terça-feira, novembro 15, 2022

Militares americanos são mais incisivos na defesa da democracia do que os brasileiros


Charge do JCaesar | VEJA

Charge do JCaesar (VEJA)

Marcelo Godoy
Estadão

Quem comparou o documento assinado pelos chefes militares americanos seis dias após o ataque de extremistas de direita ao Capitólio com a nota dos comandantes militares brasileiros, divulgada 12 dias depois de Bolsonaro perder o segundo turno das eleições para Lula, pôde ter uma ideia do tamanho do desafio para as relações civis-militares no País.

Era 12 de janeiro de 2021, quando Mark Milley, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, divulgou a carta assinada com outros sete oficiais generais. Tinha 20 linhas. Começava assim: “O povo americano tem confiado em suas Forças Armadas para protegê-lo e à sua Constituição por quase 250 anos”.

PALAVRAS CLARAS – O documento é muito claro ao afirmar que o ataque ao Capitólio era um “assalto direto ao Congresso e à ordem”. “Testemunhamos eventos que são inconsistentes com a obediência às leis, ao direito de liberdade de opinião e de reunião, pois estes não dão a ninguém o direito de usar a violência, a sedição e a insurreição.”

Milley e seus colegas prosseguiram com sua profissão de fé: “Nós defendemos a Constituição. Qualquer ruptura do processo constitucional não é apenas contra nossas tradições, valores e juramento, é contrário à lei”.

Os chefes militares mostraram que o único lado que se pode esperar de quem ocupa tais cargos é a defesa da legalidade. A isenção e o apartidarismo não podem servir para fechar os olhos à violência quando esta vem do lado com o qual se simpatiza.

SEM JUSTIFICATIVA – No caso do Brasil nem se deve usar o histórico das ações do MST para justificar bloqueios de estradas e agressões a policiais por apoiadores de Bolsonaro. Muito menos a liberdade de opinião justificaria a incitação ao crime dos que vão aos quartéis pedir um golpe.

Se a censura a quem quer que seja é deplorável em uma democracia, isso não significa que as pessoas não devam ser responsáveis pelo que dizem. E responsabilizadas. Não é papel das Forças Armadas moderar conflitos políticos, chamar de “excessos” aquilo que constitui crime ou dar pitos no Poder Judiciário. Todos esses pontos estavam na nota dos comandantes brasileiros.

Mas o que está por trás dessa irrupção das Forças Armadas no cenário conturbado do País após a vitória de Lula? Quem leu apressadamente a nota dos comandantes não percebeu no último parágrafo três palavras que mostram seu parentesco com o pensamento do general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército. Estão ali, na frase: “Assim, temos primado pela Legalidade, Legitimidade e Estabilidade, transmitindo aos nossos subordinados serenidade, confiança na cadeia de comando, coesão e patriotismo”.

LINHA DE VILLAS BÔAS – Os militares, portanto, se colocaram como continuadores de Villas Bôas. Na crise que levou ao impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016, o general chamava a estabilidade, a legalidade e a legitimidade de os três pilares da atuação da Força Terrestre.

Defendia que o Exército deixasse de ser o Grande Mudo da República, conforme ensinara a Missão Militar Francesa, nos anos 1920. As transformações culturais após o fim da União Soviética, em 1991, teriam imposto radicais modificações no modo de comunicar das instituições. O grande mudo – pensavam os generais – precisava começar a falar.

É que o Exército estava cansado de apanhar calado. Queria enfrentar os agravos da academia, dos jornalistas e dos políticos.

OCUPAÇÃO DE ESPAÇOS – Villas Bôas incentivou que os generais sob seu comando ocupassem espaços. Sua meta era que o Exército voltasse a ser ouvido pela sociedade com naturalidade. Ao antropólogo Celso Castro, disse: “Teríamos de romper um patrulhamento que agia toda vez que um militar se pronunciava, rotulando de imediato como quebra de disciplina ou ameaça de golpe”.

O processo é descrito no capítulo “Anatomia de um Tuíte”, do livro “Poder Camuflado”, do jornalista Fabio Victor. Villas Bôas teve sucesso e arrastou para as redes sociais uma legião de militares da ativa.

O problema é que o comandante destampou a caixa de pandora. Até sargentos começaram a dar palpites em transmissões de deputados federais sobre o valor do soldo. O que se viu foi o esgarçar da disciplina até que o sucessor de Villas Bôas, o general Edson Leal Pujol, pôs ordem na casa, disciplinando o uso das redes sociais, até porque, quem pode um dia aplaudir, pode, no dia seguinte, pensar que tem o direito de vaiar.

HOUVE IDENTIFICAÇÃO – Pujol reagia ainda a uma outra mudança: o governo de Jair Bolsonaro identificava-se amplamente com os interesses das Forças Armadas. E também com o discurso de repúdio ao chamado politicamente correto e com os ataques aos partidos políticos que governaram o País na maior parte da Nova República, todos identificados com a esquerda.

Se os militares sentiam vontade de falar nas gestões do PT ou de Michel Temer, não achavam mais isso preciso quando se consideraram no poder, com Bolsonaro. Podiam voltar ao silêncio.

E assim foi que Pujol nunca teve conta no Twitter, ao contrário de Villas Bôas. Seu sucessor, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, congelou a conta na rede social depois de assumir o Exército, em março de 2021. O general Marco Antonio Freire Gomes, que o sucedeu na função, também não usa as redes sociais para se manifestar. Nem precisava. Nos últimos três anos há generais falando demais no Palácio, como Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos.

GABINETE DO ÓDIO – E isso para não falar do próprio presidente, que inaugurou formas agressivas e descontroladas para desorientar a oposição e se manter como o centro do noticiário. Não foi apenas o cercadinho e a rede de influencers e blogueiros amigos que abasteceram fanáticos, que produziam uma comunicação sem nenhuma institucionalidade.

O próprio presidente se deixava envolver pelo gabinete do ódio, o grupo de assessores que rifou o general Rêgo Barros da função de porta-voz, depois de o militar buscar pôr ordem na casa.

O que é notável agora é que os comandantes das Forças tenham recuperado suas vozes no momento em que Bolsonaro silencia a sua. Desde que perdeu a eleição, o presidente fez apenas três publicações para os 15 milhões de seguidores de sua conta no Facebook – um dia antes do segundo turno, ele fizera 22 postagens, quase uma a cada hora.

SEM AVAL DO MINISTRO – Impressiona ainda mais o fato de que a nota não carregava a assinatura do ministro da Defesa, o general Paulo Sérgio Oliveira, que é o representante político das Forças. Um dos maiores estudiosos dos temas relacionados à Defesa no País, o professor Eurico Lima de Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense, resumiu a situação criada pela nota dos comandantes com a seguinte frase: “Ela apaga a figura da liderança do ministro da Defesa.”

Foi a primeira vez que isso aconteceu neste governo – nenhuma das fontes consultadas pela coluna soube apontar alguma outra oportunidade em que isso tenha ocorrido desde a criação do Ministério da Defesa, em 1999.

É preciso agora saber se a manifestação dos comandantes significa que o Grande Mudo voltará a falar – acompanhado das duas outras Forças – ou se a nota dos comandantes é apenas mais um símbolo da degradação institucional promovida pelo governo Bolsonaro.

HERANÇA MALDITA? – De qualquer forma, em um ou em outro caso, a instabilidade provocada por manifestos militares é só mais um dos fatos que o futuro governo de Lula da Silva terá de enfrentar. E não vai adiantar chamar o problema de “herança maldita”.

Para reconstruir a institucionalidade será preciso mais do que votos. É necessário deixar o passado para trás, com todos os seus métodos e fardos, e construir um novo consenso para o País, que torne a democracia um valor universal.

Mas também é preciso, como escreveu o professor Manuel Domingos, que o novo governo saiba comandar. “Não basta dizer ao militar que volte ao quartel. Voltar para fazer o quê?” O próprio professor responde: “A missão que lhe compete é se preparar para dissuadir ou abater estrangeiro.” Sem esquecer a defesa da Constituição e a obediência aos Poderes Constitucionais.


Reivindicações de governadores e apoio de Ciro Nogueira bloqueiam oposição bolsonarista


Charge do Emerson Coe (Arquivo do Google)

Pedro do Couto

As múltiplas reivindicações de governadores estaduais junto ao presidente eleito, Lula da Silva, incluindo compensação por perda do ICMS e retomada de obras públicas paralisadas, politicamente bloqueiam qualquer investida do PL bolsonarista para formar uma oposição intensa ao governo que se instala em 1º de janeiro.

Soma-se a essa questão o apoio anunciado por Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil de Bolsonaro, ao projeto de emenda constitucional da transição e também ao reajuste acima da inflação do salário mínimo.

PRESSÃO – Reportagem de Bianca Gomes e Gustavo Schmitt, O Globo, focaliza amplamente a pressão de governadores tanto por medidas compensatórias pela perda de ICMS, operação usada pelo atual governo para reduzir artificialmente os preços da gasolina e do óleo diesel, e também a pressão voltada para a retomada de obras públicas.

Relativamente ao posicionamento de Ciro Nogueira, senador pelo Piauí, a reportagem é de Matheus Teixeira, Folha de S. Paulo. A posição dos governadores que lutam para reaver receitas perdidas, reflete-se claramente na posição das bancadas partidárias tanto no Senado quanto na Câmara Federal.

Portanto, numa fase de reivindicações encaminhadas ao Palácio do Planalto que entra em campo a partir de janeiro, revela nitidamente que qualquer impulso oposicionista será em vão, pois não é possível que correntes que reivindicam definições presidenciais possam paralelamente declarar-se em oposição ao governo ao qual batem na porta.

APOIO DE CIRO NOGUEIRA – A oposição assim se evapora com o sopro da realidade política e da própria realidade humana. Não é possível, como antigamente ocorreu com a UDN de Carlos Lacerda, fazer-se oposição pelo próprio prazer de se opor. Tal comportamento contraria a essência da política. O apoio de Ciro Nogueira firma uma posição de seu partido que apoiou Bolsonaro nas eleições, mas agora, como era esperado, apoia Lula no governo.

Assim, era mais que previsível o isolamento do bolsonarismo apesar da insistência de bolsonaristas em bater às portas de quartéis na reivindicação mais absurda possível, derrubar a democracia e manter Bolsonaro no poder. Quanto à PEC do Orçamento, ela vai integrar a Lei Orçamentária para 2023, cujo teto, isso sim, se elevará dos atuais R$ 4,8 trilhões, para aproximadamente R$ 5,3 trilhões.

As obras públicas paralisadas têm que ser retomadas, pois a paralisação representa uma economia de muitos milhões de reais e também para a retomada de uma política de emprego com vinculação trabalhista. Sem essa vinculação, como escrevi ontem, INSS e FGTS devem substanciar as parcelas de receita financeira. Basta dizer que a arrecadação das duas fontes sociais incidem sobre as verdadeiras folhas de salários.

MANTEGA É AFASTADO – Depois da correspondência absurda com a secretaria do Tesouro dos Estados Unidos para adiar a eleição do novo presidente do BID, estava clara a necessidade de afastamento imediato do ex-ministro Guido Mantega da equipe de transição do setor econômico. Reportagem de Natália Portinari e Patrick Camponêz destaca o assunto na edição de ontem de O Globo.

Para não causar um impacto capaz de sensibilizar o governo que assumirá em janeiro, provavelmente o vice Geraldo Alckmin traçou uma fórmula para suavizar o afastamento inevitável. Baseou a decisão numa norma do Tribunal de Contas da União que bloqueia a participação de Guido Mantega em cargos públicos ainda em consequência do processo de pedaladas fiscais que acarretou o impeachment de Dilma Rousseff.

Mantega permanece apenas como voluntário e não pode participar da formação da equipe que exige ato administrativo. Mantega se inclui agora num grupo de voluntários que podem ou não ser consultados. Ele teve a sua inclusão anunciada na quarta-feira da última semana e na sexta-feira dirigiu a correspondência à secretária Janet Yellen. Em um espaço de dois dias, acrescento, causou um desastre. Agora sai de cena.

EUA E CHINA – Depois das urnas confirmarem a vitória do Partido Democrata nas eleições para o Senado, o presidente Joe Biden encontra-se hoje em Bali, Indonésia, na reunião do G20 com Xi Jinping, o líder chinês que comanda os destinos do país.

O encontro inevitavelmente produz um reflexo que incide sobre a guerra da Ucrânia, realçando que o diálogo entre Biden e Xi Jinping, no fundo, representa uma crítica chinesa ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, que desencadeou a absurda invasão à Ucrânia.

O encontro por uma questão de destino se realiza poucos dias após a retirada das tropas russas da cidade de Kerson, retomada pelas forças ucranianas. Uma derrota que pesará no quadro político interno de Moscou.


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segunda-feira, novembro 14, 2022

Paulo Afonso: Prefeita de cidade pernambucana sofre acidente com marido

segunda-feira, 14/11/2022 - 20h00

por Redação

Imagem sobre Paulo Afonso: Prefeita de cidade pernambucana sofre acidente com marido
Foto: Reprodução / TV Globo

A prefeita de Primavera, Dayse Juliana (PSB), e o marido dela, João Paulo Rocha da Silva, sofreram um acidente de moto na noite do domingo (13), na cidade de Paulo Afonso, na Bahia. Ele, que era secretário de Governo do município, não resistiu aos ferimentos, e ela foi socorrida para um hospital.

 

De acordo com o G1, p acidente aconteceu quando o casal voltava de uma viagem ao Distrito Federal. A prefeita de Primavera teve uma fratura no braço esquerdo, passou por uma cirurgia e está bem, de acordo com o boletim médico.

 

"Foi realizado o procedimento cirúrgico, ela passa bem, está consciente e está completamente fora de risco, aguardando os procedimentos para ser transferida para Recife", afirmou a assessoria da prefeita de Primavera, por meio de nota publicada no Instagram.

 

Ainda no comunicado, a assessoria da prefeita declarou que "Dayse e sua família agradecem as manifestações de solidariedade e orações que vem recebendo de todos nesse momento tão difícil". A morte de João Paulo foi confirmada pela prefeitura de Primavera também através de uma postagem nas redes sociais.

 

"É com o mais profundo pesar que lamentamos o falecimento de João Paulo, secretário de Governo de Primavera e marido da prefeita Dayse Juliana", declarou a prefeitura em mensagem postada no Instagram.

Bahia Notícias

Comandante da Aeronáutica apoia e ‘curte’ manifestações de teor golpista no Twitter


Print de teor golpista curtido pelo comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista JúniorEdoardo Ghirotto
Metrópoles

O comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Júnior, curtiu diversas publicações de teor golpista que foram direcionadas a ele no Twitter. “SOS restabelecimento da Lei e da Ordem!”, diz uma das mensagens curtidas pelo tenente-brigadeiro do ar.

Na sexta-feira (11/11), Baptista Júnior assinou uma nota que trata os atos golpistas como “manifestações populares”. O comunicado foi divulgado em conjunto com os comandantes das outras Forças.

DIZEM AS MENSAGENS – Enquanto manifestantes pró-Bolsonaro continuam questionando o resultado das urnas e se mantêm acampados em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, o brigadeiro Baptista Jr. demonstra nas redes sociais que dá apoio a esses atos.

“É inadmissível o que estão fazendo com nosso País @CBaptistaJr vocês precisam estar ao lado do povo que tanto clama ajuda”, lê-se em outra postagem curtida pelo comandante da Aeronáutica.

Baptista Júnior também curtiu outras publicações de bolsonaristas que pedem “socorro” às Forças Armadas e que dizem para os militares “salvarem” o Brasil.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Nada de novo no front ocidental, diria o escritor Erich Maria Remarque. O brigadeiro Baptista Jr. jamais escondeu que é um bolsonarista fanático, destoando completamente do padrão de comportamento da maioria dos oficiais superiores, que são legalistas e acham que os militares devem guardar distância da política partidária. O comportamento do comandante da Aeronáutica é um exemplo degradante de que nem todos os oficiais superiores se mantêm dentro das quatro linhas de suas obrigações constitucionais, infelizmente. (C.N.)


Pressão política para calar a atriz Cássia Kis lembra os tempos sombrios do macartismo


Cássia Kiss desabafa sobre pandemia: “Luta para estar viva” |  Entretenimento | Rondônia Dinâmica

Cássia Kiss defende suas opiniões e sofre sórdida pressão

Eduardo Affonso
O Globo

Para qualquer pessoa minimamente conectada com o século XXI, é difícil não discordar da Cássia Kis. Onde ela vê um movimento de destruição da família, eu vejo o de construção de novos modelos, mais inclusivos. Quando ela diz que que “homem com homem não dá filho, mulher com mulher também não dá filho”, penso nos casais heterossexuais em que o marido é (como eu) infértil, ou a mulher (como a própria Cássia) já entrou na menopausa.

Casais assim tampouco produzem filhos — e isso não os invalida como células familiares, não os torna afetivamente estéreis.

SOMOS DIFERENTES – Cássia é profundamente católica; eu, visceralmente ateu. Ela fez um aborto quando jovem, hoje é militante pró-vida; eu era contrário ao aborto, me tornei pró-escolha. Havemos de ter outras divergências, porém — e tudo o que vem antes de uma conjunção adversativa passa automaticamente a segundo plano — nada disso me impede de respeitá-la como cidadã e como artista.

Divergir dela e contestar seus argumentos só fortalece a ideia de que o diálogo seja a forma mais eficaz de vencer preconceitos e de conviver com diferenças.

Cássia é uma mulher talentosa, corajosa, que defende com clareza aquilo em que acredita. Muitos, entretanto, têm preferido tentar silenciá-la — invalidando suas crenças, boicotando sua carreira, forçando-a a sair de cena (há pressão para que o personagem que interpreta numa novela seja eliminado da trama, e ela venha a ser demitida).

ARTISTAS OU VILÕES? – Os colegas que compactuam com isso terão apreço à arte, à diversidade, à liberdade de expressão? Será que não percebem quanto se assemelham aos que, de verde e amarelo, clamam pela ditadura do pensamento único?

Houve um tempo em que, para conseguir papéis no cinema, na televisão, era preciso esconder a orientação sexual “desviante”. Terá chegado a hora de ter que disfarçar a opção política? Os testes de elenco exigirão, além de talento e physique du rôle, atestado de antecedentes ideológicos?

Quem pede a cabeça de Cássia Kis se crê virtuoso, defensor de uma causa justa — exatamente como os que, do alto de sua superioridade moral, se dedicaram, século após século, ao sublime ofício da caça às bruxas.

VELHO MACARTISMO – Esses militantes talvez não se deem conta de estar reeditando as práticas de discriminação do nazifascismo, dos expurgos comunistas, das patrulhas ideológicas dos anos 70, do macartismo. Este último tentou destruir a carreira de uma infinidade de artistas e intelectuais. Gente como Dashiell Hammett, Richard Attenborough, Luis Buñuel, Charlie Chaplin, Leonard Bernstein, Dalton Trumbo, Lillian Hellman, Dorothy Parker, Orson Welles — e até Lucille Ball.

Hora de lembrar Caetano: Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem / Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final.

Para quem quer que tenha ouvido falar das atrocidades do século XX e dos males que a intolerância nos causou, dói aceitar que ainda se cogite colar estrelas (agora, vermelhas) na porta de estabelecimentos para indicar o inimigo — ou apagar um personagem para calar a voz de uma atriz.

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