sexta-feira, outubro 21, 2022

Liberdade. Democracia. Estado de Direito.




Não estamos na frente de batalha, não temos familiares a morrer por nós, morrem os ucranianos, mas estamos em guerra. Uma guerra tem muitas frentes. A nossa é económica e contra a recessão democrática. 

Por Eugénia de Vasconcellos 

Em nome da liberdade, da democracia e pelo Estado de direito combate-se e morre-se na Ucrânia. Por estes valores, que são os nossos, levantados pela civilização ocidental e conquistados no fio de séculos, o povo ucraniano recebeu o prémio Sakharov.

Em simultâneo, nos Estados Unidos, uma sondagem revela que 71% dos eleitores considera que a democracia está em perigo, mas a sua preservação não é uma prioridade. Não se combate nem se morre pela democracia – que importância tem aquilo que não se preserva nem defende? Esta avaliação foi feita nesta altura em que se aproximam as eleições intercalares norte-americanas. Prevê-se a vitória dos Democratas no Senado por uma curtíssima margem, e dos Republicanos por uma margem confortável na Câmara dos Representantes. Estas eleições que nos parecem longínquas são também sobre o destino da ordem internacional. Ordem que vimos chegar ao fim neste tempo de advento de uma ordem desconhecida ainda.

A fortíssima ala trumpista, pró-russa, que está a deteriorar os valores conservadores e democráticos do Partido Republicano, e o faz até à inconstitucionalidade, não patrocinará a defesa da Ucrânia, assim tenha poder para isso – Kevin McCarthy, líder da oposição na Câmara dos Representantes, foi explícito quando referiu o «fim do cheque em branco». É um indicador. Há outra ala republicana a lutar pela dominância partidária. Mas o facto permanece: sem o patrocínio norte-americano bem podemos continuar na Europa a fechar cada discurso oficial com a frase «apoiaremos a Ucrânia durante o tempo que for», a maioria dos meios não são nossos. Cometemos na Europa erros grosseiros, do desinvestimento na NATO à desindustrialização e à super-dependência energética da Rússia, e este rosário já desfiado de culpas de nada servirá se não emendarmos a mão. Kevin McCarthy é só um dos porta-vozes e amplificadores de uma forma de vida em que o Estado de Direito empalidece quando comparado com o poder per si. Na realidade, o que defende são os princípios putinistas. Como ele, infelizmente, também na Europa, uma fatia enorme de eleitorado subalterniza o valor da democracia; não apenas o eleitorado capturado pelos movimentos populistas de direita, também o eleitorado jovem de extrema esquerda, como o sondado nas eleições francesas, os apoiantes de Mélenchon.

Vivemos o tempo duríssimo da transição de algo conhecido para algo que desconhecemos.

É preciso dizer a verdade. Estamos em guerra. Nós, ocidente, estamos em guerra. Não estamos na frente de batalha, não são os nossos familiares que estão a morrer por nós, são os ucranianos, mas estamos em guerra. Uma guerra tem muitas frentes. A nossa é económica, de desinformação e de fractura social, visa a recessão democrática. E não a estamos a ganhar.

Acabámos de assistir, incrédulos, às declarações de Elon Musk. Decerto com as melhores intenções, mas Elon Musk vem propor a agenda de Putin, os seus termos e a sua mundivisão. E como afirmou Fiona Hill, numa entrevista ao Politico que aconselho muitíssimo, fá-lo a partir de um lugar de poder enquanto reduz a intervenção diplomática – todos temos conhecimento da importância dos seus satélites para os soldados ucranianos; dos seus mais de cem milhões de seguidores no Twitter e do peso desse número, da Tesla e da Space X, na opinião pública. Também por situações como esta, é preciso dizer: estamos em guerra pela liberdade, pela democracia, pelo Estado de direito.

Às declarações pró-putinistas do lado MAGA do Partido Republicano; às declarações de Kissinger e de Musk, intermediários de peso ao gosto de Putin; às dos ditos pacifistas que subsidiam a Nova Rússia como subsidiariam o próprio diabo logo ele fosse anti-americano; juntam-se as de uma certa Europa representada na voz de Órban – amplificador de uma direita populista e anti-democrática que se faz passar por conservadora e democrata.

A clareza convém-nos: na Rússia putinista defende-se o frio, a fome, a doença e o exílio para submeter os ucranianos. 

Observador (PT)

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