quinta-feira, novembro 17, 2022

EUA: doutrinação ideológica da pré-escola à faculdade




No fim das contas, para um país democrático aderir a uma ideologia tão maluca e destrutiva, sem estelionato eleitoral, só pode haver uma doutrinação poderosa, digna de Estados totalitários. 

Por Bruna Frascolla (foto)

Era dada como certa uma onda vermelha, ou seja, republicana, no legislativo dos EUA. Primeiro a onda dava indícios de ser marolinha, depois descobriu-se que o Senado preservou a maioria democrata. As acusações de fraude se repetiram este ano, mas com menos vigor do que na eleição pandêmica quando o voto pelo correio foi normalizado.

Em que se baseavam as pretensões de crescimento dos Republicanos? Creio eu que na inflação galopante de Biden. Afinal, crise econômica deixa o eleitor irritado; e se o brasileiro já ficou cabreiro com a inflação de Bolsonaro, que dirá o norte-americano com Biden. Lá e cá, são dois países continentais que comparam a inflação atual à pretérita, sem interessar muito o cenário mundial. Mas por isso mesmo a inflação lá deveria ser muito mais sentida do que cá, haja vista o calejamento do brasileiro com o histórico inflacionário. Para piorar, nos EUA há uma coesão partidária muito maior que no Brasil. Assim, é muito mais natural um candidato Democrata ao parlamento ser atrelado aos fracassos de Biden do que um candidato brasileiro ao parlamento ser ligado à inflação ocorrida no governo Bolsonaro. Para começo de conversa, aqui nem há bipartidarismo, de modo que sequer há clareza quanto a quem seria “o candidato de Bolsonaro”. A depender da popularidade do capitão no estado em que há a disputa, esse rótulo é disputado a tapa ou então usado como acusação pelos opositores.

Para piorar, a inflação nos EUA, ao contrário da brasileira, tem causas bastante fáceis de encontrar no próprio governo. Lá e cá houve o fechamento que obrigou à distribuição de auxílios, mas cá o fechamento foi obra do STF em conluio com a imprensa e os governadores, ao passo que lá foi obra da Casa Branca. Além disso, lá houve medidas proativas, da parte do governo, a implicar o aumento do custo de vida. Tenho em mente os obstáculos à exploração de petróleo e a pauta generalista do New Deal Verde, que encarece a energia. Não menos importante, há ainda as despesas colossais com a guerra na Ucrânia, e isso logo após a desastrada debandada do Afeganistão.

Creio que o materialismo não deve servir para explicar o voto nos EUA. O país vai se empobrecer e empobrece por causa de políticas sabidamente tocadas pelo governo Biden. Ainda assim, o povo vota nos Democratas.

Ideologia lá e cá

Os Democratas divulgam propaganda ideológica do partido — diferentemente daqui, onde as propagandas costumam ser vinculadas a candidatos em vez de promoverem simplesmente o partido. Na última eleição, eles divulgaram um vídeo intitulado “The Stakes of the 2022 Midterm Elections”, algo como “O que está em xeque nas eleições de meio mandato de 2022”. Abre com a simpaticíssima (ou não) Kamala Harris alardeando: “As ameaças que enfrentamos enquanto nação são grandes.” Em seguida, aparecem as ameaças: invasão do Capitólio, perda de liberdade (sobe uma placa escrito “larguem os nossos corpos” e entra a notícia de que um Republicano tentou passar uma proibição federal do aborto). Volta Kamala a falar: “Ameaças à nossa democracia em si mesma. E precisamos falar a verdade sobre isso. Imaginem se perdêssemos a nossa maioria Democrata no Parlamento. Os líderes Republicanos deixaram claro: eles querem banir o aborto por toda a nação. E eles não vão parar por aí: o casamento igualitário [i. e., casamento gay] estará em risco. A contracepção estará em risco. Sem uma maioria Democrata no parlamento, quem sabe que direito eles vão perseguir depois?” Entra um letreiro com sugestões: “Cortar o seguro social [algo como um Bolsa Família deles]. Aumentar os preços de remédios com tarja. Banimento nacional do aborto. A escolha é sua.” Volta Kamala: “Este é um momento crucial na história da nossa nação. Esta eleição é como nos levantamos para alcançá-la.”

Ou seja: a propaganda institucional da esquerda norte-americana não tem nada a ver com o aumento do custo de vida, nem mesmo com igualdade social. É abertamente voltada para mulheres que fazem aborto e vivem à base de remédios psiquiátricos. O que tem a lhes oferecer é aborto e remédio. Quanto ao ideal de igualdade, tão caro aos americanos observados por Tocqueville no século XIX, aqui ele aparece reduzido a uma alteração na concepção de casamento.

Como seria um equivalente disso no Brasil? Tiram Lula. Uma figura feminina muito confusa, trazida artificialmente dos bastidores burocráticos para o centro da política — Dilma, por exemplo — discursa contra a oposição — os bolsonaristas, digamos — alegando que, se os petistas não tomarem Câmara e Senado, as mulheres não vão poder abortar à vontade, os gays não vão poder casar no papel e os remédios com tarja ficarão mais caros.

O PT só faria uma propaganda dessa se fosse suicida. Por aqui, em eleição comunista vai à missa, diz que acredita em Deus e é contra o aborto. Os lacradores são varridos para debaixo do tapete e em geral preferem o PSOL, cujo eleitorado está concentrado nas áreas nobres dos grandes centros urbanos — sem a menor chance de atingir o sertanejo analfabeto do Piauí.

Muito dinheiro, pouco juízo

Em tempos de preguiça analítica e transposição de roteiros norte-americanos para o Brasil (com um monte de abestalhado falando em versão tupiniquim do ataque ao Capitólio, como se as manifestações não fossem uma constante no Brasil desde 2013 e não estivessem volumosas demais até para caber dentro do Congresso), não custa apontar para diferença entre o discurso público do maior partido de esquerda brasileiro e o partido de esquerda dos EUA.

Não importa que o PT esteja repleto de lacradores; quando quiser ganhar eleições majoritárias, vai escondê-los. Da lacração, o maior tabu eleitoral de todos é o aborto. Já os Democratas, por outro lado, usaram uma comoção real causada pela reversão de Roe v. Wade para fazer uma campanha nacional lacradora centrada na liberação do aborto. Há inflação galopante como nenhum norte-americano viu em vida, mas os governistas fizeram uma eleição falando de aborto e levaram.

As diferenças internas do PT talvez sirvam para lançar alguma luz a essa diferença internacional das duas esquerdas. Em São Paulo, o PT sempre teve uma ala lacradora forte — vide Marta Suplicy, sexóloga eleita prefeita em 2000, e Haddad, o prefeito doutor pela FFLCH/USP que pagava a cracudos para varrerem o chão e defendia a política de “redução de danos”. Já na Bahia, o deputado petista Bassuma foi expulso do partido por propor o Estatuto do Nascituro. E quanto às drogas, a retórica dos governadores petistas baianos é totalmente pró polícia e contra bandido. Inclusive financia a Fundação Doutor Jesus, cujo fundador exibe orgulhoso à Piauí o pau que usa pra bater nos cracudos. O fundador é adorado e chegou a ser o deputado mais votado da Bahia.

Digamos assim: populações mais pobres, menos escolarizadas e, sobretudo, menos urbanizadas, tendem a rejeitar mais a lacração. Mas isso não basta para explicar, já que, como vimos com Gertrude Himmelfarb, essa moral hedonista propagandeada pela lacração também atinge — e de maneira mais custosa — os mais pobres.

No Brasil, é importante anotar que o principal partido de esquerda surgiu de uma cruza de padres hereges com sociólogos uspianos. A Igreja virou esquerdista, o Nordeste permaneceu católico e virou eleitor do PT. Já os nordestinos que migraram para as favelas do Sudeste sentiram na pele o descaso da Igreja com a moralidade e viraram evangélicos, junto com os pobres de lá, e criaram como evangélicos os filhos que tiveram lá. Essa visão cultural ajuda a explicar por que a madame progressista dos Jardins e o lavrador católico do interior do Piauí votam igual. O voto é igual, mas eles são muito diferentes.

Os apontamentos de um nativo

Como não me meto a conhecedora da cultura dos EUA, acompanhei a explicação do nativo Matt Walsh para a votação de lá, dada em seu programa pós-eleições. Matt Walsh mora no Tennessee, é católico praticante, critica a ideologia de gênero (fez o documentário “O que é uma mulher?”) e tem tido êxito em organizar protestos de conservadores contra a mudança de “gênero” em crianças. A meta do movimento é proibir que a “terapia afirmativa de gênero” seja aplicada a menores. Essa terapia consiste em confirmar as suspeitas do paciente de que ele não é do próprio sexo e deve ganhar um novo nome, roupas, tomar bloqueadores hormonais, depois hormônios do sexo oposto e em seguida fazer cirurgias tais como histerectomia ou mastectomia.

Para ele, a vitória dos Democratas é sintoma de uma grave crise moral no país. Dado o objeto do ativismo dele, não me parece uma hipótese ousada. Uma pista interessante é dada ao apontar para a Flórida, que deixou de ser swing state (que oscila entre Democrata e Republicano) e virou red state (Republicano). Segundo ele, a guinada da Flórida reflete a população latina do local, que valoriza a família e tem uma coisa que os gringos chamam de “lares inter-geracionais”. Simples: mais de uma geração mora junto. Aqui isso é tão comum que não damos nome a isso. Que eu me lembre, a palavra pareceu no noticiário para explicar por que os velhos italianos morriam mais que os alemães. A razão seriam os “lares inter-geracionais”, comuns no país latino.

É interessante a guinada apontada na Flórida. Os Democratas já foram um partido mais diverso e hoje são lacradores que querem fazer guerras pelo mundo, como denunciou Tulsi Gabbard ao abandonar o partido. Assim, faz sentido que a onipresença da lacração no Partido Democrata tenha sido a razão de a Flórida se tornar Republicana. Essa mudança se fez sentir para esse estado com muita influência cultural latina.

Matt Walsh aponta algumas questões interessantes, como a crise de saúde mental e o investimento que os Democratas fazem no medo. Não à tua, uma das coisas apontadas por ele é que a Geração Z votou em peso nos Democratas. Segundo um estudo dos EUA, é uma faixa etária com 42% de doentes mentais.

Lacração é atomização

O que a lacração promove é a atomização do homem. As pessoas não devem mais ter cônjuge e filhos; devem se libertar do casamento, abortar e viver para o trabalho. As pessoas não devem mais contar com a ajuda dos familiares ou com a caridade de alguma instituição; devem receber um auxílio anônimo e compulsório do Estado, que lhes permite dar as costas para a família.

Esse projeto de atomização se dá em oposição à família e às comunidades religiosas. Ambas começaram a ser substituídas com a educação infantil compulsória e laica.

Por aqui, somos atrasados e o “ensino integral” é raro a ponto de precisar um nome. Mas nos países ricos é normal as crianças passarem o dia na escola, sendo educadas por pessoas cujos valores diferem dos seus pais. Nos EUA, é comum os filhos saírem do lar dos pais de vez ao cursarem uma faculdade, e aí viram internos. Se os pais brasileiros ficam aflitos com os filhos que vão para a federal estudar às vezes só num turno, imaginem nos EUA, onde os alunos passam anos imersos nesse ambiente, afastados dos pais.

Outra questão que deve deixar o brasileiro de cabelo em pé é o ensino de ideologia de gênero para crianças pequenas — coisa que a Flórida pelejou para proibir. A doutrinação progressista deve ser muito pesada nos EUA: vai desde a pré-escola até a faculdade, e está por toda a cultura pop. Assim, essa agenda de atomização da sociedade deve vir tendo cada vez mais êxito em gerações cada vez mais novas, além de ir investindo na crise de saúde mental, crescente desde a pandemia.

No fim das contas, para um país democrático aderir a uma ideologia tão maluca e destrutiva, sem estelionato eleitoral, só pode haver uma doutrinação poderosa, digna de Estados totalitários.

Gazeta do Povo (PR)

COP-27: Ministro de Bolsonaro critica redução ‘forçada’ de gases e uso de jatinho




O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, disse nesta terça-feira, 15, que a política ambiental deve ser baseada na geração de emprego verde, e não em uma redução de emissões de gases de efeito estufa “extremamente forçada” durante discurso na Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-27), em Sharm el-Sheik, no Egito. O titular da pasta na gestão Jair Bolsonaro (PL) também criticou o uso de jatinhos, em referência ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e afirmou que o mundo não será salvo pelos “caridosos”.

Bolsonaro não participa da conferência do clima, mas Lula foi ao Egito, no primeiro compromisso no exterior após o resultado das eleições. A visita tem sido acompanhada com atenção pela comunidade internacional, que espera uma guinada nas políticas de proteção da Amazônia após quatro anos de enfraquecimento da política ambiental durante a gestão Bolsonaro. O petista, porém, tem sido alvo de críticas por ter feito a viagem a bordo da aeronave de um empresário.

“Filantropos, líderes e empresários e seu sempre exagerado número de assessores vieram em jatos particulares ao luxuoso balneário do Mar Vermelho para cobrar metas de redução de emissões dos outros, sugerindo carros ultramodernos a hidrogênio ou 100% elétricos, completamente desconexos da realidade de diversas regiões do Brasil e do mundo”, criticou Leite, em discurso no evento da ONU.

O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) negou que o empresário José Seripiere Junior tenha emprestado a aeronave para Lula. “O proprietário está indo junto para COP. Não tem empréstimo. Estão indo juntos no mesmo avião. Estão indo mais pessoas: ex-governador, lideranças políticas, ambientais, todos juntos”, disse Alckmin nesta segunda, 14.

Leite também voltou a atacar parcerias com ONGs de ação na área ambiental, uma das tônicas do discurso de Bolsonaro sobre o setor nos últimos quatro anos. “Diferente dos governos anteriores, onde o foco era enviar recursos somente para ONGs, nos últimos anos implementamos políticas junto como setor privado para dar escala a uma nova economia verde com objetivo de neutralidade climática até 2050”, afirmou. “O mundo não será salvo pelos caridosos, mas pelos eficientes.”

Correio Braziliense / Daynews

Nas sombras, Bolsonaro usa os militares para alimentar o conspiracionismo.




O texto do Ministério da Defesa informa que o "acurado trabalho da equipe de técnicos militares" não apontou, mas "também não excluiu a possibilidade de existência de fraude". É um argumento que não para de pé. 

Por Guilherme Macalossi (foto)

Além de duas breves aparições públicas e de um número limitado de encontros oficiais com membros do governo, Jair Bolsonaro se recolheu desde que viu sepultado o sonho de um segundo mandato. Nos estertores de seu governo, vaga pelos palácios do poder como uma sombra dedicada a alimentar a instabilidade institucional usando sua influência sobre as Forças Armadas para manter sua militância ativa na esperança de que, por um ato discricionário, tropas marchem para invalidar o resultado da eleição.

O relatório do Ministério da Defesa sobre o sistema de votação era aguardado como instrumento derradeiro para justificar uma ação hipotética. Influenciadores se encarregaram de criar o clima entre os militantes, que se juntaram em multidões na frente dos quarteis. As imagens produzidas nos últimos dias foram do constrangedor ao grotesco. Senhoras e senhores claramente desesperados gritando e orando por uma intervenção militar que nos livrasse do comunismo em um verdadeiro muro das lamentações bolsonarista.

Eis que a divulgação do documento assinado pelo General Paulo Sérgio Nogueira pôs abaixo as expectativas. Nenhuma fraude ou irregularidade foi apontada. A consternação dos fanáticos foi suficientemente grande a ponto de o Ministério da Defesa ter de divulgar uma outra nota, daí explicativa, para fazer controle de narrativa e acalmar os ânimos. Como nada foi encontrado, restou divagar usando a insinuação por hipótese para dar margem aos conspiracionistas.

O texto do Ministério da Defesa informa que o "acurado trabalho da equipe de técnicos militares" não apontou, mas "também não excluiu a possibilidade de existência de fraude". É um argumento que não para de pé. Basta mudar o teor da frase para evidenciar o seu primarismo. Exemplo: o acurado trabalho da equipe de técnicos militares não apontou, mas também não excluiu a possibilidade de você ter sido traído. Ou ainda: o acurado trabalho da equipe de técnicos militares não apontou, mas também não excluiu que a Terra seja plana.

Na sexta-feira (11), as Forças Armadas voltaram a se manifestar, dessa vez sobre os grupos pedindo intervenção na frente dos quarteis. Em nota, a instituição se atribuiu um papel moderador que a Constituição não lhe confere, bem como fez uma avaliação jurídica sobre o teor das manifestações que também não é de sua alçada. Essa insistência em se intrometer nos assuntos que são de competência da sociedade civil é resultado da sujeição a que parte de seus integrantes se submetem de maneira a satisfazer os caprichos de um presidente não reeleito que insiste em incendiar o país.

Gazeta do Povo (PR)

O general e a gênese do golpismo castrense




Por Luiz Carlos Azedo (foto)

Desde de 1964, nunca houve tanta agitação a favor de um golpe militar como a que estamos assistindo desde a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ontem, Dia da Proclamação da República, seria apenas mais um dia em que gente muito fanática, defensora de uma intervenção militar, protestasse à porta dos principais comandos militares do país, entre os quais os do Planalto, em Brasília — onde reside a maioria dos generais de quatro estrelas —, e no Rio de Janeiro, que abriga o maior contingente militar do país. Seria apenas mais um dia de vigília bolsonarista, não fosse o Twitter do general Eduardo Villas Boas, uma indiscutível liderança militar, endossando as manifestações golpistas e pondo mais lenha na fogueira.

O ex-comandante do Exército poderia ter ficado na dele, mas não: decidiu surfar os protestos para reafirmar sua liderança junto aos descontentes com a derrota do presidente Jair Bolsonaro e, talvez, na tropa que está na ativa. “A população segue aglomerada junto às portas dos quarteis pedindo socorro às Forças Armadas. Com incrível persistência, mas com ânimo absolutamente pacífico, pessoas de todas as idades, identificadas com o verde e o amarelo que orgulhosamente ostentam, protestam contra os atentados à democracia, à independência dos poderes, ameças à liberdade e as dúvidas sobre o processo eleitoral”, afirma.

Com isso, o velho general alimentou ainda mais as infundadas críticas e maliciosas suspeitas ao resultado das urnas, com a mesma ambiguidade com que Bolsonaro silencia diante do resultado oficial da eleição, e não reconhece publicamente a inequívoca vitória de Lula. Pelo custo e envergadura da mobilização, que ontem completou duas semanas, é evidente a existência de um forte movimento de extrema direita, organizado com o propósito de melar a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Villas Boas critica a imprensa por não dar aos manifestantes a importância que gostaria: “Talvez nossos jornalistas acreditem que ignorando a movimentação de milhões de pessoas elas desaparecerão. Não se apercebem eles que ao tentar isolar as manifestações podem estar criando mais um fator de insatisfação. A mídia totalmente controlada nos países na Cortina de Ferro não impediu a queda do Muro de Berlim. A História ensina que pessoas que lutam pela liberdade jamais serão vencidas”, afirma.

Com fina ironia, inverteu o significado histórico de um velho bordão das esquerdas contra as ditaduras: “O povo unido jamais será vencido!”. No dia 29 de outubro, véspera da eleição, Villas Boas havia publicado um tuíter no qual traçou um cenário catastrófico em caso da vitória de Lula, o quem tudo a ver com a sua manifestação de ontem.

O golpe de 1889

Não poderia haver data mais simbólica para a manifestação e a posicionamento de Villas Boas. A Proclamação da República foi um golpe militar, que se apropriou do movimento republicano com o propósito de implantar uma ditadura, como acabou ocorrendo por duas vezes, na Revolução de 1930 e no golpe militar de 1964. O Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), principal chefe do Exército brasileiro, foi praticamente arrancado da cama, em 15 de novembro de 1889, para destituir a Monarquia.

Fora escolhido para liderar o levante militar pelos jovens oficiais liderados por Benjamin Constant (1836-1891), professor da Escola Militar da Praia Vermelha e expoente do Positivismo no Brasil, a doutrina que impregnou de tal forma a política brasileira que sua síntese até está bordada na bandeira nacional: “Ordem e Progresso”.

Democracia não é um valor universal no ideário positivista. O golpe foi rocambolesco. Reunidas as tropas no Campo de Santana, onde hoje está localizada a Praça da República e o Quartel General do Comando do Leste, Deodoro derrubou o gabinete do Visconde Ouro Preto e voltou para casa. Somante mais tarde, o velho e adoentado marechal foi convencido a assinar o documento que extinguiu a monarquia, que durava já 70 anos.

O imperador Dom Pedro II foi banido do Brasil com a família, e embarcou rumo à Europa na madrugada do dia 17 de novembro, sem entender direito as razões de sua queda. A população somente soube mais tarde desses acontecimentos. Para evitar uma guerra civil, dom Pedro II não quis resistir, após 49 anos de reinado. Sabia que elite brasileira estava insatisfeita desde o fim da escravidão, em 1888.

Entretanto, não acreditava que os militares (irritados com os salários e desprestígio desde a Guerra do Paraguai) e os cafeicultores (que exigiam indenizações pela abolição da escravatura) o destituíssem. Muito menos a Igreja Católica, apesar de insatisfeita com o padroado (sua prerrogativa de preencher os cargos eclesiásticos mais importantes) e o seu beneplácito (aprovação das ordens e bulas papais para que fossem cumpridas, ou não, em território nacional), que já haviam provocado uma crise com o Vaticano, de 1872 a 1875. É que os sacerdotes eram tratados como funcionários públicos, recebendo salários da Coroa — teoricamente não apoiaram um Estado laico, republicano. 

Correio Braziliense

Villas Bôas tenta constranger a imprensa




O general Villas Bôas pretende constranger a “grande imprensa” a divulgar cada passo de um movimento golpista que ele elogia. 

Por Carlos Graieb (foto)

O ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas foi às redes para enquadrar os meios de comunicação nesta terça-feira, 15. No feriado que celebra a proclamação da República, ele se utilizou do Twitter, como faz de vez em quando, para reclamar da “indiferença da imprensa” em relação às manifestações que ocorrem em frente a quartéis de diversas cidades, desde o fim das eleições, em 30 de outubro.

“Talvez nossos jornalistas acreditem que ignorando a movimentação de milhões de pessoas elas desaparecerão”, escreveu Villas Bôas. “Não se apercebem eles que ao tentar isolar as manifestações pode estar criando mais um fator de insatisfação. A mídia totalmente controlada pelos países da cortina de ferro não impediu a queda do Muro de Berlim. A história ensina que pessoas que lutam pela liberdade jamais serão vencidas.”

Estou disposto a falar sobre as manifestações, mas desconfio que o general não vai gostar. Meu alcance é modesto. Não sou um canal apto a divulgar as tais vigílias de maneira que elas atraiam milhões de verdade, e não os milhares que têm comparecido. Além disso, não posso ratificar a visão edulcorada que o general apresenta do movimento.

Segundo descobri pelos jornais nesta quarta-feira, até a Jovem Pan, o veículo mais bolsonarista da imprensa brasileira, começou a ser hostilizada pelo público dos quartéis. No feriado, um repórter da emissora tentava cobrir os acontecimentos em frente ao Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, quando foi acusado aos gritos de ser mentiroso. Ele dizia que os manifestantes pedem uma intervenção militar, mas foi obrigado a se “corrigir”: eles não desejam que as Forças Armadas assumam o poder, mas sim que impeçam a posse do presidente eleito (num pleito em que elas mesmas não identificaram fraudes) e garantam a permanência de Jair Bolsonaro na presidência até a realização de novas eleições, num dia qualquer do futuro.

Aí está a informação, precisa e direta da fonte. Vejam que a imprensa não está assim tão distraída.

Um número ínfimo de bolsonaristas hiperexcitados quer que as armas dos militares sejam usadas para impedir a transferência de poder de um presidente a outro, no momento previsto pelas leis. É preciso torcer a lógica, os fatos e as palavras para chamar isso de “luta pela liberdade”, como faz Villas Bôas. Não há “luta pela liberdade” quando uma ínfima minoria quer impor sua vontade na marra a 98 milhões de eleitores que não escolheram Bolsonaro. O nome correto disso é golpe de Estado. Ainda que os 58 milhões de eleitores de Bolsonaro decidissem ir às ruas, a conclusão seria a mesma.

O general Villas Bôas acredita há tempos que a participação dos militares no debate público deve ser naturalizada. Segundo ele, o fato de controlarem tanques e jatos de guerra não deve impedir os comandantes das Forças Armadas de se imiscuir na política quando acharem oportuno.

O problema dessa “doutrina” não está apenas no fato de países com tradição democrática muito mais consolidada que o Brasil jamais a terem adotado. O problema é também que o debate público pressupõe igualdade entre os participantes, ao passo que os militares brasileiros se enxergam como uma entidade “moderadora”, pairando acima dos cidadãos comuns. Vem daí o tom vagamente ameaçador de notas e mensagens públicas que os militares têm divulgado nos últimos meses. O tom do tuíte em que o general Villas Bôas pretende constranger a “grande imprensa” a divulgar cada passo de um movimento golpista que ele elogia.

PS: Um Poder Moderador só existiu no Brasil durante a vigência da Constituição de 1824. Ele era atribuído ao imperador. Os militares tiveram papel central na proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e também na promulgação da primeira constituição republicana, em 1891. Cinquenta e cinco integrantes das Forças Armadas participaram da elaboração da carta, que não traz menção nenhuma ao poder moderador, nem muito menos o atribui aos fardados. Na nota que divulgaram na semana passada, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica mencionaram os “valores e tradições” das Forças Armadas, “sempre presentes e moderadoras nos mais importantes momentos de nossa história”. A tradição de que eles falaram certamente não é aquela dos que fundaram a República.

Revista Crusoé

Ditadura e democracia, nacionalismo e globalização




A realidade é que um político populista e nacionalista só tem de fazer acreditar aos seus seguidores que a salvação vem pela Nação, apesar da evidência econômica dizer exatamente o contrário. 

Por José Veiga Sarmento (foto)

Este é, sem dúvida, um título longo, justificado pela dificuldade e perplexidade em compreender o alcance do que está a ocorrer num mundo onde tudo parece estar em causa:

    *Um mundo onde uma vitória de Putin sobre a Ucrânia, abriria caminho à restauração do Império Russo sobre os países Bálticos, seguindo-se a Polónia e, depois, a instalação de Governos amigos de Moscovo em Berlim, Paris e Roma, entre outros.

    *Um mundo onde a China de Xi, tendo substituído o paradigma do crescimento económico de Deng Xiao Ping pela vocação militar de dominação da Ásia, se prepara para invadir a Formosa, inevitabilidade que nenhum analista hoje já contesta. Será a repetição do que o Japão fez no início do Séc. XX e que levou os EUA a entrar na Segunda Guerra Mundial.

    *Um mundo onde a potência dominante, os EUA, mobilizada pelo culto pessoal a Trump, se pode vir a desligar da sua influência tutelar global, desfazendo as instituições militares e económicas que ordenaram, desde 1945, as relações internacionais, e assim abandonar a Europa às suas patologias congénitas e vizinhanças assassinas.

Para este panorama planetário negro, só falta acrescentar o contributo das alterações climáticas que alguns ainda se afadigam a desmentir como sendo puras invenções ou exageros. E isto apesar de inúmeros incidentes nefastos como o que aconteceu neste Verão em Londres que viu alguns dos seus bairros a auto-incendiarem-se, ou apesar dos incêndios florestais na Califórnia e na Europa, ou ainda das cheias no Paquistão, ou dos ciclones e tornados que impõem um ritmo de destruição nunca visto. Perante estes cenários de fim do mundo, que melhor podemos fazer do que procurar inspiração na História passada, preparando-nos para o pior e, claro, todavia esperando o melhor?

Mas vamos por partes. Vivemos hoje com um constante e radical ímpeto em colocar em causa o nosso modo de vida, sobressaindo aqui o crescente desprezo pela forma de organização social que atribui ao indivíduo um papel crucial, ou seja, pela democracia. O interesse agora – muito em resultado do desespero que resulta das crises – volta-se para alternativas mais encantatórias, que apelam à intervenção de personagens supostamente iluminadas. Olhando para o caminho da humanidade, é bem possível concluir que a forma de organização mais frequente nas sociedades humanas não foi a democracia, mas sim a ditadura, liturgia que, tendo sido encontrada primeiro para nos proteger nas cavernas há umas dezenas de milhares de anos, serviu depois para o crescimento das metrópoles e impérios que se foram formando e desfazendo ao longo dos séculos. Na verdade, qualquer grupo de pessoas ou sociedade tem necessidades e objectivos comuns de sobrevivência, pelo que o mais prático é que esteja disponível para aceitar um chefe que decida, em cada momento, que necessidades e objectivos são esses. Em nome dos interesses comuns, os elementos do grupo abdicam da sua individualidade e capacidade de racionalização em favor da autoridade do chefe. Assim foi ao longo dos tempos. Por simplificação organizacional, acabou por se aceitar o dogma de que filho de chefe, chefe será. A menos que, como tantas vezes aconteceu, a ambição pessoal e a força bruta decidam por outra solução. A figura do Rei adquiriu assim, ao longo dos séculos, uma legitimidade natural e indiscutível. Ilustres excepções à regra da hereditariedade do chefe também existiram no passado, como foi o caso do grande império mongol do Séc. XIII, que, partindo do deserto asiático, conquistou o mundo, mas onde o chefe era escolhido entre os considerados mais capazes.

A regra da submissão vitalícia ao chefe como forma única de organização social contou, no entanto, com duas excepções de enorme relevo, que marcaram indelevelmente a História da Humanidade: a descoberta da democracia em Atenas e a expulsão dos Reis em Roma, fenómenos que ocorreram sensivelmente na mesma altura, uns cinco séculos antes da nossa era. Atenienses e Romanos chegaram à mesma conclusão: os negócios públicos são importantes e complexos demais para serem deixados ao arbítrio de um único ser, ainda por cima quando a sua principal característica é a de ser filho do chefe. Fizeram-no, no entanto, por razões diferentes. Enquanto os atenienses, ao descobrir que o comércio traz riqueza, perceberam a importância capital do papel do indivíduo no sucesso da economia, os romanos, que sempre olharam para o mundo à sua volta como terras e povos a submeter, privilegiaram a competência militar e a dedicação organizativa, ou seja a meritocracia. Uns e outros elegeram chefes com competências reais e mandatos limitados, acabando por inventar o conceito da República. Poderiam ser chamados de ditadores, mas tinham um mandato preciso, objecto de escrutínio e, sobretudo, limitado no tempo.

Se Atenas deu um contributo galáctico para que a Humanidade avançasse na compreensão das coisas e no desenvolvimento intelectual do Homo supostamente já Sapiens, os Romanos conquistaram e fizeram à sua imagem o que na altura era todo o mundo conhecido para além da China. Foram sucessos que ainda hoje nos maravilham. Como se sabe, Atenas acabou depois voluntariamente engolida no Império Romano, mas este, a partir de César Augusto, foi mudando de paradigma, preferindo mesmo considerar o chefe com um deus e respeitar a sua natureza hereditária. As democracias grega e romana acabaram, afinal, por ser um intervalo na nossa caminhada, mas o seu contributo ultrapassou tudo o que as ditaduras de chefes inquestionáveis tinham produzido e muito mais do que iria ser feito depois. Gregos e romanos provaram que lideres escolhidos por voto e com mandatos limitados podem produzir melhores resultados.

As vantagens da Democracia e da República teriam, no entanto, de esperar muitos séculos para serem depois redescobertas em Inglaterra e, já nos finais do Séc. XVIII, nos novos Estados Unidos da América e em França. Mas a Revolução Francesa acabou por se transformar rapidamente numa ditadura terrorista que descobriu depois a magia de um autoproclamado Imperador que, com a sua queda, fez regressar de novo os Bourbon, esses, sim, Reis por direito hereditário. Quanto à República em França, ponto final parágrafo até ao final do Séc. XIX.

Aquilo a que assistimos hoje no Séc. XXI é, de novo, a desvalorização das regras de convivência democrática e o crescimento das forças que nos empurram para o braço de salvadores – detentores, por definição, de um ADN superior – que, como sabemos da História, têm uma grande vocação para nos levar ao precipício. Hoje, vivemos cativados por figuras como Trump que espera o momento do regresso, como Bolsonaro que não sabe o que pensar, como Putin que, temendo perder o sonho de devolver a glória imperial à Rússia, olha nervosamente para o botão nuclear, e como Xi que se autopromoveu a líder vitalício com a sagrada missão de levar a China à vitória final, desta vez não comercial, mas antes militar. O Séc. XX foi aliás rico no contributo mítico de grandes líderes que, sob bandeiras de base nacional, encheram a História de sangue, suor e lágrimas. Hitler, Estaline, Mao Tse Tung e outros com menor capacidade de destruição adubaram o mundo com milhões de mortos em nome da superioridade do seu terreno, da sua raça e do seu credo.

O nacionalismo que vemos vingar hoje, vem novamente a reboque de discursos populistas. Populismo e nacionalismo não são naturalmente a mesma coisa, mas na prática fazem um par com sucesso garantido. Enquanto o populismo promete o paraíso ao virar da esquina, o nacionalismo serve para fazer acreditar que é por pertencermos a um grupo eleito, que o paraíso estará à nossa espera.

Sobre a força destruidora dos nacionalismos, vale a pena uma referência à recente obra magistral de J. Bradford DeLong com o título em inglês que traduzo para “Destruir em Direcção à Utopia”. DeLong procura, primeiro, perceber quando e como a Humanidade teve melhores dias e desmente a ideia formada de que o caminho do desenvolvimento tenha sido consistente ao longo do tempo. Pelo contrário, afirma que, entre 6 mil anos antes da nossa era e o Séc. XVI, a riqueza global não terá variado muito. Alguns altos e baixos, um pequeno saldo positivo, mas nada de significativo. Relevante foi o contributo dos navegadores Portugueses e Espanhóis, que tornaram possível o comércio global, que existia até aí apenas para artigos de luxo e que, com a diminuição dos custos de transporte, assumiu uma dimensão muito maior. A primeira globalização – que leva o nome de Vasco da Gama e de tantos outros – teve como resultado dar à Europa uma força económica que esta jamais havia conhecido.

Mas as guerras constantes e os diminutos avanços tecnológicos, para além dos ocorridos com a navegação, limitaram o impacto económico e travaram a tendência positiva. Foi preciso aguardar pelo último quartel do Séc. XIX quando, a partir de 1870, após o efeito cumulativo de quase 100 anos de revolução industrial, e com o exponencial aumento da capacidade produtiva resultante da utilização do carvão na maquinaria têxtil, nos caminhos de ferro e na navegação, a riqueza global acabou por saltar para níveis nunca, mas mesmo nunca antes vislumbrados. O milagre do crescimento aconteceu em resultado da conjugação desta nova capacidade produtiva e dos baixos custos de transporte (com o fim do cavalo e do barco à vela), tudo num quadro de livre movimento de pessoas e de abertura ao comércio internacional. Não esquecer que, de 1870 a 1914, emigraram mais de 100 milhões de pessoas que deixaram o seu local de nascimento à procura de melhores condições de vida, e que tal só foi possível por não existirem barreiras à emigração e porque o custo de atravessar os oceanos deixou de ser uma restrição, mesmo para os mais pobres. Em 1914 tínhamos atingido um nível de riqueza global nunca sonhado, embora o tema da redistribuição seja de actualidade posterior. Segundo DeLong, enquanto em 1870 cerca de 70% da população mundial vivia abaixo do limiar de pobreza, esta proporção hoje será de apenas 9%.

No entanto, esta magnificência, em grande medida europeia, autodestrói-se na I Guerra Mundial. Os impérios europeus – as enormes potências industriais e coloniais inglesa, francesa e alemã, o histórico Império Austríaco e a grande Rússia Imperial – consumiram-se todos por decisões políticas dos seus líderes que colocaram as questões de honra nacionalistas à frente de tudo e de todos. Está suficientemente documentado o que foram as semanas loucas que ocorreram antes da deflagração da guerra no início de Agosto de 1914, com a pressão entusiasmada dos políticos nacionalistas, que impuseram como inevitáveis declarações que inflamaram as opiniões públicas sobre uma guerra que tudo iria destruir. O período de crescimento económico mais intenso que a Humanidade havia conhecido (entre 1870 e 1914), acabou por ser consumido no fogo purificador dos medos e receios dos vizinhos, que nenhum mecanismo de entendimento supranacional foi capaz de apagar.

A força dos nacionalismos no desencadear de mais esta guerra iria reforçar-se numa Europa empobrecida do pós-guerra, que promovia a autarcia como solução, pondo deste modo fim ao comércio global, e fazendo desparecer, assim, as indústrias e o emprego que o sustentavam. O nacionalismo alemão, alimentado pelo partido nazi nos anos 30, justificava-se mesmo pela necessidade de um ajuste de contas face à derrota na I Guerra Mundial, que, delirantemente, considerava como tendo sido provocada por traidores internos. Para os nazis, o êxito da nova Alemanha Hitleriana repousava na profundidade da vingança sobre os traidores e na força disponível para a conquista dos vizinhos. Mais a leste, uma nova religião evangélica de salvação do mundo servia a Estaline, um psicopata assassino, para a reconstrução do novo Império russo. No rescaldo da Segunda Guerra surge mais um evangélico iluminado, Mao Tse Tung, que irá sacrificar a sua grande comunidade milenar aos piores exercícios imagináveis de automutilação física e intelectual, realidade que, só nos finais do Séc. XX, com a salvação capitalística de Deng Xiao Ping foi finalmente sustida.

Na Europa de hoje não faltam candidatos a salvadores à procura de fiéis devotos ao superior desígnio da Nação. Le Pen, Abascal, Salvini, Meloni, e tantos outros, propõem a salvação da civilização, fechando as fronteiras, desconhecendo ou fazendo esquecer que foi nos momentos em que a actividade económica se globalizou que o mundo cresceu em riqueza e que foi nos períodos de autarcia que a pobreza dominou. Como é possível ainda hoje defender a autarcia e a desconfiança dos vizinhos, numa Europa de nações que se destruiu ciclicamente ao longo dos séculos, e que foi recuperada pela última vez depois da derrota nazi em 1945, graças ao contributo da política e do capital americano e de uma rede institucional de partilha de problemas e soluções que dá pelo nome de projecto Europeu? Como esquecer que a impossibilidade histórica de diálogo entre a França e a Alemanha só foi quebrada por Jean Monnet a partir de 1951 com a criação da Autoridade do Carvão e do Aço, que, precisamente, desnacionalizou, na Europa, o tema do acesso a estas matérias-primas? Que propõem agora os nacionalistas? O regresso ao passado? Vamos à guerra?

Não é fácil seguir, racionalmente, um líder nacional populista europeu quando este fala da ditadura de Bruxelas, referindo-se a decisões preparadas por uma administração que é suposto não responder a interesses particulares nacionais e que tem reputação de competência, decisões essas que depois são aprovadas ou não em colégios de ministros e de Chefes de Governo eleitos de todos os países-membros. O que se faz em Bruxelas não se ajusta propriamente ao conceito de ditadura, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, em Fevereiro deste ano em Moscovo, quando a maioria dos dirigentes russos descobriu que tinham em curso uma operação militar contra a Ucrânia.

A guerra, para um nacionalista, acaba por ser o corolário lógico da sua fé. A glorificação da nação amada, justificada infantilmente através da mistificação da História, é, sem dúvida, um objectivo atraente, mas geralmente para ser atingido à custa do vizinho que se odeia e receia. Mas o que se ganha com a guerra? No Financial Times, Martin Wolf dizia que um cidadão russo normal em nada beneficiaria com a conquista da Ucrânia, tal como um cidadão normal chinês com a conquista da Formosa. Mas a realidade é que um político populista e nacionalista só tem de fazer acreditar aos seus seguidores que a salvação vem pela Nação, apesar da evidência económica dizer exactamente o contrário. Já quanto ao valor da ideologia na política, ela é, como dizia Morgenthau, puramente instrumental, pois o objectivo é sempre a aquisição de poder.

Neste quadro, o que nos espera? A leitura da História não daria aqui um contributo para uma saída muito positiva já que imbróglios destes em que ninguém se entende, nem se quer fazer entender, terminaram sempre mal. Na idade nuclear, o mal tem uma consonância macabra muito particular. Será que existe algum indivíduo, classe, organização, corporação ou País em condições de impor aos outros uma solução de convivência, como Roosevelt fez para o pós-guerra, mas desta vez para além da pacificação do Atlântico e do Pacifico, incluir também a sobrevivência do planeta? Como se viu em Julho de 1914, bastaria que os responsáveis das principais potências se assumissem como cidadãos do mundo, e não como guardadores de rebanhos, para que a guerra se tornasse incompreensível. Como seria possível essa clarividência hoje? Onde estarão esses dirigentes?

O mundo que se globalizou profundamente, parte-se agora em vários núcleos políticos e económicos. Para os que vivem neste velho Continente, que saída existe para a Europa? Com o bloco americano de um lado e o chinês a esgrimir abertamente armas como num torneio para a consagração de um novo chefe, que futuro temos? Ora acontece que, teoricamente, a Europa tem futuro, sim. Beneficia de dimensão económica e humana suficiente para dialogar em pé de igualdade com as outras potências. Não tem ainda força militar, o que limita no imediato a sua capacidade de persuasão, mas pode muito bem corrigir esse défice. Até hoje, como dizia Peter Sloterdijk, o que esteve na base do projecto europeu – que se tornou numa entidade de 450 milhões de pessoas, sem imperador nem projecto imperial – foi o resultado do fracasso histórico de uma dúzia de projectos nacionais-imperiais. São 27 países unidos, exclusivamente, por uma visão de coexistência tão livre quanto possível, tão cooperante como factível.

Mas as leis da física desta Europa num mundo à beira do precipício atingiram o seu limite funcional. Cercada por forças agressivas e contraditórias, as tensões dentro da Europa estão à vista de todos, mesmo entre o casal franco-alemão. As dificuldades arriscam-se a ficar mais cruas por força de uma guerra que, mesmo assim, ainda está fora de portas. Com os automobilistas a franceses a parar o País por uns cêntimos a mais no custo da gasolina, com os italianos indisponíveis para encontrar uma solução para os migrantes, com os alemães a pensar que o problema das suas fábricas se resolve estendendo passadeira vermelha aos russos, como iria um Churchill do Séc. XXI apelar aos sacrifícios sem os quais não se ganha o direito à liberdade?

Será que não temos solução? Estaremos mesmo perdidos? Condenados a ser governados por comissários chineses, ou subcomissários russos de comissários chineses? Num planeta sem água e que arde sem controlo? O que falta para encontrar uma saída, como tantas vezes foi possível acontecer no passado? Porque não fazemos como os gregos e os romanos e damos poderes reais a alguém, para ultrapassar esta fase, escrutinando os resultados e limitando naturalmente o mandato no tempo. Talvez um Presidente e um Governo para a Europa? Impossível? A sério? Ou haverá outra solução?

Falta algo, de facto, para resolver o que, neste momento, nos parece não ter solução. O que sobra, com certeza, são os nacionalistas.

Observador (PT)

Trump lança candidatura a Presidência: 6 razões que mostram por que será mais difícil para ele em 2024




Por  Anthony Zurcher, em Washington

Donald Trump anunciou sua terceira candidatura consecutiva à Presidência dos Estados Unidos, em uma tentativa rara de um ex-presidente de voltar à Casa Branca após perder uma eleição.

Em um discurso na terça-feira (15/11), que durou mais de uma hora, Trump se vangloriou sobre seu tempo na Presidência e criticou os dois primeiros anos de Joe Biden no cargo.

Trump mostrou seus pontos fortes ao longo do discurso. Ele tem uma sensibilidade inigualável para entender quais temas são importantes para os conservadores que formam sua base de eleitores, como imigração e crime. Seu estilo imprevisível e inflamado atrai cobertura de notícias, deixando seus concorrentes sem espaço no noticiário. Ele tem uma base forte de apoiadores e consegue atrair até mesmo americanos que normalmente não votam. E depois de quatro anos na Presidência, muitos desses apoiadores hoje ocupam cargos altos dentro do Partido Republicano.

Mas seu discurso também deixou em evidência algumas das principais fraquezas de Trump.

Trump praticamente ignorou as dificuldades e os erros de seu governo durante a pandemia de covid. E simplesmente se omitiu sobre os meses em que passou negando o resultado das eleições de 2020 e sobre o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos EUA por seus apoiadores.

Ele tentou defender o fraco desempenho do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato da semana passada e seu apoio a candidatos derrotados — algo que vem atraindo críticas a ele entre conservadores.

Trump disse que o desafio dos republicanos agora não é algo que um "candidato convencional" consiga vencer — e sim um desafio para ser encarado por um movimento de milhões de pessoas: seu movimento, seu povo e sua campanha.

Há seis anos, esse movimento liderado por Trump tomou a Casa Branca, mas agora há motivos para acreditar que ele terá obstáculos maiores pela frente para voltar à Casa Branca em 2024.

Confira seis razões para isso abaixo.

1. Histórico na Presidência

Oito anos atrás, Trump era uma folha de papel em branco na política. Os eleitores podiam projetar em Trump suas esperanças e desejos, já que ele nunca havia ocupado um cargo público. Ele podia fazer promessas infundadas sem que houvesse exemplos no passado de seus erros e defeitos.

Agora é diferente. Embora Trump tenha algumas conquistas políticas importantes nos seus quatro anos no poder — como cortes de impostos e reforma da justiça criminal — ele também é lembrado por algumas derrotas notórias.

Os republicanos ainda se lembram de que ele foi incapaz de cumprir promessas de investimento em infraestrutura e de revogar as reformas democratas feitas no sistema de saúde. Há também a gestão de Trump da pandemia de coronavírus, que é alvo de crítica de diversos campos políticos.

Os democratas há muito criticam sua resposta à pandemia como insuficiente. Já entre alguns da direita, Trump foi longe demais nas medidas de combate ao coronavírus.

2. A sombra do 6 de janeiro

Trump também terá que defender a forma como conduziu o fim de seu mandato e seu papel no ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos EUA.

As imagens daquele dia — com apoiadores agitando faixas de Trump em meio ao gás lacrimogêneo enquanto invadiam o Capitólio — não serão facilmente esquecidas.

As eleições de meio de mandato da semana passada demonstraram que o que aconteceu naquele dia — e as palavras e ações de Trump nas semanas anteriores — ainda podem estar influenciando o comportamento dos eleitores.

Muitos candidatos republicanos que apoiaram Trump na negação dos resultados das eleições de 2020 perderam nas urnas na semana passada. Muitos tiveram desempenho inferior a outros candidatos republicanos em seus Estados que foram contra a contestação de Trump ou não se pronunciaram sobre o tema.

3. Problemas com a lei

Alguns analistas dizem que Trump está lançando sua candidatura para poder dizer que as diversas investigações criminais e civis às quais ele responde são, na verdade, perseguição política.

Embora essa estratégia possa funcionar junto à opinião pública, no sistema jurídico os problemas de Trump são bem mais graves.

O ex-presidente é alvo de diferentes investigações:

- um inquérito criminal de interferência nas eleições na Geórgia,

- uma acusação de fraude civil em seu conglomerado em Nova York

- um processo de difamação envolvendo alegações de agressão sexual

- investigações federais sobre seu papel no ataque ao Capitólio e sobre como lidou com material sob sigilo após deixar a Presidência.

Qualquer uma dessas investigações pode acabar no tribunal — algo que dominaria as manchetes e atrapalharia temporariamente os planos políticos de Trump.

Na melhor das hipóteses para ele, seria uma distração cara. Mas o pior cenário inclui enormes perdas financeiras ou até mesmo prisão.

4. Um rival mais difícil

Quando a disputa presidencial republicana começou há oito anos, Trump enfrentou um governador da Flórida que era considerado favorito do partido. Jeb Bush, no entanto, nunca foi uma ameaça real a Trump.

Sua campanha milionária e seu sobrenome famoso não foram suficientes. Ele estava fora de sintonia com a base republicana em temas como imigração e educação. E o nome Bush já não tinha o mesmo poder dentro do partido do passado.

Se Trump quiser ser indicado como candidato republicano em 2024, ele pode mais uma vez ter que enfrentar um governador da Flórida.

Ao contrário de Bush, no entanto, Ron DeSantis acabou de obter uma vitória esmagadora na reeleição, o que sugere que ele está em sintonia com os principais apoiadores de seu partido. Embora ainda não tenha sido testado no cenário nacional, sua estrela política está em ascensão.

Não está claro se DeSantis concorrerá ou quem mais entrará na disputa presidencial republicana neste momento. O governador da Flórida pode emergir como escolha de consenso entre quem não quer dar outra chance a Trump.

5. Queda nas pesquisas

Na véspera do anúncio de Trump de que pretende voltar a concorrer à Casa Branca, um grupo conservador divulgou uma série de pesquisas que mostravam Trump muito atrás de Ron DeSantis entre eleitores republicanos em Iowa e New Hampshire.

Esses Estados estão entre os primeiros a votarem no processo de indicação republicana.

DeSantis também lidera por 26 pontos percentuais na Flórida e 20 na Geórgia. Em todos esses Estados, Trump caiu nas pesquisas.

De acordo com recentes pesquisas de boca de urna das eleições de meio de mandato, Trump simplesmente não é muito popular — inclusive nos principais Estados em que ele precisará vencer caso seja confirmado candidato para 2024.

Em New Hampshire, apenas 30% dos eleitores disseram que queriam que Trump concorresse à Presidência novamente. Mesmo na Flórida, esse número é de apenas 33%.

É claro que Trump conseguiu superar desafios parecidos em 2015. Mas depois de oito anos como figura política no cenário nacional, essas visões podem ser muito menos propensas a mudar desta vez.

6. Idade

Se for eleito presidente de novo, Trump terá 78 anos ao tomar posse. E embora essa seja a mesma idade que Joe Biden tinha quando assumiu a Casa Branca, isso faria de Trump o segundo presidente mais velho da história dos EUA.

O tempo cobra seu preço de maneiras diferentes em pessoas diferentes.

Não há garantia de que Trump possa resistir ao tipo de campanha desgastante que é necessária para ganhar a indicação republicana — particularmente uma em que ele provavelmente enfrentaria candidatos muito mais jovens.

Trump mostrou no passado que é uma pessoa muito robusta, mas todo homem tem seus limites.

BBC Brasil

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