
João Amoêdo, do Novo, defende o impeachment de Bolsonaro
Joelmir Tavares
Folha
Nome de direita que defende o impeachment de Jair Bolsonaro (sem partido), o ex-presidenciável João Amoêdo, um dos fundadores do partido Novo, diz que o fracasso do atual presidente abre caminho para a volta da esquerda ao poder, sobretudo com a reabilitação do ex-presidente Lula (PT).
“Pode reforçar o retorno da esquerda que ele [Bolsonaro] tanto dizia combater, por total ineficiência e por uma visão ideológica extremada e distorcida”, afirma à Folha o ex-banqueiro, que votou no atual mandatário no segundo turno de 2018.
“É pior do que a gente poderia imaginar”, diz, frustrado com a paralisação da agenda liberal do ministro Paulo Guedes, que está “fazendo figuração”, e com o “desempenho desastroso” do governo na pandemia.
Ainda vê o impeachment como uma saída necessária ou acha que situação deveria ser decidida nas urnas?
Do ponto de vista jurídico, há o fundamento, uma série de crimes de responsabilidade. Do ponto de vista político, ainda não existe clima, mas acredito que continuará crescendo o apoio à ideia. A estrutura que se montou no Congresso, com a eleição de uma liderança apoiada pelo presidente [Arthur Lira (PP-AL)], torna o processo mais difícil. Pretendo continuar insistindo nisso, mesmo que ele não venha a ser pautado, mas para que o cidadão se lembre disso na hora do voto em 2022.
É possível enfrentar a pandemia com Bolsonaro no poder?
É muito difícil. Ele faz o contrário do que recomendam as boas práticas, faz ataques desnecessários aos gestores públicos e incentiva a população a descumprir medidas. E os resultados que estamos colhendo são reflexo da liderança dele, uma atuação que compromete vidas de brasileiros. A competência, o conhecimento, o equilíbrio, nada disso são aptidões que valem no governo Bolsonaro. O que vale é a subserviência e a bajulação a um teórico mito.
Considerando a guerra cultural defendida pelos bolsonaristas, acredita que o governo trouxe alguma contribuição para apontar outros caminhos políticos e econômicos?
Não. Bolsonaro atacou o Congresso, o Supremo, a imprensa, os partidos políticos. Sem falar nos ataques de seus apoiadores às pessoas que tenham qualquer opinião diferente, o que culmina numa restrição à liberdade de expressão. Nas políticas, não tivemos evolução na área econômica, na área educacional. Por último, ele teve um desempenho sofrível na maior crise de saúde que já vivemos. Essa história de que ele estava eliminando a esquerda, isso ficou única e exclusivamente no discurso. A atuação dele está tendo o efeito contrário.
A entrada do ex-presidente Lula no cenário eleitoral é um elemento a mais?
Sim. Os escândalos das ‘rachadinhas’, de cheque na conta da esposa [Michelle Bolsonaro], uma série de fatos que não são explicados, isso tudo criou para a esquerda um discurso muito fácil. É tanta coisa errada que dá argumentos para quem estava na ponta oposta. A minha avaliação é que ele terá feito um mandato do qual a sociedade sairá mais fraca, no qual ele não terá entregue praticamente nada do ponto de vista de gestão e que pode reforçar o retorno da esquerda que ele tanto dizia combater, por total ineficiência e por uma visão ideológica extremada e distorcida.
O sr. afirmou à Folha em 2019 que não alimentava grandes expectativas em relação ao governo. Diria que é ainda pior do que imaginou?
Sim, muito pior. Eu não imaginava nada muito positivo, especialmente pelo histórico do Bolsonaro. Nunca teve uma visão liberal nem tinha experiência em gestão de pessoas. Mas, no primeiro momento, ele tinha alguns quadros, como o Paulo Guedes, o [Sergio] Moro, que davam certa credibilidade ao governo. Isso foi desmoronando ao longo do tempo. E ele ainda teve o ônus de assumir a crise na saúde, o que explicitou a incapacidade dele.
Vê espaço ainda para algum avanço na agenda liberal neste governo?
Acho muito pouco provável. Infelizmente, o ministro da Economia [Guedes] acaba hoje fazendo uma figuração. Não tivemos nenhuma privatização nem reforma administrativa nem tributária.
O sr. é pré-candidato a presidente em 2022?
Ainda não tenho pensado sobre o assunto, não é uma prioridade. Entendo que precisamos ter uma alternativa viável, que não nos coloque de novo nessa polarização entre PT e Bolsonaro. O populismo está muito presente em ambos. O PT nunca teve coragem de assumir os seus erros. Isso é preocupante. Quem não assume os erros possivelmente irá repeti-los. Quero ajudar a tentar viabilizar uma candidatura com competitividade eleitoral, mas também que possa fazer um resgate do Brasil e coloque o país de volta em uma rota de crescimento, para combater a pobreza.








