Por: Doutor Raymundo Paraná *
Descoberta há pouco mais de 15 anos, a hepatite C, responsável pela inflamação persistente do fígado, é uma doença silenciosa que atinge indistintamente pessoas de qualquer classe social, idade, sexo ou raça, podendo levar décadas para alcançar estágios mais avançados de doença hepática, tal como a cirrose e o câncer no fígado. Por ser uma doença de conhecimento recente, a Organização Mundial da Saúde a reconhece como um grave problema de saúde pública mundial. São mais de 170 milhões de infectados em todos os continentes, e desses, em média, 80% desenvolvem a forma crônica da doença. Aproximadamente 20% evoluem para a cirrose hepática. Os números no Brasil também são preocupantes. De acordo com recentes estimativas do Ministério da Saúde, confirmadas por estudos populacionais desenvolvidos em Salvador e em São Paulo, podem existir cerca de dois milhões de portadores do vírus C, ou 1,5% da população, sendo a cirrose e o carcinoma hepatocelular induzido por este agente a principal causa de transplante de fígado no País. As estatísticas também colocam a hepatite C como uma epidemia cinco vezes mais comum que a da AIDS, que atualmente acomete 600 mil pessoas no Brasil. Por se apresentar de forma assintomática, a maioria dos portadores não sabe que tem a doença ou, simplesmente, desconhece suas sérias conseqüências. Outros fatos que agravam e desafiam o combate à hepatite C é que ainda não há vacina disponível. Além disso, a diversidade do genoma viral lhe confere excepcional habilidade para desenvolver mecanismos de escape do sistema imunológico do hospedeiro. Existem vários genótipos virais, sendo que alguns, como o genótipo 1, são mais resistentes ao tratamento, o que torna os pacientes menos respondedores às medicações atualmente disponíveis. Este genótipo é responsável por 60 a 70% das infecções no Brasil. Diante de um cenário preocupante como esse, é preciso esclarecer que há cura para a hepatite C e, acima de tudo, ela pode ser prevenida. Mesmo depois de contraída, com o diagnóstico e tratamento precoce, são altos os índices de resposta ao tratamento e chances de cura, que podem variar de 50 a 90 % dos casos, dependendo do genótipo viral e de outros aspectos pertinentes ao hospedeiro e ao estadiamento da doença. Os pacientes que eliminam definitivamente o vírus após o término do tratamento, ou seja, que obtém a chamada resposta virológica sustentada (RVS) deixam de estar sob o risco de apresentar as complicações tardias da doença e não mais necessitam do uso de medicamentos. * Doutor Raymundo Paraná é Professor Livre-Docente em Hepatologia Clínica da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Fonte: A Tarde On line
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