quinta-feira, janeiro 27, 2022

Quando tudo isso passar




O impacto da Covid-19 num país governado por casta de lorpas é objeto para choro real

Por Igor Gielow (foto)

A emergência da variante ômicron do Sars-CoV-2 trouxe o melhor e o pior em termos de expectativas para uma humanidade cansada após dois anos de perdas humanas, afetivas, cognitivas, econômicas.

Do lado positivo, a expectativa de que, sim, o novo modelo da peste pode indicar o caminho para algum tipo de normalização dada a sua avassaladora transmissibilidade e aparente comedimento em termos de impacto mortífero entre aqueles que estão vacinados.

O problema está no aparente, e falo com o amargor de quem perdeu um ente muito próximo que nem de longe poderia ser qualificado de negacionista. A alta atividade do patógeno leva, evidentemente, a mais casos e à maior probabilidade de oportunidades à Ceifadora.

Infelizmente não temos W.G. Sebald cá nos trópicos para, como fez o maior escritor alemão do pós-Guerra com uma Europa destroçada, descrever a perplexidade e impotência ante o tsunami que nos colheu.

A propósito, Sebald, cuja obra se assenta em quatro obras-primas e foi interrompida por uma morte estúpida aos meros 57 anos, em 2001, ora é escrutinado em uma instigante biografia da britânica Carole Angier, lançada recentemente.

Ela percorre os caminhos tortuosos da mente do escritor, aponta contradições éticas graves em seu trabalho acadêmico e registra a revolta com que os personagens de seus livros foram decalcados de histórias reais --basicamente, Sebald destruía sua matéria-prima e a remontava de uma forma ficcional crível e bela.

Com isso, ele trouxe as reflexões acerca da culpa coletiva de uma Europa sob o nazismo, que ele vira ausente em seu pai, que servira à Wehrmacht na Segunda Guerra Mundial.

Os fragmentos, muitas vezes colagens fotográficas ou palimpsestos mentais tirados da observação da topografia arquitetônica do continente, ganhavam vida para exprimir a dor vazia do Holocausto.

E, com sorte, transcender algo dela por meio da Grande Beleza, para agora roubar o título do filmaço de Paolo Sorrentino (nota aleatória, "A Mão de Deus", no Netflix, é imperdível).

Não temos um Sebald, embora ao menos no quesito de pecados na academia, a acusação mais séria de Angier, não nos faltem exemplos. O chororô criado acerca do método do alemão ao criar ficção parece, à primeira vista, só isso.

Já o impacto da Covid-19 num país governado por uma casta particularmente nefasta de lorpas é objeto para choro real. E não, não espezinharei a morte do negacionista ora elevado a merecedor de luto nacional.

Critiquem sua obra tola, combatam hagiografias, mas deixem a família do homem em paz. Falta-nos um Sebald para contar tudo isso ao porvir, na hipótese de Putin e Biden nos concederem a graça.

Folha de São Paulo

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