domingo, dezembro 11, 2022

Quando FHC criou o Bolsa Escola, há 20 anos, Lula logo apelidou de “Bolsa Esmola”


CP_charge_Juniao_22_05_2013b_72

Charge do Junião (juniao.com.br)

Demétrio Magnoli
Folha

“Bolsa esmola” – era assim que, 20 anos atrás, Lula qualificava o programa Bolsa Escola de FHC. Depois, no poder, o tal “bolsa esmola” tornou-se o Bolsa Família, até Bolsonaro transformá-lo no Auxílio Brasil, que agora recupera o rótulo de identificação lulista. Sugiro, no lugar disso, um rebranding definitivo: Cheque do Presidente. A operação publicitária justifica-se duplamente: no campo do marketing, estabiliza a imagem de marca; no das políticas públicas, garante transparência de objetivos.

O Lula oposicionista de 2002 não criticava os valores do Bolsa Escola mas o conceito de transferência direta de renda, inspirado nas propostas de combate à pobreza do Banco Mundial. A conversão ideológica do Lula presidente assinalou, ao lado do abandono das ambições petistas de reforma econômica estrutural, a descoberta de uma mina de ouro eleitoral. De larva a borboleta: assinando o cheque, o líder dos trabalhadores metamorfoseava-se em pai dos pobres.

POBREZA DIMINUÍA – A pobreza extrema declinou sem parar entre 2003 (12,6%, segundo o Banco Mundial) e 2014 (3,3%). No percurso, o Bolsa Família desempenhou papel significativo, mas não determinante. O fenômeno da redução da pobreza verificou-se nos mais diversos países em desenvolvimento, da China à Turquia e do México ao Peru, sem vultosos programas de transferência de renda.

O longo ciclo internacional marcado por fluxos abundantes de investimentos e valorização das commodities fazia o serviço. Mas um cheque é um cheque. Lula nunca incrustou o programa de transferência de renda no rochedo da Constituição, evitando conferir-lhe o estatuto de política de Estado. O cheque do presidente deveria ser uma benesse de governo.

DEPOIS, A AMEAÇA – “Meu adversário, que odeia os pobres, terminará o Bolsa Família” – a ameaça assombrou as disputas eleitorais de 2006, 2010 e 2014. No ano mais difícil, quando Dilma Rousseff disputava a reeleição, o valor real do cheque atingiu o ápice: R$ 245,10. Sob o lulismo, o Bolsa Família tornou-se sinônimo de política social.

Bolsonaro aprendeu a executar a mágica, mas de modo desajeitado. Na pandemia, criou o auxílio emergencial; no ano eleitoral, o Auxílio Brasil de R$ 600. A ação tardia, interrompida em 2021, obteve efeitos eleitorais limitados.

Serviu, porém, para expor as entranhas perversas do mecanismo fabricado pelo lulismo: cada novo governo precisa elevar o valor do cheque que chega a mais de 21 milhões de famílias.

ADICIONAL DOS FILHOS – Lula escolheu R$ 600 para empatar com Bolsonaro – e o suplemento de R$ 150 por filho pequeno para derrotá-lo. O número escrito no cheque deriva de imperativos de concorrência política, não de um cálculo de eficiência na alocação de recursos públicos.

Programas de transferência de renda aliviam temporariamente a pobreza – e ocultam suas raízes profundas. A depressão econômica gerada pela folia dilmista levou a pobreza extrema a 5,3% em 2018, mas o auxílio emergencial a comprimiu à menor taxa histórica, em 2020, no auge da pandemia (1,9%).

Em 2021, sem o auxílio, a taxa saltou a 8,4% – e certamente experimentará forte redução em 2022, assegurada pelos R$ 600. O cheque faz milagres efêmeros.

FALTAM AS POLÍTICAS – As raízes da miséria só podem ser erradicadas por políticas econômicas responsáveis e políticas sociais universalistas. As primeiras dinamizam o mercado de trabalho, elevando os salários. As segundas ampliam a oferta de bens públicos de qualidade (educação, saúde, saneamento, transportes) e impulsionam a reforma urbana (moradia em áreas centrais).

Nada disso, contudo, tem o poder sedutor de um cheque assinado pelo presidente – ainda mais quando ele contém a senha do cofre do crédito consignado.

A PEC da Transição é o passaporte para Lula alcançar e ultrapassar Bolsonaro. Seu custo é o congelamento da pobreza estrutural, sempre disfarçada pelo Cheque do Presidente. “Uma mão lava a outra”.


Lula propõe paz e conciliação, e Bolsonaro, na sombra, apoia atos contra a democracia


Bolsonaro voltou a incentivar os apelos contra a democracia

Pedro do Coutto

Ao anunciar, na sexta-feira, um grupo de ministros de seu governo, o presidente eleito, Lula da Silva, defendeu a paz e a conciliação no país, inclusive nas áreas militares. As reportagens foram publicadas com destaque pela Folha de S. Paulo, O Globo e o Estado de S. Paulo.

Lula destacou que as Forças Armadas têm um papel importante e constitucional. Elas têm que cuidar da soberania nacional e defender o povo brasileiro de possíveis ataques de inimigos externos. Não foram feitas para fazer política. Não foram feitas para ter candidatos. As pessoas ativas das Forças Armadas possuem a missão nobre de cuidar da segurança dos 215 milhões de brasileiros e brasileiras, e defender a nossa soberania.

CONCILIAÇÃO  – O ministro José Múcio Monteiro, escolhido para a Defesa, destacou o papel conciliador e pacificador do governo que assumirá em janeiro de 2023. Anunciou os novos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica: general Julio Cesar de Arruda, almirante Marcos Sampaio Wolfen e o brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno. A reportagem de O Globo é de Jeniffer Gularte, Bruno Abbud, Sergio Rôxo e Jussara Soares. Na Folha de S. Paulo, saiu sem assinatura, e no Estado de S. Paulo, é de Felipe Frazão, Wesley Galzo e  André Borges.

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento para um grupo de apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, fez um improviso marcado por sombras, de acordo com reportagem de Jussara Soares e Daniel Gullino, O Globo de ontem, referindo-se aos que se concentram na porta de quartéis para pedir um golpe contra a Constituição e o resultado das urnas, dizendo que são “cidadãos de verdade esses manifestantes que estão agindo de acordo com as leis”. Ele acrescentou que “está na hora de pararem de serem tratados como outra coisa”.

Com essas palavras, Bolsonaro, no fundo da questão, incentivou os apelos contra a democracia e o resultado das urnas de outubro. Esta razão, possivelmente, foi que levou ao anúncio dos novos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, uma vez que circularam notícias de que os atuais ocupantes dos cargos pediriam demissão antes da posse no novo presidente da República. Lula, através de José Múcio, na realidade dirigiu uma mensagem de pacificação a esses grupos, aos militares e também à Polícia Federal. Não citou a Polícia Rodoviária Federal.

PRIORIDADES –  Na Folha de S. Paulo, a reportagem é de Alexa Salomão e Fábio Puppo. No O Globo, de Manuel Ventura e Thiago Bronzatto. Escolhido pelo presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, para comandar o Ministério da Fazenda no novo governo, Fernando Haddad definiu que os seus principais objetivos assim que tomar posse serão o arcabouço fiscal e a reforma fiscal, duas prioridades de curto prazo.

O pronunciamento agradou o empresariado e incluiu a reforma tributária como as suas duas prioridades. Realçou a importância do equilíbrio entre as receitas públicas e as despesas. Aliás, esse ponto importante da questão foi muito bem colocado pela jornalista Eliane Cantanhêde na GloboNews, programa Raio-X da Política, na quinta-feira. De fato, não tem sentido, como o atual governo colocou em prática, a preocupação com o corte das despesas e preocupação alguma com o desempenho das receitas.  São duas linhas paralelas que devem se equilibrar entre si. Não adianta cortar despesas como o atual governo fez, atingindo a Educação, a Saúde e outros setores fundamentais para a vida da sociedade.

TITE –  O treinador Tite, como havia se comprometido de deixar a seleção brasileira, seja qual fosse o resultado da Copa, cumpriu o seu compromisso. Ao longo da noite de sexta-feira, os comentaristas assinalaram os seus erros na partida contra a Croácia.

Entre eles, a substituição de Vinicius Junior,  a falta de arrumação da defesa quando o time vencia por 1 a 0 e faltavam cinco minutos para o fim da partida, a escala para a cobrança dos pênaltis colocando os menos experientes, antecedendo a cobrança pelos jogadores mais experientes. A seleção fracassou e com ela o treinador da equipe.

Lula quer alardear “cenário caótico” para evitar cobranças por erros de Bolsonaro


TRIBUNA DA INTERNET | Equipe de transição deve revelar primeiro a real  situação econômica do país

Charge do Duke (O Tempo)

Julia Chaib e Victoria Azevedo
Folha

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende alardear à população o que aliados consideram um cenário caótico no país como forma de evitar ser cobrado por eventuais erros da gestão de Jair Bolsonaro (PL) e dar a dimensão do que pode ser feito no início do governo.

Os dados a serem apresentados pelo petista constarão em relatório produzido pela equipe de transição. O documento vai mostrar, por meio de dados e informações, a situação econômica herdada de Bolsonaro em diversas áreas e seus impactos para a próxima gestão.

RELATÓRIO DIDÁTICO – Integrantes da equipe de Lula dizem que as análises feitas por grupos temáticos apontam para uma situação de desmonte de políticas públicas e risco de descontinuidade de programas. Segundo um aliado, o presidente eleito pediu que o relatório seja um consolidado didático, para ser amplamente divulgado à sociedade.

A equipe da transição irá redigir um documento específico a ser entregue a cada ministro nomeado e uma síntese ao petista. Um resumo inicial será apresentado neste domingo (11) ao presidente eleito, mas deve ser focado apenas na estrutura da Esplanada.

Os dados servirão para Lula decidir o tamanho de cada ministério e quais órgãos eles devem abrigar. Entre as indefinições está, por exemplo, o destino do que será a Secretaria de Clima ou Autoridade Climática. Parte de aliados do presidente eleito entende que ela deva ficar sob o guarda-chuva do Ministério do Meio Ambiente. Outra parte quer que seja subordinada à Presidência da República.

EMERGÊNCIAS E ALERTAS – Depois dessa primeira parte, a equipe de transição continuará debruçada sobre as informações para ampliar a síntese e incluir emergências orçamentárias, alertas do TCU (Tribunal de Contas da União) e sugestões de revogações, por exemplo.

Aliados de Lula dizem que a ideia é dar o máximo de publicidade ao tema. A intenção é fazer uma espécie de “vacina”, para preparar a sociedade sobre o que será possível ou não ser feito a partir de 2023.

A situação deve, inclusive, ser explorada no pronunciamento da posse do presidente eleito, marcada para 1º de janeiro, ainda que sem citar nominalmente o presidente Bolsonaro. O próprio petista tratou do assunto em declaração que fez à imprensa ao anunciar os primeiros nomes de seu ministério na manhã desta sexta-feira (9). E indicou que deverá dar publicidade a essa síntese entre os dias 22 e 23.

SEM SHOW DE PIROTECNIA – Lula disse que irá apresentar, “sem fazer um show de pirotecnia”, a situação encontrada em áreas como educação, saúde e ciência e tecnologia. “Para que a sociedade saiba. Porque se não apresentarmos agora, seis meses depois estará nas nossas costas os desmandos feitos pelo atual governo”, disse.

O presidente eleito afirmou ainda que a atual gestão é “um governo com o corpo muito grande e a cabeça muito pequena” e que não “preparou a administração desse país”.

O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB), também na sexta, afirmou que o texto terá diagnóstico, sugestões de revogações e propostas de estrutura para cada área, assim como “alertas para os primeiros meses do governo, emergências orçamentárias e ações prioritárias”.

BASE ALIADA – O tema foi tratado pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), em reunião com o conselho político da transição, grupo formado por representantes de 13 partidos aliados, e em reunião do diretório nacional do PT, ambas na quinta-feira (8).

Segundo o relato de um participante do conselho político, a ideia é ressaltar a situação até mesmo como forma de garantir um crédito junto à sociedade dos limites que a nova gestão irá enfrentar, assim como para gerar margem de compreensão do cenário.

Dessa forma, esse tema irá permear as declarações da equipe de transição e do futuro governo. Segundo integrantes da equipe, o objetivo é dar a dimensão do que o governo eleito vai enfrentar.

PIORES CENÁRIOS – Os relatórios preliminares de cada grupo, de acordo com quem tem acesso ao processo, mostram sérios problemas de gestão, que apontam para risco de descontinuidade de programas, por exemplo. Os piores cenários estão nos programas de combate à fome, saúde, educação, segurança e previdência.

Em coletiva de imprensa para anunciar os resultados do grupo de trabalho do Planejamento, o ex-ministro Aloizio Mercadante, que coordena as equipes técnicas, afirmou que Bolsonaro “quebrou o Estado”.

No dia anterior, integrantes do grupo técnico da Educação da transição disseram que o ministério “está sem limite financeiro” e que essa é uma “preocupação imediata”. A afirmação foi feita depois de encontro com o comando atual da pasta na segunda (5).

CASO DAS VACINAS – Em outra área, como mostrou a Folha, a transição constatou que há problemas de dados na área da saúde. A equipe de Lula recebeu a informação de conselhos estaduais e municipais de saúde mostrando que o ministério comandado por Marcelo Queiroga avisou, no fim de outubro, que não havia registros de ao menos 30 milhões de dados de doses aplicadas no SUS.

Integrantes da transição dizem que há ainda falta de recursos para produção de medicamentos estratégicos. Foi identificado também uma demanda reprimida de processos a serem analisados no setor da Previdência.

O governo de transição tem 32 grupos temáticos e mais de 900 integrantes, dos quais 22 são remunerados — o restante atua de forma voluntária.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Pelo que se vê, em comparação às gestões militares anteriores, o governo Bolsonaro teria sido um desastre. De toda forma, é melhor aguardar o relatório, É preciso saber se é político ou técnico. (C.N.)

Carlos Bolsonaro questiona escolha para a PF e filho de Lula reage: 'Chorão'




Carlos Bolsonaro recebeu resposta de Luis Claudio da Silva em postagem no Twitter 

Luis Claudio Lula da Silva não gostou de insinuação sobre interferência na polícia no futuro governo

O preparador físico Luis Claudio Lula da Silva, filho do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), respondeu a uma postagem do vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro (PL), e o chamou de "chorão". A discussão se deu no Twitter, após Carlos Bolsonaro questionar as eventuais escolhas de Lula para os comandos da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Carlos Bolsonaro publicou duas reportagens. Uma delas dizia: "Colado em Lula, delegado vira principal aposta para comandar a PF e a Abin", referindo-se a Andrei Augusto Passos Rodrigues, cujo nome foi escolhido por Flávio Dino, futuro ministro da Justiça e apresentado ao presidente eleito. Outra reportagem publicada dizia: "Filhos de Lula voltam a movimentar empresa que foi alvo da PF". Ao publicar os dois textos, Carlos disparou: "Que meigo! Será que teremos o berreiro da tal interferência e todo aquele circo criado em passado recente? Acho que não! Estamos falando de fatos expostos pela própria imprensa e não de canalhice de determinados!".

Alvo da postagem, Luis Claudio reagiu:" Quem interferiu foi seu pai... Você e seus irmãos são imundos. Quando falam dos imóveis, das rachadinhas e o cacete a quatro vocês falam mal da imprensa. Agora que o papai perdeu a eleição você está chorando e abraçando qualquer coisa... Desespero... Chorão."

Outra briga de herdeiros

Não é a primeira vez que filhos de Lula e Bolsonaro trocam farpas nas redes. Em maio deste ano, por exemplo, Luis Claudio discutiu com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sobre um assalto contra o herdeiro de Lula, em São Paulo.  O parlamentar ironizou o episódio e o preparador físico o chamou de "desprezível".

O Tempo

O crânio com perfuração quadrada que confirmou que os incas realizavam cirurgias complexas




O crânio em ilustração no livro de Squier — peça data entre 1400 e 1530 d.C.

Por Dalia Ventura
 
Ephraim George Squier (1821-1888) foi jornalista, diplomata e arqueólogo

Em 1864, o americano Ephraim George Squier viveu uma experiência insólita.

Ele segurou nas mãos a primeira evidência inquestionável de algo que os cientistas há muito tempo julgavam impossível: a neurocirurgia antiga.

A descoberta foi um acidente — e se deveu, em certa medida, ao cocô de pássaros.

Com a eclosão da Guerra Civil dos Estados Unidos em 1861, garantir fertilizantes para o cultivo de alimentos se tornou uma necessidade estratégica para o então presidente Abraham Lincoln.

E o melhor fertilizante do mundo na época era encontrado nas montanhas de algumas ilhas da América do Sul, que durante séculos haviam acumulado guano, um substrato que tem origem nas fezes de animais e é rico em nitrogênio e fósforo.

Foi por causa do guano que, em 1864, Lincoln enviou uma delegação ao Peru, da qual Squier fazia parte.

A dama 'do Grande Canal'

Garantido o suprimento de fertilizante, o diplomata disse à mulher que voltasse sozinha para Nova York. Apaixonado por arqueologia, ele decidiu ficar no país para se dedicar a pesquisas.

Depois de um ano viajando, percorrendo desde o litoral até as florestas, e escalando os picos dos Andes, ele chegou a Cusco, uma "altiva, porém isolada cidade de montanha".

Era um lugar ao qual se demorava mais para chegar e com quatro vezes mais "incômodos e fadiga", a partir da capital peruana, do que se viajasse de Lima até Nova York, ele escreveu no livro Peru: Exploração e Incidentes de Viagem na Terra dos Incas.

Depois de descrever detalhadamente os magníficos sítios arqueológicos que encontrou na região, assim como a cidade, sua história, população e aspecto moderno, ele se deteve em um lugar:

"Vou me referir especialmente à residência da senhora Zentino, senhora que residia na Praça de São Francisco, cuja atenção aos estrangeiros era proverbial, e que estabeleceu uma honrosa reputação como colecionadora do melhor e mais valioso museu de antiguidades no Peru."

"Esta casa seria chamada de 'palácio' até em Veneza, se não fosse por sua arquitetura, certamente por sua extensão. Na amplitude de seus cômodos e em seus ricos e variados conteúdos e decoração, louvavelmente poderia ser comparada com algumas das mais belas do Grande Canal."

Museu de curiosidades

A "señora Zentino" era María Ana Centeno de Romainville (1816/1817-1874), uma mulher enriquecida pela "leitura frequente" e que começou a colecionar desde jovem, com uma "paixão que beirava a loucura", segundo conta a pioneira educadora peruana Elvira García y García em seu livro A Mulher Peruana Através dos Séculos (1925).

Esse fascínio a levou a reunir um tesouro com peças de diferentes lugares, a ponto de ter um verdadeiro "museu histórico-arqueológico, por meio do qual era possível conhecer toda a história do Peru em suas diferentes épocas".

'Coleção foi vendida pelos filhos de Zentino ao Museu Etnográfico de Berlim na década de 1880'

Além de antiguidades pré-colombianas feitas de pedra, cerâmica e metais preciosos, havia desde um mosaico romano e objetos japoneses até pássaros empalhados e obras misteriosas. Afinal, seu objetivo não era "criar um museu arqueológico — mas, sim, um de curiosidades", escreveu García y García.

O "palácio" da senhora Zentino era um ponto de encontro parecido com os salões que existiam na Europa do Iluminismo. Era onde a elite cusquenha e convidados estrangeiros proeminentes se reuniam para falar sobre ciência, arte e literatura.

Um deles foi Squier, e foi numa dessas ocasiões que colocou as mãos naquela joia inusitada que mudaria a história da cirurgia.

"De certa forma, a relíquia mais importante na coleção da sra. Zentino é o osso frontal de uma caveira, do cemitério inca no Vale de Yucay", escreveu o americano.
O crânio

O que chamou sua atenção na peça foi um buraco quadrado de 15x17mm. Não era natural, pensou: a natureza não costuma trabalhar em ângulos retos.

Ele também achou ter visto sinais de crescimento de novos ossos, indicando que a pessoa não apenas estava viva durante a perfuração, como havia sobrevivido.

Um pensamento surpreendente lhe ocorreu: será que poderia ser o resultado de uma cirurgia, uma abertura feita no crânio para fins curativos?

Ele concluiu que não havia dúvida de que estava lidando com "um caso claro de trepanação", uma técnica antiga de perfuração craniana.

"A senhora Zentino gentilmente me cedeu a peça para pesquisa. Ela foi analisada pelos melhores cirurgiões dos Estados Unidos e da Europa, sendo considerada por todos como a evidência mais notável do conhecimento de cirurgia por parte de povos nativos já descoberta neste continente. A trepanação é um dos processos cirúrgicos mais difíceis", descreveu Squier em seu livro.

Mas não foi tão simples.

O relato do americano, publicado em 1877, omitiu um episódio que ocorreu logo após seu retorno, em uma reunião da Academia de Medicina de Nova York. Ao ver o crânio, os presentes se recusaram a acreditar que alguém havia sobrevivido a um procedimento de trepanação conduzido por um indígena peruano.

A ideia de que os antigos incas pudessem realizar uma cirurgia tão delicada sem anestesia ou ferramentas de metal parecia simplesmente absurda.

A taxa de sobrevivência de trepanações realizadas pelos cirurgiões mais habilidosos nos melhores hospitais da época na região raramente chegava a 10%.

O que eles não levaram em conta é que o percentual era semelhante ao observado em outros tipos de procedimento. A teoria microbiana, que revolucionou o tratamento e diagnóstico de doenças, ainda não vigorava nessa época, e muitos pacientes acabavam morrendo de infecção.

Squier não se deu por vencido. Decidiu levar o crânio para a França, para que fosse examinado pela maior autoridade europeia em crânio humano, Paul Broca, professor de patologia externa e cirurgia clínica na Universidade de Paris e fundador da primeira sociedade antropológica.

Broca ficou mundialmente famoso em 1861, ao descobrir o primeiro ponto de linguagem conhecido no cérebro humano, agora chamado de área de Broca, o primeiro caso de localização cerebral de uma função psicológica.

Ao examinar o buraco quadrado, o cientista concluiu que ele havia sido feito de forma deliberada. Depois de analisá-lo ao microscópio, encontrou evidências de crescimento ósseo ao redor da perfuração — o que indicava que o paciente havia sobrevivido à operação.

'Cientista francês corroborou hipótese de Squier'

Mesmo diante do prestígio de Broca, a Sociedade Antropológica de Paris se mostrou cética às suas conclusões.

Mas alguns anos depois, sua interpretação seria finalmente confirmada, com a descoberta na região central da França de crânios com orifícios arredondados, cicatrizes nas bordas e discos ósseos do mesmo tamanho (talvez usados ​​como amuletos) pertencentes ao Neolítico — o que confirmava que, já naquele período, se praticava a trepanação com sucesso.

Os cientistas não tiveram escolha a não ser considerar a possibilidade de que haviam subestimado civilizações mais antigas a esse respeito até então.

O crânio inca estimulou uma mudança de postura nos antropólogos, que começaram a vasculhar suas próprias coleções e examinar buracos que haviam sido interpretados no passado como resultado de ferimentos de guerra, acidentes ou ataques de animais. E encontraram mais crânios trepanados, alguns dos quais datados de 8.000 a.C.

Hoje sabe-se que era uma prática difundida e que diferentes culturas ao redor do mundo usavam uma variedade de ferramentas para cortar crânios: pedras afiadas, ossos de animais, ferros em brasa e até dentes de tubarão.

No caso do Peru, os cemitérios geralmente contêm um "tumi" — uma faca cerimonial de metal curva —, que parece apropriado para realizar o procedimento.

Estudos indicam ainda que esses cirurgiões da Antiguidade conseguiam inclusive prevenir infecções. Uma pesquisa feita em 66 crânios antigos trepanados mostrou que apenas três tinham sinais de infecção.

O resultado é semelhante ao de um relatório produzido em Londres na década de 1870. Enquanto 75% dos pacientes neurocirúrgicos na cidade inglesa morriam, na Nova Guiné, onde os cirurgiões ainda perfuravam crânios com métodos tradicionais, a taxa de mortalidade era de 30%.

O que não se sabe ao certo é por que culturas antigas praticavam a trepanação, já que não havia nada escrito sobre o procedimento.

Broca sempre argumentou que eles trepanavam os crânios para liberar o que acreditavam ser espíritos malignos que estavam presos dentro do cérebro. Ele afirmava que essa associação era comum, especialmente em casos envolvendo ataques epiléticos ou alucinações.

Foi algo que de fato aconteceu na Europa, mas não há evidências de que tenha ocorrido também em um passado mais distante.

'Perfuração do crânio chegou a ser praticada na Europa com base na crença de que livraria o corpo de maus espíritos'

Squier e outros arqueólogos sempre questionaram as teorias que remetem ao sobrenatural.

Eles argumentavam que os antigos neurocirurgiões estavam fazendo exatamente o que pareciam estar fazendo: tratando ferimentos na cabeça, principalmente de quedas e resultantes de combates.

A pesquisa moderna aponta mais nessa direção, sobretudo no caso dos incas.

Crânios com perfurações foram encontrados mais em homens do que em mulheres, o que é interpretado como resultado do fato de que havia mais guerreiros do sexo masculino do que feminino.

Esses orifícios geralmente ficam no lado esquerdo do crânio, onde um oponente destro atacaria com sua arma.

As trepanações teriam sido uma forma de limpar as feridas e evitar que o sangue se acumulasse.

A superstição pode ter desempenhado um papel nas primeiras trepanações. Mas também é possível que aqueles antigos neurocirurgiões usassem o procedimento para salvar a vida das pessoas, como seus colegas ainda fazem hoje.

BBC Brasil

Lira une PEC da Transição a proposta mais avançada para acelerar votação




O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), determinou na noite desta sexta-feira, 9, que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Transição seja apensada a outra proposta que já está em tramitação avançada na Casa. A manobra legislativa, combinada por Lira com o PT, permite que o texto seja analisado diretamente no plenário, sem passar por comissões. A expectativa é de que a votação ocorra na próxima quarta-feira, 14.

A PEC da Transição, aprovada no Senado na última quarta-feira, 7, com 64 votos favoráveis e 16 contrários, amplia o teto de gastos – regra que limita o crescimento das despesas do governo à variação da inflação – em R$ 145 bilhões para pagar o Bolsa Família. Também retira do teto R$ 23 bilhões em receitas extraordinárias para financiar investimentos públicos, liberando valores do orçamento secreto ainda neste ano.

Lira ainda não definiu o relator da proposta na Câmara, mas o posto é disputado pelos deputados Elmar Nascimento (União Brasil-BA) e Celso Sabino (União Brasil-AP). Ambos são aliados do presidente da Casa, mas parlamentares que participam das discussões acreditam que o indicado será Elmar, porque Sabino já é o presidente da Comissão Mista de Orçamento (CMO).

Com base no acerto feito por Lira com o PT, a PEC da Transição foi apensada à PEC 24/2019, de autoria da deputada Luísa Canziani (PSD-PR), que retira do teto recursos próprios das universidades. Duas propostas legislativas só podem tramitar juntas se tratarem de assuntos similares. Por isso, o Senado inclui o conteúdo da PEC de Canziani no texto da proposta do governo eleito.

A PEC é a principal aposta do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para cumprir promessas de campanha, como a manutenção do Bolsa Família em R$ 600 e a concessão de uma parcela adicional de R$ 150 por cada criança de até seis anos. Além disso, Lula quer garantir o aumento real do salário-mínimo e recompor verbas no Orçamento do ano que vem para programas como o Minha Casa, Minha Vida, o Farmácia Popular e a merenda escolar.

Para aprovar a proposta no Senado, o senador Jaques Wagner (PT-BA) teve de anunciar, em nome de Lula, um acordo para reduzir a ampliação do teto de gastos de R$ 175 bilhões, como estava previsto no parecer inicial do relator, Alexandre Silveira (PSD-MG), para R$ 145 bilhões. Além disso, o PT se comprometeu a enviar ao Congresso, até agosto, um projeto de lei complementar para mudar a regra fiscal do País, com o fim do teto.

O texto ainda pode enfrentar resistências. Deputados insatisfeitos têm dito que o acordo feito no Senado não foi combinado com a Câmara. Muitos falam em reduzir para um ano o prazo para o Bolsa Família ficar fora do teto. Há uma avaliação de que Lula precisará entrar novamente nas negociações e atender a novas demandas, como indicações para ministérios.

Orçamento secreto

A votação na Câmara depende também do desfecho do julgamento do orçamento secreto no Supremo Tribunal Federal (STF), adiado para a próxima quarta-feira, 14. Diante do impasse, petistas articulam um novo encontro entre Lula e Lira. Parlamentares do PT argumentam que não foi o partido que provocou a Corte sobre o esquema – a ação foi da Rede -, mas o Centrão vê a “digital” do petista no julgamento que pode declarar o mecanismo inconstitucional.

Na queda de braço com o STF, uma das alternativas avaliadas pelos deputados é colocar na PEC um dispositivo para prever a constitucionalidade do orçamento secreto. Lira e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), também articulam um projeto de resolução do Congresso para garantir o esquema.

Recomposição de verbas

Após a aprovação da PEC no Senado, o relator-geral do Orçamento de 2023, senador Marcelo Castro (MDB-PI), e aliados de Lula começaram a discutir como alocar os recursos na Lei Orçamentária Anual (LOA) devido à redução de R$ 30 bilhões na ampliação do teto, pelo acordo anunciado por Jaques Wagner.

Como os R$ 175 bilhões previstos inicialmente seriam suficientes para bancar todo o Bolsa Família, os R$ 105 bilhões já previstos no Orçamento para o programa de transferência de renda ficariam livres. Agora, a abertura na LOA de 2023 será de R$ 75 bilhões, ou seja, R$ 30 bilhões a menos que terão de ser usados para completar o pagamento do benefício social.

Com esse espaço de R$ 75 bilhões, o PT pretende recompor verbas para o Farmácia Popular, a merenda escolar e o Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, além de garantir o aumento real do salário-mínimo.

Estadão / Dinheiro Rural

Em destaque

Justiça determina regras para acesso de parlamentares a áreas restritas de hospitais estaduais na Bahia

  Justiça determina regras para acesso de parlamentares a áreas restritas de hospitais estaduais na Bahia Por Redação 10/06/2026 às 09:02 Fo...

Mais visitadas