaria prejudicando comercialmente os Estados Unidos, comprovadamente falsas, servem apenas de pretexto para o presidente americano usar o único instrumento de política externa que parece conhecer: a aplicação de tarifas, como observou o professor Tomaz Paoliello, coordenador do Mestrado Profissional em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais da PUC-SP, em entrevista ao podcast Bom Dia, Fim do Mundo sobre o encontro do BRICS, gravada na terça-feira passada.  
 O que significa, de forma inequívoca, que esta é a mais grave tentativa de interferência dos Estados Unidos em nossos assuntos internos – de processos criminais às eleições – desde o golpe de 1964. E o governo brasileiro tem se comportado de maneira correta diante da agressão, mesmo que as medidas estudadas até agora não sejam suficientes para fazer os EUA recuarem do tarifaço, previsto para 1 de agosto. 
Os leitores da Agência Pública vem acompanhando há tempos as articulações de Eduardo Bolsonaro junto à extrema-direita americana para sabotar a Justiça brasileira e livrar a cara do pai, inelegível e ameaçado de cadeia no processo que investiga a tentativa de golpe no STF. Entre as iniciativas do filho 03 de Jair Bolsonaro figuram comitivas de parlamentares brasileiros aliados ao Congresso americano e, mais recentemente, ao Departamento de Estado, com o objetivo de articular punições ao ministro Alexandre de Moraes. 

Uma retaliação em que os interesses políticos do ex-presidente brasileiro e do atual presidente americano se misturam perigosamente aos das big techs, aliadas de Trump (sobre isso veja a reportagem de Natalia Viana, publicada ontem).

O momento da carta enviada por Trump, porém, coincide com outro movimento, este por parte do governo brasileiro, como líder do BRICS e presidente da COP, a Conferência do Clima, da qual Donald Trump se retirou. Tanto é que, no início da semana, logo depois do encontro do BRICS no Rio de Janeiro, Trump já havia falado em 10% de tarifa extra para países que apoiassem “as políticas anti-americanas” do BRICS, como negociar em outras moedas que não o dólar. No mesmo dia, o presidente americano também disse estar de olho no Brasil pela suposta “caça às bruxas” da qual Jair Bolsonaro seria vítima.  

Ambas as ameaças foram publicadas por Trump em suas redes sociais e se tornaram perguntas para Lula na coletiva que o presidente brasileiro concedeu no encerramento do BRICS, na segunda-feira passada. “Eu acho que é muito errado e muito irresponsável um presidente ameaçar os outros nas redes digitais”, respondeu Lula aos repórteres. “Ele precisa saber que o mundo mudou. Não queremos um imperador”.

Ontem de manhã, voltei a procurar o professor Paoliello para perguntar se a retaliação tarifária ao Brasil também estaria relacionada ao papel do país como articulador e defensor do multilateralismo, tema de nossa conversa no podcast. “Em relação ao BRICS, não acredito, talvez mais como reação às respostas de Lula na coletiva”, ele disse, mas destacou: “Acho que se o Lula não tivesse falado nada, viria essa tarifa do mesmo jeito. Mas o tom da carta e a velocidade em que veio acho que tem a ver com isso sim. Inclusive é importante dizer que outros membros do BRICS já tinham recebido essa cartinha de Trump, meio padrão, sobre as tarifas, mas com alíquotas menores. Nesse caso, não é uma medida contra o BRICS, mas especificamente contra o Brasil, de maneira focada”.

O mais grave, como lembrou Paoliello, é que as instituições multilaterais estão tão enfraquecidas que o Brasil não tem a quem recorrer diante desse abuso evidente de poder pelos Estados Unidos. A inatividade da Organização Mundial do Comércio (OMC) para arbitrar os sucessivos ataques ao livre comércio ou reprimir o uso de tarifas com motivação política, o que também é proibido pelas regras do comércio internacional, e a irrelevância da ONU para punir países que cometem crimes de guerra ou violam a soberania de outros países, caso do ataque de Trump ao Brasil, não nos dá outra alternativa a não ser reagir por conta própria e fortalecer as relações com outros países, como já estamos fazendo. 

Para isso, Lula deve ter o apoio da população, que tende a se identificar com o governo na reação à agressão dos EUA, o que pode fazer a jogada política de Trump e Bolsonaro sair pela culatra. Afinal, até o Estadão escreveu editorial qualificando a trama de “coisa de mafiosos” e criticando os defensores brasileiros de Trump, inclusive citando nominalmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, político que o jornal costuma apoiar. 

Apesar do impacto negativo inevitável sobre a economia brasileira, a postura firme contra a ingerência dos Estados Unidos por parte do governo, respaldada pela população, e o fortalecimento da aliança com novos parceiros pode trazer novos horizontes, não apenas para o Brasil, mas para as economias emergentes reunidas no BRICS – incluindo novas potências como a China –, como explicou o professor Paoliello. 

“Há uma percepção de que não se deve contar com os Estados Unidos, que dali não vai sair muita coisa do ponto de vista de cooperação, de desenvolvimento de novas iniciativas. Então, tem uma corrida geral, inclusive de aliados históricos dos Estados Unidos que estão em maus lençóis agora, como o México, o Canadá, os países europeus, na busca por novas parcerias. Quer dizer, vai vir gente batendo a porta do Brasil, querendo ter acesso a esse nosso mercado interno, que é enorme, aos recursos naturais brasileiros. E eu acho que o BRICS, nesse contexto, também tem uma oportunidade. A própria expansão dos BRICS, por iniciativa da China, já demonstrou um pouco isso. Quer dizer, trazendo mais países para dentro, se expandindo, potencialmente também virando um fórum de cooperação em outras áreas, além do que já tem de cooperação econômica.”

Há um vasto mundo para além dos Estados Unidos de Trump assim como existe patriotismo no Brasil sem a manipulação de Bolsonaro. É hora de acreditar que um outro mundo é possível. 


Marina Amaral
Diretora Executiva da Agência Pública
marina@apublica.org 

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