Publicado em 19 de maio de 2021 por Tribuna da Internet

Pazuello chega à CPI, protegido por seus assessores
Alessandra Monnerat, Pedro Prata, Samuel Lima e Victor Pereira
Estadão
Durante depoimento na CPI da Covid, na manhã desta quarta-feira, dia 19,o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, fez ao menos sete alegações enganosas sobre sua gestão no combate à pandemia de covid-19, em sua fala inicial e ao responder às perguntas dos senadores. Veja abaixo a checagem do Estadão Verifica.
“Hoje chegaremos a 100 milhões de vacinas disponibilizadas”.
Dados do Ministério da Saúde atualizados na noite desta terça-feira, 18, indicam que cerca de 90,7 milhões de doses de vacinas de covid foram distribuídas no País. O site Localiza SUS informa que, até o momento, aproximadamente 54 milhões de injeções foram aplicadas. Deste total 36,7 milhões consistem na primeira dose de imunizantes. Não é possível prever quantas doses serão disponibilizadas hoje, mas a maior distribuição de doses até agora envolveu 8,1 milhões de unidades, em 31 de março.
“Atingimos a marca de 66 mil processamentos de testes por dia em abril de 2021. Hoje temos registrado no sistema gerenciador de ambiente laboratorial 46 milhões de resultados, representando 23% da nossa população testada”.
Os dados do painel LocalizaSUS mostram que o Ministério da Saúde distribuiu 31,49 milhões de testes de covid-19. Destes, 19,84 milhões (63%) eram testes PCR, mais indicado para o diagnóstico porque detecta o vírus ativo no organismo, e 11,65 milhões (37%) eram testes rápidos. O valor total foi de R$ 984.185.253,10.
A Portaria 1.792, de 17 de julho de 2020, determinou a obrigatoriedade de notificação ao Ministério da Saúde de todos os resultados de testes de diagnóstico para SARS-CoV-2, sejam eles positivos, negativos ou inconclusivos.
Em documento enviado ao Ministério Público Federal e compartilhado com a CPI da Covid, o Ministério da Saúde admitiu o risco de perda de 2,3 milhões de testes PCR pelo fim do prazo da validade. No documento, o ministério disse que a capacidade de testagem laboratorial instalada é de 1,5 milhão de testes por mês, média diária de 55 mil testes.
“Ainda em dezembro, antecipando-me aos fatos do Estado do Amazonas, tomei a decisão de destacar uma equipe do Ministério da Saúde para avaliar a gravidade. Decidi deslocar o gabinete do ministro juntamente com todos os secretários de saúde para prestarmos todo o auxílio a Manaus”.
Segundo relatório do Ministério da Saúde, Pazuello decidiu pelo envio de uma comitiva de avaliação em 28 de dezembro, mas a chegada em Manaus e a primeira reunião com o governo do Amazonas ocorreram apenas em 4 de janeiro. No dia anterior, a capital amazonense havia batido o recorde de hospitalizações por covid-19 em um único dia, com 159 novos casos.
O Ministério Público Federal acusou Pazuello de ter se omitido na crise. Além da demora no agendamento da primeira viagem, o governo estava ciente sobre as dificuldades no abastecimento de oxigênio desde o dia 8 de janeiro. O colapso ocorreu em 14 de janeiro, quando o estoque acabou em uma série de hospitais de Manaus e pacientes de covid-19 morreram asfixiados.
Nesse meio tempo, a equipe do Ministério da Saúde visitou várias UBS para defender a adoção do chamado “tratamento precoce”, que não teve a eficácia comprovada e não é recomendado pelos principais órgãos de referência mundiais em saúde. Segundo o MPF, a ordem para transferência de pacientes para outros Estados também teria sido tomada somente após o colapso da falta de oxigênio.
O dado está correto quando considerados apenas os números absolutos. De acordo com a plataforma Our World in Data, o Brasil é a quinta nação que mais aplicou doses de vacinas de covid no mundo. Com mais de 54 milhões de aplicações, o País figura atrás da China (435 milhões), Estados Unidos (275 milhões), Índia (185 milhões) e Reino Unido (57 milhões). Na proporção de doses aplicadas por 100 mil habitantes, no entanto, o Brasil está em 85º lugar.
“Em nenhum momento o presidente da República me desautorizou ou me orientou a fazer diferente qualquer coisa que eu estava fazendo.”
Em 20 de outubro de 2020, o Ministério da Saúde assinou um protocolo de intenções com o Butantan para adquirir 46 milhões de doses da Coronavac. Apesar disso, no dia seguinte, Bolsonaro escreveu em suas redes sociais que “o povo não será cobaia de ninguém” e que “minha decisão é de não adquirir a referida vacina“.
De fato, ele chegou a afirmar que teria “cancelado” a intenção de compra. Na ocasião, Pazuello gravou um vídeo ao lado do presidente no qual disse que “Um manda, o outro obedece“.
O general Pazuello disse à CPI que nunca recebeu a ordem para cancelar a carta de intenção e que isso não teria sido formalizado. Segundo ele, Bolsonaro falou aquilo “apenas nas redes sociais”.
“O Brasil usa cloroquina há 70 anos. A cloroquina é um antiviral e anti-inflamatório conhecido. É o que me é trazido, não sou médico. Em 2016, na crise do zika vírus, ela foi utilizada, e foi colocada como protocolo pelo Ministério da Saúde. Na crise da chikungunya, em 2017, o Ministério da Saúde criou protocolos para uso da cloroquina, em altas doses”.
A cloroquina não é um antiviral. Ela é usada, assim como o seu derivado hidroxicloroquina, para o tratamento de malária e amebíase hepática, doenças causadas por protozoários, e de lúpus e artrite reumatoide, doenças autoimunes, além de algumas condições dermatológicas provocadas ou agravadas pela luz solar. As informações constam nas bulas dos medicamentos registradas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
De acordo com reportagem do UOL, a cloroquina chegou a ser testada em laboratório contra o zika e teve resultados positivos. No entanto, os resultados nunca foram replicados em humanos por falta de pacientes.
Nota técnica da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz aponta ainda que a cloroquina inibiu a replicação in vitro (ou seja, em células isoladas de laboratório) contra o vírus da chikungunya, assim como uma série de outros vírus, causadores de dengue, ebola, HIV e SARS, entre outros. “No entanto, nenhum estudo in vivo confirmou a eficácia da CQ (cloroquina) para o tratamento de qualquer uma dessas viroses, motivo pelo qual ela permanece utilizada, com a eficácia e segurança, apenas para o tratamento da malária”, aponta o documento.
Essa mesma situação é apontada em um artigo do Instituto Questão de Ciência. O Estadão Verifica mostrou em outras checagens que bons resultados in vitro não comprovam eficácia e segurança dos medicamentos, porque o corpo humano é um ambiente mais complexo do que o tubo de ensaio. Essa relação só pode ser comprovada por meio de ensaios clínicos amplos e com metodologias rigorosas, que permitam estabelecer uma relação de causalidade entre o uso do medicamento e o efeito observado.
“Documento elaborado pelo Ministério da Saúde, em 2017, recomenda a utilização de cloroquina e hidroxicloroquina contra a Chikungunya para o tratamento da fase crônica da doença, como alega o ministro. No entanto, a publicação deixa claro que as evidências eram frágeis e iniciais e aponta o risco de efeitos colaterais, principalmente com o uso contínuo do remédio”.
“Há um número limitado de publicações relativas a uso de drogas na fase crônica da chikungunya, com trabalhos com pequeno número de pacientes, utilizando diferentes metodologias, que não permite no momento tirar conclusões de eficácia de drogas, ou avaliar superioridade entre as diferentes terapias”, mostra o documento.
No contexto da covid-19, a cloroquina e a hidroxicloroquina novamente demonstraram uma possível atividade antiviral in vitro contra o SARS-CoV-2. Porém, esse potencial foi descartado em testes posteriores em humanos, feitos com milhares de voluntários, revisados e publicados em revistas científicas de peso, como o Recovery (do governo do Reino Unido), o Solidarity (da Organização Mundial da Saúde) e a Coalizão Covid-19 Brasil.
Por conta disso, órgãos de referência como a OMS, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) contraindicam o uso desde meados de 2020.
“Ao longo da pandemia, começaram a ver que (a cloroquina) estava sendo usada em vários países. 29 países têm hoje protocolo de uso de cloroquina. Países como China, Coreia do Sul e Cuba. Para covid. Protocolo de uso para covid. A Índia tem, México, República Techa e outros 29 países”.
O Estadão Verifica não encontrou uma lista de 29 países que usem a cloroquina como protocolo de saúde pública contra covid-19 atualmente. No entanto, ao menos três nações citadas pelo ex-ministro da Saúde não recomendam mais o medicamento contra o novo coronavírus.
Em protocolo de agosto de 2020, o Ministério da Saúde Pública do México informou que não recomenda o uso de cloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada.
Na Índia, o protocolo de manejo clínico da covid-19 atualizado em maio de 2021 não inclui a cloroquina. Medicamentos off-label citados incluem remdesivir e tocilizumab.
A Coreia do Sul chegou a recomendar o uso de cloroquina contra covid-19 em agosto de 2020, mas revisou o protocolo clínico, que atualmente contém contraindicação para uso do medicamento.