terça-feira, outubro 18, 2022

Há um futuro promissor para biorrefinarias em áreas rurais degradadas pelas pastagens


Brasil tem 61 milhões de hectares de pastagens sem manejo

Brasil tem 61 milhões de hectares de pastagens degradadas

Maurício Antônio Lopes
Correio Braziliense

Os consumidores e os mercados dão cada vez mais atenção a produtos de base biológica, derivados de matérias-primas naturais, como a biomassa de plantas, animais e micro-organismos, que são alternativas renováveis a recursos fósseis, como petróleo, carvão e gás natural.

 Uma das principais razões desse interesse é que a produção e o uso sustentáveis da biomassa não aumentam a quantidade total de CO² em circulação na atmosfera, enquanto materiais fósseis, retirados das profundezas da Terra, levam à produção de vastas quantidades de gases de efeito estufa, fenômeno intimamente ligado à crise climática que afeta todo o planeta.

ECONOMIA LIMPA – Tecnicamente é possível destilar da biomassa praticamente tudo o que se obtém de recursos fósseis. Produtos derivados de matérias-primas de base biológica, como biocombustíveis, bioplásticos, biopolímeros, biocompósitos, biosolventes e outros, podem substituir os derivados do petróleo proporcionando grandes vantagens, como a redução das emissões de CO² e menor toxicidade, além de reciclabilidade e biodegradabilidade.

Por isso, a proliferação de biorrefinarias e a oferta de matérias-primas e produtos renováveis poderão favorecer a transição gradual do atual modelo econômico poluente para uma bioeconomia limpa e sustentável.

Assim como o vento e a energia do sol, a biomassa está disponível em quase todo o planeta, diferentemente dos recursos fósseis, cujas reservas estão sob controle de poucos países e confinadas nas profundezas da terra ou do mar, exigindo perfuração, processamento e refino caros, além de milhares de quilômetros de oleodutos e rotas complexas de logística e transporte.

RECURSOS FÓSSEIS – Como se tornaram monopólios de países, regiões ou empresas, recursos fósseis se tornaram instrumentos de embates comerciais e geopolíticos e seus fluxos podem sofrer rupturas por conflitos e guerras, com consequências imprevisíveis, o que ocorre agora em função da invasão da Ucrânia pela Rússia.

E a crise climática seguirá impondo metas severas de descarbonização para todas as indústrias que têm dependência extrema de recursos fósseis.

Assim, à medida que avanços tecnológicos em biorrefino se tornem alternativas renováveis mais ágeis, compatíveis e flexíveis em design, avanços importantes poderão ocorrer em setores como energia, química, materiais, alimentos e outras.

NOVAS TECNOLOGIAS – O aumento do investimento na conversão de recursos de biomassa em combustíveis, produtos químicos e materiais já conhecidos poderá induzir também pesquisa e investimento em matérias-primas e processos novos, ampliando indústrias e negócios de base renovável na economia.

Um exemplo de destaque vem das biorrefinarias de cana-de-açúcar, que posicionam o Brasil como o maior produtor de açúcar e segundo maior produtor de etanol no mundo. Produzidos açúcar e etanol, a vinhaça — que é um resíduo, é aproveitada como fertilizante ou fermentada para produzir biogás, enquanto do bagaço — outro resíduo, se produz ainda mais etanol e bioeletricidade, que garante autonomia energética para a biorrefinaria.

De componentes da cana deriva-se também bioplásticos e matérias-primas para múltiplas indústrias, como celulose, fibras, enzimas, lipídeos, proteínas, ácidos orgânicos de qualidade alimentar etc. E muitas outras alternativas estão em estudo por grande número de grupos de pesquisa e indústrias dedicados ao biorrefino da cana.

MENORES CUSTOS – Como há enorme heterogeneidade na produção global de biomassa, os países precisam encontrar as soluções mais adequadas para produzi-la e convertê-la utilizando rotas técnicas e econômicas realistas.

Em posição confortável está o Brasil, que se destaca pela dimensão continental, com a maior parte do seu território no cinturão tropical, que é o espaço geográfico mais habilitado a produzir biomassa com diversidade e volumes capazes de viabilizar empreendimentos de base renovável.

Para isso o país pode lançar mão da sua enorme biodiversidade e de imensas áreas de pastagens degradadas que podem abrigar sistemas produtivos intensificados, capazes de suprir bioindústrias habilitadas a derivar de biomassa praticamente tudo o que hoje se destila do petróleo.

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