Os dois candidatos parecem não ter aprendido nada com seus erros, que sequer admitem
A disputa eleitoral entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula tem várias peculiaridades, entre elas a da desproporção, muito acima da usual, entre baixarias e propostas. Canibalismo, satanismo, pedofilia, piromanias - há de tudo e mais um pouco, em doses suficientes para empestear o ambiente político. O debate entre os presidenciáveis no domingo ateve-se a certa civilidade formal se comparada às vilezas cotidianas com que os candidatos andam se atacando. A ausência de propostas é, por seu lado, um sintoma preocupante: talvez não tenham a oferecer nada de muito diferente do que fizeram em seus governos. Mais do mesmo é uma receita brutalmente insuficiente para resolver os problemas que o país tem diante de si.
O candidato do PT apresenta seus mandatos, iniciado há duas décadas, como garantia de que saberá desvencilhar-se de uma situação econômica e política mais complexa e desafiadora do que aquela com que assumiu em 2003. Lula diz que se candidatou “para fazer melhor” do que já fez, idênticas palavras com que se apresentou à reeleição em 2006. Não fez melhor, porém. Em seu segundo mandato teve início a guinada para uma marcha de crescimento forçado à base de recursos públicos e foi sepultada a austeridade fiscal que marcou seu surpreendente primeiro mandato.
A crise financeira de 2008, da qual o Brasil escapou em dois trimestres, foi o fato que serviu de justificativa para que estímulos anticíclicos, vitais na ocasião, se perenizassem e aumentassem. O país cresceu 7,5% em 2010, fruto em grande parte de gastos no ano eleitoral de 2009. Escolha pessoal de Lula, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, foi eleita.
Durante a atual campanha eleitoral, sumiu o período de governo do PT entre 2010 e 2015 - quando se gestou uma das mais profundas e longas recessões da história republicana. É certo que Lula tem muito mais sabedoria e experiência política do que Dilma, nunca antes eleita para um cargo público. Mas, no conjunto da obra petista, a garantia de Lula de que bastam seus dois mandatos para decifrar o futuro é insuficiente e pouco nítida nas intenções.
Não se trata só da questão crucial do teto de gastos ou de seu substituto. Lula prometeu acabar com o teto e não se sabe o que irá por no lugar. Pelo que deu a entender, no entanto, sua principal preocupação não será a obtenção de equilíbrio fiscal, mas encontrar meios de gastar mais, seja com investimentos, seja com os R$ 600 do Auxílio Brasil, seja com a adição de R$ 150 por criança no programa, ou turbinando bancos estatais e concedendo reajustes salariais ao funcionalismo público, no qual o PT tem um de seus maiores núcleos de militantes. De concreto, Lula prometeu também isentar de IR pessoas com salário de até R$ 5 mil.
Do pouco que Lula fala sobre o futuro, sente-se mais o peso do passado. A Petrobras vai construir refinarias (várias ficaram inacabadas, com roubos milionários) e nacionalizar os preços dos combustíveis (somente possível com a volta do monopólio da estatal). O PAC vai voltar, possivelmente até com o mesmo nome, e talvez com sua dispendiosa ineficiência. O Minha Casa Minha Vida será ressuscitado. De tudo o que o ex-presidente falou até agora, não parece haver outra receita de crescimento para o país do que maciças e constantes injeções de dinheiro público na economia.
Se Lula mostra o que fez no passado para avalizar o futuro, Bolsonaro acena para o futuro com o que não fez no passado. Desestatizações (de R$ 1 trilhão, segundo o ministro Paulo Guedes), desmobilização de patrimônio (outro trilhão, idem), reformas estruturais, abertura comercial, respeito ao teto de gastos - seu programa de governo não foi cumprido. As razões para o fracasso estão no próprio presidente, cuja alma corporativista é avessa a sério esforço reformista, que, no fundo, menospreza, desde que continue no poder, até mesmo para fazer o contrário do que prometeu (como agarrar-se com desespero ao Centrão).
Houve progressos inequívocos em boas e necessárias desregulamentações, mas Bolsonaro as confundiu com a inexistência de leis ou regras, ao patrocinar, por exemplo, sua enorme obra de destruição ambiental. Naquilo que depende o presente e o futuro da nação - saúde e educação -, Bolsonaro deixa a mais deprimente herança de que se tem notícia. E promete continuar a obra caso tenha um segundo mandato, pois acredita que faz a coisa certa. Pelo que se viu até agora, os dois candidatos parecem não ter aprendido nada com seus erros, que sequer admitem.
Valor Econômico
