Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA – Até que o PC do B vinha bem, dentro de seus limites. Não entrou em parafuso, como o “partidão”, mantendo os ideais socialistas, mas passando a rejeitar o autoritarismo e a burrice responsáveis pela débâcle da União Soviética. De Aldo Rabelo a José Ignácio, de Manuela d’Avila a Jandira Feghalli, mesmo pequena, a legenda superou dificuldades sem renegar seu passado.
Pois não é que o PC do B acaba de ter uma recaída stalinista? Por coincidência ou não depois de sua bancada haver sido recebida pelo Lula, o presidente do partido, Renato Rabelo, comentou que a população brasileira poderá exigir a continuação do atual presidente da República no governo, em especial se ele vencer a crise econômica.
Convenhamos, pode ter sido um momento infeliz, uma escorregadela. Mas se não for? Há quem imagine na proposta apenas uma precipitação: Rabelo falou antes da hora, empolgado com a popularidade do Lula, mas integrado num movimento a ser desenvolvido ano que vem.
É bom prestar atenção, coisa, aliás, que vimos fazendo há dois anos. O terceiro mandato é uma possibilidade, como também é um golpe nas instituições. Uma agressão à Constituição, igual àquela perpetrada por Fernando Henrique Cardoso em meio ao seu primeiro mandato, estabelecendo a reeleição e ganhando o segundo. Se os tucanos puderam, por que os companheiros e seus penduricalhos não poderão?
A recente pesquisa Datafolha acirrou os ânimos. Afinal, se confirmados os números, José Serra já é o futuro presidente da República, com 41% de preferências, em média. Como Dilma Rousseff ficou com 8%, só há uma saída para os detentores do poder: valer-se dos 70% de popularidade do presidente Lula, criando condições para ele disputar a eleição de 2010, única hipótese de impedir o governador de São Paulo de subir a rampa do palácio do Planalto.
O PC do B não saiu na frente, a tese do terceiro mandato ou da prorrogação já vinha sendo levantada no PT. A sugestão do presidente dos comunistas, porém, exprime um momento novo nessa equação de horror. Michel Temer, presidente do PMDB, será o próximo a imitar o colega da mesma coligação?
IR para o Amapá ou ficar em Brasília
Está o senador José Sarney frente a um dilema: permanecer em Brasília, comparecendo quarta-feira à reunião da bancada de senadores do PMDB, ou visitar seu eleitorado no Amapá, naquele dia?Porque, se ficar, Sarney estará sinalizando aceitar sua candidatura à presidência do Senado. Mesmo negando a hipótese até a semana passada, o ex-presidente teria estabelecido as condições para dar o dito pelo não dito. Primeiro, ser escolhido por aclamação, sem necessidade de disputar com algum colega. Depois, receber o apelo de candidatar-se como missão, no estilo militar, daquelas impossíveis de rejeitar. Por último, ter seu nome apresentado como uma espécie de colaboração com o presidente Lula, jamais como contestação.
Sarney gostaria de ver a questão adiada para janeiro, de preferência na segunda quinzena. Ficar exposto aos adversários, desde já, poderia acarretar surpresas. Não seria a melhor fórmula para apaziguar o PT e Tião Viana, por enquanto disposto a concorrer. É esse, por ironia, o argumento que os senadores do PMDB utilizam para precipitar a candidatura partidária: perdendo tempo, Tião Viana cresce.
Resta aguardar a reunião de quarta-feira, mas como política é assunto para profissionais, quem garante que ela não será adiada?
Um homem honrado
A passagem dos quarenta anos da decretação do AI-5, transcorrida sábado, ensejou que a imprensa fosse buscar em seu refúgio de Uberlândia o ex-governador Rondon Pacheco. Rompendo um silêncio de décadas, ele demonstrou excepcional memória e capacidade de raciocínio, não obstante estar se aproximando dos noventa anos. Ignoramos se já redigiu ou vai redigir suas lembranças. Seria importante colaboração à história política nacional. Poucos sabem do papel por ele desempenhado quando chefe do Gabinete Civil do presidente Costa e Silva. Lutou o quanto pôde para evitar o mergulho do governo na ditadura escancarada. Perdeu. Nos meses seguintes, formou ao lado do vice-presidente Pedro Aleixo para levar o velho marechal à revogação daquele édito de horror. Aliás, que só não saiu pior ainda por sua interferência.
Graças à ação diária de Rondon Pacheco ficou tudo pronto para a revogação, em setembro de 1969, quando sobreveio a tragédia. Acometido por um derrame cerebral, Costa e Silva não foi sucedido por Pedro Aleixo. Uma Junta Militar usurpou o poder e prendeu o vice-presidente. O AI-5 foi mantido e Rondon ajudou a juntar os cacos do regime. Escolhido para presidir a Arena, partido do governo, pouco depois se tornou governador de Minas. Engoliu sapos, foi injustiçado, mas criou um raciocínio até hoje servindo como lição para muitos: só se muda o rumo do barco estando a bordo, jamais se debatendo no mar encapelado.
Pela terceira vez, não
Repete o presidente do Senado, Garibaldi Alves, a disposição de não candidatar-se pela terceira vez ao governo do Rio Grande do Norte. Já exerceu dois mandatos, considera cumprida sua quota de sacrifícios.
O senador não fala, mas existe outra razão para decidir assim. Ele afirmou o Senado ao reagir contra o excesso de medidas provisórias, até diante do presidente Lula. Terminou devolvendo uma delas ao palácio do Planalto. Não desafiou, mas restabeleceu a dignidade do Legislativo. Caso governador outra vez, enfrentaria no mínimo a má-vontade do Executivo, em especial se o novo presidente vier do PT e adjacências. O estado sofreria, situação para a qual não pretende colaborar.
Fonte: Tribuna da Imprensa
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