sexta-feira, junho 20, 2025

A escalada de Trump e o xadrez global da tensão


Charge do Amarildo (amarildocharge.wordpress.com)

Pedro do Coutto

Por mais improvável que pareça aos olhos da razão diplomática, o mundo volta a flertar com o abismo. Donald Trump tem elevado o tom em relação ao Irã. Com declarações que soam mais como um ultimato imperial do que como uma estratégia ponderada, Trump sugeriu uma “rendição incondicional” do regime iraniano em meio à escalada de tensões com Israel. Seu discurso, no plural majestático, carrega ecos de uma ambição geopolítica que ultrapassa as fronteiras da razoabilidade e se aproxima perigosamente do delírio de poder.

O pano de fundo é conhecido, mas não menos explosivo. Israel e Irã travam uma guerra de sombras há anos — ora por meio de ataques cibernéticos, ora por bombardeios indiretos por grupos aliados. A diferença agora é a possível reentrada dos Estados Unidos, sob uma liderança que flerta com uma retórica bélica agressiva. Ao acenar com a possibilidade de destruir o sistema nuclear iraniano, Trump acende alertas que vão de Teerã a Moscou, passando por Bruxelas e Pequim.

SUPERFICIALIDADE – A fala  de Trump sobre “matar Kamenev” — numa provável referência equivocada a Ali Khamenei, o líder supremo do Irã — revela a superficialidade com que temas de altíssima complexidade são tratados, numa lógica que mistura personalismo com demonstração de força bruta.

Mas o mundo do século XXI não se curva tão facilmente a imposições unilaterais. O presidente russo, Vladimir Putin, vê no Irã não apenas um parceiro estratégico, mas uma peça-chave no equilíbrio de forças do Oriente Médio. Com a guerra na Ucrânia ainda em curso e a Rússia sob sanções severas do Ocidente, Teerã tornou-se uma válvula de escape econômica e política para Moscou. Uma ofensiva americana contra o Irã seria, portanto, percebida por Putin como um ataque indireto à sua própria influência na região.

CAUTELA – Por sua vez, a China adota uma postura cautelosa, mas não inofensiva. Pequim tem interesses comerciais profundos no Irã e, embora evite o confronto direto, não tolerará um colapso regional que prejudique suas rotas energéticas e projetos de expansão. A posição chinesa, moderada na superfície, é respaldada por uma presença diplomática cada vez mais ativa no Oriente Médio — um contraponto silencioso, porém firme, à agressividade ocidental.

É neste cenário de múltiplas tensões que a pergunta crucial se impõe: o que acontecerá se os Estados Unidos realmente bombardearem o Irã? As consequências seriam imprevisíveis, mas certamente catastróficas. Além das baixas humanas, que seriam incontáveis, o mundo testemunharia uma reação em cadeia que poderia afetar desde os preços do petróleo até a estabilidade de regimes aliados em toda a região.

A aposta de Trump em uma política de força total pode agradar setores militaristas e conservadores, mas ignora os aprendizados históricos das guerras do século XX e início do XXI. O unilateralismo tem limites e, numa era atômica, o risco de erros de cálculo é alto demais. As palavras de Trump são fagulhas reais num barril de pólvora em combustão.

“REI DO MUNDO” – Há, também, um ponto de inflexão simbólico importante: ao agir como se fosse o “rei do mundo”, Trump testa não apenas os limites do poder americano, mas da própria ordem internacional pós-Segunda Guerra. Organismos multilaterais, como a ONU, são sistematicamente desrespeitados ou ignorados. O direito internacional torna-se refém da conveniência das potências. Nesse ambiente, a paz torna-se um ideal frágil e cada vez mais distante.

A comunidade internacional, portanto, precisa reagir não com mais violência, mas com mais diplomacia. Este é o momento de ativar os canais de diálogo — entre potências, entre povos, entre instituições. A escalada de tensões só poderá ser contida se houver responsabilidade de Estado, visão estratégica e coragem política para resistir aos impulsos autoritários travestidos de patriotismo.

Se o século XXI tem alguma lição a oferecer, é que o poder não reside apenas na força, mas na capacidade de evitar a guerra quando ela parece inevitável. Nesse xadrez geopolítico global, as peças já se movem — mas o xeque-mate, desta vez, pode ser contra toda a humanidade.


Em destaque

Motta nega irregularidade em voo alvo de investigação da PF e diz que sua bagagem foi inspecionada

  Motta nega irregularidade em voo alvo de investigação da PF e diz que sua bagagem foi inspecionada Por Marcos Hermanson/Folhapress 12/05/2...

Mais visitadas