terça-feira, abril 05, 2022

Biden pede que Putin seja julgado por crimes de guerra




Presidente americano classifica imagens de massacres na Ucrânia como "ultrajantes". Ao menos por enquanto, porém, governo dos EUA evita falar em genocídio cometido por forças russas na Ucrânia.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, defendeu nesta segunda-feira (04/04) que o presidente russo, Vladimir Putin, sejajulgado por crimes de guerra. 

A declaração foi feita após a repercussão das imagens que mostram cadáveres de civis espalhados pelas ruas e em valas comuns na cidade de Bucha. "Vocês viram o que aconteceu em Bucha. É ultrajante", afirmou, acrescentando que Putin "é um criminoso de guerra".

"Temos que obter todos os detalhes para que haja um julgamento por crimes de guerra", disse Biden. "Esse cara é brutal e o que está acontecendo em Bucha é ultrajante", acrescentou o presidente americano, enfatizando que Putin "deveria ser responsabilizado" pelo que aconteceu.

"Temos de continuar a fornecer armas à Ucrânia para que o país possa seguir lutando. E temos de reunir todos os detalhes para que isso seja efetivo: um julgamento por crimes de guerra", disse Biden.

A declaração de Biden à imprensa também ocorreu depois que o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, visitou Bucha, nos arredores de Kiev, nesta segunda-feira.

Os relatos de que o exército russo promoveu assassinatos sumários e fez uso de violência sexual foram divulgados no final de semana.

Jornalistas de diversos países e veículos independentes observaram dezenas de corpos espalhados pelas ruas de Bucha e ouviram testemunhas na área. Organizações como a Human Rights Watch também listaram evidências de crimes de guerra na região.

Segundo a procuradora-geral da Ucrânia, Iryna Venediktova, 410 corpos foram removidos de áreas e cidades próximas à capital Kiev, recentemente retomadas pelo exército ucraniano. 

Zelenski classificou os atos como "genocídio" e apelou por mais sanções contra a Rússia.

O conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, disse que seu país vai anunciar novas sanções nesta semana. Sullivan também confirmou que os americanos irão repassar mais apoio militar à Ucrânia nos próximos dias.

EUA não veem genocídio

Sobre os relatos de atrocidades cometidas contra civis no município de Bucha, Sullivan foi taxativo: "Não acreditamos que isso seja apenas um acidente aleatório ou um ato ilícito de um indivíduo em particular. Acreditamos que isso faz parte do plano", declarou.

No entanto, o governo americano evitou falar em genocídio: "Temos visto atrocidades, temos visto crimes de guerra, mas não temos visto uma privação sistemática da vida do povo ucraniano ao ponto de chamar isso de genocídio", disse Sullivan.

A ONG de direitos humanos Human Rights Watch descreveu o episódio como "aparentes crimes de guerra", incluindo execuções sumárias, com base em testemunhos, mas disse que ainda é "muito cedo" para classificar os massacres como genocídio, à medida que aumentam os pedidos de investigação oficial sobre o que aconteceu na cidade.

Ainda nesta segunda-feira, o governo dos EUA reiterou que a Rússia está mudando o foco da guerra, deixando o norte da Ucrânia para concentrar suas forças no sul e no leste do país. Um dos motivos seria o sucesso obtido pelas forças de defesa ucranianas, apoiadas pelo Ocidente.
Explicações russas contraditórias

No Twitter, o ministro do Exterior da Ucrânia, Dmytro Kuleba, comentou que há outras áreas do país que precisam ser investigadas e citou Mariupol como exemplo: "Posso dizer sem exageros, mas sim com grande pesar, que a situação em Mariupol é muito pior se comparado ao que vimos em Bucha e em outras cidades, localidades e vilas perto de Kiev".

Já as autoridades russas alegaram que as imagens de Bucha são "encenadas" ou que as tropas foram "provocadas" por "extremistas", mas não forneceram evidências para tais alegações. Moscou solicitou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para tratar das acusações de crimes de guerra.

O ministro do Exterior da Rússia, Sergei Lavrov, conceituou as cenas de Bucha como uma "provocação gerenciada". O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que as imagens continham "sinais de falsificação".

Deutsche Welle

O que se sabe sobre as atrocidades nos arredores de Kiev




Imagens de corpos espalhados pelas ruas e valas comuns na cidade de Bucha chocaram o mundo. Ucrânia acusa tropas russas por massacre. Moscou rejeita as acusações e fala em encenação.

O mundo reagiu com horror e condenação às imagens e relatos da cidade de Bucha, nos arredores de Kiev, revelados no fim de semana, às valas comuns de civis ucranianos, bem como às acusações de assassinatos sumários e uso de violência sexual como ferramenta de guerra por soldados russos. 

Bucha é uma cidade de cerca de 36 mil habitantes e fica a menos de 8 quilômetros dos limites da cidade de Kiev. No final de fevereiro, tornou-se alvo das forças russas em seu caminho para alcançar a capital ucraniana. 

Relatos de testemunhas e jornalistas

De acordo com os sobreviventes, muitos cidadãos permaneceram por semanas escondidos nos porões de suas casas, sem luz e calefação, até que as tropas ucranianas retomaram a cidade.

Depois que os russos recuaram, começaram a surgir relatos de que as forças russas teriam aprisionado e executado civis, além de agredir sexualmente mulheres, cujos corpos foram deixados nus e parcialmente queimados na margem das ruas. 

Jornalistas independentes confirmaram relatos de moradores sobre a existência de valas comuns e muitas das atrocidades cometidas na cidade. 

Repórteres da agência de notícias AP viram os corpos de pelo menos nove pessoas em roupas civis, que pareciam ter sido mortas à queima-roupa em Bucha. Pelo menos dois estavam com as mãos amarradas atrás das costas. Os jornalistas da AP também viram dois corpos envoltos em plástico e amarrados com fita adesiva em uma vala. 

Um correspondente da agência de notícia Reuters relatou ter visto o corpo de um homem na beira da estrada com as mãos amarradas nas costas e com um tiro na cabeça. A emissora britânica BBC relata algo semelhante. 

'Alguns cadáveres tinham as mãos amarradas'

O prefeito de Bucha, Anatoliy Fedoruk, estimou que pelo menos 300 moradores foram mortos, e alguns foram enterrados ao lado de vários soldados russos. 

O jornal ucraniano Ukrayinska Pravda informou no domingo que 340 corpos foram encontrados na cidade. 

Há também relatos de vários moradores locais. "As pessoas estavam andando na rua e simplesmente foram abatidas a tiros", diz um deles. "Eles simplesmente atiraram sem fazer perguntas."     

O que diz a Ucrânia?

A Ucrânia culpa as tropas russas pelo massacre e as acusa de atrocidades contra a população civil. O Ministério Público anunciou investigações. Mais de 50 membros do Ministério Público e da Polícia Nacional trabalham colhendo indícios. 

"Este é um inferno que precisa ser documentado para que os monstros que o criaram possam ser punidos", escreveu a procuradora-geral ucraniana Iryna Venediktova no Facebook. 

Autoridades ucranianas disseram que estavam documentando evidências para processar autoridades russas por crimes de guerra. Para condená-los, os promotores do Tribunal Penal Internacional (TPI) terão que demonstrar um padrão de atrocidades cometidos contra civis durante a invasão russa. 

"Somos cidadãos da Ucrânia e não queremos ser subjugados à política da Federação Russa. Esta é a razão pela qual estamos sendo destruídos e exterminados", disse o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, à emissora americana CBS. 

Ele também criticou o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy e a ex-chanceler alemã Angela Merkel, acusando-os de tentar "apaziguar" o presidente russo, Vladimir Putin, através de grandes contratos com empresas estatais e por não se oporem à anexação da Crimeia em 2014. "Convido Merkel e a visitarem Bucha e verem a que levou a política de concessões feitas à Rússia em 14 anos", disse.

Condenação internacional 

Líderes mundiais e grupos de direitos humanos foram rápidos em condenar a violência em Bucha. 

O chanceler federal alemão, Olaf Scholz, disse que aliados ocidentais vão determinar novas sanções contra a Rússia nos próximos dias por causa da invasão e das "atrocidades" cometidas pelas tropas russas perto de Kiev. "E continuaremos a disponibilizar armas para a Ucrânia para que o país possa se defender da invasão russa", acrescentou. 

'Testemunhas afirmam que civis foram mortos por soldados russos'

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, escreveu no Twitter que Washington condena as "atrocidades aparentes" cometidas pelas "forças do Kremlin" e prometeu que os EUA "usarão todas as ferramentas disponíveis" para documentar os assassinatos e levar os responsáveis à justiça.

O presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também se juntaram ao coro de condenações contra Putin e os militares russos. 

Nesta segunda-feira (04/04), Macron disse a uma rádio francesa haver "indicações claras" de crimes de guerra russos em Bucha. "O que aconteceu em Bucha exige uma nova rodada de sanções e medidas muito claras", ressaltou.

A UE também condenou as "atrocidades" pelas quais "as autoridades russas são responsáveis". O chefe de política externa do bloco, Josep Borrell, disse que, após os relatórios, a UE "avançará, com urgência, na implementação de novas sanções contra a Rússia". 

Explicações contraditórias russas

A ONG de direitos humanos Human Rights Watch disse que documentou o que descreveu como "aparentes crimes de guerra", incluindo execuções sumárias, com base em testemunhos, mas disse ser ainda "muito cedo" para declarar os massacres um genocídio, à medida que aumentam os pedidos de investigação oficial sobre o que aconteceu na cidade. 

Já as autoridades russas alegam que as imagens de Bucha são "encenadas" ou que as tropas foram "provocadas" por "extremistas", mas não forneceram evidências para tais alegações. Moscou solicitou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para tratar das acusações de crimes de guerra. 

Deutsche Welle

Com águas de até 250 mil anos, aquífero Guarani ganha peso no abastecimento de cidades




Mapa mostra os aquíferos Guarani e Grande Amazônia, os dois maiores do país

Por João Fellet, em São Paulo

A forte estiagem que atingiu o Estado de São Paulo em 2021 baixou os níveis de rios e reservatórios, forçando várias cidades a restringir a oferta de água.

Mas os efeitos da seca não foram sentidos por todos: municípios abastecidos exclusivamente pelo aquífero Guarani, uma das maiores reservas de água doce do mundo, não impuseram racionamentos.

Diante de crises hídricas cada vez mais frequentes no Estado, o aquífero tem ganhado peso no abastecimento público e se revelado uma fonte estável em tempos de mudanças climáticas.

Dados do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) do Estado de São Paulo repassados à BBC mostram que 2021 foi o ano com a maior concessão de outorgas para a instalação de poços que extraem água do Guarani: 564.

Hoje, segundo o DAEE, há 3.200 poços autorizados a operar na porção paulista do aquífero, além de 224 processos em tramitação.

Dentre todas as licenças, 71% foram concedidas a partir de 2014, quando São Paulo enfrentou uma das maiores crises hídricas de sua história. Desde aquele ano, o número de outorgas vem crescendo anualmente.

Municípios como Ribeirão Preto, Sertãozinho e Matão hoje dependem 100% do aquífero Guarani para seu consumo de água.

Outros, como São José do Rio Preto, São Carlos, Bauru e Franca, têm o Guarani entre suas principais fontes hídricas.

Um estudo de 2020 estimou que, em toda sua extensão, o aquífero já abastece mais de 15 milhões de pessoas - a maioria delas no Estado de São Paulo.

O Estado ocupa 13% da extensão do aquífero, mas responde por 70% de toda água extraída da reserva, segundo a OEA (Organização dos Estados Americanos).

Embora especialistas vejam espaço para um uso ainda maior, há locais em que a exploração do aquífero tem gerado preocupações - ou pelo bombeamento intenso, ou pela contaminação das águas (leia mais abaixo).

Um dos maiores aquíferos do mundo

O Sistema Aquífero Guarani é uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do mundo, ocupando 1,2 milhão de quilômetros quadrados - área duas vezes maior que a França.

O aquífero se estende por partes de oito Estados brasileiros (GO, MT, MS, MG, SP, PR, SC e RS), além de porções da Argentina, Paraguai e Uruguai.

Ele regula os rios da bacia do Paraná, que o sobrepõe em grande parte, e tem águas majoritariamente potáveis - quase todas confinadas por rochas basálticas que chegam a mais de mil metros de espessura.

A maior parte de suas águas provém de chuvas que infiltraram ao longo de vários milênios em lençóis freáticos nos trechos em que o aquífero está mais perto da superfície, as chamadas zonas de afloramento.

Nessas áreas, o aquífero não está confinado por rochas basálticas, e a instalação de poços costuma ser mais simples. A tecnologia atual, porém, permite que mesmo as áreas confinadas e mais profundas do aquífero sejam acessadas.

As águas nos trechos confinados chegam aos 250 mil anos de idade, tempo percorrido desde sua infiltração nas zonas de afloramento. No trajeto até as zonas confinadas, o líquido se desloca bem lentamente, avançando milímetros ou centímetros a cada ano.

São José do Rio Preto é uma das cidades paulistas onde essas águas antiquíssimas, também conhecidas como "águas fósseis", jorram nas torneiras.

Mas há vários outros poços no Estado que operam em condições semelhantes, extraindo águas a mais de um quilômetro de profundidade, diz à BBC Ricardo Hirata, diretor do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da Universidade de São Paulo (Cepas-USP).

Também professor titular do Instituto de Geociências da USP, Hirata é autor de vários estudos sobre o aquífero Guarani e um dos maiores especialistas em águas subterrâneas no Brasil, tendo assessorado organizações internacionais como a Unesco, o Banco Mundial e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Reserva estratégica


Mapa dos principais aquíferos brasileiros; reservas subterrâneas abastecem mais da metade das cidades do país.

Em 2015, ele foi coautor de um artigo na Revista da USP que classificou o aquífero Guarani como "o manancial subterrâneo mais promissor e estratégico para o abastecimento público no Estado de São Paulo".

Na época, o governo estadual considerava usar o aquífero para aliviar a pressão sobre os sistemas de abastecimento de Campinas e da Região Metropolitana de São Paulo, quando as duas regiões ainda se recuperavam da grave crise hídrica de 2014.

O plano era instalar 24 poços tubulares (popularmente chamados de artesianos) no município de Itirapina, que fica na zona de afloramento do aquífero, a cerca de 200 km da capital.

De lá, a água seria transportada por adutoras até municípios nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Como esses municípios usam fontes que também abastecem Campinas e a Grande São Paulo, esperava-se que sobrasse mais água para as duas regiões.

Mas Hirata afirma que a ideia não prosperou porque voltou a chover nos anos seguintes e porque ficaria muito caro levar a água de Itirapina até os municípios-alvos.

O caso mostra que, apesar de sua grande extensão, o aquífero não é uma alternativa para todas as partes do Estado - incluindo a capital, que fica fora de seus domínios.

Outro ponto a se considerar é a oferta de fontes superficiais no local, como rios e represas. Normalmente, é necessário escavar vários poços em um aquífero para extrair uma quantidade de água comparável à que se obtém de um único ponto de captação superficial.

Além disso, Hirata diz que a exploração dos trechos onde o aquífero está confinado pelos basaltos deve ser feita com parcimônia, já que a reposição dessas águas é bem mais lenta que nas áreas de afloramento.

Resiliência na seca

Uma das maiores cidades abastecidas pelo Guarani é Ribeirão Preto, que tem 711 mil habitantes e hoje depende exclusivamente do aquífero para o consumo dos moradores.

A cidade conta com 118 poços tubulares, que extraem água de profundidades superiores a 200 metros e os bombeiam para reservatórios.

Vários poços foram escavados na última década em resposta a secas que fizeram faltar água na cidade. Hoje suspensões na oferta são pontuais e se devem principalmente a trabalhos de manutenção, segundo a companhia municipal que gere o sistema.

No entanto, o uso intenso do aquífero em Ribeirão Preto gerou problemas: o nível de água em vários poços caiu, provocando perdas de rendimento ou a desativação de alguns.

A prefeitura passou então passou a controlar a abertura de novos poços e delimitou zonas onde é proibido escavar.

Mesmo com as restrições, Ribeirão Preto não teve de racionar água em 2021, ao contrário de vários municípios vizinhos que dependem de fontes superficiais.

Hirata diz que uma grande vantagem dos aquíferos em relação às fontes superficiais é sua capacidade de armazenar um grande volume de água inclusive na estiagem, quando outras fontes se exaurem.

'O Rio Paraná, cuja bacia se sobrepõe a boa parte do aquífero Guarani e é regulada por ele'.

Fenômeno nacional

Segundo Hirata, as crises hídricas que o Brasil enfrentou nas últimas décadas provocaram um grande aumento na perfuração de poços - e não só na região do aquífero Guarani.

Em 2010, a Agência Nacional de Águas (ANA) divulgou um relatório apontando que 52% dos municípios do país eram abastecidos total ou parcialmente por águas subterrâneas. Em São Paulo, o índice chega a 70% dos municípios.

Segundo um estudo liderado por Hirata, há cerca de 2,5 milhões de poços tubulares em todo o país. Juntos, eles bombeiam mais de 557 metros cúbicos de água por segundo - vazão suficiente para abastecer toda a população brasileira.

Hirata afirma que não só prefeituras têm recorrido às águas subterrâneas, mas também entidades privadas como indústrias, fazendas e condomínios residenciais.

'Reservas subterrâneas abastecem mais da metade das cidades do país'.

O aeroporto internacional de Guarulhos, por exemplo, é totalmente abastecido por poços, segundo o pesquisador, assim como vários edifícios na avenida Paulista, a mais famosa de São Paulo.

Hirata diz que a perfuração de poços com até 200 metros costuma levar menos de um mês e custar entre R$ 250 mil e R$ 300 mil.

Como não há cobrança pelo uso de fontes subterrâneas no Brasil, a economia gerada pelo não pagamento da conta de água faz com que grandes usuários possam recuperar o investimento da perfuração em menos de um ano - além de ficarem menos sujeitos a oscilações da rede pública.

Uso de água subterrânea na agricultura

As águas subterrâneas têm participação central no abastecimento de zonas rurais brasileiras. Segundo o último Censo Agropecuário do IBGE, de 2017, 1,03 milhão de propriedades rurais dispõem de pelo menos um poço tubular.

'Secas na região Sul também têm estimulando investimentos em águas subterrâneas'

Nesses locais, as águas podem servir tanto para o consumo dos moradores quanto para a criação de animais ou a irrigação de lavouras.

Considerando-se o consumo per capita de águas subterrâneas, a irrigação responde pela maior parcela no país, com 48,7 metros cúbicos/hora de vazão, segundo a ANA.

Em seguida vêm o uso industrial (20,9) e o abastecimento de zonas urbanas e rurais (17,9).

O uso exacerbado de aquíferos para a irrigação é um tema de grande preocupação em países desenvolvidos.

O caso mais célebre é o do aquífero Ogallala, usado intensamente para a irrigação de plantações na região das Grandes Planícies, nos Estados Unidos.

'Irrigação lidera o consumo per capita de águas subterrâneas no Brasil'.

Pesquisas apontaram que, em boa parte de sua extensão, o aquífero tem perdido muito mais água do que consegue absorver, o que coloca em risco o abastecimento de vários Estados e o fluxo de rios da região.

Outro tema que tem recebido atenção de pesquisadores no exterior é a contaminação de aquíferos por fertilizantes agrícolas - "um problema extensivo na Europa e América do Norte", segundo Hirata.

O Brasil é um dos maiores consumidores globais de fertilizantes. Aqui, porém, o professor diz que o tema ainda não foi estudado em profundidade, pois faltam dados e redes de monitoramento.

"Não sabemos nada praticamente sobre a contaminação de aquíferos pela atividade agrícola no Brasil", afirma.

"Acredito que possa haver contaminações, mas faltam estudos sistematizados que nos permitam generalizar se temos um grande problema ou não. A experiência internacional nos mostra que sim", diz.

Hoje os estudos disponíveis apontam que esgotos não coletados e tratados são uma das principais fontes de contaminação de aquíferos no Brasil - fenômeno que já se observou em capitais como Manaus, Belém, Natal e Maceió.

Porém, mesmo em cidades com redes de esgoto mais antigas e com baixa manutenção têm sido observados problemas de contaminação por causa de vazamentos nesses sistemas.

Também são conhecidos casos de contaminação de aquíferos por rejeitos industriais - é o que ocorreu no bairro de Jurubatuba, na zona sul de São Paulo, onde autoridades tiveram que proibir a escavação de poços e interditar os existentes.

Só no Estado de São Paulo, a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo) estima que haja entre 3 mil e 4 mil pontos de contaminação de aquíferos.

E, num relatório de 2020, a companhia afirmou que 23,9% das amostras coletadas no Aquífero Guarani apresentaram índices acima dos parâmetros para itens como alumínio, bário, selênio e coliformes.

Hirata, porém, diz que os dados devem ser analisados com cautela. Segundo ele, é possível que parte das discrepâncias se explique por poços mal construídos ou com baixa manutenção.

Por outro lado, diz o pesquisador, como só uma ínfima porção do aquífero é monitorada, o número de áreas contaminadas é provavelmente muito maior do que apontam os dados oficiais da Cetesb.

Apagão de dados

A falta de dados, aliás, é um grande problema para o estudo das águas subterrâneas e a boa gestão desses recursos no Brasil, afirma Hirata.

Ele diz que só 10% dos poços tubulares em operação no país são cadastrados - o que não significa que todos esses estejam regularizados.

Para que operem legalmente, é necessário uma outorga dos órgãos públicos que gerenciam as águas subterrâneas, mas só uma pequena parcela dos usuários cumpre essa etapa.

A BBC questionou o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) do Estado de São Paulo sobre quais ações estavam sendo tomadas para coibir o uso irregular de poços.

Em nota, o departamento afirmou que, ao tomar ciência de poços não outorgados, notifica os usuários para que as instalações sejam regularizadas.

O órgão diz ainda que é possível denunciar poços irregulares pelo site do departamento e que implantou um Sistema de Outorga Eletrônica para facilitar os registros.

'Só uma pequena parcela dos poços tubulares funcionam regularmente no Brasil'.

Segundo o órgão, todos os poços outorgados "devem enviar anualmente ao DAEE um relatório onde constam o volume extraído mensalmente, assim como as medidas dos níveis estático e dinâmico dos poços".

"Estes dados possibilitam ao órgão gestor verificar em quais locais é preciso um controle maior da utilização do aquífero, e eventualmente criar áreas de restrição ao uso das águas subterrâneas", diz o departamento.

Em relação ao Guarani, o DAEE afirma que, "como o volume extraído deste aquífero é muito grande, torna-se necessário o acompanhamento de sua exploração para garantir uma exploração sustentável".

Mudanças climáticas

Embora ainda haja muito a avançar no monitoramento do Guarani e das demais águas subterrâneas no Brasil, Hirata diz que essas reservas podem ser muito úteis num cenário de grande irregularidade na oferta hídrica no país.

Para ele, tomando os cuidados para evitar a contaminação e exploração exagerada, "as águas subterrâneas podem ser a solução para muitos problemas sociais, permitindo a oferta de água de baixo custo e excelente qualidade".

Hirata cita ainda a possibilidade - já adotada em alguns países - de injetar nos aquíferos sobras de água de rios e represas nos períodos chuvosos, acelerando a recarga das reservas subterrâneas e deixando os sistemas mais equilibrados.

"Com as mudanças climáticas, o mundo inteiro tem despertado para isso", afirma.

BBC Brasil

O mundo caminha para uma "desglobalização"?




'Porto de Ningbo-Zhoushan: globalização transformou a China em potência, e empresas nem pensam em deixar o país'.

Primeiro, a crise da pandemia expôs rupturas na economia. Agora, a guerra na Ucrânia afeta os mercados de commodities. Tais interrupções estão estimulando uma mudança na concepção das cadeias de abastecimento.

Por Sonya Angelica Diehn

Certamente, você já ouviu falar em globalização. Mas e sobre desglobalização?

Interrupções nas cadeias de abastecimento, aumento de preços, escassez – todas essas realidades diárias poderiam ser conectadas a um processo conhecido como desglobalização.

Especialistas afirmam, inclusive, que a guerra na Ucrânia, junto com a pandemia, marca um ponto de virada rumo a uma era desglobalizada.

Mas que forma ou que rumo tomaria esse novo mundo?

Uma breve introdução à globalização

Segundo pesquisadores e estudiosos do tema, há, basicamente, três tipos de globalização: econômica, social e política.

A globalização econômica é a integração da economia mundial em termos de comércio, um processo que tem seus defensores e críticos.

De acordo com quem defende esse conceito, a globalização aumenta o padrão de vida das pessoas, retirando-as da pobreza.

Por outro lado, os louros dessa globalização não costumam ser divididos de forma igualitária.

"Tanto em termos internacionais quanto nas sociedades industrializadas, a desigualdade aumentou", afirma Andreas Wirsching, professor de história da Universidade Ludwig Maximilian de Munique. A globalização econômica resultou em "muitos vencedores, mas também muitos perdedores, isso é inegável", complementa.

As desvantagens da globalização também incluem consequências sociais e ecológicas, pondera Cora Jungbluth, economista e especialista sênior da fundação alemã Bertelsmann Stiftung, com sede na cidade de Gütersloh.

Trabalhadores de países de alta renda têm visto empregos migrarem para países onde o custo de produção é menor, enquanto "empresas multinacionais têm terceirizado etapas de produção mais poluentes para países em desenvolvimento e emergentes, contribuindo, assim, para as questões ambientais", diz Jungbluth.

'A pobreza extrema foi reduzida entre os anos de 1995 e 2020, mas voltou a crescer a partir do surgimento da pandemia de coronavírus'.

Globalização em recuo desde a crise de 2008

Assim como a globalização reflete um processo crescente de interdependência econômica, a desglobalização marca justamente o recuo da integração econômica global. E há indícios de que isso está acontecendo há algum tempo.

Medida que é chave na globalização, a participação do comércio no Produto Interno Bruto (PIB) global atingiu seu auge em 2008, antes do início da crise.

"A proporção média das exportações em relação ao PIB em todo o mundo aumentou muito significativamente nos anos 1990 e 2000. Entretanto, desde a crise financeira de 2008 e 2009, essas medidas têm estagnado ou mesmo diminuído", explica Douglas Irwin, professor de Economia na Universidade de Dartmouth, nos Estados Unidos.

Irwin e outros especialistas observam que essa tendência tem ocorrido lado a lado com a ascensão do populismo e de medidas econômicas protecionistas. Há, no entanto, outros fatores importantes que têm freado a globalização.

Então veio a pandemia

Em termos econômicos, a crise do coronavírus tem contribuído para interrupções nas cadeias de abastecimento. Não há como esquecer a consequente escassez, o aumento de preços e também o armazenamento de produtos – aquele momento em que você se deparou com o último rolo de papel higiênico.

Tais interrupções estimularam uma mudança fundamental na concepção dessas cadeias de abastecimento, explica Megan Greene, economista e membro sênior da Harvard Kennedy School, nos Estados Unidos.

"A pandemia mudou uma tendência de produção 'just-in-time' (em que a produção, o transporte e a compra são feitos de maneira regrada e pontual) para a manutenção de estoques", diz Greene. Ela descreve esse novo sistema de contingência como "cadeia de abastecimento global com planos de apoio", de modo que as empresas não são abandonadas quando há rupturas na cadeia global de abastecimento.

Dentro desse modelo com planos de apoio, Jungbluth acrescenta que países e empresas têm considerado reduzir as cadeias de abastecimento: "Talvez 'trazer de volta para casa', com insumos e tecnologias-chave mais próximos de seus locais de produção", algo que resulta em mais flexibilidade do lado de quem oferta. Essencialmente, isso caracteriza um afastamento da globalização, com foco na eficiência e no custo-benefício.

'Críticos da globalização alertam sobre impactos ecológicos, direitos trabalhistas e o crescente abismo entre ricos e pobres'.

Agora a guerra na Ucrânia

Os impactos da invasão russa à Ucrânia têm sido perceptíveis aos consumidores muito devido às sanções impostas à Rússia, sobretudo nos setores de energia e de produtos agrícolas.

"Há ausência de importação de energia, que é necessária, uma vez que a Europa precisa de energia fóssil da Rússia. E o mundo inteiro precisa de produtos agrícolas da Rússia e da Ucrânia", afirma Thiess Petersen, economista e colega de Jungbluth na Bertelsmann Stiftung.

A Rússia e a Ucrânia são exportadores globais muito significativos de trigo e óleo de girassol, por exemplo.

Irwin corrobora a tese de que a interrupção das exportações devido à guerra e às sanções impostas à Rússia têm levado a aumentos de preços.

"Temos visto os preços das commodities subirem bastante como resultado da guerra, a exemplo de produtos como trigo e petróleo (pelo menos inicialmente)", diz Irwin.

A consequência disso é o aumento de preços para o consumidor final, o que, por sua vez, estimula a inflação.

Por outro lado, as sanções contra a Rússia estão isolando o país – que tem uma economia significativa – do resto do mundo.

Economistas enxergam esse cenário não apenas como a desintegração de mercados interconectados, mas sim o desenrolar de um progresso que a globalização trouxe consigo.

A escassez e os altos preços de alimentos básicos serão observados não apenas em países de alta renda, mas também em nações em desenvolvimento e emergentes. Para países altamente dependentes de importações de farinha e petróleo baratos, isso "pode até levar à fome", acrescenta Jungbluth.

'Russos - McDonald's: devido à invasão à Ucrânia, rede fechou centenas de lojas no país'.

O fim da era globalizada?

A crise de 2008, o protecionismo tarifário subsequente, a reestruturação da cadeia de abastecimento devido à pandemia, a desintegração de mercados interconectados por causa da guerra na Ucrânia, conclui Petersen, talvez estejam nos levando "ao início de uma espécie de desglobalização".

Neste contexto, Greene pondera que não há um índice para medir a globalização. E contesta a narrativa atual, promovida a partir do início da pandemia, com relação a fatores como onshoring (recolocação de negócios dentro das próprias fronteiras), nearshoring (recolocação de negócios em países próximos) e regionalização da cadeia de abastecimento. Essa narrativa, segundo Greene, não é sustentada por muitos indicadores de globalização, a exemplo de pesquisas de dados.

"Na mais recente pesquisa realizada pela Câmara de Comércio de Xangai, nenhuma empresa americana afirmou que voltaria para operações onshore, ou seja, sair da China e voltar para os Estados Unidos", aponta Greene.

Por outro lado, a economista destaca que apesar de investimentos de longo prazo terem continuado de maneira acelerada na China, investimentos de curto prazo ficaram mais evidentes a partir da invasão russa na Ucrânia, o que também indica um ponto de virada.

"O auge da globalização ficou para trás. Eu diria que estamos vendo a globalização progredir muito mais lentamente do que antes, mas ainda não estamos no território da desglobalização", afirma Greene.

Admiráveis novos blocos

As sanções do Ocidente contra a Rússia e a fuga de capitais da China indicam uma tendência global, segundo Jungbluth: "Nos últimos anos, os países têm tentado reduzir as chamadas 'dependências críticas', o que também pode levar à desglobalização".

Já Irwin traça paralelos com a era da Guerra Fria, quando "certos países que estavam politicamente alinhados também se tornaram mais alinhados economicamente, e não tão integrados com outros".

Jungbluth, Petersen e outros economistas acreditam que o mundo caminha, atualmente, para dois blocos econômicos geopolíticos distintos: um deles seria formado por países democráticos, de economia de mercado (União Européia, Japão, Coréia do Sul, Oceania, Américas do Norte e do Sul), e outro por estados autocráticos (China, Rússia e seus parceiros comerciais mais importantes).

"O que temos visto é um retorno à geopolítica, e essas tendências também levam à desglobalização, por meio da tentativa de diminuir as dependências econômicas de países que têm conceitos distintos", diz Jungbluth.

Estamos, portanto, no limiar de uma nova era?

Conforme o historiador Andreas Wirsching, essa é uma discussão popular.

"Você quase pode pensar nesses dois momentos juntos: a pandemia de 2020, e agora essa guerra em 2022. Tem-se a sensação, a impressão, como habitantes aqui e agora, que algo está fundamentalmente mudando. Mas como os vários fatores podem ser encarados juntos, isso só se tornará aparente no futuro".

Deutsche Welle

Em Jeremoabo falta ônibus Escolar para transportar alunos, sobra para praticar Improbidade Administrativa transportando passageiros

 Dede Montalvão

Foto: Divulgação




Em todas as sessões da Câmara de Jeremoabo, os vereadores denunciam a falta de ônibus Escolar para transportar os alunos residentes na Zona Rural.
Por falta de veículos alguns alunos perdem aulas, já outros sujeitam-se a viajar em ônibus superlotados.
Enquanto isso, o prefeito juntamente com   a secretária de educação, para sacanear e desmoralizar os vereadores, permite que em pleno dia de domindo, (03.04), um ônibus Escolar superlotado não sei se com jogadores, saiu do povoado Baixa da Pedra com destino ao Povoado Água Branca. 
Senhores vereadores, principalmente Neguinho de Lié e Bino, que são os que mais reclamam e denunciam a falta de veículos, o que está faltando para vocês enviarem esse vídeo para o Ministério Público Federal.
Estão esperando que a ONG faça sua parte prenchendo essa lacuna?
Diante de tamanha ilegalidade, de tanta Improbidade Admiistrativa, estou tendo quase a certeza que o prefeito adquiriu alguma patologia, cuja consequencia é a tara de colecionar processos.

http://www.bobcharles.com.br/internas/read/?id=20129

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