
Charge do Tacho (Arquivo Google)
Carlos Newton
Demorei um bocado a acreditar em Deus, mas sou totalmente descrente em relação aos fatos terrenos. Acreditar em pesquisa eleitoral, por exemplo, só pode ser Piada do Ano. O mais curioso é constatar como a chamada grande imprensa dedica gigantesco espaço a esse tipo de falcatrua. E os maiores portais, sites e blogs, que atraem milhões de leitores na web, também abrem manchetes para essas bobagens.
Antes de prosseguir, um esclarecimento. Não acreditar nas pesquisas eleitores não significa desprezar a Estatística, que é uma ciência social muito próxima das ciências exatas, como Física, Química e Matemática, por exemplo.
MANIPULAÇÃO – O que não se consegue suportar é a clamorosa manipulação das informações, realizada pelos autodenominados “institutos de pesquisas”, que nada têm de institucional, não sofrem qualquer tipo de fiscalização (pública ou privada) e estão absolutamente livres para agir como o coronel Brilhante Ustra e torturar os números até que eles confessem os resultados que o patrocinador pretende.
Acredita-se, porém, que já houve época em que as pesquisas eleitorais eram mais confiáveis. O instituto pioneiro, em 1942, foi o famoso Ibope, criado em São Paulo pelos radialistas e publicitários Auricélio Penteado e Arnaldo da Rocha e Silva, que depois veio a ser um dos fundadores da Escola Superior de Propaganda e Marketing.
Em 1977, Paulo de Tarso Montenegro assumiu a presidência do Ibope e realizou as primeiras pesquisas de boca de urna, antecipando com extrema precisão o resultado das disputas eleitorais, no final dos anos 70. Mas era um negócio como outro, que apenas visava ao lucro, e assim foram surgindo as manipulações.
FALANDO CLARO – Para ser realista, esse tipo de pesquisa em fase de pré-candidaturas não vale um tostão furado. Poucas perguntas interessam e devem ser feitas. As demais são apenas embromação, como especular quem ganha no segundo turno.
A primeira – e principal – pergunta é esta: “Em quem você pretende votar?”. Chamada de pesquisa espontânea, é a única que tem realmente valor, porque indica também quantos estão indecisos ou não aceitam eleger ninguém, preferem se abster, votar branco ou nulo.
Mas os “institutos” divulgam sempre a pesquisa estimulada, na qual é a apresentada ao eleitor uma suposta lista de candidatos, elencados na ordem que favoreça o patrocinador, porque o primeiro nome da lista é sempre mais suscetível de ser citado,
UM BOM EXEMPLO – Assim, vejamos o que diz a pesquisa paga pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), sabe-se lá por que motivo. Divulgada nesta terça-feira, dia 10, mostra que o ex-presidente Lula da Silva (PT) mantém a liderança com 40,6%, Jair Bolsonaro (PL) segue em segundo lugar, com 32%, e Ciro Gomes tem apenas 7,1% das intenções de voto.
Ou seja, a pesquisa pretende nos convencer que os 10% de Sérgio Moro simplesmente desapareceram, sumiram, saíram pelo ladrão, como se dizia antigamente. Sabe-se que o eleitor de Moro de forma alguma aceita votar em Lula ou Bolsonaro. Mesmo assim, a pesquisa diz que Ciro Gomes não ganhou um mísero voto dos ex-moristas…
E também não aumentou o número de indecisos. Acham que acreditaremos serem apenas 7%, com brancos e nulos em 5,1%. Bem, e aquela expressiva maioria silenciosa, que não vota em Lula ou Bolsonaro, de jeito algum? Será que sumiu do mapa junto com os eleitores de Moro? É um mistério digno de Conan Doyle.
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P.S. – Se ainda estivesse entre nós, o Padre Oscar Quevedo resumiria a questão dizendo: “Isso non ecziste!”. O Barão de Itararé acrescentaria: “Era só o que faltava!”. O jornalista Helio Fernandes daria sua famosa gargalhada gráfica: “Ha-ha-há!”. O humorista Bussunda exigiria: “Fala sério!”. E assim la nave va, cada vez mais fellinianamente. (C.N.)