Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA - O País tremeu quando o governo Fernando Henrique iniciou a lambança das privatizações, misturando a doação de empresas públicas ligadas à segurança nacional com outras sem importância estratégica. Foi até positiva a facilitação para que o capital privado tomasse cinta do bondinho do Pão de Açúcar e da telefonia celular. Afinal, busca por belas paisagens quem quer. Ou usa essas maquininhas diabólicas quem está disposto a pagar o seu preço.
Agora, constituiu crime de lesa-pátria, de traição nacional, entregar a Vale do Rio Doce a especuladores, a preço de banana podre, quando seu valor era e continua sendo incalculável. E com dinheiro público, financiado pelo BNDES. Não se sabia como ainda não se sabe o valor integral do subsolo brasileiro, mas foi tudo loteado beirando as raias da irresponsabilidade.
A Vale, que quando pública já era das maiores mineradoras mundiais, manteve seu potencial e até cresceu, inclusive porque em seus cofres repousavam bilhões de dólares não contabilizados como patrimônio a ser vendido.
Com o mal já praticado, imaginou-se que a companhia continuaria cumprindo, pelo menos, sua função social. Uma empresa voltada para assegurar o desenvolvimento do País e para garantir o bem-estar de um número elevado de empregados.
Pois é. A folha de pagamento da Vale representa menos de 10% de suas despesas, amplamente superadas pelos imensos lucros advindos da exportação de matéria-prima retirada da maior reserva mineral do planeta.
Sobrevém a crise econômica e a Vale teria condições de enfrentar as dificuldades de queda de exportações e até redução do preço internacional dos minérios, se tivesse permanecido estatal. Como se transformou numa fonte de produção de lucros e de dividendos para seus proprietários, a primeira reação da empresa está sendo a demissão de operários.
Sem falar na abominável concessão obrigatória de férias coletivas para mais de dez mil funcionários, ante-sala da demissão da maioria. Isso para começar, porque importa para seus controladores exclusivamente ganhar dinheiro, coisa que continuarão tendo como prioridade absoluta, sem se importar com a sorte dos verdadeiros responsáveis pelo seu progresso, os trabalhadores. Se for "um bom negócio", logo estarão alienando seu patrimônio ao estrangeiro.
O resultado aí está: a Vale transformou-se num vale de lágrimas. Nenhum de seus funcionários, exceção dos muitíssimo bem remunerados diretores e aspones, tem certeza de que não amanhecerá desempregado. Será isso a globalização? Resume-se nesse inferno o neoliberalismo?
Vivêssemos uma república de verdade, ou seja, uma coisa pública, e estariam na cadeia todos os responsáveis pela alienação da Vale e, mais, quantos agora fazem da empresa instrumento de tortura contra seus trabalhadores.
O problema é que o governo Lula não está nem aí. Acaba de destinar mais alguns bilhões a empresas como a Vale, a título de garantia de facilidades de crédito, sem nem ao menos exigir, como contrapartida, a proibição de demissões. Sequer a permanência em atividade da usina de Itabira e de quatro unidades de produção de pelotas no porto de Tubarão, fechadas abruptamente.
Menos trinta milhões de votos?
Surge uma pedra no caminho da euforia dos tucanos diante dos números da recente pesquisa Datafolha, apontando José Serra com 41% de média nas preferências populares, contra 8% de Dilma Rousseff. O problema é que o candidato do PSDB parece dado a maldades. Seus adversários apontam-no como sem entranhas.
Quando ministro do Planejamento e, depois, da Saúde, empenhou-se em virulenta campanha contra o cigarro. Até aí, nada demais, porque o fumo, afinal, mata. Destrói milhares de vidas, todos os anos.
Só que em vez de exigir a extinção das fábricas que produzem esse veneno, Serra dedicou-se a perseguir os fumantes. Nos prédios dos dois ministérios que ocupou, em Brasília, quem fumava era considerado réprobo ameaçado de perder o emprego mesmo obrigado a fumar no jardim, até em dias de chuva. Fumantes não eram promovidos. De suas fichas funcionais constava o carimbo da discriminação.
Na prefeitura e agora no governo de São Paulo, Serra foi adiante, impondo leis que tornam um inferno a vida de quem fuma. Só falta mesmo decretar a proibição do cigarro em todo o território paulista, com o conseqüente banimento dos fumantes.
Vale repetir, fumar é prejudicial à saúde, além de perturbar e até contagiar os que não fumam. Nada mais natural do que a proibição em recintos fechados, como salas de cinema, aviões, elevadores e sucedâneos. Mas é maldade impedir que em restaurantes, bares, aeroportos ou similares funcionem locais reservados aos fumantes, desde que arejados. Trata-se de um exagero. De uma violência, em especial quando se verifica que o fumante foi induzido a fumar por conta da propaganda apenas suspensa poucos anos atrás. As fábricas de cigarro, ávidas em faturar, vão muito bem, obrigado. Assim como o tesouro nacional, empenhado em receber o maior volume de impostos de que se tem notícia na crônica da receita federal.
Estas considerações simplistas e polêmicas têm razão de ser, porque Serra arrisca-se a perder uma eleição hoje tranqüila para a presidência da República. Dos 160 milhões de eleitores, perto de 40 milhões fumam. Um adversário esperto será capaz de denunciar o candidato tucano como o Torquemada dos Trópicos, alertando para o perigo do que poderá vir depois. E se for verdade que Serra não bebe chope? Acresce o risco de que se prosperar a hipótese do terceiro mandato estará enfrentando um oponente capaz de polarizar os votos dos 40 milhões fumantes, por tratar-se de um deles. Ou o homem não fuma cigarrilhas?
O ano que desapareceu
Em nossa História recente, tivemos o "ano que não terminou", 1968. Agora parece aproximar-se o "ano que desapareceu", para satisfação dos historiadores futuros. Trata-se de 2009, conforme raciocínio do presidente Lula, que esta semana enalteceu 2010, o "ano depois da crise". Desta, a crise, não quis falar, preferindo projetar seu otimismo para o ano seguinte.
Seria bom o presidente tomar cuidado, porque apesar de as dificuldades estarem apenas começando, como sempre a reboque do que acontece na matriz, a verdade é que nossa economia está regredindo. Demissões, férias coletivas, redução do crédito e dos investimentos, queda na produção, liberação de dezenas de bilhões para socorrer bancos e empresas em situação crítica, tudo isso desemboca no buraco negro de 2009. Melhor faria o governo se pensasse nos próximos doze meses, em vez de ignorá-los. Não se salta por cima do tempo.
Ninguém como ela
Coincidência ou reação aos baixos índices de popularidade de Dilma Rousseff na recente pesquisa Datafolha? Tanto faz, mas a entrevista do presidente Lula à revista dos arquitetos, dirigida por Oscar Niemeyer, surge como tentativa de o governo oxigenar a candidata.
Disse o presidente que Dilma está infinitamente preparada para exercitar o poder em sua plenitude. Mais ainda, que nenhum partido possui uma candidata como ela. Falta encontrar uma marca, um símbolo capaz de exprimir a candidatura de sua chefe da Casa Civil.
Numa espécie de freio de mão, Lula também admitiu a hipótese de apoiar o candidato de um dos partidos aliados, de acordo com as circunstâncias, da mesma forma como rejeitou outra vez o terceiro mandato. Como fecho, bateu firme em seu último adversário, Geraldo Alckmin, para ele um candidato do Opus Dei, quer dizer, da direita.
Não se cometerá a injustiça de supor o presidente apenas operando para ganhar tempo e acabar aceitando continuar, mas não deixa de ser significativa sua observação de faltar à sua candidata um símbolo capaz de exprimir a campanha. Falta mesmo...
Fonte: Tribuna da Imprensa
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