O Brasil carece de talentos, comprovam dados da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial publicados domingo pelo Jornal do Brasil. Para compensar a falta de mestres e doutores é preciso investir de forma a ampliar em 50% o quadro de pessoal altamente qualificado por aqui. E, depois, retê-los e atraí-los para as atividades de comércio e indústria. Os 10 mil formados a cada ano geralmente ficam nas universidades. O desfalque ameaça o avanço das taxas de crescimento.
Os desafios não se restringem à formação e contratação. Faltam centros de pesquisa, desenvolvimento e inovação tanto nas empresas quanto no setor de serviços. Enquanto países ricos endereçam 2% a 3% do Produto Interno Bruto para pesquisa e desenvolvimento, a maior parte financiada pelo setor privado, o Brasil fica no 1%, do qual o grande investidor é o setor público. A equação não fecha e deixa um vazio de competências no mercado.
Com o aquecimento da economia, aumentaram em mais de 100% as vagas para cargos de chefia intermediária, gerência, conselhos de administração, diretoria e presidência no Rio e em São Paulo. Quem os tem entre seus quadros, agora, se esforça para mantê-los, um jogo no qual não entra apenas salário. É preciso criar plano de carreira, sucessão, liderança, gestão por habilidade e competência.
Um dilema e tanto, tendo em vista que mercado e governo prevêem a abertura de 2,5 milhões de novas vagas de trabalho formais no ano que começa hoje. Para tanto basta apenas que os índices e estatísticas repitam a performance dos últimos 12 meses. E mesmo que fiquem um pouco aquém, como apontam alguns analistas, os números não devem mudar a ponto de prejudicar o avanço.
Em ano eleitoral, a geração de empregos é sempre garantida com a necessidade de os ocupantes dos cargos em disputa provarem competência aos eleitores para continuarem no poder ou elegerem o sucessor. Assim, construção civil pesada e habitacional, obras de infra-estrutura e de estradas avançam ao ritmo das campanhas políticas. Ainda há o componente das hidrelétricas tocadas pelos cofres federais. Fora indústria, comércio e serviços.
Apesar da escassez de mestres e doutores, apesar do crescimento econômico e da abertura de postos de trabalho, o país não consegue superar-se em relação à qualidade do ensino. As crianças, quase todas, estão na escola, e a cada ano mais jovens entram nas universidades. Nos últimos dois anos, contudo, os estudantes formados nas universidades públicas diminuíram em 10%. A evasão é resultado direto do longo tempo para conclusão dos cursos, necessidade de emprego e descontentamento com o currículo. É por aí, pela superação de tais falhas, que se deve iniciar a corrida para o futuro.
L., 15 anos, está no programa de proteção às crianças e adolescentes ameaçadas de morte. Encontra-se em local incerto e não sabido. Acusada de furto, passou 26 dias presa numa cela com 20 homens. Foi seviciada e trocava o corpo por comida. Uma delegada trancafiou-a. Uma juíza manteve-a atrás das grades num Estado governado por uma mulher, com uma secretária estadual de Segurança Pública e uma corregedora-geral de Polícia. As mulheres escreveram essa lastimável história. Quando os desmandos saíram das fronteiras de Abaetetuba, no interior do Pará, e L. ganhou a liberdade, o blefe do Estado foi revelado e perdeu a parada. Na jogada a descoberto, ruiu o castelo de cartas. Agora a governadora petista, Ana Júlia Carepa, corre atrás do prejuízo e começa a trocar os parceiros.
De lá para cá livrou-se do delegado-geral do Estado, Raimundo Benassuly, autor de uma das piores frases do ano: "A garota certamente tem algum tipo de debilidade mental, porque não informou ser menor de idade". Sacou a desculpa ao justificar a detenção de L. na cela impregnada de testosterona. Depois foi a vez da corregedora-geral, delegada Liane Paulino, também ceifada por uma frase. Alegou que a adolescente "provocava sexualmente os presos". Na sexta-feira, caiu a secretária de Segurança Pública, Vera Lúcia Tavares. A juíza Clarice Maria de Andrade é acusada de negligência por não mandar transferir a menor. Sua responsabilidade será decidida pelo órgão próprio do Judiciário do Pará. As quedas e punições não aliviam a culpa. Nem resolvem o problema. Mas, talvez, ajudem L. a reerguer a cabeça.
Fonte: JB Online
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