terça-feira, abril 05, 2022

O futuro é hoje




Esta guerra serviu-nos de espelho: mostrou-nos que a Europa imaginária de Macron a trilhar o seu caminho não existe.

Por Eugénia de Vasconcellos (foto)

Estamos a viver uma crise. Repetidamente, temos dito uns aos outros, é a maior crise vivida na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Percebemos, com mais ou menos clareza, que o mundo se reconfigurará no pós-guerra russo-ucraniana na economia, na política, na cultura. Mas como e até que ponto ainda não sabemos.

Será o retorno a um mundo bipolarizado como o que saiu da Segunda Grande Guerra, mas com a China a ocupar o lugar antes ocupado pela Rússia? Um eixo Pequim-Moscovo? E a Europa? Afinal é o maior parceiro comercial da China e mesmo agora é a Europa quem está a alimentar o exército russo através do gás e do petróleo: com uma mão sancionamos enquanto com a outra alimentamos aquele que sancionamos. É um dilema que nos descredibiliza internamente pois não podemos ganhar sem, ao mesmo tempo, perder. Esta é a armadilha do «duplo vínculo». O que se passa com a Rússia, passa-se com a China. Vamos deixar de ter a China como parceiro comercial? Ou calma e cinicamente afirmamos este é o mundo adulto da economia global? Temo-lo feito ano após ano e, não fora a inesperada resposta de Zelensky, e do povo ucraniano, continuaríamos a fazê-lo.

Há, no entanto, mais variáveis a considerar. As conquistadas com a pandemia. Afinal, cedemos liberdades para o seu controlo em cada estado de emergência. E em todo o mundo. Oferecemos localização e dados de saúde. Mostrámos o que pode funcionar à distância, quem e como, sejam empresas ou pessoas. Qual a aceitação e a recusa das populações a confinamentos, alterações de rotinas e profissionais, emergências sanitárias, policiamento, certificação. Aceitámos testagens e medições de temperatura em aeroportos e por todo o lado. E mais. Voluntariamente, através de gadgets a que chamamos pulseiras de fitness, smartwatches ou mais recentemente com os anéis Oura, produto ainda não desnatado, damos de bandeja toda a informação de saúde, em tempo real: frequência cardíaca, tensão arterial, actividade física, repouso, horas de sono e de actividade e, com os anéis Oura, até a temperatura corporal. Se a esta informação juntarmos a que já cedemos há anos em cada movimento do cartão de crédito, da portagem com Via Verde, das câmaras de rua, dos emails e das compras online e dos sites visitados, dos amigos do Facebook, dos comentários no Twitter, as fotografias no Instagram, dos telefonemas que fazemos e tanto mais que se avoluma numa quantidade de informação cruzada que jamais qualquer polícia política teve sobre um cidadão, compreendemos: depois de termos entregue a privacidade entregámos também a individualidade. Como é que estes dados vão ser tratados? Por quem? Com que objectivos? As amostras não têm sido boas, desde a proto-tecnológica Cambridge Analytica às interferências nas eleições norte americanas, ao milhão de uigures em vigilância, internamento e reeducação na China. Podemos, com facilidade, conceber um mundo onde a nossa transparência é total e a liberdade nula.

Nesta nova bipolaridade jogar-se-ão velhos valores que já estão em jogo: direitos humanos, liberdade, democracia, quem os defende e quem os sacrifica.

A invasão russa da Ucrânia coloca-nos numa situação que não se compadece de relativismos. Putin tem sido claro. A Rússia estende-se para além daquelas que são as suas actuais fronteiras: a Ucrânia, a Moldávia, a Estónia, a Letónia e a Lituânia compõem esse mito territorial. Os estados bálticos, no entanto, estão salvaguardados pela Nato. Xi Jingping também tem sido claro. Os seus valores alinham-se com os de Moscovo – e a Europa, paga. Não é apenas a falta de independência energética, não é só a incapacidade de defesa. As importações europeias da China ascendem a 472 biliões, as exportações europeias não ultrapassam os 223 biliões, sendo a Alemanha o maior exportador (dados Eurostat de 2021), enquanto o protecionismo chinês aumenta e a China, na vanguarda da inteligência artificial, e a Rússia estabelecem protocolos de cooperação quer para a exploração espacial quer de vigilância tecnológica.

Vivemos uma crise europeia: os meios de que dispomos não são suficientes para responder à situação em que estamos. Esta guerra serviu-nos de espelho: mostrou-nos que a Europa imaginária de Macron, a trilhar o seu próprio caminho, não existe, é como aqueles miúdos de vinte anos que são muito crescidos, mas vão lavar a roupa à casa da mãe e levam a comida para a semana seguinte. Não há independência sem meios.

Temos de pensar a Europa que queremos ser, podemos ser, nesta reconfiguração que avança a passos largos.

Observador (PT)

Alemanha expulsa 40 diplomatas russos

 



Afetados, que Berlim acredita serem membros dos serviços de inteligência da Rússia, têm cinco dias para deixar o país. Decisão ocorre um dia após repercussão das imagens de massacre na cidade ucraniana de Bucha.

Um dia após as imagens de  civis mortos pelas ruas da cidade ucraniana de Bucha chocarem o mundo, o governo alemão declarou nesta segunda-feira (04/04) 40 diplomatas russos como "persona non grata", o que equivale ao status de expulsão. Os diplomatas, que Berlim acredita serem membros dos serviços de inteligência da Rússia, têm cinco dias para deixar a Alemanha.

Segundo a ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock, o governo alemão decidiu "declarar como persona non grata ​​um número significativo de membros da Embaixada da Rússia que trabalharam todos os dias contra nossa liberdade e contra a coesão de nossa sociedade aqui na Alemanha". "Não vamos tolerar mais isso", disse a ministra.

A decisão foi comunicada ao embaixador russo em Berlim, Sergei Nechayev, na tarde desta segunda-feira. De acordo com a agência de notícias Interfax, que citou fontes do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Moscou deve reagir à decisão e expulsar diplomatas alemães. 

Sobre as atrocidades cometidas pelas tropas russas na cidade ucraniana de Bucha, Baerbock disse que as imagens "demonstram a inacreditável brutalidade da liderança russa" e daqueles que seguem sua propaganda, "de uma vontade de aniquilar que transcende todas as fronteiras".

"Devemos combater essa desumanidade com a força de nossa liberdade e de nossa humanidade", disse a ministra. 

Depois que as tropas russas se retiraram do subúrbio de Kiev, corpos foram descobertos em Bucha, nas proximidades da capital ucraniana, muitos deles com as mãos amarradas. A Ucrânia culpa as tropas russas, que até recentemente ocupavam a pequena cidade, pelo massacre. Moscou nega.

Novas sanções

Baerbock enfatizou que o governo alemão, em conjunto com seus aliados, penalizará a Rússia e seguirá apoiando a Ucrânia.

"Vamos reforçar ainda mais as sanções existentes contra a Rússia, aumentaremos resolutamente nosso apoio às forças armadas ucranianas e fortaleceremos o flanco leste da Otan", destacou.

Na semana passada, a Bélgica expulsou 21 diplomatas russos por acusações de espionagem. O ministro das Relações Exteriores holandês também anunciou que 17 diplomatas russos seriam expulsos pelo mesmo motivo. A República Tcheca expulsou um diplomata russo do país.

Deutsche Welle

A guerra é a origem de todas as coisas - Parte V




Esta guerra não consubstancia apenas um momento de confronto com o outro que pensa de forma diferente, mas pode também levar-nos a um momento de confronto com o nosso próprio projeto ocidental.

Por Patrícia Fernandes* 

Será difícil pensar politicamente o século XXI sem incluir nessa reflexão o argumento apresentado, em 1996, por Samuel Huntington em O choque das civilizações e a mudança na ordem mundial. O livro desenvolve o artigo publicado em 1993 na Foreign Affairs e apresenta-se como um paradigma explicativo para o novo século que se aproximava. Esta clarificação é importante: Huntington não nos diz que o seu paradigma civilizacional é uma explicação para o funcionamento comum das sociedades; apresenta-o, antes, como explicativo da nova fase histórica, que se sucederia ao final da guerra fria e a séculos de primazia ocidental.

De acordo com este paradigma, os dados disponíveis permitem afirmar que entramos já numa fase de declínio do poder ocidental (processo que pode ser longo) e que, em consequência, “no mundo pós-guerra fria as diferenças mais importantes entre os povos não são ideológicas, políticas ou económicas. São culturais.” Ou melhor dizendo: civilizacionais, se considerarmos que a civilização corresponde ao “mais elevado agrupamento cultural de pessoas e o nível mais amplo de identidade cultural que as pessoas possuem e que as distingue das outras espécies”. Em particular, numa fase em que a procura pela identidade, pessoal e coletiva, assume primazia.

Huntington identifica sete civilizações (sínica, japonesa, hindu, islâmica, ortodoxa, ocidental, latino-americana e africana), que consubstanciam formas incomensuráveis de perceção do mundo, pelo que as dinâmicas políticas dos novos tempos seriam resultado do confronto entre essas civilizações: “Para povos que procuram uma identidade e reinventam uma unidade étnica, os inimigos são essenciais e as inimizades potencialmente mais perigosas surgem nas linhas de fratura entre as maiores civilizações mundiais.”

Não é difícil identificar a posição contra a qual o argumento de Huntington se coloca: em 1989, Francis Fukuyama tinha apresentado um argumento substancialmente diferente no artigo “The end of history?”, que daria depois origem a O Fim da História e o Último Homem, de 1992. Fukuyama avançava a ideia, de inspiração hegeliana, de que o fim do império soviético e da guerra fria significaria a vitória da democracia liberal e uma fase de pacificismo de inspiração ocidental no mundo. Como tem sido notado tantas vezes quanto necessário, a projeção de Fukuyama verificou-se errada, parecendo ocupar um lugar semelhante à oração de Péricles que Tucídides imortalizou: como o canto do cisne, o elogio à Atenas democrática e o elogio à democracia liberal simbolizam o princípio do seu declínio.

Em análise ao atual conflito, Francisco Assis opta pela expressão “fraturas civilizacionais”, retirando o peso conflitual à expressão de Huntington – mas não deixa de convocar o seu argumento central de que vivemos hoje um período que depõe o pressuposto economicista em que assentava a expansão do modelo ocidental: a ideia de que o comércio entre os estados diminui a possibilidade de conflito e é garantia de paz internacional. Na verdade, como diz Huntington, “[e]m 1913, o comércio internacional atingiu níveis máximos e nos anos seguintes as nações chacinaram-se mutuamente, atingindo um número de baixas sem precedentes. Se aquele nível de comércio internacional foi incapaz de impedir a guerra, quando o conseguirá? As provas existentes não apoiam a tese liberal internacionalista de que o comércio promove a paz.”

Ora, isto coloca em causa o próprio modelo globalista. Em boa verdade, esse modelo começou um claro percurso de declínio com o 11 de setembro, e todas as crises que se verificaram desde então foram agravando esse declínio: a crise económico-financeira de 2007/8 e a crise das dívidas soberanas, a crise dos refugiados, a crise pandémica, o atual conflito militar na Ucrânia. De um ponto de vista europeu, o declínio do modelo globalista respeita uma lógica paradoxal: numa primeira fase, todas as crises parecem reforçar o processo de integração; mas esse primeiro esforço é sempre seguido de fraturas internas (pensemos no Brexit ou no reforço do grupo de Visegrado), que vão fragilizando a pretensão expansionista da UE. Tal não é surpreendente, pois quanto mais aprofundamos o projeto europeu, menor se torna o denominador comum.

Os próximos anos revelarão os impactos desta guerra na União Europeia, mas há um aspeto que podemos já identificar como problemático: a possibilidade de a crise alimentar poder significar novas vagas de refugiados ou migrantes oriundas de países africanos e do Médio Oriente. Basta recordar, aliás, a cadeia de acontecimentos que conduziu à Primavera Árabe, origem das principais vagas de migrantes e refugiados da última década: muito mais importante do que a crise económica que se iniciou nos Estados Unidos em 2007/8, foram as ondas de calor, e consecutivos incêndios, que afetaram a Rússia em 2010 que conduziram àquelas revoltas populares. Resultando numa enorme perda de produção de bens agrícolas naquele que é considerado o celeiro do Norte de África, conduziram a uma brutal subida dos preços e, naturalmente, ao agravamento das condições de vida da maioria da população naqueles países. A imolação do tunisino Mohammed Bouazizi, em protesto contra o poder estatal por se sentir incapaz de sustentar a família, abriu as portas à revolta que proliferou na região.

Se projetarmos o mesmo cenário para a atualidade, podemos antever a instabilidade geradora dos fluxos de migração. Mas que resposta unificada poderá dar a UE a uma nova crise de migrantes e refugiados? Nesta primeira fase, os estados-membros parecem unidos na condenação à guerra, mas que fraturas se abrirão quando passarmos para o momento de lidar diretamente com as suas consequências? Sobretudo, quando se coloca hoje em cima da mesa a remilitarização ou reforço da militarização de muitos estados europeus, se regista o regresso em força da ideia de fronteiras e se tornam mais relevantes as diferenças religiosas.

A vingança de deus, para usar a expressão de Gilles Kepel, é, de facto, um aspeto fundamental para entender o paradigma civilizacional. Huntington interpreta o recrudescimento do fenómeno religioso (manifestado de formas muito diferentes nas várias civilizações) como uma reação antiocidental e refere especificamente o fenómeno russo, citando Suzanne Massie: “Na Rússia o renascimento religioso é o resultado de um desejo apaixonado pela identidade que só a igreja ortodoxa, o único elo não quebrado com o passado milenário dos Russos, pode fornecer.” De facto, a Igreja Ortodoxa sobreviveu ao regime comunista e tem ampliado a sua força, servindo como fator de identidade nacional e de apoio às pretensões imperialistas, como já foi notado no Observador. E interpretado na sua dimensão antiocidental, não devemos menosprezar as próprias ideias eurasiáticas de união de forças com o Islão, na senda do que defende Alexandr Dugin.

A explicação de Huntington quanto ao fenómeno religioso como reação à primazia ocidental parece sensata: o que tivemos na Rússia, durante o século XX, foi a aplicação de um projeto político criado por ocidentais e a partir de fundamentos ocidentais (é, aliás, interessante notar como a proposta comunista só teve aplicação fora do mundo ocidental). E na medida em que esse modelo assentava numa repressão do fenómeno religioso, a contrarresposta, após o afastamento do projeto comunista, só poderia ser o reaparecimento em força do fenómeno que foi reprimido. Como Huntington nota, não se pode comparar o movimento secularista que se sedimentou durante vários séculos na Europa com uma tentativa de eliminação abrupta do fenómeno religioso em outras civilizações – uma tal repressão contará sempre com uma forte contrarreação.

Mas também não devemos fugir à reflexão sobre os impactos do modelo de modernização laicizante do ocidente: o tipo de sociedade que a modernização ocidental origina – mais individualista, mais materialista, mais solitária – tem-se traduzido em fenómenos de esvaziamento espiritual e moral, que são sentidos como graves lacunas.

Nesse sentido, esta guerra não consubstancia apenas um momento de confronto com o outro que pensa de forma diferente, mas pode também levar-nos a um momento de confronto com o nosso próprio projeto ocidental: depois de dois séculos de laicidade, ciência e tecnologia, que tipo de narrativa nos une e satisfaz as nossas necessidades emotivas, espirituais e identitárias?

*Professora da Universidade da Beira Interior

Observador (PT)

O momento mais perigoso




Por Rui Tavares Guedes (foto)

Ao fim de cinco semanas de combates, a guerra iniciada pela invasão russa da Ucrânia chegou a um ponto frágil e crítico. Estamos no momento em que tanto pode ser plausível alcançar-se um acordo de cessar-fogo, e com isso evitar mais sofrimento entre civis, como também se pode perder essa oportunidade e o conflito escalar para outro patamar, saltar fronteiras e assumir proporções que, até há pouco tempo, considerávamos impensáveis.

Começa a ser evidente que já ninguém tem grande interesse em continuar a guerra exatamente como ela está, com as peças mais ou menos imóveis no tabuleiro e sem se registar alterações significativas no controlo territorial ou outros desenvolvimentos militares importantes.

Na Rússia, Vladimir Putin dá sinais de já ter percebido que não vai concretizar a sua promessa de uma vitória categórica e rápida, e também parece ter perdido toda e qualquer ilusão quanto à possibilidade de conseguir ocupar militarmente um país com a dimensão da Ucrânia, com uma área superior à de França. Daí o contentar-se, a partir de agora, apenas com a região do Donbass, acrescentando-a à Crimeia, esquecendo as outras reivindicações proferidas com ar ameaçador e firme na madrugada de 24 de fevereiro.

Na Ucrânia, apesar da resistência heroica e obstinada do seu povo, Volodymyr Zelensky já assume que a atual situação não é sustentável, durante muito mais tempo, e que é preciso encontrar uma solução que evite que o país continue a ser destruído, todos os dias. Por isso, como confidenciou à revista The Economist, a “vitória”, para ele, passou a ser “salvar o maior número de vidas possível”, admitindo até perder partes do território.

Finalmente, esta é também a guerra cuja continuação não interessa ao resto do mundo, já que está a tornar a recuperação económica mais difícil, após dois anos de pandemia, ao erguer mais obstáculos às cadeias de distribuição em que assentou a globalização nas últimas décadas, fazendo, com isso, aumentar os preços dos bens de consumo, criando maior incerteza e até agudizando a fome nas regiões mais desfavorecidas do planeta.

É nestes momentos, em que tudo parece conjugar-se para que possa ser encontrada uma saída aceitável para todos, que é preciso ter maiores cautelas. Na frente diplomática, o “mínimo” exigível passou a ser o “máximo” possível: nervos de aço, bom conhecimento sobre os pontos fortes e fracos dos interlocutores, capacidade de se negociar cedências mútuas, objetivos absolutamente definidos e, acima de tudo, uso adequado de cada palavra por parte dos intervenientes principais.

Nesta altura, uma frase fora do contexto ou uma palavra sem o tom adequado podem ter o efeito destruidor de uma bomba e dinamitarem, por si só, os esforços diplomáticos em que têm estado envolvidos os líderes de vários países – nomeadamente os da Turquia e de Israel, sempre hábeis a caminhar por entre linhas estreitas e ténues, como verdadeiros equilibristas da geopolítica. Por isso, quando, após um discurso brilhante na Polónia, decidiu improvisar e declarar que era preciso “tirar Putin do poder”, Joe Biden foi rapidamente desmentido em coro por meio mundo, e até pelos colaboradores da Casa Branca. E isto por uma razão muito simples: todos sabem que há frases que, por si só, podem iniciar uma guerra ou, como poderia ser o caso, fazer escalar a atual para um nível mundial. Assim, apesar da promessa de um cessar-fogo, este é mesmo o momento mais perigoso – aquele em que, se algo correr mal, todos podemos perder.

Visão

Zelenski convida Merkel para visitar Bucha




Presidente ucraniano pede que ex-líder alemã veja com os próprios olhos o que chamou de resultado de "política de concessões" feitas à Rússia nos últimos anos. Centenas de civis foram mortos em subúrbios de Kiev.

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, convidou neste domingo (03/04) a ex-chanceler federal da Alemanha Angela Merkel e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy para visitarem Bucha. Numa mensagem de vídeo, o líder ucraniano afirmou que as graves atrocidades cometidas por militares russos nos subúrbios de Kiev eram resultado da política adotada nos últimos anos em relação à Rússia

"Convido Merkel e Sarkozy para visitar Bucha e verem o que a política de concessões feitas à Rússia em 14 anos alcançou", afirmou Zelenski. "Eles verão com os próprios olhos os ucranianos torturados".

Zelenski criticou diretamente o que chamou de "recusa oculta" da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em aceitar a adesão da Ucrânia em 2008 por causa do "medo absurdo de certos líderes políticos em relação" a Moscou. Merkel comandou a Alemanha de 2005 a 2021. Sarkozy foi presidente da França entre 2007 e 2012.

Zelenski alegou que esses líderes "achavam que rejeitando a Ucrânia poderiam apaziguar a Rússia".  O presidente afirmou que, devido a "esse erro de cálculo", a Ucrânia vive um conflito que já dura oito anos no leste do país e agora enfrenta a "pior guerra na Europa desde a Segunda Guerra Mundial".

"Não culpamos o Ocidente. Não culpamos ninguém além dos militares russos e aqueles que lhes deram ordens", ressaltou Zelenski, no entanto. Ele acusou ainda Moscou de "genocídio" e os soldados russos de cometerem "atrocidades maciças" em Bucha.

O presidente anunciou a criação de um "mecanismo de justiça especial" para "investigar e processar" todos os crimes cometidos pela Rússia em território ucraniano. Esse trabalho será realizado por um grupo de especialistas nacionais e internacionais. "Este mecanismo irá ajudar a Ucrânia e o mundo a levar à justiça aqueles que iniciaram ou participaram de alguma forma nesta terrível guerra contra o povo ucraniano e crimes contra o nosso povo", explicou.

Após a declaração de Zelenski, Merkel defendeu a decisão de não aceitar a Ucrânia na Otan em 2008. Ela afirmou ainda estar ao lado de todos os esforços do governo alemão e da comunidade internacional para apoiar a Ucrânia e tentar acabar com a guerra iniciada pela invasão russa.

Massacre em Bucha

Com a retirada dos militares russos de regiões em torno de Kiev, cenas chocantes vão se revelando. Neste domingo, a procuradora-geral da Ucrânia, Iryna Venediktova, afirmou que 410 cadáveres de civis haviam sido encontrados em locais que estavam sob domínio de forças russas, alguns alvejados na cabeça e com as mãos atadas. O número total de mortos ainda é incerto.

Em Bucha, situada a noroeste da capital, numerosos cadáveres de civis e de soldados russos ladeavam as ruas. Jornalistas da agência de notícias francesa AFP contaram pelo menos 20 corpos em apenas uma rua.

"Todos esses foram fuzilados", comentou o prefeito Anatoly Fedoruk, acrescentando que 300 residentes foram mortos neste um mês de ocupação russa, estando pelo menos 280 enterrados em valas comuns em diferentes pontos da cidade.

Repórteres da Reuters viram mãos e pés de vítimas despontando de uma vala ainda aberta no terreno de uma igreja. Seus colegas da Associated Press (AP) também registraram vítimas civis ao longo de uma estrada e no quintal de uma casa.

"Eles estavam simplesmente caminhando, e aí atiraram neles, sem razão", comentou um residente de Bucha, acusando as tropas russas em retirada dos homicídios indiscriminados.

Reação internacional

As imagens de Bucha se propagaram rapidamente pelas redes sociais, desencadeando indignação internacional. A secretária de Estado britânica para Relações Exteriores, Liz Truss, declarou-se horrorizada com as atrocidades e reforçou o apelo ao Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado em Haia, para que investigue potenciais crimes de guerra na Ucrânia.

Moscou nega estar alvejando civis, descrevendo as imagens como uma "performance encenada", e rechaça toda alegação de crimes de guerra.

O chanceler federal alemão, Olaf Scholz, afirmou que militares russos haviam cometido "crimes de guerra" no subúrbio de Bucha, e que a Alemanha e países aliados iriam definir novas sanções contra Moscou nos próximos dias.

"O assassinato de civis é um crime de guerra, e devemos investigar de forma implacável esses crimes cometidos pelas Forças Armadas russas", afirmou Scholz em uma declaração na sede do governo alemão. "Nos próximos dias, iremos decidir com nossos aliados sobre as próximas medidas. O presidente [Vladimir] Putin e seus apoiadores sentirão as consequências."

O presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu nesta segunda-feira a aplicação de mais sanções contra a Rússia. "É preciso enviar um sinal de que é a nossa dignidade coletiva e os nossos valores que estamos defendendo". Ele afirmou estar "extremamente chocado" com "as cenas insuportáveis" em Bucha.

"Há indícios muito claros de crimes de guerra". O presidente francês afirmou que o seu país vai ajudar as autoridades ucranianas na investigação.

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, chamou as imagens de civis mortos na Ucrânia de "um soco no estômago". Ele afirmou que os Estados Unidos se unirão a seus aliados na documentação das atrocidades para responsabilizar os responsáveis.

Deutsche Welle

Barbárie na Ucrânia - Editorial




A comunidade internacional tem a obrigação moral de usar todos os meios não violentos a seu dispor para forçar a Rússia a recuar.

Se ainda faltava algo para despertar a indignação da comunidade internacional e unir as potências mundiais em prol de ações que acelerem o fim do ataque russo à Ucrânia, as imagens aterradoras de Bucha, cidade nos arredores de Kiev recentemente abandonada pelas tropas de Vladimir Putin, podem ser a gota d’água. Centenas de corpos de civis ucranianos, especialmente homens adultos – mas também crianças, mulheres e idosos –, foram deixados pelas ruas, muitos deles com as mãos amarradas e marcas de tiros na cabeça, indicando execução sumária.

Governos ocidentais como os de Estados Unidos, Reino Unido e França (que se manifestou por meio do próprio presidente Emmanuel Macron), entidades supranacionais como a União Europeia e a ONU, e organizações internacionais de direitos humanos como a Human Rights Watch se uniram na exigência de investigações independentes e responsabilização firme daqueles que estiverem por trás dos massacres, inclusive no Tribunal Penal Internacional, já que as cenas indicam o cometimento de crimes de guerra.

O governo russo, evidentemente, nega qualquer participação no massacre e atribui as imagens a uma tentativa deliberada dos ucranianos de semear confusão e colocar a opinião pública mundial contra Putin – como se a invasão em si já não fosse motivo suficiente para transformar a Rússia e Putin em párias internacionais. No entanto, como lembra o colunista Diogo Schelp na Gazeta do Povo, muitas das imagens de Bucha vieram de correspondentes independentes, sem vínculos com o governo ucraniano, ainda que possa haver algum tipo de interferência do governo da Ucrânia em relação aos locais que jornalistas estrangeiros podem ou não visitar. “É preciso levar muito a sério as imagens e os relatos dos massacres em Bucha e em outras cidades. Não se trata de guerra de informação. São fatos bem documentados, por profissionais independentes. Não é possível fabricar cenas de massacres como essas de maneira tão perfeita”, afirma Schelp.

Além disso, as atrocidades de Bucha não passam de uma forma de colocar em prática todo o discurso de Putin a respeito da própria existência da Ucrânia, que, segundo o autocrata russo, seria um Estado artificial, com uma identidade nacional artificial e um idioma artificial, dominado por “nazistas”. Para implantar a dita “unidade histórica” entre russos e ucranianos, defendida por Putin em um longo artigo publicado em julho de 2021, valeria tudo, especialmente a aniquilação daqueles que insistem em uma Ucrânia independente, livre para defender sua cultura e definir seus próprios destinos, sem subserviência a Moscou. Há todo um arcabouço ideológico para o genocídio e a limpeza étnica.

Em 1999, o massacre promovido pelo governo iugoslavo contra os albaneses no Kosovo foi o estopim para uma campanha de bombardeio aéreo realizada sem a autorização das Nações Unidas. No entanto, é altamente improvável, para não dizer impossível, que algo semelhante ocorra agora – afinal, a Rússia não é a Iugoslávia; um ataque direto da Otan e a resposta de Putin levariam o mundo à Terceira Guerra Mundial. No entanto, a comunidade internacional tem a obrigação moral de usar todos os meios não violentos a seu dispor para forçar a Rússia a recuar. Como já lembramos neste espaço, as potências europeias levaram tempo demais para buscar novos fornecedores de hidrocarbonetos, fazendo-o apenas quando a invasão da Ucrânia já havia ocorrido e, na prática, ajudando a financiar o ataque russo. E, se a hipótese de uma paz construída à custa da entrega de áreas da Ucrânia já era absurda, depois de Bucha essa ideia se torna ainda mais desonrosa, para evocar as palavras de Winston Churchill sobre o então premiê britânico Neville Chamberlain após Reino Unido e França terem permitido que a Alemanha nazista anexasse partes da Tchecoslováquia. A “paz para o nosso tempo” alardeada por Chamberlain após voltar da Conferência de Munique, sabe-se, durou menos de um ano.

Também dentro da Rússia a revelação dos massacres em Bucha e outras cidades precisa ser o estopim para que a oposição interna à invasão ganhe força, seja acordando aqueles russos anestesiados pela máquina de propaganda estatal, seja renovando o ímpeto de quem já não sofreu a lavagem cerebral e teve a coragem de ir às ruas contra o ataque. Bem sabemos que Putin tem às mãos um notável aparato repressor que já calou a primeira onda de protestos, e que apenas o povo nas ruas não será suficiente para encerrar a invasão – será preciso que também o poder político e militar russo perceba que Putin se tornou um estorvo.

A bravura dos ucranianos na defesa de seu país dá esperança ao mundo, e este é o momento de intensificar a resistência. A ajuda militar e financeira aos ucranianos precisa ser mantida e as potências ocidentais precisam aprimorar as sanções, atingindo a Rússia onde ela for mais vulnerável economicamente. Só assim haverá chance de vitória, para que os responsáveis por Bucha e por todas as demais violações de direitos humanos e acordos internacionais cometidas na Ucrânia possam, um dia, chegar ao banco dos réus – em Kiev, em Moscou ou em Haia.

Gazeta do Povo (PR)

Guerra na Ucrânia: o que se sabe sobre denúncias de crimes contra civis em Bucha




Uma vala comum foi encontrada fora de uma igreja em Bucha

A Ucrânia iniciou uma investigação de crimes de guerra depois que corpos de civis foram encontrados espalhados pelas ruas enquanto tropas russas saíam de áreas ao redor da capital Kiev.

Bucha e Irpin eram símbolos de resistência à invasão russa, mas agora estão se tornando sinônimos dos abusos mais sérios da guerra.

Autoridades ucranianas dizem que os corpos de 410 civis foram encontrados nas áreas ao redor de Kiev até agora.

A Rússia, sem provas, diz que as fotos e vídeos são "uma encenação" da Ucrânia.

Mas o que autoridades e repórteres viram lá após a retirada russa deixou muitos em profundo choque.

Aviso: esta publicação contém imagens e conteúdo sensíveis, que podem causar angústia.

O que aconteceu em Bucha?

Dois ou três dias depois que o presidente da Rússia ordenou a invasão à Ucrânia, em 24 de fevereiro, uma coluna de tanques russos e veículos blindados de transporte de pessoal que havia chegado a Bucha foi atacada por ucranianos, impedindo o avanço.

Os russos reforçaram a ofensiva e permaneceram na área nos arredores da capital, incapazes de avançar muito, até que começaram a se retirar em 30 de março.

Muitos civis fugiram da área, mas alguns ficaram para trás, tentando evitar os russos. Foi durante este período que, de acordo com testemunhas, os russos começaram a ir de casa em casa.

De acordo com a descrição, soldados russos atiraram em homens que fugiam depois de se recusarem a permitir que saíssem por corredores humanitários.

Autoridades e repórteres que entraram depois que os russos saíram viram tanques e os veículos blindados ao lado de pelo menos 20 homens mortos nas ruas.

Muitos tinham ferimentos extensos - alguns foram baleados na têmpora, uma marca comum em casos de execução. Alguns estavam com as mãos - ou pernas - amarradas. Outros foram claramente atropelados por tanques.

Imagens de satélite tiradas pela Maxar mostram uma vala comum de 14 metros em Bucha, perto de uma igreja.

'A BBC encontrou uma cova rasa com uma família enterrada em Motyzhyn'

A empresa diz que os primeiros sinais de escavação foram vistos em 10 de março - não muito depois do início da invasão russa da Ucrânia.

Os moradores de Bucha afirmam que os primeiros corpos foram enterrados no local nos primeiros dias da guerra, enquanto os russos matavam dezenas, "atirando em todos que viam". As estimativas dos enterrados variam de 150 a 300.

Aviso: imagem com conteúdo sensível abaixo

'Tiro na nuca'

A Human Rights Watch reuniu provas de supostos crimes de guerra em Bucha e outras cidades e vilas sob o controle das forças russas.

Em um relatório publicado em 3 de abril de 2022, há um relato de um incidente em Bucha em 4 de março, no qual soldados russos forçaram cinco homens "a se ajoelharem na beira da estrada, puxaram suas camisetas sobre a cabeça e atiraram em um dos homens na parte de trás da cabeça".

E detalhes mais perturbadores continuam a surgir.

Yogita Limaye, da BBC, visitou o porão de uma casa em Bucha onde foram deixados os corpos de cinco homens vestindo roupas civis. Eles estavam com as mãos amarradas nas costas e pareciam ter sido mortos a tiros.

Os ucranianos dizem que relatos semelhantes estão surgindo em outros lugares.

Na aldeia vizinha de Motyzhyn, uma equipe da BBC foi levada para ver uma cova rasa - quatro corpos estavam visíveis, e autoridades ucranianas disseram que poderia haver mais enterrados.

Três dos corpos foram identificados como Olga Sohnenko, chefe da aldeia onde vivia, seu marido e seu filho. O quarto ainda não foi identificado.

Não está claro quando eles foram mortos.

As áreas ao redor de Kiev agora sob controle ucraniano incluem a cidade de Irpin, onde imagens comoventes mostraram civis fugindo sob fogo russo por dias a fio.

Houve casos de pessoas sendo baleadas ao tentar escapar. Em 6 de março, quatro civis - uma mulher, seu filho adolescente, sua filha de cerca de oito anos e um amigo da família - foram todos mortos por tiros de morteiro enquanto tentavam atravessar uma ponte danificada.

Em outro incidente, mãe e filho também foram mortos e enterrados por vizinhos no pátio do bloco de apartamentos.

Em 7 de março, imagens de drones mostraram um carro em uma estrada nos arredores de Kiev, de onde um homem emerge com as mãos levantadas. Seu corpo cai no chão. Maksim Iovenko, 31, foi morto a tiros pelas forças russas que estavam posicionadas na beira da estrada. Sua esposa Ksenia, que estava no carro, também foi morta.

O relatório da HRW inclui o caso de uma mãe na cidade de Kharkiv, que foi estuprada por um soldado russo de 20 anos dentro de uma escola onde civis estavam abrigados. E há vários outros relatos.

Acusações de crimes de guerra e genocídio

Para o presidente Volodymyr Zelensky não há dúvidas de que as tropas russas estão cometendo crimes de guerra e até genocídio contra seu povo. O genocídio é entendido pela maioria como o mais grave crime contra a humanidade.

É definido como um extermínio em massa de um determinado grupo de pessoas - exemplificado pelos esforços dos nazistas para erradicar a população judaica na década de 1940.

"O mundo já viu muitos crimes de guerra. Em diferentes momentos. Em diferentes continentes. Mas é hora de fazer todo o possível para tornar os crimes de guerra dos militares russos a última manifestação de tal mal na terra", disse Zelensky no domingo, quando as evidências dos assassinatos em Bucha tornaram-se públicas.

"De fato. Isso é genocídio. A eliminação de toda a nação e do povo. Somos cidadãos da Ucrânia. Temos mais de 100 nacionalidades. Trata-se da destruição e extermínio de todas essas nacionalidades", disse ele ao programa Face the Nation, da rede americana CBS.

Muitos países ocidentais expressaram seu horror às imagens de corpos espalhados pelas ruas das cidades.

Mas a Rússia continua desafiadora. Diz que sua operação - que eles se recusam a chamar de guerra ou invasão - está seguindo o plano, e que as acusações de crimes de guerra são todas falsas.

BBC Brasil

Guerra na Ucrânia: a devastação em Irpin, ‘cidade heroica’ que conteve avanço de tropas russas




Irpin, uma cidade devastada pela guerra, é agora um exemplo de resistência ucraniana e de derrota russa.

Por  Orla Guerin em Irpin, Ucrânia

As forças do presidente Vladimir Putin conseguiram entrar lá, mas não foram capazes de seguir adiante. Se tivessem conseguido, Kiev teria sido o próximo alvo, já que a capital fica a apenas 21 km de distância. Deter o avanço russo era, portanto, fundamental.

Chegamos ao centro da cidade sob escolta militar, atravessando ruas repletas de escombros e postes de energia derrubados. Quase não há vida.

As forças ucranianas nos levaram para um tour cauteloso evitando as estradas principais. Nos alertaram ​​de que as forças russas poderiam estar presentes nas florestas vizinhas, embora o prefeito, Oleksandr Markushyn, insista que a cidade esteja novamente sob controle ucraniano.

As tropas nos mostraram com orgulho um veículo blindado russo destroçado, com sua torre retorcida. Havia outro veículo russo incendiado mais à frente. Mas nos levaram rapidamente de um local para outro devido à ameaça contínua da artilharia russa.

A maioria das 70 mil pessoas que viviam na cidade fugiu no mês passado, deixando os porões e arriscando suas vidas diante da implacável artilharia russa.

Muitos vão encontrar quase nada ao voltar. O presidente russo, Vladimir Putin, diz que não tem como alvo áreas civis, mas as casas destruídas em Irpin contam outra história.

'Muitas residências em Irpin foram danificadas ou destruídas'

Vimos muitos danos em áreas residenciais, incluindo um arranha-céu em que o fogo de artilharia havia aberto um buraco no canto de um apartamento. Um carrinho de brinquedo vermelho jazia no chão, perto de um parque abandonado. Havia carros com janelas crivadas de balas e casas queimadas com telhados estraçalhados.

Alguns dos mortos ainda permanecem sob os escombros. Outros foram enterrados às pressas nos quintais e parques porque era impossível dar a eles um funeral adequado. O prefeito estima que entre 200 e 300 civis foram mortos aqui, alguns deles foram alvos diretos enquanto fugiam. O número final provavelmente será maior.

Os russos haviam tomado de 20% a 30% da cidade, mas a resistência foi perseverante. O Ministro da Defesa da Ucrânia a reconheceu com o título honorário de "Cidade Heroica Ucraniana" por "heroísmo e resistência em massa de moradores e defensores". Esta honraria remonta à Segunda Guerra Mundial, quando foi concedida a várias cidades na antiga União Soviética.

'Putin vai perder se não tomar Kiev'

Dentro da cidade, sob vigilância da polícia e de tropas fortemente armadas, o nível de tensão é palpável.

Esta vitória foi conquistada com muito esforço, mas os soldados com quem conversamos reconheceram que os russos poderiam voltar em algum momento.

"Sim, achamos que sim", disse Serhiy Smalchuk, cuja ocupação em tempos normais é apresentador de TV.

"Eles precisam de Kiev, certo, porque Putin vai perder se não tomar Kiev. Então eles vão tentar de novo, mas estamos preparados para caso eles voltem. E vamos derrotá-los."

"Não sabemos o que eles estão pensando", diz Ivan Kolehin, um jovem recruta do exército de defesa territorial. "Não acho que eles vão tentar novamente tão cedo. Suas forças terrestres se retiraram, mas a artilharia ainda pode nos atingir."

Ivan trabalhava na área de marketing antes de pegar em armas. Ele parece ter dificuldade de processar a batalha por Irpin e o fato de ainda estar vivo.

"Nunca pensei que sobreviveria", diz ele.

"No terceiro dia, ouvimos um apito, e eles começaram a nos bombardear diretamente. Estávamos sentados no porão e o teto começou a desmoronar. Isso nos assustou muito."

Agora, ele se preocupa com o futuro da cidade.

"Ainda não é seguro estar aqui, mas com o tempo vamos reconstruí-la", afirmou.

"Provavelmente levará anos, considerando os danos. Estou tentando não pensar no fato de que todas as casas destruídas foram construídas por alguém, às vezes com as próprias mãos."

Antes, ele tinha amigos russos, mas já não tem mais.

"Odeio os russos do fundo do meu coração", diz ele. "Isso não tem desculpa."

'Civis continuam sendo retirados de Irpin'

Moscou anunciou que agora vai reduzir drasticamente os ataques ao redor da capital e se concentrará na região leste de Donbas. Na verdade, o Kremlin tinha pouca opção, uma vez que suas ofensivas ao redor da capital haviam sido inviabilizadas.

Mas com o tempo, as forças russas podem se reagrupar e cercar a capital novamente. Se fizerem isso, terão que passar mais uma vez pela "cidade heroica", que estará na linha de fogo.

Ao sairmos de Irpin, um grupo de civis era retirado a pé, atravessando o leito de um rio por meio de tábuas de madeira precariamente colocadas sobre escombros e rochas. São os restos de uma ponte que foi explodida pelas forças ucranianas para bloquear o avanço russo — mais um dos sacrifícios feitos por Irpin.

Uma ambulância aguardava duas mulheres idosas que estavam sendo carregadas em macas ao longo da margem do rio, sobreviventes do implacável, mas mal-sucedido ataque russo.

Mais adiante, uma coluna de tropas ucranianas alardeava com arrogância a vitória, irrompendo em um canto obsceno contra Putin.

BBC Brasil

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