Publicado em 22 de junho de 2025 por Tribuna da Internet

Charge do Steve Sack (Revista Piauí)
Wálter Maierovitch
do UOL
O mercurial e contraditório presidente americano Donald Trump vivia um dilema: colocar ou não os EUA no conflito entre Israel e Irã. Trump estaria envolto, como dizem os criminalistas, numa camisa de sete varas. O dilema devia-se ao fato de o líder supremo da teocracia iraniana, Ali Khamenei (86 anos de vida e 36 de poder), ter dado, como se diz no popular, “uma banana” ao ultimato de Trump.
O líder iraniano não jogou a toalha e prometeu promover danos irreparáveis caso o Irã fosse atacado pelos EUA. Trump imediatamente reuniu o Conselho de Defesa, para autorizar o bombadeio.
PROMETEU PAZ – A lembrar: Trump elegeu-se prometendo a paz e dizendo que atuaria na solução rápida dos conflitos em curso — Ucrânia x Rússia e Israel x Hamas.
Trump, politicamente, sabe da divisão que enfrenta. O movimento trumpista conhecido pela abreviatura MAGA (Make America Great Again), atuante dentro do Partido Republicano, está rachado.
Nesse racha, há os que ainda pregam o belicismo — a apelidada doutrina Neon de intromissões, como aconteceu no Iraque, Afeganistão e Líbia. Do lado oposto, com vozes de respeito interno como as de Steve Bannon e Tucker Carlson, estão os que não querem guerra de jeito algum, mantida a posição ao tempo das eleições.
ELE E NETANYAHU – Trump, nessa sinuca de bico que se metera, logo se posicionou para . Ele é sabedor, pelo menos, de poder manobrar o ególatra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro que se insinua, modéstia de lado, o maior estrategista da história de Israel e do povo hebreu.
Não é bem assim, pois Israel precisa do apoio americano. Caso contrário, não resistirá à guerra com o Irã, sem ignorar que possui frentes de combate abertas na faixa geográfica de Gaza e na fronteira com o Líbano — onde o Hezbollah continua, com bombas, a colocar em risco os agricultores israelenses.
Para se ter ideia da dependência, e como informaram as agências internacionais de notícias, o estoque israelenses de mísseis de modelo Arrow, utilizados para interceptar os mísseis iranianos, já está baixo. Somente 5% dos mísseis iranianos conseguem furar o sistema de escudo de Israel, que emprega os mísseis Arrow. Isso significa uma necessidade de manutenção do escudo protetor.
GUERRA DE MENTIRAS – Atenção: para tentar furar o “escudo” usado por Israel, o Irã anunciou, como propaganda de guerra e pelas suas mídias, o uso de mísseis hipersônicos.
Aliás, pelo que noticiam as mídias internas controlados pela ditadura teocrática, o cidadão iraniano imagina que o Irã está vencendo a guerra com facilidade e os líderes mortos caíram em combate. Quanto à rede televisiva, acabou atingida por uma mera distração.
Tem mais: a central nuclear de Fordow — que funcionaria para enriquecimento de urânio igual ou acima de 60% de potência — é subterrânea, com 90 metros de profundidade. Ou seja, apenas bombas penetrantes e pesadas conseguiriam chegar ao coração da Fordow, e só os americanos produzem bombas de tonelagem.
NEGOCIAÇÕES? – Quando do início do conflito, na sexta-feira (13), Trump foi logo avisando da não participação americana na ofensiva de Israel. Deixou claro que o aliado Estado da estrela de Davi seria protegido apenas defensivamente.
Na ocasião, Trump estava engasgado com o insucesso do acordo nuclear, por não ter o Irã aceitado a proposta de encerrar o enriquecimento do urânio e estar a transformá-lo em combustível para armamentos de guerra, como artefatos e bombas nucleares. Trump deu o prazo de 61 dias para a volta às negociações.
Terminado sem resposta o prazo, Israel realizou o primeiro ataque no dia seguinte.
DIVIDIR A GLÓRIA – Trump, a partir daí e da vantagem inicial de Israel, começou a tomar partido e querer dividir as vitórias com o sanguinário premiê israelense, Benjamin Netanyahu.
Ouviu e ficou agradado com o pronunciamento incendiário do ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Tal ministro prometeu “queimar Teerã”, como num surto de Nero, que incendiou Roma.
Para o reverendo Mike Huckabee, embaixador dos EUA em Israel, Trump é um enviado de Deus para resolver o problema nuclear criado pelo Irã. O presidente americano, então, surfou nas propagandas de guerra.
PALAVRAS DE TRUMP – Confira as declarações de Trump sobre mais esse conflito:
1) Que a intervenção americana só ocorreria se o Irã atacasse as bases americanas. Também se atingisse os interesses americanos, numa referência a interesses comerciais. Pelo jeito, mencionava o fechamento do estreito de Ormuz (entre Omã e Irã), por onde passa um quarto do petróleo produzido no mundo.
2) “É possível que sejamos envolvidos no conflito”. A frase é do último domingo e anuncia uma provável entrada dos EUA no conflito.
3) Na segunda-feira, aconselhou a evacuação de Teerã, com urgência. Esqueceu-se que é uma cidade de 10 milhões de habitantes. Com isso, criou confusão, pois muitos tentaram sair de Teerã em direção à periferia ou ao interior, com filas nas estradas e espera de mais de cinco horas para abastecer os carros.
4) Na terça, Trump tentou assustar Ali Khamenei: “Sabemos onde se esconde, mas, no momento, não queremos eliminá-lo”. Disse, também, ter o controle do espaço aéreo de Teerã.
5) Na quarta, ressaltou que Irã suplicava a volta às negociações, mas a condição é uma só, ou seja, o fim do enriquecimento do urânio.
Palavras, o vento leva. O que no final valeu foram os superbombardeiros B-2.