segunda-feira, janeiro 17, 2022

“Lula não precisa de muleta, e Alckmin é contradição a tudo o que PT fez”, diz Rui Falcão

Publicado em 17 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

O presidente do PT, Rui Falcão Foto: Michel Filho - 27/10/2014 / Agência O Globo

Rui Falcão luta para evitar que Alckmin seja vice de Lula

Ranier Bragon
Folha

O deputado federal Rui Falcão, 78, principal nome dentro do PT a falar contra a articulação para que Geraldo Alckmin (sem partido) seja o vice na chapa de Lula, afirma que o ex-tucano representa uma contradição a tudo o que o partido fez e quer fazer. “Lula não precisa de uma muleta eleitoral”, diz o ex-presidente do PT, que ressalta não falar em nome do partido.

Falcão, que coordenou as campanhas de Lula em 1994 e de Dilma Rousseff em 2014, defende um programa emergencial de combate à fome, desemprego e inflação, com ampliação do investimento do estado. E diz ver com bons olhos Lula defender a revogação de pontos da reforma trabalhista. “As prioridades não podem ser determinadas pela Faria Lima.”

Qual programa o sr. defende que o PT adote?
As declarações do Lula e da Gleisi [Hoffmann, presidente do PT] sobre mudar a legislação trabalhista dão um bom tom para o programa porque colocam na ordem do dia a classe trabalhadora. A ideia do Lula de que ia colocar o povo no orçamento muda agora para colocar a classe trabalhadora no centro do programa de governo dele. E aí vêm algumas prioridades. Primeiro, e emergencial, o combate à fome, miséria, desemprego, carestia. Depois, o crescimento econômico. É vital ter investimento público, retomar o papel do estado para que possa gerar demanda e oferta. Por exemplo, a indústria caiu 20% em 10 anos. E a indústria gera mais e melhores empregos. O BNDES, que foi reduzido a um terço do seu tamanho, é, seguramente, o banco público que pode estimular o investimento. Essas prioridades não podem ser determinadas pela Faria Lima. Então, essa declaração de colocar a reforma trabalhista no centro do programa, que já suscitou melindres da parte do ex-governador Alckmin, já dá um indício de que essa aliança não é conveniente.

Por que o sr. é contra Alckmin ser o vice de Lula?
Primeiro porque temos um programa de reconstrução e transformação do país, como a Fundação Perseu Abramo [órgão de estudos do partido] vem trabalhando. Segundo, o Alckmin é a contradição a tudo isso que fizemos e pretendemos fazer. Terceiro, dá uma sinalização muito negativa para uma campanha que tem que ser aguerrida, mobilizada e com a construção de comitês de defesa da eleição do Lula que permaneçam depois como comitês de apoio do programa de transformação.  Além do retrospecto das políticas que realizou como governador de São Paulo, do apoio ao impeachment e de suas posições ultraconservadoras, a sua primeira manifestação envolvendo o programa foi se insurgir contra a reforma trabalhista. Da mesma maneira como reagiram os corifeus da Faria Lima e os economistas conservadores.

Há espaço para um governo do PT que não faça alianças ao centro e até com partidos de direita? Isso depende ainda das decisões do diretório ou do encontro nacional, mas, na minha opinião, nós temos que ter uma política de alianças centrada nos partidos do campo democrático e popular, que pode se expandir. Ter um programa que atraia eventualmente outros setores além da esquerda, mas não rebaixá-lo para ser aceito pelo centro e pela Faria Lima.

Em 2002, Lula teve como vice o empresário José Alencar, do PL. Por que não pode ter, hoje, Alckmin?
Ninguém aferiu até hoje se a presença do Zé Alencar e a carta aos brasileiros [destinada a acalmar os mercados] foram as responsáveis pela vitória do Lula. O Fernando Henrique já vinha com oito anos de governo, desgastado, com crise em andamento. Na época se dizia que o Lula não tinha experiência e não era confiável porque ia quebrar contratos. Hoje o Lula tem uma reputação real de estadista. Todas as pesquisas, inclusive as do Datafolha, consideram que ele foi o melhor presidente. Então, ele não precisa de uma muleta eleitoral, como seria a presença do Alckmin. Isso não significa repelir alianças e apoio, inclusive de pessoas como ele. Foi importante, por exemplo, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha dito que, depois de ter votado nulo ou em branco em 2018, esteja disposto a votar no Lula se o segundo turno for entre Lula e Bolsonaro. Isso não significa que vamos, para ter esse apoio, modular nosso programa.

Como ter governabilidade se a ideia é não modular o programa para atrair apoio fora da esquerda?
Temos tido experiências recentes, como no Chile, Honduras, Peru e, potencialmente, na Colômbia, de que a população, diante da crise, que é brutal, quer solução urgente para os seus problemas. E as políticas neoliberais, que vêm sendo praticadas no Brasil, estão sendo superadas no mundo todo. Fala-se, “você quer emprego ou quer direito?”. As pessoas querem as duas coisas.

O sr. já expôs ao Lula suas opiniões sobre a aliança com Alckmin?
O Lula disse que quem vai decidir isso é o PT. São legítimas as opiniões que defendem a aliança com o Alckmin, como as contrárias. Na passagem do ano eu disse a ele: “Queria te avisar que assinei um abaixo-assinado [contra Alckmin na chapa], inclusive porque você falou que quem iria decidir seria o PT”. Ele disse que tudo bem.

Nesse caso do Alckmin, vocês não são minoria dentro do partido?
Eu vi uma manifestação do Luiz Marinho [ex-prefeito de São Bernardo do Campo e presidente do PT-SP] de tempos atrás, dizendo que era contra. A [deputada estadual] Bebel, que é presidente da Apeoesp, o sindicato dos professores, deu declaração dizendo que nessas condições não queria nem ser candidata. Depois sumiu. Pelo que tem saído, provavelmente a gente seja minoria, talvez. Mas por que as pessoas procuraram minimizar as declarações do Alckmin? Porque sabem que esse tipo de declaração ajuda a mudar de lado. E se a gente priorizar esse debate de programa, dependendo do que ele falar, as resistências podem aumentar.

O sr. já disse que a campanha de 2022 não será um repeteco da de 2002. Por quê?
A nossa disposição é fazer uma campanha com debate de ideia. Agora, a disposição da direita é outra. É um clima de confronto. O Bolsonaro disse: “Só saio daqui morto”. As pessoas temem que se repita o episódio do Capitólio [a invasão do Congresso norte-americano por trumpistas]. Não adianta você ir com paz e amor e o cara vir com fel, com sal e com tiro.

O sr. acha que algum nome da chamada terceira via tem alguma chance?
O Bolsonaro não baixou ainda ao nível que permita alguém tomar o lugar dele. Há uma pulverização. Aquele que foi apontado como mais indicado para a chamada terceira via, o Sergio Moro, não consegue decolar. É aquela história: trocar alguém da direita, como o Bolsonaro, por outro que não tem o mesmo vigor, impacto, é melhor ficar com o original do que com o carbono.

O sr. é a favor que o PT faça federações com outros partidos de esquerda?
A federação tem questões práticas difíceis de serem resolvidas. Eu acho mais conveniente fazer um pacto eleitoral com esses partidos, de participação futura no governo.

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