segunda-feira, novembro 14, 2022

Mourão, Guedes e Campos ‘fogem’ de cúpula do G-20; chanceler substitui Bolsonaro


Mourão e Guedes 


Em fim de mandato, o presidente Jair Bolsonaro, primeiro a não se reeleger na história do Brasil, vai enviar uma representação esvaziada para a 17ª Cúpula do G-20, em Bali, na Indonésia. Além de o próprio Bolsonaro ter desistido da viagem, o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro da Economia, Paulo Guedes, recusaram liderar a comitiva brasileira. A delegação será chefiada pelo ministro das Relações Exteriores, Carlos França.

Além das ausências de Bolsonaro, Mourão e Guedes, outra falta confirmada pelo Estadão é o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. O BC disse que não enviará representantes à cúpula.

Criado no fim dos anos 1990, o G-20 é um dos mais importantes fóruns multilaterais econômicos, tendo participação das maiores economias e papel de destaque dos ministros de finanças e presidentes de bancos centrais. Eles se reúnem ao longo do ano e preparam o evento principal, que desde a crise financeira de 2008 passou a reunir os chefes de Estado anualmente. Nas cúpulas, são discutidos acordos e coordenadas de ações internacionais entre os países. Os presidentes e primeiros-ministros também costumam aproveitar a ocasião para reuniões bilaterais.

A próxima cúpula, entre 15 e 16 de novembro, é considerada importante por autoridades do governo por causa da situação das economias em todo o mundo, face à inflação global enfrentada pelos países, as consequências da Guerra na Ucrânia e a recuperação pós-pandemia. O governo da Indonésia decidiu promover discussões sobre a transição energética, transformação digital e arquitetura global de saúde, com destaque para distribuição igualitária de vacinas.

Nas palavras de um embaixador, será um G-20 “sensível” com todas as discussões que envolvem crédito, inflação, segurança alimentar, e o Brasil pode se ver com uma representação tecnicamente capacitada, mas de segundo escalão político, sem peso para discutir com as principais delegações do mundo.

Questionados, o Ministério da Economia e o Banco Central não justificaram as ausências de Guedes e Campos Neto.

Até a derrota nas eleições, Bolsonaro havia participado de todas as cúpulas do G-20. Em 2019, estreou em Osaka, no Japão. Em 2020, discursou de Brasília, quando a reunião ocorreu por videoconferência, por causa da pandemia da covid-19. No ano passado, despediu-se ao liderar a comitiva brasileira em Roma, na Itália, ocasião em que foi flagrado deslocado na antessala reservada aos líderes.

Logo após a derrota para o ex-presidente Lula Inácio Lula da Silva (PT), Bolsonaro se recolheu no Palácio da Alvorada e cancelou compromissos, inclusive internacionais. Passou a receber apenas alguns ministros e aliados, despachando da residência oficial, e não promoveu mais nem mesmo as transmissões nas redes sociais. Encastelado, não quis se deslocar enquanto parte de seus apoiadores continuam a contestar o resultado das eleições e cobram intervenção militar.

Diante da negativa de Bolsonaro, integrantes do primeiro escalão do governo se esforçaram para elevar o nível político de representação do País. Em vão. Um dos que tentaram convencer o vice-presidente a ir à cúpula foi o chanceler Carlos França, a quem sobrou a tarefa de chefiar a delegação.

Além do deslocamento longo, com mais de 36 horas de voo com escalas, pesou o fato de o assunto não ser da esfera de domínio de Mourão. Ele teria de fazer um discurso com informações técnicas, sob encomenda. Como não houve uma determinação de Bolsonaro, que deixou o vice decidir livremente sobre o embarque, ele optou por não participar.

Mourão já havia “escapado” da Cúpula do Clima (COP-27), no Egito, assim como Guedes. Embora seja o nome forte do Conselho da Amazônia Legal, o vice havia ficado descontente em não ter liderado a delegação despachada no ano passado à COP-26, em Glasgow, e agora viu risco de desgaste político e cobranças com a presença de Lula e aliados em solo egípcio.

Antes, Paulo Guedes também rejeitou liderar a comitiva do G-20, embora seja considerado o “dono da bola” no assunto. O ministro decidiu enviar como representante da pasta o secretário de Assuntos Econômicos Internacionais, Marco Rocha. Um auxiliar do ministro ponderou que o roteiro das cúpulas de líderes é diferente das reuniões ministeriais, quando os titulares das pastas e presidentes de bancos centrais têm maior protagonismo.

O Ministério das Relações Exteriores também enviará o embaixador Sarquis José Buainain Sarquis, que é o sherpa do País na organização. Secretário de Comércio Exterior e Assuntos Econômicos, Sarquis foi indicado por Bolsonaro como próximo representante permanente do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas a aprovação está pendente no Senado e depende de acordo com Lula. Dois funcionários da coordenação-geral de G-20 também compõem a delegação brasileira.

Estadão / Dinheiro Rural

COP-27: Lula terá encontro com governadores da Amazônia e fala na área da ONU




O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa nesta semana da Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-27), realizada desde a semana passada em Sharm el-Sheik, no Egito. A agenda dele na conferência inclui encontro com governadores da Amazônia e com grupos da sociedade civil, além de pronunciamento na área da ONU. A ida do petista é aguardada pela comunidade internacional, que espera do novo governo uma retomada da agenda de proteção da Amazônia, enfraquecida nos últimos anos.

Na quarta-feira, 16, Lula participa, às 11 horas (6 horas no fuso de Brasília) do evento “Carta da Amazônia – uma agenda comum para a transição climática”, junto com os governadores Waldez Góes (PDT-AP) Gladson Cameli (PP-AC), Mauro Mendes (União-MT), Helder Barbalho (MDB-PA), Wanderlei Barbosa (Republicanos-TO), e Marcos Rocha (União-RO). O presidente eleito, inicialmente, foi convidado para ir à COP pelo governador paraense. Depois, também recebeu convite da organização do evento.

Às 17h15 (12h15 no fuso de Brasília) de quarta, Lula faz pronunciamento na área das Nações Unidas (zona azul). Na quinta-feira, 17, às 10 horas (5h em Brasília), Lula se encontra com representantes da sociedade civil brasileira no pavilhão Brazil Hub, e, às 15 horas (10h em Brasília), com o Fórum Internacional dos Povos Indígenas/Fórum dos Povos sobre Mudança Climática.

O Brasil tem três pavilhões na COP: o do Consórcio dos Governadores da Amazônia, o da sociedade civil (Brazil Hub) e o do governo federal, que tem sido o mais esvaziado. O presidente Jair Bolsonaro (PL) não foi a nenhuma cúpula climática durante seu mandato. Em 2009, Lula já havia participado de uma Conferência do Clima – a COP-15, em Copenhague.

A gestão atual tem sido alvo de críticas no Brasil e no exterior por causa da escalada do desmatamento na Amazônia e pelos ataques do governo federal a países que repassam recursos para a preservação da floresta, como a Noruega e a Alemanha, que paralisaram as doações desde 2019. Os dois países europeus já sinalizaram retomar os investimentos em ações para a preservação do bioma, via Fundo Amazônia, após o resultado das urnas.

Estadão / Dinheiro Rural

Desvio milionário de depósitos judiciais leva suspensão a sistemas de pagamento




Uma fraude no sistema de expedição de alvarás eletrônicos de depósitos judiciais atrelados a processos trabalhistas levou à suspensão do serviço em todo o País. Supostos criminosos conseguiram autorização de pagamentos de montantes milionários. Os desvios no Tribunal Regional do Trabalho da Primeira Região (TRT-1), no Rio de Janeiro, chegam a R$ 4 milhões.

O golpe na Justiça do Trabalho foi identificado na quinta-feira, 10, como apontado em um ofício circular da desembargadora Edith Tourinho, presidente da Corte fluminense, ao qual o Estadão teve acesso. Após questionamentos da reportagem neste sábado, 12, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) anunciou, em nota oficial, o bloqueio nacional preventivo dos sistemas de pagamento.

O problema já entrou também na mira das autoridades. A Corte superior abriu um procedimento para apurar o incidente e as consequências, além de acionar a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF). Foram notificados ainda o Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT) e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

De acordo com o ofício de Tourinho, enviado a juízes, a fraude ocorreu na 80.ª Vara do Trabalho. A expedição de oito alvarás fraudulentos de transferência de valores foi feita por meio de um certificado digital com as credenciais do juiz titular. Na sequência, o TRT-1 tirou do ar o sistema de expedição de alvarás do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal no Estado de forma preventiva, o que foi posteriormente estendido a todo o País pelo TST.

Segundo o TRT-1, a Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação (STI) detectou, em 24 horas, que “todos os alvarás (fraudulentos) exibem como beneficiário pessoa jurídica estranha ao processo, com constituição na Receita Federal nos últimos meses”. Tourinho afirma ainda que deixaram de operar “o Sistema de Interoperabilidade Financeira (SIF) e o Sistema de Controle de Depósitos Judiciais (SisconDJ), de modo a estancar possíveis problemas futuros”.

Além disso, a secretaria da Corte localizou 17 certificados digitais suspeitos, “atribuídos a magistrados e servidores do TRT-1, fato comunicado ao excelentíssimo juiz auxiliar da presidência do TST, juiz Braulio Gusmão, que imediatamente emitiu um alerta nacional explicando as providências tomadas neste regional”.

A preocupação se justifica. O montante sob responsabilidade da Justiça do Trabalho é vultuoso. Somente em 2021, de acordo com dados do próprio TST, R$ 16 bilhões estavam “esquecidos” em contas judiciais e os titulares dos valores foram localizados pelo chamado Projeto Garimpo, a fim de que o dinheiro fosse restituído aos donos.

Em entrevista ao Estadão, o presidente do TST, ministro Lelio Bentes, afirmou que a investigação corre em caráter sigiloso. Segundo ele, a Justiça do Trabalho já tem a informação de que o crime não foi causado por vulnerabilidade no sistema, que, de acordo com o magistrado, segue “idôneo”. “Houve uma falsidade ideológica. Na verdade, um estelionato, e a Justiça do Trabalho foi vítima”, afirmou.

Segundo Bentes, o crime teria sido causado pela expedição de certificados digitais fora da Justiça do Trabalho e, portanto, trata-se de “um assunto a ser investigado no âmbito das empresas certificadoras”, que são as responsáveis pelas credenciais dos juízes. Contudo, ele reforça que ainda não há indícios de que as empresas tenham praticado qualquer ilícito. “Isso vai ter de ser apurado. Elas podem ter sido induzidas ao erro”, disse.

Bentes relatou ainda que as contas para as quais os valores foram desviados já foram rastreadas e estão no nome de pessoas jurídicas registradas no Ministério da Fazenda há menos de 30 dias. “Esses valores ainda estão sendo apurados e totalizados para sabermos o impacto dessa situação lamentável”, afirmou.

“Embora essa seja uma situação absolutamente anômala, porque a relação com as empresas certificadoras sempre foi uma relação de confiança, obviamente essa situação aponta no sentido de nós aprofundarmos, aumentarmos o nível de segurança do uso dessas certificações”, disse o ministro, que afirmou ter incumbido à comissão envolvida no caso a tarefa de apresentar soluções para melhorar ou agregar novos elementos de segurança no uso da assinatura digital.

De acordo com Bentes, a decisão de retomar o serviço será tomada pelo comitê gestor, juntamente da área técnica do órgão, e que, se o processo demorar, a própria comissão decidirá sobre a necessidade de empregar formas alternativas de viabilizar o atendimento à população. “Se houver atraso, que seja o mínimo possível para retomar a expedição com total segurança”, disse o ministro. Ele acrescentou que, por ora, sabe que o problema está limitado ao TRT-1.

Em nota, o TST afirmou ainda que “uma equipe técnica da Justiça do Trabalho está atuando para restabelecer a normalidade com a maior agilidade possível, além de colaborar com as autoridades competentes na investigação do caso e na análise, junto à empresa de certificação, das possíveis causas”.

O juiz Guilherme Feliciano, ex-presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), afirmou ao Estadão que o fato de haver um certificado duplicado não seria suficiente para a fraude. Seria necessário também ter uma senha, que, segundo ele, “provavelmente foi gerada para esse fim”, além de conhecimento dos processos em que havia dinheiro a ser transferido.

“Então é possível que se identifique inclusive eventualmente a participação de pessoas com informações e atuações na própria entidade certificadora, e também com informações processuais”, apontou.

De acordo com Feliciano, há indícios dos crimes de falsidade ideológica e estelionato.

Estadão / Dinheiro Rural

Colisão entre aviões da 2ª Guerra deixa seis mortos nos EUA

 




Bombardeiro da Boeing e caça usados pelas forças americanas na Segunda Guerra se chocaram no ar durante um show aéreo em Dallas. Milhares assistiam, mas nenhum espectador ficou ferido. Autoridades investigam causa.

Seis pessoas morreram após dois aviões da Segunda Guerra Mundial colidirem no ar durante uma apresentação no Texas, Estados Unidos, e despencaram no solo diante de uma multidão de espectadores, informaram autoridades neste domingo (13/11).

"Segundo nosso médico legista do condado de Dallas, houve um total de seis mortes no incidente do show aéreo Wings Over Dallas de ontem", escreveu o juiz local Clay Jenkins no Twitter.

Não houve feridos entre os mais de 4 mil espectadores, e os nomes das vítimas não foram divulgados. "As autoridades continuarão trabalhando hoje na investigações e na identificação dos mortos", acrescentou Jenkins. "Por favor, orem por suas famílias e todos os envolvidos."

O acidente de sábado envolveu um avião bombardeiro da Boeing, o B-17 Flying Fortress, e um caça menor da Bell Aircraft, o Bell P-63 Kingcobra, informou a Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês) dos EUA. Eles voavam como parte de um show aéreo comemorativo da Segunda Guerra, o Wings Over Dallas, realizado no Aeroporto Executivo de Dallas.

O presidente da Commemorative Air Force (CAF), organização dedicada à preservação de aeronaves de combate da Segunda Guerra, Hank Coates, disse que o B-17, de quatro motores, normalmente tem uma tripulação de quatro a cinco pessoas. Já o P-63 é um caça tripulado por um único piloto, mas Coates não disse quantas pessoas estavam a bordo dele no momento do acidente.

Um porta-voz da CAF, que organiza o show aéreo em Dallas, disse ao jornal Fort Worth Star-Telegram que o motivo do acidente ainda não está claro. Autoridades do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB) americano iniciaram uma investigação neste domingo.

Vídeos compartilhados em redes sociais mostraram as duas aeronaves colidindo entre si e depois despencando no chão, sendo engolidas por uma bola de fogo e uma nuvem de fumaça negra. O acidente espalhou destroços dos aviões pelo aeroporto, bem como em um shopping center e uma rodovia próxima, que ficou fechada por horas.

O prefeito de Dallas, Eric Johnson, chamou o incidente de "uma tragédia terrível", acrescentando que os vídeos "são de partir o coração".

Desastres em show aéreos

No passado, desastres fatais em shows aéreos nos Estados Unidos aconteceram tanto por falhas mecânicas como por erros cometidos pelo piloto.

Em 2011, onze pessoas morreram e 74 ficaram feridas em um show aéreo em Reno, Nevada, depois que um P-51 Mustang atingiu espectadores após uma falha mecânica.

Em 2019, um bombardeiro B-17 caiu em Hartford, Connecticut, matando sete pessoas. O NTSB concluiu que o acidente foi causado por um erro do piloto e por manutenção inadequada.

Deutsche Welle

Coalizão para quê? - Editorial


Arthur Lira e Lula


Lula tem de definir aonde quer chegar antes de arregimentar base no Congresso

Há um desafio aritmético para a formação da aliança de partidos que sustentará o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A coalizão de siglas que o elegeu não soma deputados federais suficientes nem sequer para barrar um hipotético pedido de impeachment.

Seria necessário agregar todas as três agremiações grandes que não apoiaram o presidente Jair Bolsonaro (PL) —União Brasil, PSD e MDB— para assegurar pouco mais da maioria dos 513 deputados e ter margem de segurança para aprovar projetos de lei comuns. No Senado, a matemática é semelhante.

Reformas constitucionais, que exigem 60% dos votos nas duas Casas, demandariam esforços ainda mais amplos de cooptação.

Explicam-se por aí as cautelas adotadas pelo futuro mandatário nas suas primeiras conversas com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Ambos almejam a reeleição em fevereiro, quando se inaugura a nova legislatura.

Lula prometeu que não interferirá nas disputas para as chefias do Legislativo, o que é significativo sobretudo no caso de Lira, apoiador e protetor destacado de Bolsonaro e pivô da distribuição seletiva das bilionárias emendas de relator.

A movimentação vai além da promessa de neutralidade de Lula. O presidente da Câmara tenta arregimentar no centrão apoios suficientes para ficar imune a qualquer ameaça do novo governismo. A chamada PEC da Transição, que parece um trem da alegria da gastança rumo a 2023, é utilizada como moeda de troca nos conchavos.

Vê-se que apenas as habilidades retóricas do futuro presidente da República não garantirão uma maioria estável de parlamentares. Será preciso compartilhar de verdade o governo, coisa que o PT sempre teve dificuldade prática de fazer.

A julgar pelo alto índice de povoamento petista nos cargos da transição, o início não foi promissor. O ponto mais crítico, contudo, continua sendo tentar decifrar o que o terceiro governo Lula pretende fazer com a maioria parlamentar.

Não há plano de gestão minimamente exposto. Empilhar irresponsavelmente despesas no Orçamento não se parece com um. Em que reformas do regime dos gastos e das receitas o presidente vai depositar seu cacife de recém-eleito no primeiro ano da administração?

O que surgirá de iniciativa legislativa para acelerar a recuperação dos estudantes, em especial os mais pobres, castigados pelo mais longo período fora das salas de aula de que se tem notícia? E para deter a marcha da devastação florestal?

Se não se compuser logo a força organizadora da política, que só pode vir do chefe do Executivo no sistema brasileiro, o centrão cavalgará à vontade por mais quatro anos.

Folha de São Paulo

O que podemos aprender com o politeísmo do Império Romano




Em Roma, viviam, lado a lado, a crença e a descrença em diversos deuses. 

Por Luiz Felipe Pondé (foto)

Afora as evidentes diferenças históricas e técnicas, Roma foi, pelo menos no Ocidente, a maior civilização e império que já existiu. O Império Britânico se aproximou, mas não foi nem de longe um império com tamanha duração e solidez. Os Estados Unidos são um nada. A experiência da longa duração do tempo é algo extinto em nosso mundo.

A pergunta que Edward Gibbon (1737-1774) faz a si mesmo no seu monumental "Declínio e Queda do Império Romano", que conta com um compilado no Brasil pela Companhia das Letras, é: o incrível não é que o Império Romano —Roma e Constantinopla— tenha declinado e caído, o incrível é que tenha durado tanto tempo.

São muitas as hipóteses para responder a essa pergunta segundo Gibbon. Uma delas é assaz interessante e versa sobre a têmpera romana com relação à religião.

Já se sabe com razoável evidência que Roma —a original— estava longe de ser uma sociedade religiosamente intolerante, como o cinema e avaliações apressadas acabaram por produzir no senso comum.

Gibbon apresenta o politeísmo romano como sendo um panteão de deuses que estava sempre aberto para novas adesões. A produção seria mesmo infinita, como mitologias gregas e romanas revelam ao historiador dessa antiguidade.

O homem e a mulher comuns aceitavam todos os deuses de forma natural, isto é, na dependência da necessidade, do caso específico, ou do pedido ou sofrimento em questão. Rituais, ritos, liturgias de diferentes deuses ou crenças eram aceitos por todos, sem discriminação, inclusive produzindo sínteses mítico-teológicas múltiplas.

Se as pessoas comuns rezavam para todos os deuses —e quanto mais deuses, melhor—, os filósofos não acreditavam em nenhum deles.

A filosofia antiga era um estilo de vida, como bem nos mostrou Pierre Hadot (1922-2010), o filósofo e historiador da filosofia antiga. Sendo um estilo de vida, a filosofia competia com a religião para aqueles que entendiam que a vida deveria ser conduzida pelo pensamento livre e não por práticas e crenças no sobrenatural de alguma forma.

Estoicos, epicuristas, céticos, todos ateus no sentido dado por Gibbon —os filósofos não acreditavam em nenhum dos deuses— ofereciam estilos de vida que, basicamente, desconfiavam da submissão à crença nos deuses. Viviam, lado a lado, crenças em diversos deuses, com a descrença em todos eles.

Por outro lado, os magistrados, nos diz Gibbon, consideravam todas as crenças úteis porque garantiam alguma forma de constrangimento do comportamento, facilitando o trabalho de controle e imposição da lei.

Nesse sentido, a fé e a adesão a um conjunto de crenças e deuses diferentes, digamos, eram avaliadas como uma ferramenta civilizadora, na medida em que sustentava o convívio social, em vez de impor reveses em nome de apenas um deus verdadeiro.

Teria Roma durado tanto tempo, fosse ela monoteísta? Teria Roma sido capaz de assimilar povos tão distintos, fosse ela certa de carregar em seu seio uma verdade definitiva sobre o mundo divino? A fragmentação do politeísmo conviveu melhor com a expansão e poder romanos —não é à toa que, grosso modo, os mil anos da Constantinopla cristã foram um lento e gradual declínio do império.

Interessante notar que o biógrafo de Winston Churchill (1874-1965), Andrew Roberts, na sua obra "Churchill: Caminhando com o Destino", falará da ausência, para o primeiro-ministro inglês, de qualquer referência ao cristianismo como fundamento da expansão britânica em seu império.

Pelo contrário, nos diz o autor, foi exatamente a influência sobre Churchill do pensamento de Gibbon acerca de Roma, e seu modo de ver as religiões romanas, que o teria levado a descrer na divindade de Jesus Cristo e mesmo nunca ter citado a palavra "Jesus" em seus milhares de discursos, e apenas uma vez "Cristo", dissociado da ideia de salvador do mundo. Vale dizer que, diante de Churchill, todos os líderes posteriores são menores.

A chamada tolerância religiosa parece estar mais associada à descrença num deus único do que a apaixonada fé nele.

Folha de São Paulo

Lula, o cercadinho e o mundo prosaico




O presidente eleito andou falando como se pudesse ignorar o mercado, os limites das contas públicas e a maior vulnerabilidade dos pobres aos males da inflação.

Por Rolf Kuntz* 

Lula prometeu governar para todos, mas poderá governar para ninguém, ou só para os especuladores, se confundir governo com gastança e irresponsabilidade fiscal. Não é preciso desarrumar as contas públicas, nem provocar inflação, para aumentar a atividade, expandir o emprego e reduzir a pobreza. Mas a confusão foi indisfarçável em suas primeiras declarações sobre economia. O presidente eleito falou como se estivesse diante de um cercadinho, discursando para um público simplório, uniformizado e disposto a aplaudir uma fala simplista e cheia de boas intenções. As ações despencaram, o dólar subiu e o presidente eleito fez cara de espanto. Quem poderia imaginar um mercado tão sensível? Mas espantoso, mesmo, foi o escorregão de um político habilidoso e experiente, ao se manifestar como se estivesse diante de uma torcida com camisas vermelhas decoradas com o número 13.

Eleito sem plano e sem projetos, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva triunfou graças a cidadãos empenhados em derrubar o bolsonarismo. Não teria vencido, se dependesse apenas de seu partido. Sem vínculo com o petismo, acadêmicos, empresários, políticos e economistas o apoiaram, em nome de um compromisso democrático. Além disso, o presidente Jair Bolsonaro fez o suficiente, em quatro anos desastrosos, para estimular muita gente a votar no número 13.

Lula deve ter percebido tanto o risco de se apoiar apenas no PT quanto as expectativas de seus aliados. A diversidade da equipe de transição – atribuível, em boa parte, à ação do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin – corresponde, aparentemente, à diversidade da aliança eleitoral. Mas Lula, apesar de sua experiência no Brasil e no exterior e de sua reputação internacional, parece destinado a retornar, de vez em quando, aos palanques sindicais do ABC.

Nesses momentos, ele fala e parece raciocinar como se estivesse numa daquelas assembleias ou comícios. Mas o mundo de um governante, ou de qualquer executivo de peso, é muito mais complexo, mais conflituoso e mais contaminado pela presença do tal mercado, cheio de gente ansiosa, movida pela ambição e pelo cálculo e preocupada com previsibilidade e segurança.

Nenhum presidente respeitável governa para o mercado ou com o mercado, mas todo administrador público deve reconhecer sua relevância e entender seus sinais. Não há governo eficaz quando a incerteza afeta as decisões empresariais, alimenta a especulação, provoca fuga de capitais, gera instabilidade cambial, desarranja os preços e força a alta de juros.

Todos esses problemas foram constantes durante o mandato do presidente Jair Bolsonaro, um período marcado por muito voluntarismo e muita improvisação, antes, durante e depois da pior fase da covid-19. As dificuldades orçamentárias previstas para 2023, início do novo governo, resultam em boa parte do estilo de ação do atual presidente. As boas normas fiscais foram atropeladas muitas vezes, a partir de 2019, e a economia andou mal durante a maior parte do tempo. Desajuste fiscal e inflação elevada aparecem também no balanço de governo da presidente Dilma Rousseff, coroado com dois anos de severa recessão.

Estranhamente, o presidente eleito parece haver extraído pouco ou nenhum ensinamento dessas experiências. Ainda mais estranho é o aparente esquecimento de seus oito anos na Presidência, uma fase de razoável prosperidade, inflação contida e contas públicas administradas com cautela durante a maior parte do tempo. Essa cautela diminuiu no segundo mandato e foi abandonada de forma desastrosa por sua sucessora – um detalhe menosprezado ou omitido pelo líder petista.

Nenhuma política de crescimento, de emprego, de transferência de renda e de transformação social é imune aos danos produzidos por desajustes fiscais e pela inflação. Além disso, os pobres são os mais afetados pela alta de preços, como lembrou, nesta semana, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Por isso, observou o economista, a responsabilidade fiscal, importante para o crescimento com estabilidade de preços, é especialmente benéfica para os mais necessitados.

Que as famílias de menor rendimento sejam as mais prejudicadas pela inflação é fato conhecido em todo o mundo. No Brasil, as perdas inflacionárias por classe de renda são apontadas em tabelas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Mesmo sem detalhes técnicos, no entanto, é fácil perceber a vulnerabilidade maior dos pobres, com orçamentos inflexíveis e concentrados em poucos itens essenciais, como alimentação, habitação e transporte público. Sobra pouco para a educação das crianças, e assim se transfere a pobreza às gerações seguintes.

O novo governo acertará, econômica e socialmente, se der prioridade a políticas de crescimento e de resgate dos mais necessitados. Mas acertará, também, se reavaliar e reduzir os benefícios fiscais, cortar e remanejar os gastos e negociar com o Congresso – mobilizando apoio popular – novos padrões de austeridade. Governar é fazer escolhas e a escolha dos gastos é uma das mais importantes.

*Jornalista

O Estado de São Paulo

Sobre a terra arrasada



Lula encontrará um bom clima na COP27 - mas terá de trabalhar muito para achar um caminho entre preservação e desenvolvimento. 

Por Camilo Rocha e Duda Teixeira 

Lula pousará na próxima semana em Sharm el-Sheik, no Egito, para participar da 27ª Conferência das Partes da ONU para as Mudanças Climáticas, a COP27. Sua presença, na prática, será como uma posse antecipada, pois o petista ocupará o lugar vago deixado pelo presidente Jair Bolsonaro, reunindo-se com vários líderes mundiais. Como o plano de Lula é ficar dois dias na cidade, serão poucos os resultados concretos de suas reuniões, mas sua decisão de realizar a primeira viagem internacional como presidente eleito para um evento sobre meio ambiente e clima já emite um sinal claro de que essas questões terão um papel central no próximo governo.

No Egito, o futuro presidente buscará convencer a plateia de que o seu governo estará comprometido com a preservação do meio ambiente e com a redução das emissões dos gases de efeito estufa. De volta ao Brasil, Lula terá de se articular com diversos grupos de interesse, como os do agronegócio, da mineração em larga escala, da indústria energética, dos governadores, dos prefeitos, dos indígenas e dos ambientalistas — os quais foram tratados de maneiras desiguais em seus dois primeiros mandatos, de 2003 a 2010.

Quando Lula iniciou seu primeiro mandato, ele vendia no exterior a imagem de que o Brasil promovia um desenvolvimento sustentável, com fontes de energia limpas e um agronegócio responsável. Internamente, ele e outros petistas entravam em batalhas constantes com os ambientalistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama. A demora em aprovar o licenciamento de grandes obras era vista como um entrave ao crescimento. O presidente queria avançar com a construção de usinas hidrelétricas de seu Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, e chegou a se revoltar com os relatórios do Ibama que temiam problemas para a reprodução dos peixes. “Agora não pode (construir) por causa do bagre. Jogaram o bagre no colo do presidente. O que eu tenho com isso?”, disse Lula. O então presidente também via o agronegócio e a mineração industrial como importantes para gerar renda e empregos. “O Lula compartilhava da visão desenvolvimentista do PT, de que a mineração era boa para trazer divisas ao país”, diz Maurício Angelo, fundador do Observatório da Mineração.

Apesar da grita dos que pediam atenção aos peixes e às populações indígenas, Lula viabilizou as usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antonio, no rio Madeira, e de Belo Monte, no rio Xingu. Outras usinas que estavam previstas no PAC, com a de Marabá, no rio Tocantins, e São Luís, no Tapajós, não saíram do papel. As pressões para que os licenciamentos ocorressem de maneira rápida partiram principalmente de Dilma Rousseff, que foi ministra de Minas e Energia e depois chefe da Casa Civil. Os embates internos foram muitos até que, desgastada com os atritos frequentes, Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, preferiu deixar o governo em 2008.

Outra característica que marcou os dois primeiros mandatos de Lula foi o desmatamento. Em seus primeiros anos, Lula foi surpreendido pelo avanço de pecuaristas e plantadores de soja sobre a floresta. A devastação ganhou as manchetes dos jornais e levou políticos, organizações civis e órgãos de imprensa a cobrar uma ação do governo. De início, Lula reagia de maneira parecida com Bolsonaro, colocando em dúvida os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Chegou até a pedir à Polícia Federal e aos ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura para fazerem uma avaliação para “tirar dúvida” sobre os dados divulgados. Em seguida, o governo começou a se mexer aumentando a fiscalização e equipando órgãos como o Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Funcionou. No último ano de seu segundo mandato, o desmatamento já tinha caído 75% em relação ao pico de 2004.

O Lula que fez campanha este ano é diferente tanto na questão do desmatamento como na do desenvolvimento. Ao ver o cenário de terra arrasada deixado por Bolsonaro, o petista entendeu que colheria mais votos colocando-se do lado oposto. O presidente eleito promete “lutar pelo desmatamento zero da Amazônia”. A diferença do momento atual para o de 2003 é que, desta vez, as árvores não estão sendo derrubadas por plantadores de soja ou pecuaristas. Para ampliar a produção de alimentos do país, não é necessário avançar sobre a floresta. O desmatamento está sendo realizado por pessoas e empresas ligadas ao crime organizado, o qual tem se expandido na Amazônia nos últimos anos. É por isso que Lula prometeu, em seu discurso da vitória, combater atividades ilegais como garimpo, mineração, extração de madeira e grilagem. “O desafio é fazer com que uma política de desenvolvimento sem destruição se sobreponha à ilegalidade que domina a Amazônia hoje”, diz Adriana Ramos, assessora política e jurídica do Instituto Socioambiental, ISA. “É preciso retirar os invasores ilegais das áreas protegidas e terras indígenas.”

Uma atuação decisiva nessa área, aliás, é apoiada por grande parte do agronegócio. Além de conter as atividades ilegais, seus líderes esperam que a volta de Lula possa amainar as barreiras que outros países pretendem levantar contra produtos brasileiros. Uma proposta aprovada em setembro pelo Parlamento Europeu proíbe a entrada em seu mercado de commodities de áreas desmatadas. O texto ainda precisa ser sancionado pelos 27 países da União Europeia. “A agricultura já está sendo afetada pela imagem ruim do meio ambiente que o Brasil no exterior. A União Europeia colocou essa questão muito forte na mesa, e não está disposta a flexibilizar muito”, diz o diretor-executivo da ONG Amigos da Terra, Mauro Armelin. Nesta COP27, no Egito, fala-se em um acordo para impedir a compra de soja de áreas desmatadas do Cerrado brasileiro a partir de janeiro de 2025. Para empresas exportadoras, Lula é a esperança de reverter essas represálias.

O petista terá de se esforçar muito mais para conquistar a simpatia de outras áreas do agronegócio. A proximidade entre Lula e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, fez com que fazendeiros votassem em massa em Jair Bolsonaro. O campo também e não engoliu estúpida declaração que os produtores rurais são “fascistas“. Nas últimas semanas, Lula tem tentado desfazer o mal estar e estabelecer pontes com o agro. Uma maneira de ele se redimir seria encarnar o garoto-propaganda do agronegócio na COP27. Um discurso desastrado, contudo, pode redobrar a oposição a ele em sua volta ao Brasil. O agro tem hoje força considerável no Congresso.

A Frente Parlamentar Agropecuária, que hoje conta com 241 deputados e 39 senadores, quer liberar a produção agrícola em terras indígenas. Outros grupos querem permitir a mineração nessas áreas. Projetos que aguardam aprovação no Congresso, como o PL 191 e o PL 490, do marco temporal, avançam nesse sentido. O Lula de 2022 tem ido no sentido oposto, pregando em favor dos direitos dos indígenas. Ele até mesmo prometeu criar o Ministério dos Povos Originários, que terá de dividir as atribuições com a Fundação Nacional do Índio, a Funai. O anúncio levou algumas organizações, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Apib, a cobrar participação nas discussões para definir a estrutura da futura pasta. Serão outras negociações complicadas pela frente.

Quanto ao desenvolvimentismo de Lula, a urgência em construir usinas hidrelétricas na Amazônia diminuiu após o envolvimento das empreiteiras em corrupção, a decepção com a baixa produtividade das usinas construídas e o barateamento de outras fontes de energia, como a eólica e a solar. A pressão de dentro do PT para que o Estado seja o indutor do crescimento econômico com grandes obras continua, mas será temperada com o retorno da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, que já está em Sharm el-Sheik, ao círculo de Lula. “Marina tem dito que ele mudou, que está menos desenvolvimentista e incorporou a questão climática e ambiental ao seu repertório”, diz Eduardo Viola, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP.

No Egito, Lula deve anunciar o novo cargo de Autoridade Nacional sobre Mudanças Climáticas, que lhe foi sugerido por Marina. É possível que a deputada eleita por São Paulo seja escolhida para ocupá-lo ou, então, que ela retorne ao posto de ministra do Meio Ambiente.

Se o presidente eleito convencer o mundo de suas boas intenções, empresas nacionais poderão mais adiante se beneficiar de uma possível regulamentação do mercado de carbono. Atualmente, uma companhia aérea, cujos aviões liberam muito desse gás na atmosfera, pode comprar créditos de carbono de outra empresa, que retira essas partículas do ar, por exemplo, plantando árvores. O crédito funciona, assim, como uma moeda, que permite essa compensação. Ao final, a empresa que neutralizou suas emissões pode declarar-se como “carbono neutra“. Em países em que há leis que regulam as emissões, como os da União Europeia, companhias que ultrapassam os limites estabelecidos são obrigadas a adquirir créditos, o que faz com que eles aumentem de valor, como qualquer moeda. No Brasil, onde não há um mercado regulado, as empresas decidem se querem ou não comprar créditos, o que faz com que o preço seja baixo. No final, é como se o carbono retirado da atmosfera pelos alemães fosse mais valioso do que o brasileiro — o que, obviamente, não faz sentido.

A coisa toda ficará mais interessante quando existir um enorme mercado global de carbono, como delineado pelo Acordo de Paris, de 2015. As negociações para tornar isso possível estão ocorrendo nas COPs. Uma parte do acordo, o artigo 6.4, permitirá que uma empresa compre créditos de outra, em outra nação. O artigo 6.2 fala que um país que não consegue conter suas emissões poderia comprar créditos de outra nação. O potencial para o Brasil, como vendedor de créditos, é enorme, desde que consiga manter a floresta de pé.

Lula é um camaleão que pode mudar de cor para agradar a novos públicos ou reconquistar velhos amigos. Equilibrar-se em meio a tantos grupos com interesses diversos para não cair da árvore não será uma tarefa fácil.

Revista Crusoé

Reinfecções com covid-19 agravam riscos para a saúde




Devido às variantes sucessivas do coronavírus, é possível pegar covid-19 diversas vezes. Estudo baseado em dados de mais de 5 milhões de americanos indica que a reinfecção aumenta risco de hospitalização e morte.

Por Fred Schwaller

No começo da pandemia de covid-19, as vacinas costumavam ser vistas como as salvadoras que derrotariam a doença e permitiriam que a vida voltasse ao normal. Infelizmente a realidade foi outra.

"A estratégia da vacina foi extremamente eficaz em reduzir o risco de progressão para as formas graves, porém as vacinas atuais não impedem a transmissão do coronavírus", observa Ziyad Al-Aly, epidemiologista da Universidade Washington de St. Louis.

Embora seja consenso científico que vacinados podem voltar a se contaminar com o coronavírus, não havia uma comparação entre as infecções sucessivas. Agora, um estudo publicado nesta quinta-feira (10/11) na revista Nature Medicine, do qual Al-Aly é o principal autor, mostra que as reinfecções trazem maior risco para a saúde.

Assim, contagiar-se por uma segunda vez com covid-19 está associado a um risco maior de complicações agudas nos primeiros 30 dias após a infecção. Maior é também o perigo de problemas pós-agudos durante a fase de covid longa.

"Não estamos defendendo medidas draconianas, mas, entrando na estação de inverno, tomadores de decisões e indivíduos podem empregar os meios a seu alcance para tentar reduzir o risco no nível populacional", comenta o epidemiologista.

Também atuante como clínico, ele começou a ver pacientes que se infectaram com o vírus Sars-Cov-2 diversas vezes, apesar de vacinados. "Muitos pensaram que iam ter uma espécie de super imunidade contra o vírus, e um segundo contágio não importaria." Na incerteza, contudo, os cientistas preferiram conferir na atual pesquisa.

Aspectos não esclarecidos no estudo

Os autores usaram como base o banco de dados de saúde do Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos. Com um total de 5,3 milhões de entradas, o arquivo inclui 40.947 cidadãos que já haviam tido dois ou mais surtos de covid-19.

A conclusão foi que uma reinfecção duplica o perigo de morte e triplica o de hospitalização. Além disso, a incidência de efeitos adversos aumenta com cada nova contaminação. Al-Aly ressalta: "É difícil determinar o que um aumento de risco de duas ou três vezes significa para um indivíduo. Mas a mensagem subjacente é que é necessário estar ciente de que a reinfecção traz riscos, não é algo trivial."

Certos especialistas criticam os autores por deixarem de incluir fatores importantes: "Esse estudo não menciona o impacto das vacinas sobre os riscos de reinfecção", aponta Beate Kampmann, professora de infecções e imunidade pediátricas da London School of Hygiene and Tropical Medicine. Ela considera a compreensão desse efeito um elemento crucial para monitorar os resultados na saúde.

"Dados de reinfecção podem também nos mostrar melhores formas de proteger a população contra o coronavírus. Por exemplo; se entendermos a resposta imunológica à reinfecção, poderemos deduzir o que uma vacina precisa alcançar. No entanto, isso pode mudar se virmos novas variantes ou uma queda dramática da imunidade. Necessitamos mais estudos longitudinais para examinar isso."

"Não queremos ter que usar máscara daqui a 100 anos"

Kampmann também observa que a pesquisa se ocupa principalmente de americanos brancos mais velhos (90%), portanto pode ser difícil extrapolar os dados para outros grupos demográficos. Os autores também reconheceram essa limitação, porém afirmam ter ajustado as taxas de risco de acordo com idade, sexo e raça.

"Pode haver gente com mais risco do que outros, mas o risco médio que medimos é independente das características subjacentes da população. Devido ao tamanho do estudo, é provável que a representação de diferentes grupos se aplique à população", defendeu Al-Aly.

Há bastante tempo, especialistas vêm reivindicando uma nova estratégia de vacinação, a fim de prover proteção melhor e mais prolongada contra a covid-19. O epidemiologista da Universidade Washington é um dos que pedem uma estratégia 2.0, mencionando que o maior desafio é criar imunizantes que tanto impeçam a propagação do vírus quanto forneçam proteção por vários anos.

"É o que precisamos, para realmente nos adaptarmos ao vírus. Caso contrário, vamos estar usando máscaras nos próximos 100 anos." A boa notícia é que a ciência e a tecnologia já estão aptas a cumprir essa exigência.

Vacinas nasais, que produzem imunidade das mucosas, bloqueando a transmissão por vários anos, estão sendo desenvolvidas no momento, com resultados promissores. "Agora precisamos que os governos financiem e desenvolvam a tecnologia, para levá-la até a população", enfatiza Ziyad Al-Aly.

Deutsche Welle

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