segunda-feira, junho 16, 2025

A resiliência de Lula e a emergência de Michelle: lições do último Datafolha


Levantamento divulgou intenções de voto para 2026

Pedro do Coutto

Por mais que a política brasileira tenha se acostumado com reviravoltas dramáticas e imprevisíveis, os dados da mais recente pesquisa Datafolha sobre a corrida presidencial de 2026 reiteram uma constante quase inescapável: a polarização segue firme como eixo central do debate nacional. O levantamento mostra que, se as eleições fossem hoje, Lula da Silva teria 43% das intenções de voto contra 42% de Tarcísio de Freitas. No cenário com Michelle Bolsonaro, a vantagem do presidente é ligeiramente maior: 46% a 42%.

A princípio, esses números podem parecer apenas mais uma fotografia momentânea do eleitorado. Mas, sob um olhar atento, revelam movimentos significativos – tanto no campo do lulismo quanto na seara bolsonarista. Primeiro, é preciso reconhecer a resiliência de Lula. Mesmo enfrentando críticas recorrentes sobre a condução administrativa e tendo de gerir uma base parlamentar muitas vezes hostil, o presidente mantém-se competitivo. Não há, neste momento, um desgaste fatal à sua imagem que o impeça de disputar em pé de igualdade uma reeleição.

SEM ALTERNATIVAS – A força de Lula parece residir não em uma aprovação exuberante de seu governo, mas na ausência de alternativas robustas no centro político e na capacidade de sustentar sua narrativa histórica – aquela que associa seu nome à superação, inclusão social e resistência democrática. A memória coletiva do lulismo ainda funciona como lastro emocional para boa parte do eleitorado, sobretudo diante de adversários que representam uma guinada conservadora com traços autoritários.

No campo oposto, o avanço de Michelle Bolsonaro é, sem dúvida, o dado mais surpreendente da pesquisa. A ex-primeira-dama, que jamais disputou uma eleição, desponta com 42% das intenções de voto – um desempenho expressivo para quem não possui trajetória político-eleitoral própria. Isso revela duas coisas: a força simbólica do sobrenome Bolsonaro e o desejo do eleitorado bolsonarista por uma alternativa mais “palatável” à figura do ex-presidente, cuja rejeição ainda é considerável fora de sua base fiel.

Michelle é a personificação da tentativa de ressignificar o bolsonarismo. Sua imagem de mulher religiosa, discreta e sem os escândalos diretos que rondaram o marido pode ser uma aposta estratégica do grupo para furar o teto de rejeição que Jair Bolsonaro enfrenta. Ainda é cedo para dizer se ela conseguirá sustentar uma candidatura presidencial, mas o recado do Datafolha é claro: ela tem potencial competitivo.

PEÇA IMPORTANTE – Tarcísio de Freitas, por sua vez, surge como uma peça importante no tabuleiro, mas que ainda não mobiliza paixões fora de São Paulo. Seu desempenho está no limite do empate técnico com Lula, o que é notável, mas talvez ainda insuficiente para consolidar-se como líder incontestável da direita no pós-Bolsonaro. A depender do grau de apoio que receba do ex-presidente e da disposição em nacionalizar seu discurso, pode se tornar o nome viável do campo conservador. Mas enfrenta o desafio de ser reconhecido para além de sua base estadual e de não ser engolido pelo peso simbólico do bolsonarismo de raiz.

No fundo, o retrato desenhado pelo Datafolha sugere uma eleição que pode repetir a lógica das últimas disputas: um país dividido entre dois polos, com os nomes mais conhecidos à frente, mesmo que cercados de críticas e controvérsias. O centro político, mais uma vez, parece órfão de lideranças que encantem ou mobilizem o eleitorado de forma contundente. Isso, por si só, fortalece a polarização, que continua sendo o motor do debate público nacional.

A disputa de 2026 ainda está longe, e muitas águas vão correr debaixo da ponte. Mas o que já se pode afirmar é que Lula permanece como um competidor formidável, mesmo sob o peso do governo. E que o bolsonarismo, longe de ter desaparecido, busca novos rostos para reviver sua narrativa – seja pela via de Michelle ou de Tarcísio. O Brasil segue, portanto, em sua encruzilhada cívica, entre a repetição e o reinício.

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