Publicado em 19 de junho de 2025 por Tribuna da Internet

Se Mauro Cid mentiu, a situação se complicará para ele
Jussara Soares
da CNN
A acareação do tenente-coronel Mauro Cid com o general Walter Braga Netto, marcada para próxima terça-feira (24), é considerada por militares e aliados o pior momento para o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL) ao longo do processo que apura uma tentativa de golpe de Estado no país.
O tenente-coronel, que tem um acordo de colaboração premiada, ficará frente-a-frente com o general de quatro estrelas e ex-ministro da Defesa.
CARA A CARA – Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, Braga Netto, preso em uma unidade do Exército no Rio de Janeiro, terá que ir pessoalmente a Brasília para a acareação. No interrogatório no início de junho, o general participou por videoconferência.
Agora, Cid terá de sustentar, diante de um superior hierárquico, o que disse na delação e repetiu no interrogatório: que Braga Netto era o elo entre Bolsonaro e movimentos golpistas e que recebeu do general dinheiro, em uma sacola de vinho, no Palácio do Alvorada.
A ideia, segundo Cid, era que o montante fosse entregue a militares que tramavam um plano para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Braga Netto nega a versão de Cid e diz que o ex-ajudante de ordens mente.
PRESSÃO EXTRA – A avaliação entre militares é que a “hierarquia e disciplina” do Exército possa exercer uma pressão extra em Mauro Cid, como também poderá ser usada por Braga Netto para desestabilizar o tenente-coronel durante o confronto de versões. Para integrantes da Força, aliás, é nisso que o ex-ministro aposta para desqualificar a delação.
O general conhece Cid desde criança, pela amizade com o pai do tenente-coronel, o também general Mauro Lourena Cid.
O ex-ministro da Defesa foi preso em dezembro de 2024 por tentativa de obstruir a investigação da trama golpista através de contato com familiares do delator.
PIOR MOMENTO – Para pessoas próximas, o confronto com Braga Netto é pior do que quando Cid, em março de 2024, teve de explicar ao STF o vazamento de um áudio em que criticava a investigação e saiu da audiência preso. O tenente-coronel passou mal na ocasião.
Aliados também avaliam que o momento será ainda mais tenso do que quando, em novembro de 2024, Cid depôs diretamente ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, para esclarecer omissões e contradições apontadas pela Polícia Federal. Foi neste depoimento que o tenente-coronel mais implicou o general. Braga Netto foi preso dias depois.
Durante o interrogatório no início de junho, Mauro Cid, que era considerado um militar em ascensão na Força, prestou continência aos generais Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional; e a Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa e ex-comandante do Exército – também réus por tentativa de golpe. O clima, na ocasião, foi ameno. Com Braga Netto, a expectativa é de que não haverá espaço para cordialidades.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Vai ficando cada vez mais claro que Mauro Cid desde o início apoiava a conspiração. Depois que foram identificadas as contradições em seus depoimentos, o tenente-coronel se desesperou e passou a fazer acusações sem a menor base, só para agradar Moraes, como dizer que Alexandre Ramagem era um dos líderes. Como isso poderia ser verdade, nos meses finais de 2022, se desde abril daquele ano Ramagem estava morando no Rio, fazendo campanha como candidato a deputado? Como ele poderia integrar o núcleo 1, estando a mais de mil quilômetros de distância? É acusação que não se sustenta, pois não tem lógica. (C.N.)