
Charge do Gilmar Fraga (Zero Hora)
Pedro do Coutto
A nova versão do programa Desenrola, colocada em prática pelo governo federal, revela uma mudança importante na estratégia econômica da administração Lula para lidar com o alto endividamento das famílias brasileiras. Mais do que simplesmente renegociar dívidas, o objetivo agora é criar mecanismos que permitam acesso ao crédito com juros menores para pessoas consideradas de maior risco pelo sistema financeiro.
O problema é que essa escolha abre um debate delicado sobre os limites da política monetária e sobre os efeitos indiretos da taxa Selic na economia. A lógica do governo é relativamente clara. Em um cenário de juros ainda elevados, milhões de brasileiros seguem excluídos do crédito tradicional ou submetidos a taxas consideradas abusivas por bancos e financeiras.
PESO FINANCEIRO – Ao criar linhas mais baratas, subsidiadas ou parcialmente protegidas por mecanismos públicos, o governo tenta reduzir o peso financeiro sobre consumidores endividados e estimular a atividade econômica. Na prática, trata-se de uma forma de crédito direcionado. O risco maior de inadimplência, que normalmente elevaria os juros cobrados pelas instituições financeiras, passa a ser parcialmente absorvido pelo próprio desenho do programa. Isso reduz artificialmente o custo final do empréstimo para o consumidor.
O ponto central da discussão econômica está justamente aí. Quando o governo cria canais de crédito menos sensíveis à Selic, ele reduz parte da eficácia da política monetária conduzida pelo Banco Central. A taxa básica de juros funciona exatamente como um instrumento para desacelerar consumo, crédito e inflação. Se parcelas relevantes do mercado passam a operar com juros subsidiados ou menos impactados pela Selic, o efeito de contenção monetária perde força.
“ECONOMIA PARALELA” – Economistas de diferentes correntes vêm debatendo esse fenômeno há anos. Em vários momentos da história recente do Brasil, programas de crédito direcionado — especialmente via bancos públicos — acabaram criando uma espécie de “economia paralela” menos atingida pelas decisões do Banco Central. Isso ocorreu em parte durante os governos Dilma Rousseff, quando houve forte expansão do crédito subsidiado por instituições públicas como o BNDES e a Caixa Econômica Federal.
O governo Lula argumenta, porém, que a situação atual é distinta. A equipe econômica sustenta que o foco não é estimular consumo desenfreado, mas permitir reorganização financeira de famílias sufocadas pelo endividamento. Segundo dados recentes da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o nível de endividamento das famílias brasileiras segue elevado, especialmente entre as faixas de renda mais baixas. O peso dos juros altos sobre o crédito rotativo e o cheque especial tornou-se um dos principais fatores de pressão sobre o orçamento doméstico.
Além disso, há um componente político importante. O governo busca fortalecer uma agenda econômica de impacto direto na população de renda média e baixa, especialmente diante de um cenário de desaceleração econômica global e dificuldades fiscais internas. Programas de renegociação e ampliação do crédito têm forte apelo social porque atingem uma parcela enorme do eleitorado.
RISCO – Ainda assim, o risco macroeconômico existe. Se o crédito cresce de forma acelerada em um ambiente de inflação resistente, o Banco Central pode ser obrigado a manter juros altos por mais tempo para compensar a perda de eficácia da política monetária tradicional. Em outras palavras: parte do esforço para reduzir juros ao consumidor pode acabar produzindo pressão adicional sobre a própria Selic.
Outro ponto sensível envolve o custo indireto desse modelo. Sempre que há subsídio implícito, garantias públicas ou mecanismos de compensação de risco, alguém absorve a diferença financeira. Em muitos casos, isso acaba recaindo sobre fundos públicos, bancos estatais ou sobre o próprio Tesouro Nacional. O desafio do governo será evitar que o programa se transforme em mais um passivo fiscal disfarçado.
SPREAD BANCÁRIO – Há também uma questão estrutural que o debate frequentemente ignora: o Brasil possui um dos spreads bancários mais altos do mundo. Ou seja, mesmo quando a Selic cai, os juros finais ao consumidor continuam extremamente elevados. Isso ocorre por uma combinação de inadimplência, concentração bancária, insegurança jurídica, tributação e custos operacionais. O governo tenta atuar justamente nesse espaço onde o sistema financeiro tradicional falha em oferecer crédito acessível.
O problema é que políticas emergenciais raramente substituem reformas estruturais. Enquanto o país não enfrentar de maneira profunda os gargalos do sistema de crédito, continuará dependente de programas temporários para aliviar crises recorrentes de endividamento.
No curto prazo, o novo Desenrola pode trazer algum alívio para milhões de brasileiros e até estimular setores da economia dependentes do consumo. Mas o debate real vai além da renegociação de dívidas. O que está em jogo é o equilíbrio entre estímulo econômico, responsabilidade fiscal e autonomia da política monetária. E esse equilíbrio, no Brasil, historicamente sempre foi frágil.