Publicado em 23 de junho de 2025 por Tribuna da Internet

Se Irã não quiser a paz, novos ataques serão maiores, diz Trump
Pedro do Coutto
O ataque dos Estados Unidos ao Irã não é apenas mais um capítulo na conturbada geopolítica do Oriente Médio. Trata-se de uma ofensiva sem precedentes nos últimos anos, que, na prática, equivale a uma declaração de guerra — embora sem a formalidade que o direito internacional exige. A decisão unilateral de Washington, antecipando-se à própria promessa de Donald Trump de se pronunciar em duas semanas, alterou drasticamente o tabuleiro global.
Com as ações americanas, e Israel endossando os ataques com o objetivo explícito de eliminar por completo a infraestrutura nuclear iraniana, o mundo segura a respiração. As implicações vão muito além da rivalidade regional. A escalada atinge um ponto sensível da segurança coletiva internacional.
ALIANÇAS – O Irã, embora debilitado por sanções e isolado diplomaticamente em parte do Ocidente, possui alianças estratégicas com duas potências que não podem ser ignoradas: Rússia e China. Moscou já manifestou “profunda preocupação” com a violação da soberania iraniana e convocou reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU. Pequim, por sua vez, declarou que “ações unilaterais sem respaldo do direito internacional abrem caminho para o caos global”.
Ambos os países têm interesses econômicos e geopolíticos robustos no Irã — desde acordos energéticos até posicionamento estratégico no golfo Pérsico. O uso de mísseis de longo alcance contra instalações nucleares não apenas desestabiliza a região, mas lança dúvidas sobre o compromisso dos EUA com a diplomacia multilateral.
A ação remonta à doutrina do “ataque preventivo”, praticada com desastrosas consequências na guerra do Iraque em 2003. À época, a alegação de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa foi o estopim para um conflito que devastou o país e abriu caminho para o surgimento de grupos extremistas como o Estado Islâmico. O paralelismo é inevitável — o Irã, já cercado, reage com promessas de retaliação, e o risco de alastramento do conflito para países vizinhos como Síria, Líbano e até o Iêmen cresce a cada hora.
ESTRATÉGIA – Israel, por sua vez, não esconde sua estratégia de aproveitar o momento para enfraquecer o Hezbollah, grupo xiita aliado do Irã no Líbano. O governo Netanyahu afirmou que sua ofensiva “não cessará enquanto o programa nuclear iraniano não for eliminado”. Essa posição alimenta o temor de que o conflito se torne multinacional, envolvendo milícias e exércitos irregulares em várias frentes, o que tornaria o controle diplomático quase impossível.
A União Europeia, tradicional aliada dos EUA, vive um dilema. França e Alemanha já expressaram preocupação com a violação de tratados internacionais, em especial o Acordo Nuclear de 2015, que foi abandonado pelos EUA em 2018, mas ainda tem apoio parcial dos europeus. Sanções unilaterais e ações militares colocam em xeque os esforços de mediação da diplomacia europeia, que tenta evitar o colapso completo do pacto.
Na ONU, o clima é de divisão e tensão. Enquanto o bloco ocidental tenta justificar a ação americana com base em supostas “provas irrefutáveis” de atividades nucleares clandestinas, China, Rússia e parte dos países do Sul Global exigem uma investigação internacional independente e o retorno imediato às negociações diplomáticas. A própria Carta das Nações Unidas parece desafiada em sua essência, uma vez que o uso da força deveria ser o último recurso, precedido por deliberação no Conselho de Segurança.
REFLEXOS – As consequências humanitárias já são visíveis. Relatos de ONGs como a Human Rights Watch e a Cruz Vermelha Internacional apontam dezenas de mortos, muitos civis, e uma infraestrutura de saúde colapsada nas áreas bombardeadas. O Irã, além de prometer reagir, já mobiliza aliados regionais e prepara sua diplomacia para isolar os EUA no cenário global, ao menos no campo moral e jurídico.
O ataque marca uma inflexão perigosa no equilíbrio global de forças. Se confirmadas retaliações ou contragolpes por parte do Irã, ou — ainda mais grave — o envolvimento direto de Rússia ou China, o mundo pode estar diante da mais séria ameaça à paz desde a crise dos mísseis de Cuba, em 1962. A diferença é que hoje a interdependência econômica é muito maior, o que torna o risco de ruptura de cadeias globais de abastecimento um agravante real, com impacto direto sobre a inflação, o petróleo, e a estabilidade política em democracias frágeis.
O que se vislumbra é um momento de ruptura, onde o sistema internacional será testado em sua capacidade de conter unilateralismos, reafirmar a primazia do direito internacional e evitar que uma faísca no Golfo leve o mundo a um novo ciclo de guerra. A história ainda está sendo escrita, mas o seu tom já é sombrio.