terça-feira, março 22, 2011

Chuva começa a causar caos e prejuízos

Catiane Magalhães

As gêmeas Késia e Kérem completam um ano de vida na próxima segunda-feira, 28, mas, para a família das pequenas, as duas nasceram ontem. Apesar da aparente fragilidade dos corpos miúdos e indefesos, as duas sobreviveram a uma tragédia imposta pela chuva: a casa onde mora, no bairro de Valéria, subúrbio de Salvador, foi atingida por um muro que desabou.

As irmãs dormiam com os pais, quando, por volta das 3 horas da madrugada, foram atingidas pelos escombros. Késia, que estava na cama dos pais, ficou soterrada sob os destroços, enquanto o berço de Kérem foi atingido pela viga de concreto que sustentava o paredão. Por muito pouco a garota não foi esmagada.

“Foi a mão de Deus que protegeu minha filha. Graças a Ele, ela não teve nenhum arranhão, mas o susto e o desespero foram grandes. Quando olhei para a cama e vi minha outra filha debaixo de terra e tijolo não sabia o que fazer e por quem chamar”, desabafou a dona de casa Maria Núbia de Souza, 42, mãe das duas garotas e de outras nove crianças, com quem mora numa casa de apenas três cômodos.

Segundo ela, a primeira atitude foi retirar a garota de lá de baixo. “Na hora eu nem pensei se podia machucá-la. Só queria salvá-la”, contou aliviada. O próximo passo, relembra, foi pedir ajuda a Samu, que chegou em menos de meia hora e prestou os primeiros atendimentos à criança, que estava desacordada.

“Eu pensei que ela estava morta, mas quando ela começou a reagir fiquei mais tranquila. Os médicos me mandaram levá-la para um hospital, mas não me senti à vontade de sair de casa com uma e deixar meus outros dez filhos em risco. Quando eu vi que ela estava bem, resolvi ficar e encarar o risco todos juntos”, disse.

Drama – Nem bem se recuperou do susto, a família Souza teve outra notícia desagradável: a Coordenadoria da Defesa Civil de Salvador (Codesal) inspecionou o local e determinou que a família abandonasse a casa imediatamente. O órgão condenou o imóvel, que apresenta várias rachaduras e infiltrações, além de parte do teto destruído pela pancada.

Sem ter para onde ir ou a quem recorrer, o casal e os onze filhos permanecem no local. “Eu gostaria muito de ir para um lugar seguro, mas não tenho como. Minha família e a do meu marido moram no interior. Não temos ninguém aqui para pedir ajuda ou abrigo”, informou.

“É desesperador, mas só nos resta ter fé e pedir proteção a Deus. Em tempo de chuva a gente não tem paz. A angústia toma conta e a gente vive de reza e choro”, contou, ressaltando o pesadelo de já conviver cercada por áreas condenadas. “Há anos a Codesal condenou a encosta no fundo da minha casa. Toda chuva que dá, o meu quintal enche de terra, mas o proprietário do terreno não aparece para tomar as providências e a Defesa Civil se cansou de distribuir lonas”, completa.

Além do medo, ela convive agora com os prejuízos materiais. Com a chuva, ela perdeu a cama, o guarda-roupas, o berço de uma das gêmeas, o computador. “Já não tinha muita coisa, mas perdi o pouco que me restava. O importante é que meus filhos ficaram todos intactos”.

Briga de vizinhos – A moradora da casa ao lado, Eliene Soares, proprietária do muro que desabou, acusa o marido de Núbia, Djalma Ferreira, de co-responsável pela queda do mesmo.

De acordo com ela, a chuva só derrubou o muro porque o vizinho realizou muitas escavações próximas a ele. “Ele cismou em retirar a terra que descia e começou a cavar com a pá sem nos comunicar nada. O muro já existe há quatro anos e nunca causou problema. Havia uma rachadura, causada pela raiz de uma mamoeira, mas que não contribuiu em nada para a queda. Agora, eu fiquei no prejuízo, pois na hora de construir, eles não ajudaram em nada”, alega.

Ruas e avenidas alagadas

Até às 16h30 de ontem a Defesa Civil recebeu 74 solicitações de emergência, sendo a maioria deslizamento de terra, num total de 27. Também foram registrados um desabamento parcial, quatro quedas de árvores, além de diversos alagamentos de área e ameaças de desabamento de imóvel.

As ruas e avenidas ficaram completamente engarrafadas. Os motoristas precisaram contar com uma dose extra de cautela e paciência para transitar pela cidade. O congestionamento chegou até a BR-324, nos dois sentidos. Na localidade conhecida como Jaqueira do Carneiro, o trânsito ficou lento durante toda a manhã, devido às obras da concessionária que administra a rodovia. Lentidão também na Brasil Gás e no Porto Seco de Pirajá, onde haviam vários pontos de alagamento.

Nas avenidas Paralela, Bonocô, Vasco da Gama e Garibaldi o trânsito chegou a ficar parado por algumas horas. A cidade vizinha de Lauro de Freitas também foi castigada pelo temporal.

Algumas ruas e avenidas ficaram intransitáveis devido ao acúmulo de água nas pistas. Muitos moradores faltaram escola e trabalho, com medo de sair de casa por casa por causa dos alagamentos.

Conforme previsão do Serviço de meteorologia, nos próximos dias Salvador e região terão céu encoberto a nublado, com pancadas de chuva, trovoadas e ventos moderados. A temperatura deve oscilar, com mínima de 18º e máxima de 37º.

Greve – Parte dos servidores da Defesa Civil de Salvador resolveu paralisar as atividades justamente no dia em que a cidade começou a ser castigada pela chuva. A categoria atribui a greve à demora na aprovação do projeto de lei, pela Câmara Municipal, que altera o regime de horário dos servidores de 30h para 40h.

A assessoria de comunicação do Órgão informou que o número de funcionários que aderiram à greve não atrapalha a Operação Chuva. Segundo a Codesal, serviços tidos como de prioridade, como o de telefonia, os engenheiros e a equipe de prevenção estão funcionando normalmente. A Defesa Civil informou ainda que funciona em esquema de plantão 24 horas, através do número 199. A ligação é gratuita.

Aeroporto fica alagado

A chuva forte provocou alagamento e desabamento de parte do teto do Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães. De acordo com informações dos lojistas, a calha principal do aeroporto não suportou o alto volume de água e desmoronou entre as áreas de embarque e desembarque, atingindo também os estabelecimentos comerciais.

O incidente ocorreu por volta de 1 hora da madrugada de ontem, mas os serviços de embarque e desembarque tiveram restrições durante todo o dia. Além disso, muitos comerciantes tiveram suas instalações comprometidas e amargam o prejuízo.

Proprietários e funcionários de estabelecimentos comerciais do aeroporto fizeram um mutirão solidário para tentar retomar suas rotinas. Com vassouras e rodos, eles tentavam retirar a água da chuva para evitar perda total dos materiais dos seus estabelecimentos, mas enfrentam dificuldades em razão do local não possuir ralos ou bocas-de-lobo. O local foi interditado e os serviços e lojas do aeroporto estão praticamente suspensos por tempo indeterminado. Esta é a quarta vez que a situação se repete.

Fonte: Tribuna da Bahia

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