sexta-feira, dezembro 12, 2008

A armação suplantou a emoção

Por: Carlos Chagas

BRASÍLIA – Coragem, propriamente, ninguém terá na bancada do PMDB do Senado para interpelar o ex-presidente José Sarney. Menos porque acabará presidindo a Casa, no próximo biênio, mais por tratar-se de um ícone, uma avenida de mão dupla compondo interesses do partido e do governo.
Mas que seu engajamento público na candidatura de Dilma Rousseff chocou e irritou muita gente, nem haverá que duvidar. Na terça-feira, do alto da plataforma de uma superlocomotiva, na inauguração de mais um trecho da ferrovia Norte-Sul, ao lado do Lula, Sarney não teve meias-palavras. Depois de discursar fazendo votos para o atual presidente eleger seu sucessor, derramou-se em elogios a Dilma, que “presta serviços ao País e vai prestar muito mais, no futuro”, chamando-a de sacerdotisa do governo.
Numa hora em que os senadores do PMDB buscam articular-se para fazer valer a influência do partido nos próximos lances político-eleitorais, o apoio antecipado de Sarney representou uma ducha de água fria. Chegou a respingar nas instalações ao lado, onde o PSDB e o DEM estavam a um passo da adesão formal à candidatura de Michel Temer para presidir a Câmara. O ex-presidente da República tinha razões emocionais para tanta confraternização com o poder. Afinal, o governo cumpre fielmente o compromisso de levar adiante uma de suas maiores realizações, a ferrovia Norte-Sul. Mas não precisava exagerar, ainda mais de corpo presente, na frente de Dilma. Está esvaziada a iniciativa de Pedro Simon e outros senadores do PMDB, que pretendiam patrocinar ampla reunião partidária precisamente para preparar definições futuras, a principal das quais sendo a sucessão de 2010. Por isso, se conclui que a armação suplantou a emoção. Foi de caso pensado que Sarney antecipou-se.
O PT não pode ficar atrás
Coincidência ou não, reúnem-se hoje em Brasília os prefeitos e vice-prefeitos eleitos pelo PT, em outubro. Serão homenageados pela direção nacional do partido, ao tempo em que receberão instruções para um comportamento político comum, visando a unidade. A estrela da festa será, como não podia deixar de ser, a ministra Dilma Rousseff.
Sem dúvida por recomendação do presidente Lula, o PT procura cimentar pequenas fendas de vazamento na muralha em que vem se transformando à candidatura da chefe da Casa Civil. Nem em particular ouve-se mais as críticas nunca formuladas de público pelos companheiros, a respeito da fragilidade da candidata. O PT mostrará hoje que é Lula, ainda que Lula não seja apenas o PT. A hora, para os petistas, é de acompanhar em gênero, número e grau os passos do presidente, para onde quer que eles conduzam o País e o partido. Só no meio do ano que vem, caso Dilma não decole, emergirão das profundezas os tentáculos do polvo do continuísmo. Por enquanto, como os prefeitos e vice-prefeitos constatarão, será inflar o balão da escolha do Lula. Sem esquecer, é claro, que em caso de necessidade subirá o foguete do terceiro mandato...
No fundo do armário
Permanece no fundo do armário a proposta de que o presidente Lula deveria reformular o ministério, com vistas à composição da melhor equipe capaz de seguir com ele em seus dois últimos anos de mandato. Podem os ministros celebrar um Natal tranqüilo e até uma feliz passagem de ano. A crise econômica mundial fez retroceder a tese de estar se aproximando a oportunidade de mudanças. Inexistem reivindicações partidárias, o PMDB mostra-se mais do que acomodado com seis ministérios e montes de diretorias de empresas estatais. O PT contenta-se em dar a impressão de controlar o poder e os penduricalhos preferem manter o que já possuem a correr o risco de minguar.
Sofre, nessa espécie de freio de arrumação ditado pela crise, a eficiência administrativa do governo, apesar de sufocada pela onda sempre maior da popularidade do presidente Lula. Como na cena final daquele inesquecível “Nunca aos Domingos”, filme que consagrou Melina Mercuri, no fim tudo dá certo. Depois de baixarem as cortinas, os atores voltam ao palco de mãos dadas, indo todos para a praia...
Plano fora de hora
Está para ser divulgado o tal Plano Nacional de Defesa, obra a quatro mãos, elaborada pelos ministros Nelson Jobim e Mangabeira Unger. Será uma espécie de roteiro estratosférico para atender as necessidades de o País recuperar o tempo roubado pelo neoliberalismo em termos de garantia de nossa soberania. Dizem chegar a dois trilhões de reais, se todas as propostas viessem a concretizar-se: investimentos maciços no setor da energia nuclear, apoio à indústria bélica privada, reaparelhamento das forças armadas com submarinos, foguetes e aeronaves supersônicas, alterações de vulto no serviço militar obrigatório e acima de tudo estratégias para a defesa da integralidade territorial do País, com ênfase para a Amazônia e para nossas fronteiras.
O problema é a oportunidade da divulgação, porque depois da eclosão da crise econômica mundial, falta dinheiro para tudo. Apesar das palavras otimistas do presidente Lula, garantindo investimentos, não há quem aposte fichas no desenvolvimento do plano.
Fontë: Tribuna da Imprensa

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