quinta-feira, maio 20, 2021

Enquanto o Centrão domina a cena, Bolsonaro nem percebe que governa por procuração

Publicado em 20 de maio de 2021 por Tribuna da Internet

Bolsonaro como 'boneco' do Centrão

Charge do J. Bosco (O Liberal)

Antonio Machado
Correio Braziliense

Não há um único evento ou responsável solitário pelo atoleiro em que se enfiou o Brasil. Do desgoverno da pandemia à economia empacada sem criar empregos nem gerar renda alinhada ao ritmo demográfico, sem acompanhar as transformações tecnológicas e modelos de gestão e de negócios que lhe são inerentes — tudo isso vem de longe.

O presidente Jair Bolsonaro é a consequência da estagnação que já dura 40 anos, com tendência de regressão desde a grande crise global de 2008, assim como Lula fora em 2002, e poderá voltar a sê-lo em 2022, devido à incapacidade da coalizão reducionista que nos governa de reformar a governança do Estado e de pôr pilha no dinamismo empresarial.

NÃO TEM VOCAÇÃO – Dois equívocos estão claros, embora pouco compreendidos. Primeiro é o desconforto do governante com a faina administrativa, razão de estar sempre desviando a atenção sobre suas responsabilidades e apontando o dedo para inimigos. Tal estilo foi usado pelas lideranças experientes dos partidos que vivem de favores e de nacos de fundos públicos, que o transformaram na rara oportunidade de governar por procuração, dirigindo o que é mais caro ao governo: a execução orçamentária.

Como partidos despreocupados com a imagem que lhes tem o eleitor e com as sequelas de suas ações, o ônus dessa parceria soa leve: deixar aprovar a pauta revisionista do bolsonarismo, como compensação aos projetos dos setores mais atrasados da economia, tipo o desmonte da legislação ambiental, a permissão para a criminosa titularização de terras públicas invadidas na Amazônia, a vandalização de reservas indígenas pelo garimpo, simultaneamente a refazer sem discussão a revisão tributária.

REFORMAS DE RETROCESSO – Bolsonaro pode ter dúvidas sobre onde quer chegar, mas o Centrão que lhe deu sobreviva sabe bem o que pretende.

Já esvaziou o direito de expressão da minoria na Câmara, ao dificultar a prática da obstrução e do tempo de fala. E investe, agora, para mudar a legislação eleitoral a fim de facilitar a reeleição dos “parças” e a oligarquia política.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, abraçou também a “causa” do voto impresso, como quer Bolsonaro para, diz ele, impedir “fraude com as urnas eletrônicas”, que não seriam auditáveis. Mas isso é falso. O processo tem 25 anos e nunca se comprovou nada que o desabone. Se aprovado, implicará a volta do voto de cabresto e outros ardis.

FALSAS REFORMAS – Não são reformas, são retrocessos, sobretudo nas áreas ambiental e da governança pública, em claro conflito com o previsto nos acordos do clima e pelo chamado ESG, acrônimo em inglês de Environmental, Social and Governance — regras de boas práticas de gestão privada e governamental. Elas recebem a adesão crescente de grandes empresas e investidores internacionais.

Se o revisionismo for endossado pelo Congresso, o custo a ser pago pelo país será alto. A possibilidade que se apresenta é de o Senado (menos exposto ao “bolsolão” governista) conter os disparates.


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