terça-feira, janeiro 18, 2022

China avança e país segue sem ampliar vantagens estratégicas




A alta das vendas externas do país desde o período pré-pandemia foi quase toda direcionada à China. A participação dos chineses nos valores subiu de 28,7% em 2019 para 31,3% no ano passado

Em janeiro de 2008, o economista Antônio Barros de Castro, falecido em 2011, apresentou à cúpula do então governo Lula parte de suas reflexões sobre o fenômeno chinês e seus impactos no mundo e no Brasil. Especialista no tema, o professor, que presidiu o BNDES no governo Itamar Franco (92-94), mostrou que a China estava protagonizando o deslocamento do centro de gravidade da economia global, como fizeram os EUA no início do século XX.

Naquele momento, o Brasil se beneficiava à farta do "boom" de commodities provocado, justamente, pela China. Fabricantes massivos de produtos industriais destinados ao mercado externo, os chineses têm carência em duas áreas: alimentos, para nutrir população de quase 1,5 bilhão de pessoas, e energia.

Diante do novo deslocamento da ordem econômica mundial, a economia brasileira, ao contrário de muitas outras, pode se beneficiar graças à sua complementaridade com a chinesa. Ainda assim, advertiu Barros de Castro no pequeno estudo intitulado "No Espelho da China", o país não deveria deitar-se em "berço esplêndido" e esperar que apenas os bons ventos nos ajudem a materializar "profecias" favoráveis.

O professor alertou que há três formas de reação possíveis à onda chinesa. A primeira é o simples "entrincheiramento", isto é, a adoção de medidas de proteção a atividades industriais ameaçadas pelos produtos chineses. A segunda é formular estratégia "adaptativa" e a terceira, aproveitar o momento para transformações.

Na visão de Barros de Castro, há espaço para as três estratégias, mas ele sugeriu que a primeira - o protecionismo - não seja a preponderante, como historicamente costuma ser, quando a indústria nacional, desenvolvida num ambiente de fechamento às trocas comerciais, recebe mais proteção do governo, acelerando o processo de obsolescência competitiva. Dizia o professor que o protecionismo não é uma resposta à altura do desafio, sobretudo, porque não gera futuro.

Barros de Castro defendeu, então, a ideia de que os setores público e privado deveriam unir-se para criar "frentes estratégicas", focadas na formulação e criação de um Sistema Nacional de Inovação. Seria a forma de posicionar o país diante do fenômeno chinês, cujas oportunidades e ameaças são frequentes e rapidamente redefinidas, o que obriga todos a atirarem em "alvos móveis".

Dissemina-se a ideia de que o mundo caminha para um eixo no qual a China será a fábrica, o Brasil, a grande fazenda, e a Índia, a prestadora de serviços. Barros de Castro sustentou que esta é uma visão equivocada, uma vez que o agronegócio brasileiro é extremamente sofisticado e o país ainda possui diversidade industrial comparável, no mundo emergente, apenas às da China e Índia. Ele deixou claro, todavia, que cabe ao Brasil definir sua estratégia de inserção no mundo cada vez mais sinocêntrico.

No estudo, o professor mostrou que uma das explicações para a longa e penosa decadência da Argentina, um dos países mais ricos do planeta no início do século XX, foi o fato de sua economia não ter se posicionado adequadamente em relação ao deslocamento da economia mundial provocado pelos EUA no início do século passado.

Passados 14 anos, vemos que os protagonistas da economia brasileira nos setores público e privado pouco ou nada fizeram do que prescreveu, de maneira lúcida, o professor. A segunda década deste século foi, do ponto de vista do Produto Interno Bruto, a de pior desempenho dos últimos 40 anos, e que alguns economistas já chamam de a "Grande Depressão" do Brasil.

Mesmo crescendo hoje em ritmo menor que os da primeira década do século, a economia chinesa segue beneficiando exportações brasileiras. A alta das vendas externas do país desde o período pré-pandemia foi quase toda direcionada à China - a participação dos chineses nos valores subiu de 28,7% em 2019 para 31,3% no ano passado. A Ásia como um todo avançou quatro pontos percentuais em igual período, atingindo 46,4%.

A fatia dos Estados Unidos no valor de nossas exportações caiu de 13,4% para 11,1% do total no mesmo período. Na mesma comparação, a da União Europeia ficou praticamente estável - de 13,6% para 13% -, embora tenha atingido o menor nível desde 1997. Já a participação da América do Sul também se manteve estável - de 12,7% para 12,1% entre 2019 e 2021.

Os números mostram a importância avassaladora da China e das economias asiáticas na pauta comercial brasileira, o que comprova as palavras proféticas do professor Barros de Castro. Trata-se de um fenômeno que, dificilmente, passará por mudanças no horizonte previsível de tempo. O agronegócio brasileiro entrou em modo próprio. Sua produtividade crescente independe hoje de políticas públicas. Mas, se ainda deseja ter uma indústria nacional, capaz de oferecer empregos de qualidade e produzir bens competitivos, o Brasil precisa acordar.

Valor Econômico

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