terça-feira, janeiro 18, 2022

Decreto aumenta permissividade de intervenções em cavernas baianas, denunciam estudiosos

por Bruno Leite

Decreto aumenta permissividade de intervenções em cavernas baianas, denunciam estudiosos
Caverna da Toca da Boa Vista | Foto: Reprodução / Revista da Fapesp

Cavernas baianas classificadas como de "relevância máxima" poderão sofrer impactos irreversíveis após o presidente Jair Bolsonaro baixar um decreto, na última quinta-feira (13), que autoriza a construção de equipamentos de utilidade pública nestes locais. Para especialistas no tema, a legislação avança na permissividade do poder público quanto ao patrimônio natural do país.

 

Ao Bahia Notícias, o espeleólogo Thiago Matos, presidente da Sociedade Espeleológica Azimute, entidade de Campo Formoso filiada a Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), disse que a própria estrutura do poder público, abre espaço para que as formações geológicas fiquem expostas às intervenções.

 

"Já era uma legislação que permitia muita coisa. Às vezes a compensação ambiental, como a legislação prevê, não vinha também de forma satisfatória, porque a caverna tinha que ser caracterizada de relevância máxima e muitas vezes não tinha alguém capacitado para ir até o local, pessoas agiam de má fé para não caracterizar assim e simplesmente fazer esse impacto irreversível na caverna", explicou o estudioso. 

 

A nova legislação define que os órgãos ambientais licenciadores sejam responsáveis pela liberação das construções nessas áreas e que os empreendedores adotem medidas compensatórias. Algumas medidas de preservação de espécies e de cavidades com material de destacada relevância histórico-cultural e religiosa estão previstas no texto.

 

O decreto do governo federal altera um regramento da década de 1990 que já havia sido mudada em 2008. Matos acredita que a mudança do presidente Jair Bolsonaro contribui com a possibilidade de destruição de inúmeras cavernas, grutas e cavidades subterrâneas. "Fomos na mão contrária, a gente tinha a chance de restringir ainda mais a questão e abrimos ainda mais", frisou.

 

Na Bahia, segundo o presidente da Sociedade Espeleológica Azimute, a Toca da Boa Vista, maior caverna em desenvolvimento horizontal do hemisfério sul do planeta, e a Toca da Barriguda, conhecida como a segunda maior formação do tipo presente no território brasileiro, são alguns exemplos de cavidades em risco. Ambas estão em localidades próximas a usinas de geração de energia eólica, que podem se aproximar cada vez mais depois da flexibilização.

 

Para ele, tanto o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) quanto o Instituto Chico Mendes (ICMBio) "não têm braço para fiscalizar". Até o principal banco de dados sobre as cavernas, o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas (CANIE), apesar de gerido pelo ICMBio, depende do trabalho de grupos de entusiastas, que fazem a inclusão de informações no sistema.

 

Representando estes entusiastas, na última sexta-feira (14), uma nota da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) manifestou a posição da instituição sobre o assunto. No comunicado, ela denuncia os "vários retrocessos à legislação espeleológica nacional" presentes no texto do decreto e o repudia, acusando-o, inclusive, de inconstitucional.

 

A entidade acrescenta que o texto "foi produzido a portas fechadas, sem diálogo com a comunidade espeleológica e, claramente, mostra a interferência direta dos Ministérios de Minas e Energia e de Infraestrutura em uma matéria que é de interesse ambiental".

 

Além disso, afirmou a SBE, a "interferência visa à facilitação de licenciamento de obras e atividades potencialmente lesivas ao patrimônio espeleológico nacional e que, geralmente, estão associadas a atividades de alto impacto social".

 

A posição foi reforçada pela Rede Sustentabilidade. O partido impetrou uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) a fim de questionar o decreto. Em caráter liminar, a Rede pede que seja declarada a a incompatibilidade da legislação com preceitos da Constituição, uma vez que a medida do governo federal está na "contramão da devida proteção constitucional resguardada a referidas formações geológicas - cuja biodiversidade é essencial para a vida em sociedade -, o que viola o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e todas as derivações daí decorrentes".

Bahia Notícias

Em destaque

Academia Feirense de Letras celebra cinquentenário com posse de novos acadêmicos e fortalecimento do diálogo entre cultura, educação e sociedade

  Entre os empossados está o historiador, professor, escritor, produtor cultural e documentarista Ricardo Carvalho A Academia Feirense de Le...

Mais visitadas