sábado, agosto 06, 2022

Nova Guerra Fria




Rivalidade com China e Rússia diminui influência de Washington na África

Por Edoardo Pacelli* 

O Departamento de Estado dos EUA anunciou, na sexta-feira, que o secretário de Estado, Antony Blinken, viajará para a África do Sul, República Democrática do Congo e Ruanda. A embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Linda Thomas-Greenfield, por sua vez, irá a Gana e Uganda neste mês de agosto.

As viagens ocorrerão depois da visita do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, a quatro países: Egito, Etiópia, Uganda e República do Congo, e após a visita do presidente francês, Emmanuel Macron, ao Camarões, ao Benin e a Guiné-Bissau. Há uma reação contínua contra as políticas francesas no continente – que muitos africanos, especialmente em países outrora governados pela França, veem como neocoloniais, depois, por exemplo, do comportamento mantido pelo governo francês, de Mitterand, durante o genocídio da etnia tutsi, por parte dos hutus, em 1994.

A diplomacia dos EUA é amplamente percebida, por seus eleitores, por ser impulsionada pela rivalidade com a China e a Rússia, o que diminui a influência que Washington tem sobre os governos africanos, quando se trata de direitos humanos.

Em Ruanda, Blinken deve trazer à tona a detenção do residente permanente dos EUA, Paul Rusesabagina, crítico ferrenho do atual presidente ruandês, Paul Kagame. Rusesabagina é o protagonista do sucesso do filme Hotel Ruanda; ele foi condenado, por Kagame, a 25 anos de prisão por acusações forjadas de terrorismo.

O filme trata da situação em Ruanda, no ano de 1994, quando um conflito político entre as etnias hutus e tutsi levou à morte quase 1 milhão de pessoas em cem dias. O mundo fechou os olhos ao genocídio, mas um homem fez a diferença: Paul Rusesabagina, que era o gerente de um sofisticado hotel na capital, Kigali, quando o conflito começou. Munido apenas de coragem, e com um tímido apoio dos Capacetes Azuis da ONU, abrigou no hotel mais de 1.200 adultos e crianças que corriam sério risco de vida.

Blinken, igualmente, deve mediar a crescente disputa entre Kigali, a capital de Ruanda, e Kinshasa, no leste do Congo.

O senador norte-americano Bob Menendez, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, instou Blinken a realizar uma “revisão abrangente” do “desrespeito contínuo do governo de Ruanda pelos direitos democráticos e humanos”.

*Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga e vice-presidente do Ideus.

Monitor Mercantil

Dono do Infowars é condenado nos EUA por desinformação




Ativista de extrema direita Alex Jones foi sentenciado a pagar US$ 49,3 milhões por espalhar mentiras sobre o massacre de Sandy Hook. Pais de uma das crianças mortas no ataque relataram que receberam ameaças.

Dono do site de desinformação Infowars, o ativista de extrema direita americano Alex Jones foi condenado pela primeira vez pela Justiça dos EUA por espalhar informações falsas, ao negar a existência do pior atentado a uma escola na história dos Estados Unidos: o massacre de Sandy Hook, em 2012, em que 20 crianças com idade entre seis e sete anos e seis funcionários foram mortos por um jovem de 20 anos com livre acesso a armas de fogo.

A decisão da Justiça do estado do Texas sentenciou Jones nesta quinta-feira (05/08) ao pagamento de indenização no valor de 4,1 milhões de dólares (R$ 21,4 milhões) mais danos punitivos de 45,2 milhões de dólares (R$ 233 milhões) à família de uma das crianças mortas no ataque.

O jornalista alegou falsamente que o tiroteio em Sandy Hook havia sido uma "encenação” orquestrada por interessados em aumentar o controle sobre armas nos Estados Unidos – no país, famoso pelo acesso fácil a armas de fogo e massacres recorrentes, há menos cidadãos que armas em poder de civis.

O valor total da indenização nesse caso poderá estabelecer um marco no futuro para outros processos contra Jones e o deixa sob pressão financeira. Também levanta dúvidas sobre a existência do Infowars no futuro – o site foi banido do YouTube, Spotify e Twitter por propagar mensagens que incitam o ódio.

Jones é amplamente conhecido em círculos de extrema direita e seu estilo serviu de modelo para imitadores mundo afora. Ele já foi chamado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro de "guerreiro", e suas publicações já foram compartilhadas por figuras do bolsonarismo como as deputadas Bia Kicis e Carla Zambelli. Em março de 2020, Jones entrevistou o filho do presidente da República sobre os perigos do "socialismo (...) e como o despertar global está acontecendo e levará a grandes coisas para os amantes da liberdade".

Além de espalhar mentiras sobre o massacre de Sandy Hook, Jones regularmente repete teorias conspiratórias sobre os atentados de 11 de Setembro, o ex-presidente Barack Obama, a pandemia de covid-19 e sobre uma suposta “Nova Ordem Mundial”. Mais recentemente, ele esteve diretamente envolvido no protesto de 6 de janeiro de 2020 que resultou na invasão da sede do Congresso americano por uma turba de extremistas.

Família sofreu ameaças e intimidações

Neil Heslin e Scarlett Lewis, que moveram o processo, haviam relatado em depoimento ao tribunal o sofrimento por que passaram ao longo de dez anos de trauma: primeiro com a morte do filho e, depois, ao terem sua casa alvejada por tiros, serem intimidados por pessoas estranhas na rua e receberem ameaças pela internet e pelo telefone – tudo, afirmam, foi incentivado por Jones e seu site Infowars.

A mãe da criança chegou a confrontar Jones em um dos momentos do julgamento. "É incrível que nós tenhamos que estar aqui fazendo isso, que tenhamos que implorar para que você seja punido e pare de mentir.”

Ao longo do processo, Jones também foi confrontado pelos advogados da família ao alegar que não usava emails. A defesa apresentou uma correspondência do Infowars em que um funcionário relatava receitas de 800 mil dólares em um único dia com a venda de produtos no site.

Durante o julgamento, a empresa de Jones, Free Speech System, controladora do portal Infowars, entrou com pedido de falência. Pais das vítimas de Sandy Hook afirmam que o movimento foi uma estratégia para evitar as indenizações e alegam que o jornalista tirou 62 milhões de dólares da companhia e criou dívidas inexistentes no valor de 65 milhões de dólares – valor que seria inteiramente devido a uma outra companhia controlada por Jones, a PQPR Holdings.

Não é o único julgamento que o jornalista deve enfrentar no estado do Texas – ele responde a um processo semelhante em Connecticut movido por parentes de outras vítimas e um agente do FBI, o serviço de inteligência norte-americano, que cuidava das investigações sobre o atentado, e a um outro processo na cidade de Austin.

Em pronunciamento em vídeo, Jones, que anteriormente classificou processos contra ele na Justiça como ataques à sua liberdade de expressão, declarou: "Admito que espalhei desinformação, mas não o fiz de propósito. Pedi desculpas às famílias, e o tribunal entendeu isso. Foi errado o que fiz a essas famílias, mas não o fiz de propósito." Sua defesa também tentou eximir o jornalista da responsabilidade pelo assédio que o casal Neil Heslin e Scarlett Lewis passaram a sofrer após as mentiras espalhadas pelo Infowars.

Deutsche Welle

Linguagem neutra serve como bem de luxo e distinção de classe social



A verdadeira função das palavras supostamente inclusivas é distanciar seus defensores dos modos do povão. 

Por Leandro Narloch (foto)

O Ministério de Obras Públicas da Argentina anunciou nesta semana o uso da linguagem neutra em documentos oficiais. A medida serviria para tornar a língua mais inclusiva para pessoas que não se identificariam com as marcações de gênero do vocabulário tradicional.

Permita-me desenvolver a ideia oposta: a linguagem neutra não é inclusiva. Serve para excluir. O objetivo declarado pode ser a inclusão, mas sua função real, talvez inconsciente para a maior parte dos adeptos, é ser um símbolo de status, uma crença de luxo, uma demarcação de classe.

Não tem como tratar desse assunto sem falar sobre a vida de Rob Henderson, hoje doutorando em psicologia pela Universidade de Cambridge. Filho de uma mãe viciada em drogas e de um pai desconhecido, Henderson rodou a infância em diversas famílias adotivas e abrigos da Califórnia. Uma de suas primeiras lembranças é da mãe sendo levada algemada por policiais; com o tempo, o garoto se acostumou a reunir seus pertences em sacolas plásticas e partir para conhecer uma nova família.

Contra todas as expectativas, aos 17 anos Henderson ingressou na Força Aérea Americana. Anos depois, com apoio da Fundação Bill e Melinda Gates, tornou-se estudante de psicologia em Yale.

O ingresso numa das melhores universidades dos EUA fez Henderson ter contato com jovens ricos e privilegiados, gente até então desconhecida para ele. Sua surpresa é que os estudantes endinheirados de Yale não ostentavam bolsas ou carros de luxo. Seus símbolos de status eram ideias. E palavras.

"Quando eu vivia em lares adotivos, ganhava salário mínimo como lavador de pratos ou servia nas Forças Armadas, nunca ouvia palavras como ‘apropriação cultural’, ‘estereótipo de gênero’ ou ‘heteronormativo’. Mas se você visitar Harvard, encontrará muitos jovens ricos de 19 anos que ansiosamente explicarão esses termos para você."

Para Henderson, à medida que roupas da moda e outros produtos se tornam mais acessíveis, os bens de luxo deixam de sinalizar status. "As classes altas encontraram uma solução inteligente para esse problema: crenças de luxo. São ideias e opiniões que conferem status aos ricos a um custo muito baixo, enquanto causam danos aos mais pobres", escreveu ele em 2019, num artigo no New York Post.

A linguagem neutra é um exemplo cristalino de crença de luxo. Quando a marca de sucos diz na embalagem "mais pêssego para todes", não está nem de longe querendo incluir transexuais, mas sinalizar algo como "sou moderna, moralmente sofisticada, pertenço à vanguarda urbana escolarizada, ao contrário dos meus concorrentes".

Se no século 19 a elite ostentava riqueza com atividades de lazer e esportes caros e incomuns, como defendeu o sociólogo Thorstein Veblen no livro "A Teoria da Classe Ociosa", hoje a ostentação ocorre por meio de opiniões esquisitas. "Quando as pessoas expressam crenças incomuns, diferentes do pensamento convencional, como defender o ‘defund the police’ [desfinanciamento da polícia] ou usar um vocabulário peculiar, muitas vezes o que realmente dizem é: ‘Fui educado em uma universidade de ponta’ ou ‘eu tenho tempo e recursos para adquirir essas ideias esotéricas’", diz Henderson.

Como muita gente já comentou, é bastante duvidosa a ideia de que a linguagem neutra renda algum benefício para transexuais. Muitos deles não ligam a mínima para o assunto, acham coisa de adolescentes, preferem ser chamados pelo novo gênero que adotaram. Ocorre que a verdadeira função da linguagem neutra não é incluir: é distanciar seus defensores o máximo possível dos modos do povão.

Folha de São Paulo

Pênis de senhora




A divisão e a fragmentação que esta esquerda está a criar acabará por causar danos irreparáveis às mulheres, aos homossexuais, aos transgênero. Sobre o que fará à democracia não restam dúvidas. 

Por Eugénia de Vasconcellos (foto)

Estava a ler o Expresso Diário, ainda há pouco, quando vi a notícia – tenho dúvidas de que seja uma notícia, mas assim mesmo… «Demi Lovato voltou a usar os pronomes ela/dela: tenho-me sentido mais feminina outra vez», terá dito a cantora num podcast ao qual deu uma entrevista. Depois de, em 2021, se ter assumido como não binária e ter passado a usar os pronomes elu/delu, Demi Lovato, agora, não os substituiu, mas acrescentou os supra-citados ela/dela. E não sempre. Nem para sempre. Fluidamente, logo, sem carácter permanente.

A minha pergunta é: o que é, então, «sentir-se feminina»? É sentir-se conforme à construção social beauvoiriana? Ou será, ainda que de forma intermitente, no caso de Lovato, identificar-se com o sexo com que nasceu? Ou será uma estética onde os constructos da feminilidade de séculos se condensam em estereótipos como o uso de maquilhagem e saltos altos? Ou terá a cantora passado a acreditar num cérebro feminino? Ou sentir-se-á obrigada à submissão, e por isso feminina, debaixo do peso das estruturas sociais do patriarcado? Não sei de que feminilidade fala Lovato. Nem sei o que é uma mulher, para Lovato, como para qualquer outra pessoa para quem ser mulher é definido pelo «conhecimento interno de ser mulher», num dado momento ou permanentemente.

Mas sei de que mulher e de que feminilidade falam as lésbicas de Vancouver que há 4 dias atrás foram proibidas pela Vancouver Pride Society de participar na Marcha do Orgulho que, ao fim de 3 anos, no dia 31 de Julho, voltou a desfilar pela cidade. Ou seja, a mulher e a feminilidade de que falam as lésbicas que sentem atracção sexual, repito, sexual, por mulheres que nasceram com o sexo feminino e se identificam como mulheres. Mulheres cisgénero, isto é, as que se identificam a si mesmas com o sexo com que nasceram. Estas lésbicas foram proibidas de participar na Marcha do Orgulho e acusadas de transfobia. Em causa esteve o facto de não reconhecerem como mulheres, as mulheres que têm pénis, e ao qual se referem como «pénis de senhora». Estas lésbicas, que não são as do ABC LGBTQIA+ do canal Fox, foram demonizadas, canceladas e, por fim, proibidas de se manifestar na Marcha do Orgulho. O que é isto se não for uma condenação de desviacionismo? São métodos e técnicas muito velhas, mas muito actuais, usadas com extremo sucesso e sistematizadas pelo menos desde Estaline com as acusações a Troksky. Já as referi.

Estas acções, demonização, cancelamento, proibição, a condenação por desviacionismo, são feitas a pretexto da salvaguarda da comunidade transgénero e impõem um julgamento moral e social aos «perpetradores». Porém, isso é falso. São apenas formas de cercear as liberdades. Em nada diferentes das da extrema-direita, o arqui-inimigo de estimação. Alguém se lembra da razão porque Agostinho da Silva foi para o Brasil? Não foi por ser comunista, fascista ou equilibrista. Mas porque para ensinar em Portugal nos tempos de Salazar, um professor, como qualquer funcionário público, tinha de assinar uma declaração anti-comunista. Ele não era comunista. E fascista, de certeza, também não. Era um homem que prezava a liberdade.

Eu também. E imagino que as lésbicas de Vancouver idem aspas. Não precisamos de polícia política. Não queremos polícia de costumes. Delito de opinião.

É preciso sublinhar: é um mínimo grupo de pessoas, e um mínimo grupo de entre os transgénero, da chamada esquerda progressista identitária, quem define e decide não apenas o conceito de mulher mas o que e quem é mulher, de facto. Não é a biologia. Não é a medicina. A maioria das mulheres, ao que parece, também não. As feministas radicais muito menos. As lésbicas que pugnam por direitos baseados no sexo nem pensar. É a esquerda progressista identitária, apenas e só, que sabe o que é uma mulher. Isto ditatorial.

O Estado tem sido cooperante. Ou melhor, os Estados. Lenta e progressivamente. Mudaram-se pronomes. Estão a abolir-se maternidades para criar centros de nascimento e assim não ofender os «homens com útero» que têm filhos nesses locais. Rasuram-se pais e mães para dar lugar a progenitores. Hoje. Mas com controlo cultural gramsciano, e de forma igualmente lenta e progressiva, leva-se a cabo um processo de dominação ideológica através da anulação da ciência, da modificação da linguagem, da acusação e punição sociais, e por fim, da educação.

Não é, portanto, surpreendente o surgimento de políticas que obliteram a moderação como resposta a este propósito de controlo cultural. Não há melhor exemplo, na União Europeia, do que a Hungria e de como deslizou para uma autocracia dita cristã e conservadora onde os direitos duramente conquistados pelas mulheres, homossexuais, e transgénero, os mais vulneráveis sempre e em qualquer sociedade, são a cada dia reduzidos. É a operatividade da Terceira Lei de Newton: à acção de um corpo sobre outro corresponde sempre a uma reacção igual e oposta que o segundo corpo exerce sobre o primeiro.

A divisão e a fragmentação que esta esquerda está a criar acabará por causar danos irreparáveis às mulheres, aos homossexuais, aos transgénero. Sobre o que fará à democracia não restam dúvidas.

Convém lembrar: a salvaguarda dos mais vulneráveis é a medida qualitativa da civilização.

Observador (PT)

Voto nulo não é pecado




Quem cogita votar nulo é alvo de uma pressão que às vezes se assemelha ao bullying. Quem tenta dissuadi-lo em geral está preocupado com a possibilidade de seu candidato preferido perder a eleição no primeiro turno. 

Por Carlos Graieb (foto)

Nas próximas semanas, as pesquisas sobre anulação do voto devem crescer exponencialmente na internet. Esse tem sido o padrão na última década. Segundo dados levantados pela consultoria Bites, o volume de buscas sobre o tema, nos 45 dias que antecedem as eleições presidenciais, dobrou de 2010 para 2014 — e mais uma vez em 2018. Isso não significa que o número de votos nulos necessariamente vá explodir. Ele caiu de 7,3% do total, em 2002, para 5,6%, em 2006. Desde então, não teve saltos expressivos. A proporção foi de 6,1% em 2018. As abstenções, essas sim, cresceram muito: atingiram 20,3% do eleitorado em 2018, o maior índice do século. Mas pouco importa. Apesar de haver um desnível entre a tentação do voto nulo e a sua concretização, os eleitores que cogitam praticá-lo são alvos de uma pressão que às vezes se assemelha ao bullying.

O desejo de não entregar seu voto a nenhum dos candidatos que lideram as pesquisas pode ser tratado como um sinal de ignorância ou alienação; como uma falha de caráter, a exemplo da covardia ou da indiferença; e até mesmo como um pecado. Há religiosos, especialmente católicos, que fazem essa equiparação, com base em uma leitura exaltada da Doutrina Social da Igreja. Essa doutrina desencoraja os fiéis de ignorarem a política, dizendo que o cristão tem o dever de participar das questões de governo com sua opinião, sua palavra e suas ações. Mas não há documento oficial da Igreja dizendo que voto nulo é pecado.

Até no jargão do direito eleitoral está embutido um preconceito contra o voto nulo. Em livros teóricos e decisões judiciais, essa opção é chamada de “apolítica”. Segundo a assessoria de comunicação do TSE, o tribunal não tem posição institucional sobre o assunto, ou melhor, defende que cada cidadão deve votar com liberdade e de acordo com sua consciência. Ainda assim, a página de seu site dirigida aos jovens diz: “Não deixe de dar sua opinião! Não deixe que outras pessoas escolham por você. Seja parte da construção do futuro do Brasil!” Pode-se concluir, portanto, que para o TSE, quem decide votar nulo não tem opinião nem participa da construção do futuro do país. Crusoé pediu um posicionamento ao tribunal, mas não obteve resposta.

Não. O voto nulo é uma opção individual legítima. Ele nasce da rejeição aos candidatos que lideram as pesquisas ou representa um protesto. Nada tem de apolítico. Quem tenta dissuadir o eleitor de abandonar essa escolha pode não estar preocupado com a democracia ou qualquer outra abstração, mas com a possibilidade de seu candidato preferido perder a eleição já no primeiro turno.

A urna eletrônica não tem um botão exclusivo para o voto nulo, como no caso do branco. Para anular, o eleitor precisa digitar um número que não corresponda ao de nenhum político, como uma sequência de zeros, por exemplo. Há dúvidas e fake news a respeito dele. Uma das questões recorrentes é se, aplicado ao presidente, por exemplo, também anula as demais escolhas apresentadas na urna (as de deputado federal, governador e deputado estadual). “Isso não acontece”, diz o advogado Arthur Rollo, especialista em direito eleitoral. “O voto nulo vale só para aquele cargo. Se o eleitor fez escolhas para os outros cargos elas continuam válidas.”

A principal confusão sobre o voto nulo, no entanto, e aquela que os especialistas mais se esforçam para desfazer, diz respeito aos seus efeitos práticos. Há pelo menos vinte anos, antes de toda eleição, surge o boato de que, se os eleitores anularem seus votos em massa, a eleição como um todo pode ser invalidada, transmitindo uma mensagem poderosa ao sistema político. O voto nulo não tem esse poder. Quem insiste no contrário distorce a sua natureza, tanto quanto aqueles que desejam forçar o eleitor a escolher um candidato.

As toalhas da democracia: quem tenta dissuadir do voto nulo, tem medo que seu candidato perca no primeiro turno. O engano decorre da redação do artigo 224 do Código Eleitoral: “Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias.”

O texto sugere que existe uma maneira de abortar uma eleição: conseguir que mais da metade dos votos seja nula. Em 2002, surgiu pela primeira vez um movimento tentando obter esse resultado. A ideia ganhou tração e fez, inclusive, com que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), então presidido pelo ministro Marco Aurélio Mello, deixasse a posição de neutralidade e fizesse campanha na direção contrária, incentivando o voto válido. Em seguida, o tribunal tratou de firmar uma interpretação do artigo 224 que afastasse de uma vez a hipótese de que o número de votos inválidos pode anular as eleições.

Essa interpretação diferenciou votos nulos dos eleitores e votos anulados pela Justiça Eleitoral, em razão da descoberta de que a eleição foi fraudada, que o vencedor era inelegível ou alguma outra ilegalidade. Só nessa segunda situação, se os votos anulados pelo tribunal forem mais de 50%, será preciso refazer as eleições.

Também foi levado em conta o artigo 77, parágrafo segundo, da Constituição. Ele diz que “será considerado eleito Presidente o candidato que, registrado por partido político, obtiver a maioria absoluta de votos, não computados os em branco e os nulos”. Em outras palavras, os votos válidos de uma eleição são aqueles que restam depois da exclusão dos brancos e nulos. Assim, se 90% dos eleitores decidirem anular, o presidente será definido com base nos votos de Jair Bolsonaro 10%. Seu capital político será baixo, mas mesmo assim ele será o presidente.

Quanto menor for o universo dos válidos, mais aumenta a probabilidade de o candidato a presidente que estiver na liderança superar a meta de 50% deles, encerrando a disputa no primeiro turno. De maneira inversa, quanto mais votos válidos houver, e quanto mais distribuídos eles estiverem entre vários candidatos, maior a chance de haver segundo turno. “O número de votos válidos tem consequência práticas”, diz Arthur Rollo. “É por isso que diferentes grupos políticos combatem o voto nulo a cada eleição.”

A consultoria Bites corrobora a afirmação de Rollo. “Em 2018, quando Fernando Haddad, do PT, estava atrás nas pesquisas, a esquerda bateu muito na tecla de que era errado votar nulo”, diz André Eller, diretor da Bites. “Neste ano é o contrário. Com o presidente em segundo lugar, são os influenciadores bolsonaristas que mais agitam essa bandeira.”

É possível pinçar no twitter de Carlos Bolsonaro, por exemplo, mensagens sobre esse tema. Em abril, ao comentar as eleições na França, ele disse que “estimular o voto branco/nulo não é novidade alguma para os que se utilizam da política para se manterem no poder”. Segundo o filho 03, o voto nulo deveria ser chamado de “lulo” no Brasil, por beneficiar o petista. Em dezembro do ano passado ele já havia utilizado a expressão, a propósito de uma reportagem sobre o MBL, grupo que já apoiou Bolsonaro, mas hoje orienta seus integrantes a anular.

O argumento de Carluxo é que todo advogado do voto nulo é um lulista encoberto. Vale também para o outro lado. Em 2018, uma esquerda descabelada com a perspectiva de derrota chamava de “coniventes com o fascismo ou o autoritarismo” os eleitores que não topavam escolher entre Jair Bolsonaro e o PT, por acreditarem que os dois eram inaceitáveis.

Um segundo argumento é que, ao anular o voto, o eleitor deixa que outros escolham por ele. E com isso o sujeito se encaixa em um de dois grupos: ele pode ser um covarde, que não se compromete com uma escolha; ou ele é um “isentão”, que não se preocupa com o país nem com as pessoas à sua volta.

O defeito de todas essas críticas é serem reducionistas. Elas equiparam a participação política ao comparecimento às urnas, como se tudo o que acontece nos quatro anos que separam uma eleição presidencial de outra fosse irrelevante – e como se a discussão política não tivesse se intensificado e aumentado de volume muitas vezes nos últimos anos, por causa das redes sociais.

“O voto obrigatório já me parece uma aberração”, diz o filósofo Denis Rosenfeld. “Querer tirar do eleitor forçado a ir às urnas até mesmo o direito de recusar as opções que lhe ofereceram é ir longe demais. Voto nulo é o protesto de quem racionalmente não considera que aquelas alternativas são boas, ou pessoalmente não se reconhece naqueles candidatos. Está muito longe ser a mesma coisa que não ter opinião. Agora, o cidadão que prefere ser deixado em seu canto, que concluiu que a política não é a coisa mais importante da vida, também não pode ser coagido socialmente a votar, muito menos pelos políticos e pelo Estado. Como disse Benjamin Constant, ao cidadão deve ser dada a liberdade de fazer ou não política.”

Voto nulo, portanto, não é pecado, não é alienação, não é desprezo pela democracia. É, na maioria das vezes, uma afirmação política que precisa ser levada em conta. Uma afirmação válida.

Revista Crusoé

Quando é necessário dizer o óbvio - Editorial




A campanha de Bolsonaro contra as urnas é gravíssima. Mas, como lembrou o presidente do Senado, quem for eleito em outubro tomará posse em 2023. A democracia prevalecerá

Perante a campanha golpista de Jair Bolsonaro contra as urnas eletrônicas e a Justiça Eleitoral, é muito oportuno que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, recorde a realidade. “No dia 1.º de janeiro, aqui estaremos, no Congresso Nacional, a dar posse ao presidente da República eleito pelas urnas eletrônicas do nosso país, seja qual for o eleito”, disse o senador na abertura dos trabalhos legislativos no segundo semestre.

É desalentador que as circunstâncias políticas atuais exijam dizer um aspecto óbvio do regime democrático – quem vencer nas urnas tomará posse –, mas o fato é que, perante a insistência do presidente da República em desacreditar o sistema eleitoral, é necessário que o País tenha a tranquilidade de saber que o resultado das eleições será respeitado. O presidente do Senado faz muito bem em transmitir essa segurança à população.

As ações de Jair Bolsonaro contra a Justiça Eleitoral são gravíssimas, podendo ser enquadradas como crimes de responsabilidade e crimes eleitorais. Para piorar, em sua campanha contra a realização pacífica das eleições, o presidente da República tenta envolver o bom nome das Forças Armadas. A Lei 1.079/50 lista, entre os crimes de responsabilidade contra os direitos políticos (art. 7.º), “utilizar o poder federal para impedir a livre execução da lei eleitoral” (inciso 4), “incitar militares à desobediência à lei ou infração à disciplina” (inciso 7) e “provocar animosidade entre as classes armadas ou contra elas, ou delas contra as instituições civis” (inciso 8). De toda forma, sem minimizar em nada a gravidade das ações de Jair Bolsonaro, é preciso reconhecer o que Rodrigo Pacheco destacou: o presidente da República eleito pelas urnas, seja quem for, tomará posse no dia 1.º de janeiro de 2023.

A loucura bolsonarista precisa continuar sendo o que sempre foi: a loucura de Jair Bolsonaro. Ele pode até fazer reuniões absurdas com embaixadores estrangeiros e difamar a democracia brasileira, mas a realidade se impõe: as urnas eletrônicas brasileiras são referência mundial, como asseguraram, entre outros países, os Estados Unidos e a Inglaterra. “As urnas eletrônicas têm sido motivo de orgulho nacional e trouxeram, nestes 26 anos de uso no Brasil, transparência, confiabilidade e velocidade na apuração do resultado das eleições. Elas têm-se constituído em ferramenta poderosa contra vícios eleitorais muito frequentes na época do voto em papel. Representam, portanto, um verdadeiro aperfeiçoamento institucional”, lembrou o presidente do Senado.

Nesse abissal isolamento de Jair Bolsonaro – similar ao dos tempos em que ameaçava explodir bombas em quartéis do Exército –, desvela-se uma vez mais a falta de autoridade de suas palavras. Em razão do cargo que Jair Bolsonaro ocupa, o que ele fala tem peso e produz particulares consequências jurídicas – por exemplo, suas ações são aptas a serem enquadradas como crime de responsabilidade –, mas isso não significa que a sua vontade de causar confusão nas eleições se imponha por si só.

Se o bolsonarismo destampou a triste realidade de que uma parcela da população flerta e transige com o autoritarismo populista, ele também mostrou que a imensa maioria da população está do lado do regime democrático, da realização pacífica das eleições e da aceitação do resultado das urnas. Mesmo lideranças políticas alinhadas com Jair Bolsonaro, que se beneficiam diretamente do desgoverno bolsonarista, têm reiterado sua confiança nas urnas. “Sempre fui a favor da democracia e de eleições transparentes e confio no sistema eleitoral”, disse, na semana passada, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Eis o panorama atual. Não há como reduzir a gravidade de tudo o que Jair Bolsonaro vem fazendo contra as eleições, assim como não há como ele ficar impune depois de tudo o que já fez. Ao mesmo tempo, sem nenhuma transigência e sem deixar de estar alerta, é preciso reafirmar que as eleições ocorrerão pacificamente e que o eleito tomará posse. O clima de tensão só interessa aos bolsonaristas.

O Estado de São Paulo

Putin e Erdogan falam de tratado econômico e guerra na Síria




Parceria comercial e questões como o conflito no território sírio, em que os países estão em lados opostos, teriam sido discutidas a portas fechadas em Sochi. Guerra na Ucrânia teria ficado em segundo plano.

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, reuniram-se nesta sexta-feira (05/08) em Sochi, no sudoeste russo, para debater uma série de assuntos de interesse mútuo. Além da assinatura de um possível acordo comercial, os líderes discutiram questões econômicas e geopolíticas, a exemplo da guerra na Síria.

O encontro ocorreu a portas fechadas, sem que os presidentes concedessem entrevista coletiva de imprensa.

A última reunião com os dois líderes havia ocorrido em 19 de julho, em compromisso conjunto com o presidente do Irã, Ebrahim Raisi, em Teerã. Na ocasião, eles também discutiram o conflito na Síria, a exportação de grãos e a guerra na Ucrânia, à qual o Irã expressou apoio a Moscou.

Desta vez, Putin disse que esperava assinar um acordo para impulsionar o comércio e os laços econômicos entre russos e turcos – à medida que o isolamento comercial da Rússia tem crescido desde o início da invasão da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro, devido às sanções impostas por países ocidentais.

"Espero que hoje possamos assinar um acordo importante sobre o desenvolvimento de nossos laços comerciais e econômicos", afirmou Putin.

"Acredito que [a reunião desta sexta-feira] abrirá uma página totalmente diferente nas relações entre Turquia e Rússia", declarou Erdogan

O presidente russo também agradeceu o líder turco pela mediação que levou à retomada de exportações de grãos ucranianos a partir de portos no Mar Negro, região antes totalmente bloqueada pelo exército da Rússia.

"As remessas já começaram. Quero agradecer por isso, pelo fato de que foi tomada uma decisão para o fornecimento ininterrupto de alimentos e fertilizantes russos aos mercados mundiais", disse Putin.

O plano para retomar as exportações foi mediado também pela Organização das Nações Unidas (ONU) a fim de garantir um corredor seguro para que os portos ucranianos retomassem o envio de cereais. O bloqueio russo contribuiu para o aumento de preços e a ameaça de uma crise global de alimentos.

Putin provoca a Europa

Além de questões econômicas, temas geopolíticos foram debatidos por Putin e Erdogan. O líder russo elogiou o gasoduto TurkStream, argumentando que a Europa deveria agradecer à Turquia pelo fornecimento de gás natural a partir da Rússia.

O TurkStream foi inaugurado em janeiro de 2020 e leva gás da Rússia à Turquia e, consequentemente, à Europa, por meio de um gasoduto de 930 quilômetros no Mar Negro.

Erdogan, por sua vez, não fez menções à guerra na Ucrânia, mas destacou o conflito na Síria, onde russos e turcos atuam em lados opostos – a Rússia apoia o regime do ditador Bashar Al-Assad, enquanto a Turquia dá apoio aos rebeldes.

Em julho, Putin disse a Erdogan que a Rússia continuava se opondo a qualquer possível ofensiva que a Turquia pudesse estar planejando contra militantes curdos no norte da Síria.

Nesta sexta, o presidente turco disse acreditar que o encontro "traria maior alívio para a região".

A guerra na Ucrânia, neste caso, teria ficado em segundo plano. Erdogan já havia se manifestado anteriormente que deseja atuar como mediador do conflito.

A comunicação do governo turco apenas informou que a comunidade internacional não pode esperar o término da guerra na Ucrânia ao mesmo tempo em que ignora Moscou.

Deutsche Welle

Mídia russa pinta Gerhard Schröder como "salvador da Europa"




Figura desgastada na Alemanha por seus laços comerciais com estatais russas, ex-chanceler se encontrou novamente com Putin na semana passada. Após visita, imprensa russa cobre político alemão de elogios.

Por Juri Rescheto

"A Alemanha vai congelar. E muito, caso o gasoduto Nord Stream 2 não seja colocado em operação". De acordo com o título de um artigo em um dos maiores tablóides russos, o Moskovsky Komsomolets (MK), o presidente russo, Vladimir Putin, recebeu esta informação de seu amigo alemão, o ex-chanceler Gerhard Schröder, que recentemente esteve na Rússia.

Segundo o jornal, Putin "explicou ao seu convidado em grandes detalhes o que está acontecendo e como a situação pode ser melhorada".

O jornal elogia Schröder por explicar o raciocínio de Putin à mídia alemã logo após a visita e por "conclamar o governo federal [alemão] para que abra o gasoduto Nord Stream 2".

Para o periódico, Schröder obviamente achou os argumentos de Putin convincentes. "Em sua entrevista à mídia alemã, ele [Schröder] reverberou Putin e culpou a Siemenspelos problemas [com o fornecimento de gás para a Europa]".

No final de julho, Schröder, que governou a Alemanha entre 1998 e 2005, visitou Putin em Moscou pela segunda vez desde o início do conflito. Amigo pessoal do líder russo, Schröder é hoje uma figura desgastada na Alemanha por causa dos seus laços com o Kremlin e os diversos cargos que ocupou em estatais russas de energia após deixar o governo, que lhe valeram acusações de atuação como lobista.

Nesta semana, ao regressar da sua mais recente visita a Moscou, Schröder concedeu uma entrevista na qual afirmou que a Rússia está pronta para “um acordo negociado” em relação à Ucrânia e defendeu a abertura do gasoduto submerso Nord Stream 2 como forma de aliviar a escassez de gás na Alemanha.

O gasoduto, controlado pela empresa russa Gazprom, nunca entrou em operação e teve sua licença suspensa por Berlim pouco antes da Guerra na Ucrânia. Schröder ocupa justamente a presidência do conselho de diretores da subsidiária responsável pelo Nord Stream 2.

Schröder como "negociador""

A emissora conservadora religiosa russa Zargrad disse que Schröder renunciou a algumas de suas conexões comerciais com a Rússia sob pressão de um "lobby europeu" não especificado. A Zargrad agora atribui ao político o novo papel de "negociador".

"Gerhard Schröder é um dos 'amigos' europeus mais importantes de Putin, como foi retratado na imprensa ocidental durante anos. Na realidade, isso significa que foi muito confortável trabalhar em conjunto com o ex-chanceler".

A agência de notícias Ria Nowosti, conhecida por suas reportagens opinativas, refere-se a algumas cartas ao editor do jornal alemão Die Welt, em que Schröder também é elogiado: "Os alemães estão entusiasmados com suas palavras sobre Putin".

No artigo em questão, são traçados paralelos com o atual chanceler federal, Olaf Scholz - em seu detrimento. Os leitores também são citados como pedindo que o projeto de gasoduto germano-russo Nord Stream 2, no momento suspenso, seja retomado.

'Gerhard Schröder e Vladimir Putin são amigos de longa data'

Diplomacia para resolver o conflito

O jornal Izvestia ressalta a lealdade de Schröder a Putin. "O ex-chanceler se recusou a pedir desculpas por sua amizade com Putin", destacou. Segundo o periódico, falar é melhor do que silenciar, já que a situação na Ucrânia pode ser resolvida com a ajuda da diplomacia.

O jornal cita o ex-chanceler dizendo que o Kremlin está pronto para as negociações de paz - e o alfineta, em referência às palavras de Schröder: "Mas os países europeus, incluindo Alemanha e França, não estão fazendo o suficiente sobre isso".

O portal online Deita.ru pergunta em sua manchete: "O 'amigo de Putin' veio a Moscou para salvar a Alemanha e encerrar a operação especial militar?", esclarecendo que Schröder provavelmente esteve na capital russa para salvar os alemães de um iminente "terror frio" e para atuar como mediador no conflito na Ucrânia.

No entanto, o jornal pondera que, no caso de qualquer negociação de paz russo-ucraniana, o Kremlin provavelmente só faria concessões se Scholz, em troca, renunciasse a fornecer ajuda militar à Ucrânia.

"Ao cumprir a vontade dos Estados Unidos, a Alemanha fornece às forças ucranianas armas que matam soldados russos. E aqui nenhum interesse econômico prevalece sobre o valor da vida. Além disso, é impossível fechar os olhos ao confisco de bens públicos e privados russos", diz o jornal, manifestando a esperança de que a amizade de longa data entre os dois políticos faça avançar as negociações.

"Schröder goza de um alto nível de credibilidade na Alemanha (...) e é um dos políticos com quem Putin gostaria de conversar."

Deutsche Welle

Em nome de todos os combatentes da liberdade




A luta pela liberdade continua sem espaço para descontos. A NATO representa o Ocidente, a liberdade. Em breve chegará o momento em que a Aliança terá de tomar decisões difíceis em relação à Turquia. 

Por Nicolau Hidiroglou (foto)

Novas chantagens? Novos problemas? Até quando vamos tolerar os métodos turcos na Europa? Ninguém parece disposto a entrar numa discussão substantiva sobre o futuro da NATO.

Não há muito tempo, nem mesmo os alemães queriam discutir com seus parceiros europeus o relacionamento com Moscovo. Mas agora a dura realidade força a discussão, uma vez que a indústria alemã pode ficar sem energia e entrar em colapso. O que nos recusamos a enfrentar, encontramos mais tarde à nossa frente.

No caso da Turquia, temos muitos exemplos do passado. O que é importante sobre a NATO? Continuar a contar com o apoio da opinião pública dos estados que a compõem. Já se passaram 48 anos desde que a Turquia invadiu Chipre usando armamento da NATO. Desde então, a parte ocupada foi continuamente colonizada, enquanto seu património cultural foi destruído. A reação de Atenas em 1974 foi a retirada do braço militar da Aliança. Era algo que o povo grego, indignado, queria na época. A Grécia voltou a participar militarmente na Nato em 1980. Mas foi difícil, principalmente no início, restaurar a imagem da Aliança aos olhos dos Gregos. “CEE e NATO a mesma união”, foi o slogan antiocidental dos socialistas do PASOK nas eleições gregas de 1981. Os comunistas (KKE) na Grécia ainda falam assim.

A Aliança está a observar com profunda consternação a “barganha oriental” da Turquia pela adesão da Suécia e da Finlândia. E agora, há uma questão de valores. A Turquia é um país que ilegalmente e após uma invasão militar ocupa grande parte da República de Chipre (cerca de 36%), um país membro da União Europeia.

Os turcos continuam a ameaçar a Grécia no mar Egeu e a estabilidade no sudeste da Europa. É um país que invade o Iraque e a Síria de quando em vez e tem más relações com todos os vizinhos. É um país que constantemente finge ser neutro, especialmente quando as apostas são altas. E neste país, cujo governo viola brutalmente os direitos humanos, a NATO dá direito à chantagem para a entrada de novos membros! As implicações morais e políticas para a coesão da Aliança a médio prazo serão grandes.

As incompatibilidades da Turquia com os outros países da NATO são óbvias. Hoje, Ancara está pedindo à Suécia e à Finlândia que entreguem fugitivos. Nos países europeus existem procedimentos institucionais para a extradição de pessoas. Os direitos humanos nos nossos estados são protegidos. O governo turco sabe disso, mas alguns deram-lhe o direito de impor sua vontade. E é justamente aí que está o problema.

Mas isso não é tudo. Alguns países da UE vendem sistemas de armas à Turquia que podem ser usados ​​contra os Gregos a qualquer momento. A única coisa que parece interessar a alguns é o lucro. É hora de nos perguntarmos como os valores da NATO serão protegidos.

Ninguém deve ser autorizado a corroê-los. Na Grécia nunca esqueceram António Figueira de Almeida, que lutou contra os Otomanos pela sua independência. Ele foi um grande Português, herói da Revolução Grega.

A luta pela liberdade continua e não há espaço para fazer descontos. A humanidade está assistindo. A NATO representa o Ocidente, representa a liberdade. Em breve chegará o momento em que a Aliança terá de tomar decisões difíceis em relação à Turquia.

Observador (PT)

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