Carlos Chagas
Não é o partido inteiro, com certeza, mas grupos do PT dão mostras de querer os bônus mas não os ônus de ser governo. Andaram preparando, no Rio, manifestação de protesto diante da visita de Barack Obama ao Brasil, hoje e amanhã. Ainda bem que a presidente Dilma Rousseff e alguns companheiros do ministério desautorizaram e até tomaram providências para calar esses novos aloprados. Seria bom mandar investigar quantos deles ocupam cargos de DAS e sucedâneos na administração federal.
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Barack Obama e o protecionismo ainda praticado pelos americanos não tem nada a ver com essa postura subdesenvolvida de parte do PT. A questão é de lógica: se o governo chefiado pelo partido recebe o presidente dos Estados Unidos com toda pompa e circunstância, se busca o apoio de Washington para incrementar trocas comerciais e prestígio internacional, como permitir que o visitante seja maltratado por liderados da presidente da República?�
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Durante o governo Dutra veio ao Brasil o secretário de Estado Dean Acheson. A capital era no Rio e ao passar pela avenida Beira-Mar, defronte à sede da União Nacional dos Estudantes, o americano incomodou-se com uma faixa erguida pelos jovens, com os dizeres “Fora o Cão Acheson”. Mais tarde, Juscelino era o presidente, Eisenhower nos visitava e um pano preto cobria toda a fachada do prédio. Quando Richard Nixon, vice-presidente, chegou, a embaixada dos Estados Unidos foi apedrejada, também no Rio.
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Vivíamos período de prevalência da política estudantil, não repetido com outros ilustres convidados, ainda que o general Ernesto Geisel tivesse manifestado sua idiossincrasia diante de Jimmy Carter ao proibir que os postes da Esplanada dos Ministérios ostentassem bandeiras americanas, como acontecia até com o ditador do Paraguai.
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Será que voltamos aos tempos do complexo de inferioridade latina, caso um monte de desocupados levantem faixas de repúdio durante algum trajeto de Barack Obama pela antiga capital ou mesmo por Brasília? E ainda mais pelas mãos de petistas, ávidos de ter suas fotografias distribuídas pela mídia do mundo inteiro?
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Se é para protestar contra a política ainda incômoda e dominadora dos Estados Unidos, e é, o foro mudou das ruas para os gabinetes do palácio do Planalto ou do Itamaraty. Com todo o respeito e até com sorrisos, ainda que com firmeza.
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PRAÇA DE GUERRA�
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Continuam Brasília e, especialmente, o Rio, transformados em praças de guerra. São mais de 200 agentes de segurança americanos espalhados pelas duas cidades, oriundos do Serviço Secreto, do FBI e da CIA. Todos fortemente armados, até com atiradores de elite ainda ontem empenhados em ocupar o alto de prédios da Cinelândia, onde Barack Obama deverá discursar amanhã, não propriamente para a multidão, impedida de circular, mas para convidados especiais. Prevenir sempre foi melhor do que remediar, mas, convenhamos, atentados a presidentes da República não fazem parte de nossa tradição, ao contrário da deles.
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UMA ÚNICA REFORMA
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Agosto ainda demora, mas os ex-alunos das Arcadas preparam-se para, no dia 11 daquele mês, marcarem a data com singular tomada de posição política. Vão oferecer ao país a sua contribuição para a reforma política, mas longe de um elenco de sugestões de mudanças nas instituições, apresentarão uma só: os poderes da União devem voltar a ser independentes, além de harmônicos.
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Advogados de renome, ex-ministros de tribunais superiores, professores eméritos, parlamentares, juristas e constitucionalistas já começam a reunir-se para elaborar a proposta. Para eles, a grande reforma na legislação precisa começar pela separação de poderes.
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Por exemplo: deputados e senadores, para se tornarem ministros do Executivo, precisariam renunciar aos mandatos. Da mesma forma, ao Executivo e ao Judiciário deveria ser proibido legislar. O Legislativo, de seu turno, estaria impedido de julgar. Pode ser um bom começo…
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NÃO GOSTOU E CANCELOU
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Busca-se a verdadeira razão de haver o ex-presidente Lula dado o dito pelo não dito e cancelado o encontro que teria, quinta-feira, com prefeitos do PT de todo o estado de São Paulo. A iniciativa da reunião parece haver sido dele, como forma de começar a preparar o partido para as eleições municipais do ano que vem, mas o cancelamento terá tido razões maiores do que o vazamento da iniciativa para a imprensa.
Há quem suponha alguns companheiros podendo aproveitar-se da oportunidade para sugerir a candidatura do Lula à prefeitura de São Paulo, hipótese que ele abomina e da qual nem quer ouvir falar. Certeza, mesmo, só se tem de que Brasília não interferiu um milímetro sequer na decisão de se deixar o encontro para as calendas.
Fonte: Tribuna da Imprensa