sexta-feira, março 18, 2011

De volta ao poder jovem

“O “vírus” da democracia (mesmo a neoliberal) – a liberdade de reivindicar seus próprios direitos e escolher seus dirigentes – é mais poderoso e no melhor de todos os sentidos: as agitações populares que agora incendeiam quase todo o Oriente Médio são um excelente exemplo disso”


A “expropriação dos direitos” (do trabalhador, do consumidor, humanos) é uma das, senão a mais importante das proposições do neoliberalismo voraz que prossegue devorando o planeta. Tais políticas têm péssimas consequências a médio e longo prazo, consequências fatais aos governos que as aplicam. Contudo, o “vírus” da democracia (mesmo a neoliberal) – a liberdade de reivindicar seus próprios direitos e escolher seus dirigentes – é mais poderoso e no melhor de todos os sentidos: as agitações populares que agora incendeiam quase todo o Oriente Médio são um excelente exemplo disso.

Começou na América Latina, com a ascensão e consolidação de governos progressistas, legitimamente eleitos, no Brasil, Argentina, Bolívia, Venezuela, Equador: precisamente por ter sido o laboratório inicial das políticas neoliberais, a AL se tornou seu elo mais frágil. Este ano, nos Estados Unidos, os protestos – para o retorno à população dos direitos expropriados ao Estado pela “política de vudu” de governos rentistas – que começaram em Madison, Winsconsin, já se estendem por vários estados do país. Então, explodem as revoltas árabes: Egito, Líbia, Bahrein.

Em artigo para The Independent, o jornalista Robert Fisk comenta que o terremoto das últimas cinco semanas no Médio Oriente foi a experiência mais atordoante da história da região desde a queda do Império Otomano. Agora, botando tudo entre as aspas da ironia: “São inúmeras as potências árabes que alegam sempre ter almejado a democracia no Médio Oriente. O rei Bashar da Síria vai melhorar os salários dos funcionários públicos. O rei Bouteflika da Argélia apressou-se a declarar o fim do estado de emergência no país. O rei Harmad do Barhrein abriu as portas das suas prisões. O rei Bashir do Sudão afinal já não se vai recandidatar ao lugar de presidente. O rei Abdullah da Jordânia estuda a hipótese de uma monarquia constitucional. E a Al Qaeda tem-se mantido bastante mais silenciosa. Tivemos muitos mártires no mundo muçulmano, mas não há uma só bandeira islâmica à vista. Os jovens que querem pôr um fim ao tormento das ditaduras podem até ser muçulmanos, mas o espírito humano é maior do que o desejo de morrer. São fiéis, sim, mas primeiro vieram aqui derrubar Mubarak, enquanto os seguidores de Bin Laden ainda continuam a clamar em vídeos completamente fora de moda”.

Samir Amin, economista e intelectual egípcio de projeção mundial, em entrevista à Carta Maior, observa que a queda de Murabak não foi surpresa, afinal, anos de crescimento econômico elogiados pelo Banco Mundial só serviram a um grupo minúsculo de egípcios, além do que a repressão policial era crescente e brutal. “Tinha que explodir. E explodiu. E foi dos jovens politizados - “fora da esquerda tradicional” - a vanguarda da revolução que derrubou a ditadura egípcia.” Ele faz também uma leitura crítica do Fórum Social Mundial,” no qual os principais movimentos e lutas não estavam presentes.”

Era esperado, tinha que acontecer, afirma Amin, “porque o regime, por 15, 20 anos, fez crescer gigantescas desigualdades. O Banco Mundial vinha elogiando altas taxas de crescimento no Egito, de 5%. Mas esse crescimento foi parar nas mãos de menos de 1% da população do país. E a pauperização estava aumentando junto com essas altas taxas de crescimento. E isso não podia se manter sem um regime cada vez mais ditatorial. Como vocês tinham no Brasil, no tempo da ditadura. Uma ditadura muito brutal do Exército, com torturas e tudo mais. E tudo isso apoiado pelo Ocidente, pelos EUA, pelos europeus. Completamente e sem restrições. Mas isso tinha que explodir. E explodiu”.

No movimento egípcio existem alguns componentes importantes: é constituído por jovens altamente politizados, educados, semi-educados e com acesso aos meios de comunicação - internet e afins. Politizados à esquerda, mas fora dos partidos de esquerda tradicionais - no caso do Egito, de tradição comunista. Eles começaram o movimento e não são uma pequena organização, são um milhão. Quando convocaram a manifestação, três, quatro horas depois, em todo Egito, em todas as cidades, Cairo, Alexandria, 15 milhões de pessoas estavam na rua. O que significa que o chamado desses jovens teve enorme e imediato efeito em todos os níveis populares.

Ainda segundo Amin, estes jovens não são necessariamente críticos radicais do capitalismo, mas não aceitam esse capitalismo que leva à pauperização. Nos cartazes, lia-se "Banco Mundial e FMI vão para o Inferno", "EUA e aliados vão para o inferno, nós não os queremos", "Somos um país independente e queremos tomar nossas decisões. Se vocês gostam ou não, o problema é de vocês e não nosso."

E a estratégia dos EUA? Para ele, “Obama não é melhor que Bush, esqueçam isto. Obama é a continuação de Bush. A estratégia dos EUA é manter o sistema, com os militares por trás, fazer algumas concessões talvez de ordem democrática, e reforçar a aliança com a Irmandade Muçulmana, para com isso isolar a esquerda. É o anti-imperialismo ianque que une todos estes movimentos”.

Indo ao cerne da questão: os jovens do mundo inteiro cansaram de não ter futuro algum.

Porque as rebeliões, os levantes, estão sendo feitos por eles, pelos jovens entre vinte e trinta anos. E como o PIG é mundial, tais fatos não estão sendo divulgados com o destaque que deveriam. A respeito, assistam Zona Verde com Matt Damon, passando na tevê a cabo e, claro, se puderem, Inside Job (Trabalho Interno) , o documentário dirigido por Charles Ferguson, premiado com o Oscar deste ano, também com Matt Damon.

No mais, Obama vem aí.

*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), A ponte das estrelas (1990), Toda prosa (2002 - Esgotado), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida na Holanda, Bulgária, Hungria, Estados Unidos, Alemanha, Suíça, Argentina e Espanha (catalão e galaico-português). Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura, até outubro de 2010, da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Fonte: Congressoemfoco

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