
Bolsonaro não tem caminho de volta após investir contra o texto constitucional
Pedro do Coutto
Ao aceitar as manifestações pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal, do Congresso e também os ataques exaltados contra o ministro Alexandre de Moraes, o presidente Jair Bolsonaro cruzou a fronteira da lei e se posicionou claramente favorável a um golpe militar contra as instituições, incluindo na sua ofensiva um comunicado ao ministro Luiz Fux, presidente do STF – absurdo completo – para afastar Moraes da Corte Suprema.
A ofensiva golpista ficou clara nas imagens da GloboNews e também da TV Globo levadas ao ar na tarde de ontem focalizando a série de ataques ao Supremo pela concentração nas Esplanada dos Ministérios. No final da manifestação em Brasília, Bolsonaro anunciou que no final da tarde estaria presente na concentração da Avenida Paulista. Os bolsonaristas, no fundo impulsionador pelo presidente da República, partiram para o desfecho de força, cujos resultado vai depender da disposição do Exército comandado pelo general Paulo Sérgio Nogueira.
LIMITE – Na edição de ontem, terça-feira, de O Globo, Merval Pereira e Miriam Leitão destacaram que Bolsonaro situou-se numa posição limite, a meu ver, entre a lei e a ordem, revelando preferindo a estrada da desordem. Com um brilhante comentário feito na GloboNews no início da tarde, Miriam Leitão destacou que agora Bolsonaro não tem mais caminho de volta, uma vez que na realidade investiu contra o texto constitucional, lei maior do país.
Na minha opinião não é possível que um presidente da República compactue com iniciativas voltadas para fechar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso, sem que tal alinhamento subversivo não possa acrescentar-lhe reflexos na mesma proporção e no mesmo limite dos atos que adotou.
O IMPERADOR – Marianna Holanda e Ricardo Della Coletta, Folha de S. Paulo, destacam a ultrapassagem da sociedade brasileira por parte de um presidente da República que deveria estar preocupado com o desemprego, com a queda do consumo de alimentos, com a pandemia, com a vacinação, com a subida a taxa inflacionária, mas que não está ligando para nenhum desses graves problemas e deseja apenas tornar-se imperador e perpetuar-se no poder, sem levar em conta sequer com o fato de que um golpe militar acabaria com os mandatos dos integrantes do Centrão, incluindo os parlamentares que o apoiam.
O golpe militar, como aconteceu com o Ato Institucional nº 5, acarretaria o fechamento do Poder Legislativo e também afetaria a liberdade individual dos brasileiros e brasileiras. Bolsonaro, na minha impressão, além do impulso para o golpe, perdeu também completamente a noção sobre os limites da lógica e da política que, como dizia Juraci Magalhães, é também a arte do impossível. Para mim é impossível que o Exército se encontre ao lado de Jair Bolsonaro em sua alucinada investida para achar o caminho que o salve da derrota em 2022.
FAKE NEWS – O presidente Jair Bolsonaro, na tarde de segunda-feira, editou Medida Provisória dificultando a retirada de textos das redes sociais da internet. Mais uma iniciativa absurda do homem que deveria presidir o Brasil, pois para isso foi eleito nas urnas de 2018. Por exemplo, não tem sentido dificultar a retirada de uma proposta que os jornais de ontem tornaram pública em que duas pessoas oferecem pagamento em dinheiro para quem atacar fisicamente o ministro Alexandre de Moraes. Como é possível defender uma coisa dessas?
Trata-se de um caso doentio e de alucinação. Isso de um lado. De outro, se as fake news influenciassem a favor de Bolsonaro, o seu governo não teria sido considerado entre ruim e péssimo por 54% da opinião pública, como revelou o Datafolha. Se as fake news influenciassem na posição eleitoral do presidente para 2022, ele não estaria com 25 pontos a seu favor contra 46 pontos dos que se dispõem a votar em Lula contra ele.
São fatos concretos os que estou citando e que provam que as fake news podem levar a desfechos dramáticos como foi o caso de um jovem acusado de estupro e assassinato, mas que não participou nem de uma coisa e nem de outra, embora a sua imagem pessoal tenha sido exibida nas telas eletrônicas. São casos isolados, dramáticos, capazes de criar situações absurdas, mas, sob o ângulo coletivo, a mentira jamais se tornará verdade, ainda que repetida por mil vezes, conforme disse o repugnante nazista Joseph Goebbels , cuja imagem resiste tragicamente como modelo junto aos extremistas da direita de hoje que são os herdeiros da tragédia do nazifascismo do passado.
FLAMBOYANTS DE PAQUETÁ – O presidente do IBGE, Eduardo Rios Neto, reportagem de Carolina Nalin, O Globo, explica a importância da Ilha de Paquetá, cenários dos flamboyants da bela canção de Braguinha e Alberto Ribeiro, escolhida como ponto de partida para a realização do censo de 2022. A meu ver não faz sentido. Isso porque a Ilha de Paquetá é uma área de classe média, cujo poder aquisitivo encontra-se ao nível do poder aquisitivo dos moradores da Tijuca.
Não serve como síntese da realidade nacional e a sua colocação como base da pesquisa pode conduzir a equívocos essenciais. Basta comparar a Ilha de Paquetá, onde só se vai de lancha, com as favelas da Maré do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio. Basta também levar-se em conta que a metade da população brasileira não conta com saneamento básico, rede de esgotos e água potável.
Basta ainda examinar, como mostram os filmes das manhãs da TV Globo, os becos das favelas, cenários de conflitos de sangue, colocando em confronto policiais, traficantes e milicianos. Em Paquetá, acrescentaram Braguinha e Alberto Ribeiro em 1948, a lua cheia ilumina e embala casais de namorados. Paquetá parece ser um paraíso que escapou às ações do crime organizado e desorganizado que tomam conta da Cidade do Rio de Janeiro.





