
Ilustração de Heloísa Seixas (Folha)
Ruy Castro
Por algum motivo – por que será? –, os EUA estão vivendo uma epidemia de livros sobre o fim do mundo. Não que o dito fim seja uma total novidade. Os últimos 200 anos têm sido pródigos em prognósticos, análises, romances, contos, poemas, peças de teatro, filmes e, agora, séries sobre o assunto.
Neles, o mundo já explodiu, derreteu, congelou, inundou, chocou-se contra outros mundos ou foi destruído por guerras nucleares, bactérias traiçoeiras, dinossauros gigantes e marcianos invejosos, esses os meus favoritos.
BASE CIENTÍFICA -Mas, nos últimos tempos, as previsões catastrofistas parecem ter mais base na ciência. Ainda não se chegou a um acordo sobre a data do infausto acontecimento – daqui a 3 bilhões de anos ou no ano que vem –, embora essa cronometragem esteja sendo feita pelo Relógio do Juízo Final, um contador simbólico controlado pelos cientistas atômicos da Universidade de Chicago.
Até a semana passada, estávamos, segundo eles, a 1 minuto e meio da meia-noite, considerada a hora final. Agora, com Trump pilotando as carrapetas, o ponteiro deve ter dado um salto.
Os fundamentalistas, com suas informações de cocheira, parecem saber o dia e hora do Apocalipse, embora não arrisquem dizer como será o day after.
LOCAL DO BREJO – A grande questão, no entanto, talvez já não seja como ou quando, mas onde a vida irá de vez para o brejo – ou seja, a localização do brejo. Neste momento, os favoritos são Teerã e Tel-Aviv, suplantando Kiev e Moscou, na ponta até outro dia. Mas Washington também não deve ser descartada. E, por outros motivos, temos a Groenlândia e a Amazônia como apostas seguras, embora a médio prazo.
O planeta nunca esteve em falta de profetas pregando o seu fim, mas, com tudo isso, ainda estamos aqui. E talvez a grande pergunta seja: para quê? Para ver voltar o discurso fascista, a nostalgia da ditadura, as tentativas de golpe?
O fato de que o fim do mundo não provocará nem um infinitesimal chilique no Universo deveria nos fazer suspeitar de que, no fundo, não se perderá grande coisa.