terça-feira, junho 10, 2025

Cid se diz frustrado com linha investigativa da PF após declarações prestadas em delação

 Foto: Ton Molina/STF

Ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), o tenente-coronel Mauro Cid, com seu advogado em depoimento no STF09 de junho de 2025 | 15:34

Cid se diz frustrado com linha investigativa da PF após declarações prestadas em delação

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Ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), o tenente-coronel Mauro Cid disse nesta segunda-feira (9), em depoimento no STF (Supremo Tribunal Federal), ter se sentido frustrado diante das interpretações da Polícia Federal sobre as declarações que ele dava para a colaboração premiada.

Segundo Cid, ele tinha um entendimento diferente dos investigadores sobre os fatos que narrava na delação que deu base à denúncia sobre a trama golpista de 2022. “Eles tinham uma linha investigativa e eu tinha outra visão dos fatos. E houve uma frustração do que eu estava contando não estar na linha investigatória da PF”, disse.

O tenente-coronel respondia às primeiras perguntas do relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, no primeiro interrogatório da ação penal. Neste momento, o magistrado questionou a respeito de áudios divulgados pela revista Veja com relatos de pressão para as declarações. Em resposta, Cid afirmou que passava por um momento pessoal complicado.

“Foram vazamentos sem consentimento, de um desabafo de um momento difícil que eu e minha família estávamos passando. Eu vendo minha carreira militar desabando, minha vida financeira acabada e me gerou uma crise pessoal muito grande, o que leva a desabafo com amigos, nada de maneira acusatória, mas crítico. Digamos assim, saindo atirando para todo lado, por um momento ruim que a família estava passando”, afirmou.

Mauro Cid confirmou os principais detalhes da trama golpista já apontados pelo militar durante a colaboração premiada. Ele disse que Bolsonaro recebeu no fim de 2022 uma minuta de decreto que previa a prisão de autoridades, como ministros do STF e integrantes do Legislativo, e a criação de uma comissão para organizar novas eleições presidenciais.

Segundo o militar, Bolsonaro alterou o decreto algumas vezes. “Ele enxugou o documento, retirando as autoridades das prisões. Só o senhor ficaria preso”, disse Cid ao ministro Alexandre de Moraes.

“Os outros receberam um habeas corpus”, brincou Moraes. O próprio ex-presidente Bolsonaro riu da piada do ministro, sentado em cadeira no centro do tribunal.

O tenente-coronel também confirmou que recebeu do próprio ex-ministro Braga Netto, general da reserva do Exército, uma caixa de vinho cheia de dinheiro vivo para entregar ao tenente-coronel Rafael de Oliveira —militar acusado de liderar um grupo que planejou matar Moraes.

Cid diz que, na época, entendia que o plano de Oliveira era levar familiares para Brasília, com o objetivo de mobilizar o acampamento em frente ao QG do Exército. A investigação da Polícia Federal, porém, concluiu que o plano do militar era prender e assassinar o ministro do Supremo.

Mauro Cid conta que o amigo pediu dinheiro a ele e enviou uma planilha no WhatsApp com o orçamento. O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro pediu ajuda a Braga Netto. Dias depois, o general o entregou o dinheiro.

“Retornei ao Braga Netto, e o general Braga Netto trouxe uma quantidade de dinheiro. Com certeza não foram os R$ 100 mil. [O dinheiro] foi passado para o major de Oliveira. Eu recebi do general Braga Netto no Palácio da Alvorada. Estava numa caixa de vinho”, disse.

O início da fase de depoimento dos réus da tentativa de golpe de 2022 promoveu o primeiro encontro após dois anos de investigação entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e Mauro Cid —seu auxiliar mais próximo em quatro anos de governo que se tornou seu delator.

O tenente-coronel Mauro Cid mudou de versão sobre a trama golpista de Jair Bolsonaro e aliados ao longo de seus 12 depoimentos à Polícia Federal no âmbito do acordo de colaboração premiada.

Foi só em seu último depoimento, diante de Alexandre de Moraes, que Cid contou que o ex-ministro Walter Braga Netto entregou dinheiro em uma sacola de vinho para um militar acusado de planejar o assassinato do ministro do Supremo.

A Polícia Federal chegou a alegar que Mauro Cid havia mentido em seu vaivém à sede da corporação e sugeriu ao STF o rompimento do acordo de colaboração. Moraes convocou o militar para prestar esclarecimentos e, diante de novas revelações, decidiu manter a validade da delação.

Os advogados de quatro réus disseram à Folha, sob reserva, que estavam empenhados em procurar novas contradições de Mauro Cid durante o depoimento ao STF nesta segunda-feira. O objetivo é reunir informações para pedir novamente o fim do acordo de delação.

Ministros do Supremo, porém, alegam que a eventual declaração de invalidade da colaboração premiada do tenente-coronel não anula os depoimentos ou as provas colhidas por meio da delação. O único efeito, dizem, é sobre os benefícios de Mauro Cid.

A controvérsia sobre a validade do acordo de Mauro Cid com a Polícia Federal foi levantada pelo ministro Luiz Fux durante o julgamento do recebimento da denúncia contra o núcleo central da trama golpista.

“Este não é o momento próprio, mas vejo com muita reserva nove delações de um mesmo colaborador, cada hora apresentando uma novidade”, disse Fux. Cármen Lúcia e Cristiano Zanin concordaram que a discussão deveria ser feita após o recebimento da denúncia.

A Primeira Turma do STF iniciou nesta segunda a fase de depoimento dos réus do núcleo central da trama golpista de 2022. O primeiro a responder às perguntas é o tenente-coronel Mauro Cid, por ser colaborador da investigação.

Os demais réus vão ser questionados seguindo ordem alfabética: Alexandre Ramagem (deputado federal e ex-chefe da Abin), Almir Garnier (ex-chefe da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil e da Defesa).

O tribunal reservou sessões diárias até sexta-feira (13) para ouvir os réus. Os depoimentos são transmitidos ao vivo pela TV Justiça.

Mauro Cid teve o acordo de colaboração premiada homologado em setembro de 2023 pelo ministro Alexandre de Moraes. Em troca de falar tudo que sabia sobre a trama golpista no fim do governo Bolsonaro, o militar solicitou benefícios, como o perdão judicial ou pena privativa de liberdade inferior a dois anos e a extensão de benefícios à sua família.

Cézar Feitoza e Ana Pompeu, FolhapressPolitica Livre

Bolsonaro bocejou, fez anotações e demonstrou contrariedade durante depoimento de Mauro Cid

 Foto: Ton Molina/STF

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)09 de junho de 2025 | 19:00

Bolsonaro bocejou, fez anotações e demonstrou contrariedade durante depoimento de Mauro Cid

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) esboçou diversas reações durante as cerca de três horas que marcaram a primeira etapa do depoimento do tenente-coronel Mauro Cid. Posicionado imediatamente atrás de Cid e em frente ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o político bocejou, fez anotações, demonstrou contrariedade, conversou com seus advogados e até riu em um momento de descontração.

Bolsonaro colocou e tirou os óculos em diversos momentos da sessão de inquirição de Cid. O acessório era colocado geralmente quando o ex-presidente ia tomar nota de alguma fala do depoente. O STF transmite ao vivo os depoimentos e, em alguns momentos, as câmeras captaram as reações de Bolsonaro, que está sentado do lado esquerda do advogado de Mauro Cid.

Na maior parte do tempo, Bolsonaro era visto com o semblante fechado, demonstrando seriedade e contrariedade em relação às declarações de Cid. Em diversos momentos era possível ver o ex-presidente com os braços cruzados ou com as mãos entrelaçadas em frente ao rosto. Com o avançar das horas do depoimento, Bolsonaro deixou escapar bocejos em ao menos uma ocasião.

Em um dos poucos momentos de descontração, Bolsonaro riu da piada que Moraes fez ao afirmar que os demais ministros do STF teriam recebido um “habeas corpus” quando o ex-presidente, segundo declarações de Cid, teria “enxugado” a minuta golpista para manter apenas a sua prisão.

Durante a pausa de 15 minutos autorizada por Moraes, Bolsonaro falou com jornalistas no plenário da Primeira Turma e disse estar “bem” e “tranquilo”. Não tem porque me condenar. Estou com a consciência tranquila”, afirmou.

Weslley Galzo/EstadãoPolitica Livre

 Foto: Ton Molina/STF

Sessão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira, 9, que trata da tentativa de golpe de Estado09 de junho de 2025 | 20:30

Primeiro dia de depoimento no STF tem petista comendo pipoca e bolsonarista fazendo cortes com Fux

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Durante a tarde desta segunda-feira, 9, os mais fervorosos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva fizeram a mesma coisa: ambos pararam para assistir a sessão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira, 9, que deu início ao interrogatório do ex-chefe do Executivo e outros sete réus da ação penal que trata da tentativa de golpe de Estado.

O PT, em especial, tratou de convocar a militância durante o dia. “Prepare a pipoca, bote a cerveja para gelar e vamos engajar as redes”, dizia uma mensagem em circulação em grupos de WhatsApp petistas na manhã e no começo da tarde desta segunda-feira. O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) postou um vídeo salgando a pipoca para assistir ao interrogatório.

Bolsonaristas, do outro lado, ficaram mais focados em separar cortes da sessão para espalhar nas redes.

As perguntas feitas pelo ministro Luiz Fux, do STF, foram as que mais repercutiram entre grupos bolsonaristas. O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro Mauro Cid disse a Fux que a minuta de golpe não foi assinada. Esse trecho foi cortado e divulgado em redes sociais por figuras como o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) e o deputado estadual de São Paulo Bruno Zambelli (PL). “Pergunta de Fux acaba com o julgamento e prova inocência do Bolsonaro”, escreveu Gayer.

No mesmo depoimento, porém, Cid disse que Bolsonaro recebeu, leu e pediu alterações em uma minuta golpista para anular o resultado das eleições. Segundo o ex-ajudante de ordens, Bolsonaro “enxugou” o documento, que inicialmente previa as prisões de diversas autoridades do Judiciário e do Congresso, como ministros do STF e o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Essa minuta com propostas golpistas teria sido levada a Bolsonaro pelo ex-assessor Filipe Martins, que cuidava de Assuntos Internacionais, segundo Mauro Cid.

Essa parte do depoimento de Cid foi o que mais repercutiu do lado petista. “Mauro Cid confirma tudo: Bolsonaro queria golpe e prender Alexandre de Moraes. Sem anistia! Bolsonaro preso já!“, escreveu Lindbergh Farias (RJ), líder do PT na Câmara, em publicação no X (ex-Twitter). “Era golpe mesmo. E agora tudo se confirma”, postou o Twitter no Instagram.

Fux acabou se tornando o membro da Primeira Turma do STF a quem bolsonaristas costumam reservar boas expectativas no julgamento da ação penal. Foi ele quem pediu vista do julgamento da cabeleireira Débora dos Santos, que pichou a frase “Perdeu, mané” na estátua da Justiça no 8 de Janeiro.

Fux já sinalizou que deve atuar como um “revisor informal” da relatoria de Alexandre de Moraes no caso que apura a tentativa de golpe de Estado. Durante a análise das questões preliminares da ação penal. Fux foi o único ministro a divergir do posicionamento de Moraes a favor do julgamento de Bolsonaro e dos demais denunciados na Primeira Turma em vez do plenário do STF.

Além de Fux e Moraes, fazem parte da Primeira Turma os ministros Flávio Dino, Carmen Lúcia e Cristiano Zanin. Esse último é o presidente do grupo.

Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência, é o primeiro a depor. Como ele fechou acordo de colaboração premiada, os demais acusados têm o direito de falar por último. Nesta segunda-feira, foram interrogados Cid e o deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem (PL-RJ).

Na sequência de Cid, os réus vão ser chamados por ordem alfabética: Alexandre Ramagem (deputado federal e ex-diretor da Abin), Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto(ex-ministro da Defesa e Casa Civil).

Levy Teles/EstadãoPolitica Livre

Ramagem diz que arquivos com ataques às urnas em seu computador eram anotações privadas

 Foto: Fellipe Sampaio/STF

O ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem (PL-RJ) em depoimento no STF (Supremo Tribunal Federal)09 de junho de 2025 | 20:16

Ramagem diz que arquivos com ataques às urnas em seu computador eram anotações privadas

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O ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) Alexandre Ramagem (PL-RJ) afirmou em oitiva ao STF (Supremo Tribunal Federal) nesta segunda-feira (9) que documentos encontrados em seu computador com ataques às urnas eletrônicas eram anotações privadas e nunca foram enviadas a qualquer pessoa.

O deputado federal, segundo na lista de interrogatórios do núcleo central da trama golpista, disse fazer anotações para “concatenar as ideias” e conversar em outros momentos que o tema estivesse em debate. Negou ter repassado ou enviado o conteúdo a alguém.

“Esses são documentos pessoais, são documentos privados. Não houve difusão qualquer, encaminhamento qualquer desse documento. Era algo privado, com opiniões privadas minhas. Todas as questões que eram anotações privadas diversas, todas essas anotações da urna eletrônica, mas sempre foi, em todas elas, concernente à discussão que estava tendo, no mesmo período, no Congresso Nacional”, disse.

Ramagem afirma que após a derrota do então governo, na Câmara dos Deputados, na votação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 135 de 2019, do voto impresso, votada em 10 de agosto de 2021, não voltou mais a falar ou escrever sobre o tema.

“Após essa, vamos dizer assim, derrota, porque o governo Bolsonaro estava tentando, era um pleito do governo que se passasse o voto impresso auditável, depois dessa essa votação, não há mais nenhuma anotação privada, discussão pública, não há”, afirma.

Alexandre Ramagem foi o segundo réu a ser ouvido nesta segunda —dia que dá início à fase do depoimento dos acusados de integrarem o principal núcleo da trama golpista.

O ex-diretor da Abin é acusado de participar da construção e do direcionamento das mensagens que passaram a ser difundidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em ataques às urnas eletrônicas e à democracia a partir de julho de 2021.

A denúncia contra o policial federal tem como base arquivos armazenados por Ramagem e apreendidos pela Polícia Federal no decorrer da investigação.

“Dentre os arquivos digitais a ele vinculados, localizou-se o documento intitulado ‘Presidente TSE informa.docx’, que apresentava uma série de argumentos contrários às urnas eletrônicas, voltados a subsidiar as falas públicas de Jair Messias Bolsonaro”, diz trecho da denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República).

Ramagem também disse à PF que costumava escrever textos de fontes abertas para comunicação de fatos de possível interesse do então presidente. Ele afirmou, porém, que nem sempre repassava o que produzia a Bolsonaro.

Os investigadores ainda encontraram nas anotações de Ramagem uma sugestão para que Bolsonaro usasse a estrutura da AGU (Advocacia-Geral da União) para permitir que a Polícia Federal descumprisse ordens judiciais que desagradassem o grupo político do ex-presidente.

“A estratégia servia para anular decisões judiciais proferidas pelo Supremo Tribunal Federal contrárias aos interesses de Jair Bolsonaro”, reforça a PGR na denúncia.

Alexandre Ramagem também é citado pela PGR na parte da denúncia que trata sobre a Abin paralela, mas as citações são breves e não atribuem ao ex-diretor crimes relacionados ao uso da agência da inteligência para os crimes contra o Estado.

A Primeira Turma do STF iniciou nesta segunda a fase de depoimento dos réus do núcleo central da trama golpista de 2022. O primeiro a responder às perguntas foi o tenente-coronel Mauro Cid, por ser colaborador da investigação.

Os demais réus vão ser questionados seguindo ordem alfabética: Alexandre Ramagem (deputado federal e ex-chefe da Abin), Almir Garnier (ex-chefe da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil e da Defesa).

O tribunal reservou sessões diárias até sexta-feira (13) para ouvir os réus. Os depoimentos são transmitidos ao vivo pela TV Justiça.

Cézar Feitoza/Ana Pompeu/Folhapress

Cid implica Bolsonaro em planos golpistas e cita pressão por relatório contra urnas

 Foto: Reprodução

Mauro Cid10 de junho de 2025 | 06:46

Cid implica Bolsonaro em planos golpistas e cita pressão por relatório contra urnas

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Em seu primeiro encontro com Jair Bolsonaro (PL) desde que fechou acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal, o tenente-coronel Mauro Cid confirmou ao STF (Supremo Tribunal Federal) nesta segunda-feira (9) que o ex-presidente e aliados debateram formas de reverter o resultado da disputa que elegeu Lula (PT) em 2022.

O militar falou durante pouco mais de quatro horas, e os principais pontos de seu depoimento que implicam Bolsonaro são a edição da minuta de decreto que promoveria um golpe de Estado e a convocação dos chefes das Forças Armadas para discutir as medidas.

Cid repetiu detalhes da apresentação de uma minuta de decreto golpista para Bolsonaro e das alterações feitas pelo ex-presidente para adequar o documento às intenções do grupo que ocupava o Palácio do Planalto.

As defesas dos réus, porém, exploraram a falta de precisão sobre datas e reuniões para argumentar que as falas do militar não devem ser consideradas verdadeiras sem a apresentação de provas.

Segundo Cid, o decreto golpista tinha duas partes. A primeira descrevia, em dez páginas, o que o grupo político de Bolsonaro entendia como interferências do STF e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no governo do ex-presidente.

A segunda parte descrevia as ações que seriam tomadas pelo presidente — a decretação do estado de defesa, a prisão de autoridades e a criação de um conselho eleitoral para organizar novas eleições.

“Ele enxugou o decreto”, disse Cid ao ministro Alexandre de Moraes, “retirando as autoridades das prisões só o senhor ficaria preso”.

O tenente-coronel afirmou ao Supremo que Bolsonaro pressionava o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, para incluir suspeitas de fraudes no relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização do processo eleitoral entregue ao TSE.

“A conclusão mais técnica dos militares que estavam na comissão dizia que não foi encontrada fraude. O presidente Bolsonaro não queria isso, talvez incluísse as denúncias que foram levantadas. Algo para dar uma conotação de que havia fraude nas eleições”, disse.

Segundo o militar, Paulo Sérgio decidiu apresentar um meio-termo em seu relatório, concluindo que não foi identificada fraude, mas que não foi possível auditar o sistema eletrônico de votação.

Cid também destacou que Bolsonaro não queria a desmobilização dos acampamentos golpistas em frente aos quartéis espalhados pelo país. “O presidente deu a seguinte resposta: ‘Não fui eu que chamei eles aqui, não sou eu que vou mandar eles irem embora'”, afirmou.

A denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) diz que o grupo criminoso que tentou dar um golpe de Estado incentivou a manutenção dos acampamentos para “dar continuidade ao sentimento de suspeita e de inconformidade popular”.

Cid chegou ao Supremo meia hora antes do início da sessão de depoimentos. Ele cumprimentou Bolsonaro e prestou continência aos generais-réus Augusto Heleno e Paulo Sérgio.

O militar estava preocupado com a manutenção de seu acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal. Como o ministro Luiz Fux sinalizou no julgamento do recebimento da denúncia, a delação de Cid segue em risco mesmo com o processo sobre a trama golpista perto de sua fase final.

Questionado por Moraes, Fux e o procurador-geral Paulo Gonet, Cid afirmou manter tudo o que disse à Polícia Federal.

Ele disse que prestou 12 depoimentos durante a investigação porque, em muitos casos, houve mais de uma sessão de perguntas por dia; em outros casos, a PF queria só confirmar algumas informações que surgiram com o avançar da investigação.

As defesas de Bolsonaro e do ex-ministro Braga Netto, porém, aproveitaram algumas imprecisões e o esquecimento de Cid para apontar omissões e mudanças de versões nos depoimentos.

O advogado Celso Vilardi, defensor do ex-presidente, apresentou um áudio enviado em novembro de 2022 por Mauro Cid para um interlocutor não identificado que falava sobre Bolsonaro ter se encontrado com empresários aliados, como Meyer Nigri e Luciano Hang, para dizer que não iria avançar com propostas golpistas — minutos antes, Cid disse que não sabia de tal encontro.

José Luis Oliveira Lima, advogado de Braga Netto, também pediu mais detalhes de Cid sobre o general ter entregue dinheiro vivo, em uma caixa de vinho, para financiar as ações golpistas.

Cid disse que não se lembrava do dia, do horário nem do local no Palácio da Alvorada que tinha recebido o dinheiro. Só se lembrava que guardou a caixa perto de sua mesa no escritório.

“Eu deixei [a caixa com o dinheiro] no batente da minha mesa, para ninguém ver. Me foi entregue; o local efetivo, não me lembro. Se foi na garagem ou outro lugar. Mas lembro que me marcou porque eu deixei do lado do meu pé, para ninguém mexer”, afirmou.

Os réus do processo sobre a trama golpista seguirão prestando depoimentos durante a semana. Mauro Cid foi o primeiro a falar, por ser colaborador da investigação, e Alexandre Ramagem (ex-diretor da Abin) também foi questionado no primeiro dia.

A lista continua nesta terça-feira (10) por ordem alfabética: Almir Garnier (ex-chefe da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil e da Defesa).

Cézar Feitoza e Ana Pompeu/Folhapress

Almir Garnier depõe no STF: conheça perfil, acusação e defesa do ex-chefe da Marinha

 Foto: Marcos Corrêa/Arquivo/PR

Almir Garnier10 de junho de 2025 | 08:36

Almir Garnier depõe no STF: conheça perfil, acusação e defesa do ex-chefe da Marinha

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O STF (Supremo Tribunal Federal) ouve na manhã desta terça-feira (10) o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Marinha ao final da Presidência de Jair Bolsonaro (PL), como réu no processo da trama golpista de 2022.

O militar depõe na Primeira Turma da corte após os interrogatórios de Mauro Cid, delator e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, e do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-chefe da Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

Perfil
Almir Garnier, 64, é almirante de esquadra da Marinha e chefiou a Força em 2021 e 2022, durante o governo de Bolsonaro. Ele está entre os 23 militares, incluindo sete oficiais-generais e ex-comandantes, atingidos pela denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) sobre a trama golpista.

Em 2022, após as eleições presidenciais, o militar rompeu a tradição e se recusou a participar da cerimônia de passagem do comando para o sucessor, Márcio Sampaio Olsen. Durante a transição, Garnier também não aceitou conversar com o então futuro ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.

Acusação
O almirante é acusado, assim como os demais réus do primeiro núcleo da trama golpista, dos crimes de organização criminosa armada, abolição violenta do Estado democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.

Garnier é suspeito de apoiar as conspirações golpistas. Depoimentos prestados pelo general Marco Antônio Freire Gomes e pelo tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, respectivamente, ex-comandantes do Exército e da Força Aérea, apontam que o almirante se colocou à disposição de Bolsonaro para seguir as ordens necessárias para o cumprimento do decreto do golpe.

Defesa
A defesa do militar diz que Garnier teria ficado calado quando o então ministro da Defesa falou sobre um plano golpista com os três comandantes e que ele não poderia, por si só, determinar a movimentação das tropas, porque dependeria da autorização do Comando de Operações Navais da Marinha.

O advogado também questionou o fato de os comandantes do Exército e da Aeronáutica sob o governo de Bolsonaro não terem sido denunciados pela PGR.

Arthur Guimarães de Oliveira/Folhapress

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