Carlos Chagas
Ainda bem que Dilma Rousseff não compareceu ao almoço com senadores e ministros, terça-feira, em Brasília. Imagine-se que reação teria ao ouvir o discurso de seu candidato a vice, Michel Temer, participando aos presentes a proximidade da hora de repartirem o pão.
Como o prato principal na residência do senador Gim Argelo era bacalhau, ficou evidente que o presidente do PMDB referia-se a um tipo figurado de alimento. No caso, a divisão do poder no futuro, dados os prognósticos da vitória de Dilma em outubro. Como a maioria dos senadores pertencia ao partido majoritário, mais clara ficou a perspectiva de partilha. Vão com toda sede ao pote, ou melhor, ao prato de pão.
A candidata detesta discutir o day after das eleições. Nem mesmo com o Lula, pelo que sabe, surge o assunto do seu possível ministério. Não se sentiria à vontade, ouvindo o silogismo do companheiro de chapa.
Vai ficando claro o objetivo de Michel Temer: instalar-se no palácio do Jaburu como uma espécie de ponte entre o novo governo e o Congresso. Ou vice-versa, tendo em vista a pouca experiência de Dilma nas relações político-partidárias.
Hoje, o PMDB tem seis ministérios, além de montes de diretorias de empresas estatais e penduricalhos. Contribuindo decisivamente para a vitória da ex-ministra, buscaria aumentar o número? Ajudar a compor os possíveis aliados, com a promessa de aprovação dos projetos de interesse do palácio do Planalto? Domar o PT, cujo número de novos senadores e deputados ainda é desconhecido?
Vale concluir que o pão parece uma imensa baguete. A fome, também.
Profissão: presidente
Ignoram-se algumas respostas do presidente Lula ao funcionário do IBGE que o entrevistou para o censo agora realizado. Claro que nome, idade, estado civil, mulher, filhos, vencimentos e questões óbvias são conhecidas. Há curiosidade, porém, com relação a outras.
O que terá respondido a respeito de sua profissão? Ex-torneiro mecânico? Ex-líder sindical? Político? Presidente da República?
No início do século passado a Rússia promoveu imensa consulta igual e o primeiro a ser visitado foi o csar Nicolau II. Na hora de definir-se, respondeu: “dono da terra russa”.
Poderia o Lula ter dito “dono da consciência nacional”? “Detentor da maior popularidade individual desde a República”? Porque presidente da República não é profissão. Costuma até ser sacrifício, senão martírio.
Vazio na segurança pública
Pode ser que no primeiro debate entre os candidatos, hoje à noite, na TV-Bandeirantes, eles se disponham a detalhar o que pretendem, se eleitos, para enfrentar o problema da segurança pública no país.
Porque até agora saltam olimpicamente de banda, no máximo diagnosticando, mas sem aviar a receita.
José Serra promete criar o ministério da Segurança Pública, mas não particulariza suas atribuições. Dilma Rousseff prega o isolamento dos presos perigosos, sem se referir aos milhares que estão soltos. Marina Silva prefere abordar o descontrole social resultante da violência.
Convém aguardar propostas efetivas, se é que elas existem, acima e além de aparelhar melhor as variadas polícias e investir na educação…
Briga de foice no Ceará
Parece garantida a reeleição do governador Cid Gomes, no Ceará, além da recondução ao Senado de Tasso Jereissati. A briga sem quartel é pela segunda vaga de senador. Eunício Oliveira conta com o PMDB e com o governador. José Pimentel, com o presidente Lula e o PT.
A situação é singular, pois ambos são ex-ministros do Lula, que gostaria, mesmo, de vê-los eleitos, derrotando Tasso Jereissati. Como essa parece missão impossível, o primeiro-companheiro já terá feito sua opção. O problema para Pimentel são recursos, que sobram para Eunício, preocupado em rachar o PT através da prefeitura de Fortaleza, à qual dedicou seus dois suplentes, mesmo desagradando o PMDB.Fonte: Tribuna da Imprensa