quinta-feira, novembro 17, 2022

Villas Bôas tenta constranger a imprensa




O general Villas Bôas pretende constranger a “grande imprensa” a divulgar cada passo de um movimento golpista que ele elogia. 

Por Carlos Graieb (foto)

O ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas foi às redes para enquadrar os meios de comunicação nesta terça-feira, 15. No feriado que celebra a proclamação da República, ele se utilizou do Twitter, como faz de vez em quando, para reclamar da “indiferença da imprensa” em relação às manifestações que ocorrem em frente a quartéis de diversas cidades, desde o fim das eleições, em 30 de outubro.

“Talvez nossos jornalistas acreditem que ignorando a movimentação de milhões de pessoas elas desaparecerão”, escreveu Villas Bôas. “Não se apercebem eles que ao tentar isolar as manifestações pode estar criando mais um fator de insatisfação. A mídia totalmente controlada pelos países da cortina de ferro não impediu a queda do Muro de Berlim. A história ensina que pessoas que lutam pela liberdade jamais serão vencidas.”

Estou disposto a falar sobre as manifestações, mas desconfio que o general não vai gostar. Meu alcance é modesto. Não sou um canal apto a divulgar as tais vigílias de maneira que elas atraiam milhões de verdade, e não os milhares que têm comparecido. Além disso, não posso ratificar a visão edulcorada que o general apresenta do movimento.

Segundo descobri pelos jornais nesta quarta-feira, até a Jovem Pan, o veículo mais bolsonarista da imprensa brasileira, começou a ser hostilizada pelo público dos quartéis. No feriado, um repórter da emissora tentava cobrir os acontecimentos em frente ao Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, quando foi acusado aos gritos de ser mentiroso. Ele dizia que os manifestantes pedem uma intervenção militar, mas foi obrigado a se “corrigir”: eles não desejam que as Forças Armadas assumam o poder, mas sim que impeçam a posse do presidente eleito (num pleito em que elas mesmas não identificaram fraudes) e garantam a permanência de Jair Bolsonaro na presidência até a realização de novas eleições, num dia qualquer do futuro.

Aí está a informação, precisa e direta da fonte. Vejam que a imprensa não está assim tão distraída.

Um número ínfimo de bolsonaristas hiperexcitados quer que as armas dos militares sejam usadas para impedir a transferência de poder de um presidente a outro, no momento previsto pelas leis. É preciso torcer a lógica, os fatos e as palavras para chamar isso de “luta pela liberdade”, como faz Villas Bôas. Não há “luta pela liberdade” quando uma ínfima minoria quer impor sua vontade na marra a 98 milhões de eleitores que não escolheram Bolsonaro. O nome correto disso é golpe de Estado. Ainda que os 58 milhões de eleitores de Bolsonaro decidissem ir às ruas, a conclusão seria a mesma.

O general Villas Bôas acredita há tempos que a participação dos militares no debate público deve ser naturalizada. Segundo ele, o fato de controlarem tanques e jatos de guerra não deve impedir os comandantes das Forças Armadas de se imiscuir na política quando acharem oportuno.

O problema dessa “doutrina” não está apenas no fato de países com tradição democrática muito mais consolidada que o Brasil jamais a terem adotado. O problema é também que o debate público pressupõe igualdade entre os participantes, ao passo que os militares brasileiros se enxergam como uma entidade “moderadora”, pairando acima dos cidadãos comuns. Vem daí o tom vagamente ameaçador de notas e mensagens públicas que os militares têm divulgado nos últimos meses. O tom do tuíte em que o general Villas Bôas pretende constranger a “grande imprensa” a divulgar cada passo de um movimento golpista que ele elogia.

PS: Um Poder Moderador só existiu no Brasil durante a vigência da Constituição de 1824. Ele era atribuído ao imperador. Os militares tiveram papel central na proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e também na promulgação da primeira constituição republicana, em 1891. Cinquenta e cinco integrantes das Forças Armadas participaram da elaboração da carta, que não traz menção nenhuma ao poder moderador, nem muito menos o atribui aos fardados. Na nota que divulgaram na semana passada, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica mencionaram os “valores e tradições” das Forças Armadas, “sempre presentes e moderadoras nos mais importantes momentos de nossa história”. A tradição de que eles falaram certamente não é aquela dos que fundaram a República.

Revista Crusoé

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