Uma Andorinha Só Pode Acordar o Bando Todo
A clássica frase de Aristóteles, "uma andorinha só não faz verão", é um dos ditados mais conhecidos para ilustrar que um ato isolado não define o caráter de alguém. No Brasil, essa sabedoria antiga ganhou um novo contorno, sendo frequentemente empregada para criticar a crença de que ações individuais podem, sozinhas, resolver problemas estruturais e sistêmicos, como a corrupção enraizada. A percepção é que a corrupção é um monstro de múltiplas cabeças, exigindo um esforço coordenado e coletivo para ser combatida, e não apenas o esforço isolado de alguns poucos.
No entanto, ao assistir à audiência no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta sexta-feira, sobre as emendas impositivas que estão sob análise judicial, e ao ouvir as falas de cidadãos que, apesar de parecerem uma espécie em extinção, ainda são cultos e honestos, uma nova perspectiva me tocou. A andorinha solitária pode até não fazer o verão, mas ela pode ter o poder de acordar o bando todo.
O que se viu naquelas sessões foi a reverberação de vozes isoladas, sim, mas que estão, pouco a pouco, despertando a consciência de um gigante adormecido: o povo brasileiro. O debate em torno das emendas impositivas, que supostamente beneficiam um grupo seleto de políticos em detrimento da população trabalhadora, expõe uma falha sistêmica que muitos preferiam ignorar. A corrupção não é apenas um problema de desvio de dinheiro; é uma doença que mina a confiança nas instituições, na política e, por fim, na própria democracia.
Aquelas "poucas andorinhas", que se manifestam e questionam o status quo, estão cumprindo um papel fundamental. Elas não estão sozinhas. A cada denúncia, a cada ação judicial, a cada debate público, uma semente de indignação e de esperança é plantada. E é essa indignação que move o gigante adormecido. A descrença, a apatia e a resignação, que por tanto tempo foram combustíveis para a corrupção prosperar, estão sendo desafiadas.
O verão da mudança, da ética e da transparência pode não chegar com a chegada de uma única andorinha, mas o canto insistente dela é o que fará o bando inteiro alçar voo. É a ação coletiva que virá em seguida, impulsionada pelo exemplo e pela coragem de alguns, que finalmente trará a verdadeira transformação.
A corrupção não será derrotada por um único herói, mas pela força de um povo que se recusa a ser calado. E o que vimos nesta sexta-feira no STF não foi apenas uma audiência, mas o canto de uma andorinha que, com sua voz, começou a acordar o Brasil. O verão está longe, mas o bando já começa a se agitar. E essa é a melhor notícia que se pode ter.