
Lula lidera pesquisas e diz que maioria rejeita autoritarismo
Pedro do Coutto
Numa resposta tão indireta quanto direta ao presidente Jair Bolsonaro, o ex-presidente Lula colocou na tarde de sábado nas redes sociais da internet que a população do país rejeita o autoritarismo e que todo mundo terá que respeitar os resultados das eleições de 2022.
A matéria está na edição de domingo da Folha de S.Paulo. A declaração sucede afirmações do presidente Jair Bolsonaro publicadas na mesma Folha de S. Paulo no sábado atacando novamente os ministros do Supremo Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moares e também voltando a levantar dúvidas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas, posição que assumira há alguns meses mas que deixara de lado na fase final de 2021 a partir do momento em que o Exército passou a participar do sistema de apuração dos votos no país.
LACERDISMO – As declarações a favor do respeito às urnas remete ao passado, especialmente às eleições de 1955 vencidas por Juscelino Kubitschek. Na ocasião o deputado Carlos Lacerda, que elegeu-se governador da Guanabara, comandou forte campanha com programas diários em emissoras de rádio contra a posse dos eleitos JK e seu vice João Goulart. Penso que o lacerdismo foi um vírus inoculado contra a democracia, uma vez que Lacerda cada vez que perdia uma disputa eleitoral voltava-se contra a posse do vencedor ou dos vencedores.
O vírus parece manter o seu ciclo como comprovam os episódios que contaram com a sua presença no primeiro plano dos embates políticos. Em 1950, foi contra a posse de Getúlio Vargas, Em 1955, contra a posse de Juscelino Kubitschek. Em 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, empenhou-se contra a posse de João Goulart. Finalmente, em 1965, quando o seu candidato ao governo da Guanabara , Flexa Ribeiro, foi derrotado por Negrão de Lima.
Negrão talvez não poderia tomar posse e se recusou a transmitir o cargo de governador. Agora o ex-presidente Lula da Silva pronunciou-se contra o vírus do lacerdismo, de acordo com reportagem de Igor Gielow, Folha de S. Paulo, quando militares afastam-se de Bolsonaro e sinalizam a aceitação, como é próprio da democracia, da posse do vitorioso nas urnas para o Palácio do Planalto.
ESTADO NOVO – Os exemplos ficam na história e não foi só Lacerda que se voltou contra o regime democrático. Há o exemplo de Getúlio Vargas que em novembro de 1937 fechou o Congresso Nacional caçando o mandato de senadores e deputados e implantou o Estado Novo, uma ditadura que só acabou oito anos depois, em 1945. O caminho das urnas, portanto, não é das etapas mais fáceis no Brasil.
E até nos Estados Unidos houve a tentativa de janeiro de 2021 quando correntes vinculadas ao ex-presidente Donald Trump invadiram o Capitólio em Washington e tentaram impedir a confirmação pelo Congresso da incontestável vitória de Joe Biden nas eleições de novembro de 2020. A democracia, na opinião de um antigo político brasileiro, Otávio Mangabeira, é uma planta que tem que ser regada diariamente.
DIAGNÓSTICO – Reportagem de Isabela Palhares e Cláudia Collucci, Folha de São Paulo, revela, com base em pesquisa do Datafolha que 42 milhões de pessoas com mais de 16 anos receberam diagnóstico que apontou terem contraído Covid-19. As cifras oficiais fornecidas ao consórcio de imprensa formado pelo O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. paulo, Valor e o canal Uol, assinalam praticamente a metade apontando uma contaminação na ordem de 23 milhões de homens e mulheres.
A diferença é muito grande, mas acredito que não influencie na vacinação que é altamente popular. Tanto assim que passa de 165 milhões de pessoas, correspondendo a 65% da população. Mas observa-se com base na pesquisa do Datafolha que há uma dificuldade de se obter teste que revele a contaminação. Tanto que apenas 17% conseguiram realizá-lo. Uma parte porque não encontrou local. Outra, acredito, por falta de recursos financeiros para poder realizá-lo e pela dificuldade de atendimento na rede pública.
De qualquer forma, a vacinação, como se observa pelos números, é altamente popular e com isso a posição negacionista do governo Bolsonaro só pode contribuir para a perda de votos nas próximas eleições. Duas reportagens da Folha de S. Paulo focalizam nitidamente a dimensão da pandemia e o fato das estatísticas oficiais ficarem aquém dos números revelados pelo Datafolha.
RENDA MÉDIA – Reportagem de Fernanda Trisotto, O Globo de domingo, a partir de um levantamento do centro de liderança pública mostra que exceto os integrantes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária e dos militares, a renda média ao longo dos últimos dez anos encolheu 5%.
No Poder Judiciário a queda foi de 11%, incluindo, portanto , os ministros do STF e do STJ. Fernanda Trisotto focaliza o aspecto do reflexo político na queda do poder aquisitivo, uma vez, acrescento, que os salários estão congelados, mas os preços liberados a começar pelos da gasolina, óleo diesel e etanol.
São dois pesos e duas medidas. Por este aspecto, segundo acentua Lauro Jardim em seu espaço no O Globo, a negativa de Paulo Guedes em aceitar o aumento de salários do funcionalismo federal está irritando o presidente Jair Bolsonaro.