sábado, novembro 12, 2022

Biden promete na COP27 cumprir objetivos climáticos e pede ao mundo que faça mais




O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, se dirige aos delegados de quase 200 países reunidos na COP27 em Sharm el Sheikh, Egito, em 11 de novembro de 2022 

O presidente americano, Joe Biden, garantiu nesta sexta-feira (11), na COP27, que os Estados Unidos vão cumprir sua meta de redução das emissões de gases do efeito estufa e pediu aos demais países objetivos mais ambiciosos no combate às mudanças climáticas, que ameaçam "a vida do planeta".

"Estamos nos esforçando em fazer a nossa parte para evitar um inferno climático", disse Biden, diante dos representantes de quase 200 países reunidos no balneário egípcio de Sharm el Sheikh.

Os Estados Unidos são o segundo maior emissor mundial de gases do efeito estufa, atrás apenas da China, e também são o maior produtor mundial de petróleo e gás, cuja combustão gera CO2 e metano, os principais gases causadores do aquecimento global.

Washington se comprometeu a reduzir até 2030 entre 50% e 52% de suas emissões em relação aos níveis de 2005. A meta "será cumprida", garantiu Biden, que aproveitou para fazer uma advertência ao resto do mundo. "Todos os países devem fazer mais", disse o presidente americano.

Biden permaneceu por apenas três horas em Sharm el Sheikh, de onde partiu rumo ao Camboja para comparecer a uma cúpula do sudeste asiático.

Assim que chegou ao Egito, Biden se reuniu com o presidente Abdel Fattah al Sissi. Segundo a Casa Branca, ele abordou a questão dos direitos humanos com o mandatário egípcio, no momento em que o dissidente Alaa Abdel Fattah realiza uma greve de fome prolongada na prisão.

O presidente americano chega fortalecido a estes eventos internacionais pelo desempenho de seu partido nas eleições de terça-feira nos Estados Unidos, as chamadas "midterms".

Mesmo sem resultados definitivos, o Congresso caminha para uma maioria republicana ajustada, que será insuficiente para desmantelar a histórica lei de transição energética aprovada em agosto e que prevê medidas climáticas avaliadas em 370 bilhões de dólares.

Em seu discurso na COP27, Biden também afirmou que a invasão russa da Ucrânia, que interrompeu a chegada de hidrocarbonetos russos aos países ocidentais, destaca a "urgência" para que o mundo deixe para trás sua dependência de combustíveis fósseis. As mudanças climáticas põem "a vida do planeta" em risco, advertiu o líder americano.

- Perdas e danos -

Biden, contudo, não fez qualquer menção a um dos temas quentes desta COP27: a exigência dos países em desenvolvimento de que as nações mais industrializadas, historicamente responsáveis pelo grosso das emissões, alimentem um fundo para compensá-los pelas perdas e danos da emergência climática.

O debate sobre a criação desse fundo está na agenda da COP27, mas, oficialmente, há um prazo de dois anos para se chegar a um acordo.

Mohamed Adow, fundador do think tank Power Shift Africa, classificou os Estados Unidos de "poluidor histórico" e afirmou que Washington tem sido um obstáculo para a criação desse fundo até agora.

- Atualizar promessas -

A comunidade internacional como um todo não tem honrado sua promessa de reduzir as emissões de CO2, uma condição essencial, segundo os climatologistas, para evitar que o mundo não ultrapasse +1,5°C de temperatura média em relação à era pré-industrial.

E apenas algumas dezenas de países atualizaram suas metas de redução das emissões antes da reunião de Sharm el Sheikh.

Em uma nova advertência sobre a urgência da situação, um relatório difundido pela Global Carbon Project indica que as emissões de CO2 derivadas da queima de combustíveis fósseis aumentarão 1% em relação a 2021 e baterão recorde este ano.

- Questões delicadas -

Em Sharm el Sheikh, outra discussão delicada também foi aberta: como atualizar a quantia de 100 bilhões de dólares por ano que os países ricos prometeram destinar às nações pobres para mitigar suas emissões de gases e ajudar em sua adaptação à nova realidade.

Essa quantia foi prometida em 2009 para ser paga em 2020, mas, atualmente, faltam cerca de 17 bilhões de dólares para atingir esse montante.

Fontes diplomáticas assinalam que os Estados Unidos não estão contribuindo à altura de sua capacidade econômica.

Nesse sentido, Biden anunciou que seu país contribuirá com 11,4 bilhões por ano, frente aos 7,6 bilhões aportados em 2020, segundo a plataforma especializada Carbon Brief.

AFP / SWI

Comando lulista briga com a realidade financeira degradada e também com aliados recentes




Por Vinicius torres Freire

Geraldo Alckmin tentou baixar a fervura desta quinta-feira (10) desgraçada para as finanças do país, o vulgo "mercado nervoso". Outros do governo de transição e Luiz Inácio Lula da Silva decidiram espalhar mais brasa.

Decidiram brigar com a realidade, com os fatos da vida financeira e com aliados recentes da frentinha ampla, o que pode ter implicação até para a formação de coalizão no Congresso e na sociedade. Há meios e tempo para consertar o estrago. Pode ficar apenas uma cicatriz. Ou pode ser um começo de gangrena.

O que é "brigar com a realidade"? Esses desabamentos nos mercados financeiros significam que os donos do dinheiro passam a cobrar mais caro para manter seus recursos em reais, em títulos da dívida pública (empréstimos para o governo) e, por tabela, em ações de empresas e outros ativos domésticos. Cobram mais caro por causa do aumento do risco de inflação, desordem financeira geral e crescimento baixo, para resumir.

O real se desvaloriza (com risco de inflação extra). As taxas de juros sobem. O governo tem de pagar mais para financiar seu déficit; o setor privado vai pagar ainda mais caro a fim de levantar capital para investir, o crédito encarece. É uma descrição elementar do problema, que vai bem além.

Essa degradação financeira prejudica o crescimento econômico, sem o qual não haverá mais trabalho. O rendimento do trabalho equivalente a 60% dos rendimentos totais dos 20% mais pobres (e muito mais para outros níveis de renda).

Logo, não se vai diminuir a pobreza sem mais trabalho, principalmente. "Mercado nervoso" é uma piadinha tola sobre um problema muito real.

O comando lulista quis dourar a pílula do que Lula disse: ataques ao controle de déficit e dívida do governo, que seria um empecilho ao pagamento da "dívida social". "Não é bem assim", pois Lula já demonstrou ser capaz de fazer as duas coisas em seus governos.

Suponha-se que seja isso. Então, o que Lula tem dito seria corretamente compreendido caso já houvesse um ministro da Fazenda ou um conselho econômico crível e funcional.

Lula fez os discursos avacalhando "a tal estabilidade fiscal" em um momento em que discute uma gambiarra a fim de atenuar a pobreza e evitar um estelionato eleitoral de consequências políticas sérias. A gambiarra está quase aceita. O problema é que não há programa algum a dizer como a futura instalação elétrica vai ser feita de modo confiável. Isto é, a criação de algum método para conter o crescimento sem fim da dívida: um "teto Lula".

Diz-se que o problema imediato é o fato de que a despesa com o Bolsa Família seja colocada fora do teto de gastos, pior ainda se permanentemente fora do teto. Mas o teto de Michel Temer foi avacalhado pelo governo de trevas (2019-22), precisa de reforma e há como fazê-la, como dizem até lulistas. O problema maior, pois, é saber como vão ser as novas "regras fiscais", que podem ser várias, algumas mais, outras menos, convenientes para a situação brasileira e para os problemas crônicos do país.

Se tudo der certo, vai demorar meses para se definir a nova "regra fiscal". A fim de que a espera não seja tumultuada, é preciso ter um programa econômico, que ficaria evidenciado na escolha de uma equipe econômica confiável, capaz e com respaldo político, de Lula e da coalizão.

O plano precisa de mais: mudanças nos impostos, na administração pública e facilitação do investimento privado, para ficar no estrito mínimo. Estabilizado o paciente, é possível inventar formas novas e inteligentes de intervenção estatal. Mas, sem um plano de contenção de déficit e dívida, não vai dar certo. Para ser ameno.

Folha de São Paulo

A operação da Rússia para recuperar suspeito de espionagem que jurava ser brasileiro




Homem se apresentava como Victor Muller Ferreira e havia se candidatado a posto de estágio não remunerado no Tribunal Penal Internacional

Por Leandro Prazeres & Gordon Corera, em Brasília - Especialista em Segurança

No final da tarde do dia 2 de abril em Guarulhos (SP), um grupo de policiais federais aguardava ansiosamente a chegada do passageiro sentado na poltrona 62K do voo KLM 0791, vindo diretamente da Holanda.

Horas antes, autoridades holandesas já haviam feito o alerta: um homem suspeito de ser espião russo usando identidade brasileira havia acabado de tentar, sem sucesso, entrar no país europeu, foi barrado em Amsterdã e estava sendo devolvido ao Brasil.

No desembarque, os agentes da PF se depararam com o homem que tentava convencê-los, apesar do forte sotaque estrangeiro, de que era brasileiro e de que não sabia o motivo de sua prisão.

O homem preso pela PF dizia se chamar Victor Müller Ferreira. Autoridades holandesas, brasileiras e russas, no entanto, dizem que seu verdadeiro nome é Sergey Vladimirovich Cherkasov. Ele nega ser o espião apontado pelos holandeses. O governo russo se manteve em silêncio.

Cherkasov já mobilizou investigadores do Brasil, Holanda e Estados Unidos. As informações divulgadas até o momento apontam que Cherkasov é suspeito de pertencer a um tipo especial de espião conhecido como "ilegal". São homens e mulheres normalmente recrutados ainda jovens pelos órgãos de inteligência russos que recebem identidades falsas e são enviados a diferentes países para espionar e coletar informações de interesse do governo de Moscou. Eles são vistos como espiões de elite. Um tipo de versão russa de James Bond.

Em junho, porém, ele foi condenado, em primeira instância, a 15 anos de prisão pela Justiça Federal por uso de documentos brasileiros falsos. Está preso em uma cela da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo.

Mas o que parecia ser o fim da linha para um suposto espião pego em meio a uma missão pode acabar se transformando em uma pequena pausa. Documentos obtidos com exclusividade pela BBC News Brasil de processos que tramitam no Brasil contra Cherkasov mostram que o governo russo articula uma operação diplomática e jurídica para recuperar a custódia do homem que supostamente seria agente de inteligência a serviço de Moscou.

O mais recente movimento aconteceu em agosto, quando a Embaixada da Rússia no Brasil pediu a extradição de Cherkasov ao Supremo Tribunal Federal (STF). A existência do pedido foi confirmada pelo Supremo à BBC News Brasil.

Pela legislação brasileira, o pedido de extradição precisa ser julgado pelo STF. Como o caso está sob a relatoria do ministro Edson Fachin, o processo deverá ser apreciado pela Segunda Turma do Supremo, da qual ele faz parte.

Se o STF aprovar a extradição, caberá ao presidente da República autorizar ou não a liberação. Jair Bolsonaro (PL) ficará no cargo até o final deste ano. No dia 1º de janeiro de 2023, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), assumirá a presidência. Se o STF negar o pedido, não caberá decisão do presidente sobre o caso.

Na quarta-feira (9/11), a operação russa para levar Cherkasov de volta ao seu país natal ganhou o apoio oficial dele próprio. Em uma audiência sobre o processo de extradição que tramita no STF, o homem suspeito de ser um espião a serviço de Moscou declarou seu desejo de ser extraditado para a Rússia "o mais rápido possível".

"Eu gostaria de reiterar que eu quero ser extraditado para a Rússia e eu concordo com as acusações que a Rússia fez e pretendo responder aos fatos e meus crimes que são alegados pela Rússia no meu Estado quanto mais rápido possível", disse Cherskasov às autoridades brasileiras.

A declaração está em um vídeo obtido pela BBC News Brasil e que faz parte do processo de extradição.

A declaração chama atenção porque, na Rússia, as penas pelos crimes de tráfico de drogas e associação criminosa aos quais ele está sujeito são mais rigorosas que a pena que ele cumpre no Brasil. Na Rússia, ele pode ser condenado a até 20 anos de cadeia. No Brasil, ele foi sentenciado a 15 anos de prisão. Pela legislação brasileira, no entanto, Cherkasov poderia ir para o regime semi-aberto em dois anos e meio.

A BBC News Brasil questionou os advogados de Cherkasov sobre sua declaração, mas não obteve resposta.

Do lado brasileiro, quem investiga o caso é a Polícia Federal. Ainda não se sabe se ele usava o Brasil apenas como uma fachada para manter sua identidade falsa ou se ele também espionava o país. Apesar disso, a PF surpreendeu pessoas familiarizadas com o caso ao pedir à Justiça Federal para destruir documentos encontrados durante as investigações sobre o russo no Brasil - o pedido foi negado pela Justiça (leia mais abaixo).

A destruição dos documentos, segundo fontes ouvidas pela reportagem, poderia dificultar a elucidação das atividades desenvolvidas pelo suspeito em território brasileiro.

Procurados, a Embaixada da Rússia, a defesa de Cherkasov, a Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e os ministérios da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) não comentaram o caso.

Missão frustrada

A detenção de Cherkasov no Aeroporto Internacional de Amsterdã, antes de ser enviado ao Brasil, chamou a atenção da comunidade internacional. Segundo o serviço de inteligência holandês, Cherkasov usava uma identidade brasileira como cobertura para atuar como agente da GRU, uma das agências de inteligência do governo russo.

Ele foi impedido de entrar na Holanda no momento em que chegava ao país para atuar como estagiário no Tribunal Penal Internacional, organismo que julga crimes de guerra e é baseado na cidade de Haia. Sua ida ao tribunal aconteceu dois meses depois de a Rússia invadir a Ucrânia em uma ação militar condenada por diversos países.

A inteligência holandesa alegou também que, usando a identidade "brasileira" de Victor Müller Ferreira, Cherkasov morou e estudou nos Estados Unidos e na Irlanda.

Nos primeiros interrogatórios, ele manteve a versão de que era brasileiro e de que se chamava Victor. Ainda segundo essa versão, ele seria filho de uma brasileira com um cidadão português nascido em Moçambique. Ambos já teriam falecido.

O relato, no entanto, foi parcialmente refutado pela Polícia Federal depois que os investigadores entraram em contato com os familiares da mulher que Cherkasov dizia ser sua mãe.

Os parentes dela afirmaram que não tinham conhecimento sobre qualquer filho que ela pudesse ter tido.

Ao longo do processo, Cherkasov confessou que usou documentos brasileiros falsos e disse que o fez para fugir da Rússia por ter cometido crimes no país.

As investigações brasileiras apontaram indícios de que Cherkasov chegou "como russo" ao Brasil em 2010 e, pelo menos desde 2012, passou a usar a identidade falsa de Victor Müller Ferreira.

Desde então, ele conseguiu obter documentos como carteira de habilitação, título de eleitor, certificado de reservista e passaporte.

O suspeito de pertencer a um elaborado esquema de espionagem a serviço de Moscou tinha até um cartão do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda de acordo com as autoridades brasileiras, todos os indícios apontam para a tese de que Cherkasov atuava como um agente de inteligência.

"Os elementos obtidos no curso das investigações trouxeram elementos aptos a confirmar que o agente de inteligência russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, em 2010, ingressou no Brasil, oportunidade em que assumiu a identidade criada de Victor Müller Ferreira", diz um trecho da denúncia feita pelo Ministério Público Federal obtida pela BBC News Brasil.

Em outro trecho, o MPF afirma que Cherkasov usa técnicas de "inteligência de Estado".

Entre elas estariam o recrutamento de colaboradores e uso de documentos falsos.

"Victor Müller/Sergey Cherkasov utiliza-se de técnicas de inteligência de Estado, recrutamento de colaboradores [...] comunicação deletada, uso de documentos falsos", diz o documento.

Apesar de ter sido condenado no Brasil apenas pelo uso de documento falso, Cherkasov ainda é alvo de um inquérito que investiga suas supostas atividades como agente de inteligência no Brasil.

O inquérito é conduzido pela Polícia Federal.

Abrigo

Os documentos obtidos pela BBC News Brasil mostram que o pedido de extradição que tramita no STF não foi a primeira vez que o governo russo tentou reaver a custódia de Cherkasov depois que ele foi preso no Brasil. Uma outra tentativa foi feita antes mesmo de ele ser condenado no país.

No dia 26 de maio deste ano, o encarregado de negócios do Consulado-Geral da Rússia em São Paulo, Pavel Kuptsov, assinou uma "carta garantia" entregue à Justiça Federal colocando a sede da representação à disposição para que o suposto agente de inteligência ficasse custodiado sob os cuidados russos até o julgamento do caso.

No documento, o consulado afirma que Cherkasov estaria "dentro da área de interesses" do governo russo por ter antecedentes criminais.

Na 'carta garantia' o consulado-geral da Rússia oferece suas instalações para receber o suspeito de espionagem Sergey Vladimirovich Cherkasov'

Uma fonte familiarizada com o caso disse à BBC News Brasil que a carta enviada pela diplomacia russa causou estranheza entre os investigadores porque nunca haviam visto o governo do país se oferecer para receber em suas instalações um compatriota que enfrenta problemas com a Justiça brasileira.

Documentos do processo de extradição formulado pelo governo russo obtidos pela BBC News Brasil mostram que Cherkasov é acusado de tráfico de drogas e associação criminosa.

Os documentos também apontam que, apesar de os supostos crimes cometidos por Cherkasov na Rússia terem ocorridos até 2011, as autoridades russas só pediram ajuda da Interpol para prendê-lo em junho de 2022, dois meses após sua prisão no Brasil.

Os processos aos quais a BBC News Brasil teve acesso também mostram que o governo russo deu duas posições às autoridades brasileiras sobre os supostos antecedentes criminais de Cherkasov. Inicialmente, o governo russo teria dito que ele não teria cometido crimes no país. Em outro documento, no entanto, o governo mudou de posição e passou a alegar que o russo tinha antecedentes criminais em seu país.

Procurada, a Embaixada da Rússia não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.

PF pede para destruir provas do caso

Os documentos obtidos pela BBC News Brasil também mostram que apesar de a própria PF e o MPF terem encontrado elementos que apontam que Cherkasov era um agente de inteligência que viveu no Brasil durante mais de uma década, a PF pediu à Justiça Federal que destruísse provas colhidas ao longo das investigações.

O pedido foi feito em julho deste ano pelo então chefe do serviço de investigações de contrainteligência da Polícia Federal Elias Milhomens de Araújo.

O serviço de contrainteligência da PF é o responsável, entre outras coisas, por investigar eventuais crimes cometidos por agentes de inteligência estrangeiros no país.

O serviço passou a liderar as investigações sobre o caso depois que começaram a surgir os os primeiros indícios de que Cherkasov seria um agente de inteligência russo no Brasil.

Com Cherkasov, a PF apreendeu documentos e dispositivos eletrônicos como pen-drives, discos rígidos, carteiras eletrônicas para guarda de criptomoedas, além de fotos e documentos físicos e digitais.

Em alguns desses documentos, segundo os laudos elaborados pela PF, há relatórios apócrifos (sem assinatura) sobre as supostas atividades de Cherkasov.

Relatórios também afirmam que foram encontrados dispositivos e documentos em locais secretos selecionados onde, acredita-se, havia a entrega de informações.

Apesar do farto material apreendido, a PF pediu que a Justiça Federal determinasse que todos os dispositivos eletrônicos encontrados e que estivessem relacionados a "Victor Müller Ferreira" (a personalidade falsa adotada por Cherkasov) fossem destinados à PF e que todos os documentos fossem destruídos.

O argumento é de que eles pertenceriam a "pessoa inexistente", uma vez que Victor Müller Ferreira seria apenas um nome falso, e que, por isso, os documentos deveriam ser inutilizados.

No final de setembro, o MPF se posicionou contra a solicitação da PF. Segundo um parecer do órgão, o pedido foi considerado "prematuro" uma vez que ainda há investigações em curso sobre os atos de espionagem supostamente praticados por Cherkasov.

O receio é de que a destruição prematura desses documentos poderia afetar as investigações que ainda estão em andamento sobre as supostas atividades de espionagem de Cherkasov no Brasil. Os investigadores querem saber, por exemplo, se o russo praticou atos de espionagem no Brasil e se tinha algum tipo de apoio logístico no país.

O juiz federal responsável pelo caso indeferiu o pedido feito pela PF.

Questionada sobre o pedido de destruição, a PF enviou uma nota dizendo que "a Polícia Federal não se manifesta sobre eventuais investigações em andamento".

Aproximação diplomática

Outra fonte entrevistada sob a condição de anonimato afirmou que a orientação dentro do atual governo brasileiro tem sido de evitar dar publicidade sobre o caso para não prejudicar as relações diplomáticas entre o Brasil e a Rússia.

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) negou acesso a comunicações diplomáticas sobre Cherkasov solicitadas pela BBC News Brasil por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Segundo o órgão, os documentos foram classificados como "reservados" por serem considerados "imprescindíveis" à segurança da sociedade e do Estado por envolverem investigações ou ações de inteligência ainda em curso.

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A orientação sobre evitar publicidade em torno do caso levaria em consideração um outro elemento: o eventual interesse do governo americano em Cherkasov.

As investigações afirmam que ele viveu nos Estados Unidos entre 2017 e 2020 e que morou na cidade de Arlington, no Estado da Virgínia, próximo à capital Washington.

Lá, ele estudou na Universidade Johns Hopkins. Para isso, usou sua identidade brasileira para obter visto de estudante e outros documentos americanos.

Documentos mostram que agentes do FBI (a polícia federal americana) interrogaram Cherkasov logo após a sua prisão no Brasil. Em seu depoimento, o russo não disse qual sua verdadeira identidade.

De acordo com o processo que corre no Brasil, os americanos teriam informado as autoridades brasileiras que Cherkasov é investigado por fraude financeira nos Estados Unidos.

Procurado, o Departamento de Estado americano informou que não comentaria o caso.

Programa dos 'ilegais'

Cherkasov é suspeito de ser um exemplo clássico de 'ilegal' - um tipo de espião disfarçado no qual a Rússia (e antigamente a União Soviética) se especializou há algum tempo. Esses indivíduos não apenas mudam de nome, mas de nacionalidade e passam anos construindo essa identidade falsa.

Essa estratégia permite que eles conheçam pessoas ou trabalhem em uma instituição específica que poderia ser inacessível para um russo. O termo "ilegal" é usado para diferenciá-los de um espião "legal" operando sob o pretexto de ser um diplomata.

A diferença crucial é que, se um diplomata for pego espionando, ele tem imunidade e pode, no máximo, ser expulso do país. Por outro lado, se um "ilegal" for pego, ele pode ser processado criminalmente.

Nos últimos anos, oficiais de inteligência acreditam que a GRU se tornou mais ativa - e agressiva. A GRU é suspeita de ter enviado uma equipe de agentes sob identidade falsa para matar Sergei Skripal em 2018, em Salisbury, no Reino Unido. A Rússia, no entanto, nega seu envolvimento neste caso.

O principal trabalho dos "ilegais", no entanto, é coletar informações e realizar atividades de apoio às Forças Armadas da Rússia.

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Normalmente, quando são pegos, o governo russo trabalha para levá-los de volta à Rússia por meio de algum tipo de acordo - geralmente uma troca de espiões.

Foi o que aconteceu com um grupo de "ilegais" russos presos nos EUA em 2010, que foram trocados por agentes detidos em prisões russas por espionagem.

O uso da extradição é um método mais incomum. A vantagem é que não depende de reconhecer que essa pessoa é de fato um espião. A esperança pode ser que isso possa ser feito sob o radar com menos publicidade - e menos constrangimento - mas ainda assim garantir seu retorno à Rússia.

Silêncio e sigilo

Sobre o caso, a BBC News Brasil procurou: o Ministério da Justiça, o Ministério das Relações Exteriores, a PF, a PGR, o STF, a Embaixada da Rússia no Brasil, o Departamento de Estado dos Estados Unidos e a defesa de Cherkasov.

Por telefone, os advogados de Cherkasov disseram que receberam uma orientação do cliente para não fazerem comentários sobre o assunto.

Em nota, o Ministério da Justiça disse que o órgão "não se manifesta em relação a eventuais pedidos de extradição em andamento".

O Ministério da Justiça enviou nota informando que o trâmite de pedidos de extradição é atribuição do ministério.

Questionada sobre o pedido para destruir provas do caso envolvendo Cherkasov, a PF disse que "não se manifesta sobre eventuais investigações em andamento".

A PGR informou que o caso é sigiloso e que não poderia fornecer dados sobre ele.

A posição foi igual à do STF que se limitou apenas a confirmar a existência do processo e a informar que ele está sob sigilo. O órgão também não informou o que levou o caso a ser colocado sob sigilo.

A Embaixada da Rússia não respondeu às perguntas enviadas por e-mail e por mensagens de texto.

O Departamento de Estado americano disse que não comentaria o caso.

BBC Brasil

Entrevista: Monica de Bolle: ‘É ideológico, o mercado não fez quase nada com orçamento secreto’




Para economista, queda da Bolsa e alta do dólar não quer dizer nada, o que importa é a discussão macroeconômica que está por vir

Por Vitor da Costa

A economista e professora da Universidade Johns Hopkins, Monica de Bolle, criticou a reação do mercado às declarações do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que o sobe-e-desce do dólar e da Bolsa não quer dizer nada. Em uma rede social, ela disse esperar que ele não atrapalhe a transição.

Como vê as declarações do mercado em relação às falas do presidente eleito?

O mercado está sempre com posições compradas e faz esses movimentos de Bolsa e dólar para ganhar dinheiro. Esses movimentos não querem dizer nada. O que realmente importa é a discussão macroeconômica por vir. Os economistas do mercado têm uma visão míope e estão com ela há muito tempo. O pessoal está olhando o Brasil há bastante tempo com certa condescendência.

Se ele tivesse alguma racionalidade, teria tido uma reação muito forte a todas as oscilações feitas no atual governo no teto de gastos. Quando teve a PEC Kamikaze, que foi a coisa mais populista e gastadora, a maior licença para gastar, o mercado nem se mexeu. Foi uma cosquinha. Com o orçamento secreto, não fez quase nada.

O teto de gastos já não existe há bastante tempo, basicamente desde que foi criado. Foi modificado em praticamente todos os anos do governo Bolsonaro. Quando você pega o conjunto de mudanças ocorridas, foi uma regra fiscal para jogar no lixo. A reação do mercado é ideológica.

O que deve ser feito com o teto?

O momento é de revogar e fazer um teto novo. Tem que ser algo que funcione e não pode ser feito às pressas.

O que seria um bom teto?

Uma regra fiscal bem feita não pode ter um horizonte de curto prazo, como no Brasil. Geralmente são de dois a três anos. Uma boa regra tem de ter previsibilidade para se adequar a momentos ruins. O nosso regime de inflação tem flexibilidade. O mesmo tipo de coisa vale para uma regra de teto de gastos.

Essas mudanças de desenho tornam o teto realista, permitem que você tenha um mecanismo de amortecimento quando você precisa. E permite que tenha uma regra com flexibilidade suficiente para não ser alterada o tempo todo, o que afeta a credibilidade. Ninguém está falando aqui em licença para gastar.

Alguns economistas defendem que gastos do Bolsa Família fora do teto trazem impacto na inflação...

Isso demonstra total desconhecimento de como a economia funciona. O gasto social com as famílias mais pobres vai para o consumo. Inflação não é causada por um grupo de pessoas de baixa renda consumindo. Isso é uma espécie de economia simplória. Quando você permite e aumenta o gasto, como fizemos no Auxílio Emergencial, as pessoas consumiram e isso gerou crescimento.

A economia brasileira não teve recessão como outras por causa do auxílio. Vimos inflação não em 2020, mas em 2021 pela gestão Bolsonaro, com o fim dos estoques reguladores por causa da inflação dos alimentos. O Brasil acabou com estoques reguladores em 2019 para agradar ao agronegócio. E, em 2021, quando veio o choque de preços, não tinha mecanismo para usar.

O Globo

Bolsonaro tem encontro marcado com a Justiça




Se as investigações sobre ataques à democracia e ao processo eleitoral, a condução do país na pandemia e as rachadinhas avançarem, o atual presidente tem chances reais de ser preso. 

Por Matheus Falivene (foto)

Com a vitória de Lula no pleito nacional de 2022, o mandato presidencial de Jair Bolsonaro terminará em 1º de janeiro de 2023 e, com isso, estarão abertas as possibilidades para que o atual presidente da República seja investigado, processado e até mesmo preso pelas instâncias ordinárias em razão de malfeitos cometidos antes e durante o exercício da presidência.

Com a adoção do sistema presidencialista, nossa Constituição outorgou ao presidente da República as funções de chefe de governo e chefe de Estado, cabendo a ele, tanto o efetivo governo no âmbito federal quanto a representação do país junto às autoridades estrangeiras.

Em razão dessa função, ao presidente da República são deferidos direitos e garantias mais amplos do que aos demais cidadãos, inclusive no que diz respeito à eventual investigação, processo e prisão pelos chamados crimes comuns, que são aqueles previstos na legislação penal ordinária, que não se confundem com os crimes de responsabilidade, estes eminentemente atrelados à função de liderança nacional e que dão causa ao processo de impeachment.

Dessa forma, durante o exercício do mandato, o presidente da República não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao seu mandato, como, por exemplo, crimes cometidos antes da diplomação (eventuais rachadinhas cometidas enquanto era deputado federal e que podem configurar o crime de peculato). O presidente em exercício também não pode ser preso, nem mesmo preventivamente, salvo na hipótese de sentença penal condenatória transitada em julgado.

Além disso, caso tenha contra si uma denúncia oferecida pelo procurador-geral da República, o início do processo somente ocorrerá após autorização da Câmara dos Deputados, por meio da votação de dois terços de seus membros.

Contudo, a principal garantia do cargo de presidente da República é o foro especial por prerrogativa de função, popularmente conhecido como “prerrogativa de foro” ou “foro privilegiado”. Isso porque, nos termos da norma constitucional, o mandatário somente poderá ser processado criminalmente perante o Supremo Tribunal Federal, em razão de denúncia oferecida pelo procurador-geral da República.

O senso comum entende que a existência de prerrogativa de foro torna a autoridade praticamente impunível. É como se o seu detentor fosse alguém acima da lei, a qual seria aplicável apenas aos cidadãos comuns.

Apesar das evidentes e necessárias críticas, especialmente com relação à extensão a centenas de outras autoridades, a existência do foro de prerrogativa ao presidente da República em exercício é legítima e necessária. Ela evita que a atuação funcional do presidente da República sofra interferência das instâncias ordinárias do Poder Judiciário, o que, numa situação excepcional, poderia inviabilizar a administração do País.

Porém, nos termos da atual jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, uma vez encerrado o mandato, cessa o foro especial, devendo os inquéritos policiais e processos criminais em andamento serem enviados para as instâncias ordinárias, isto é, a primeira instância.

No caso específico do presidente Jair Bolsonaro, o fim da prerrogativa de foro poderá fazer com que as investigações que pesam contra ele tramitem de forma mais célere, podendo levá-lo à prisão. Ele é investigado por diversos crimes graves.

As investigações potencialmente mais graves que pesam contra o atual presidente da República são, certamente, aquelas relacionadas aos ataques contra a democracia e o processo eleitoral.

Tais condutas, que vão desde manifestações antidemocráticas em atos públicos até discursos contra as instituições, especialmente contra o Poder Judiciário, podem configurar, ao menos em tese, crimes contra o Estado Democrático de Direito, que atualmente são disciplinados no Código Penal. E a situação pode se agravar em razão dos recentes “protestos” com bloqueios em estradas, pedidos de “intervenção federal” defronte a instalações militares e ataques armados contra policiais.

Ele também terá que enfrentar investigações relacionadas à condução do governo federal durante o período de pandemia, que foram objeto da CPI da Covid. Tais fatos, também bastante graves, podem ensejar sua responsabilização por diversos fatos criminosos, que vão desde o crime de pandemia até o crime de corrupção.

Além disso, com o fim do seu mandato presidencial, ele também poderá ser investigado —tardiamente— por condutas eventualmente cometidas durante o seu mandato de deputado federal, como no caso das rachadinhas.

Há um intenso debate sobre a classificação jurídica das rachadinhas, com alguns juristas entendendo que a conduta não configura crime. Porém, entendo que a prática pode configurar peculato, um crime contra a administração pública que ocorre quando o funcionário desvia valores pertencentes ao erário em proveito próprio.

Se tais investigações avançarem, Bolsonaro poderá ser preso. Não será detido imediatamente após sua saída da presidência, mas algum tempo depois, se as investigações avançarem para condenações.

Uma questão que se coloca em todos os casos, contudo, é que, por mais que o presidente Jair Bolsonaro tenha hipoteticamente cometido diversos crimes antes e durante o mandato presidencial, ele é presumidamente inocente e seus direitos e garantias devem ser respeitados.

A punição criminal somente é legítima se são respeitados todos os direitos e garantias do indivíduo, naquilo que se denomina de devido processo legal. Sem isso, uma eventual condenação criminal, ainda que “justa” no plano teórico, poderá ser anulada e levar à impunidade.

Não se pode incorrer nos mesmos erros que foram cometidos durante o julgamento de Lula, que, em razão da violação do devido processo legal, teve sua condenação anulada pelo Supremo Tribunal Federal.

É certo que Bolsonaro será investigado por seus atos. Eventualmente, será condenado e preso. Porém, em qualquer hipótese, devem ser respeitados os direitos e garantias fundamentais que são inerentes a todos os cidadãos – inclusive aqueles que ocuparam o cargo de presidente da República.

*Matheus Falivene é advogado criminalista, mestre e doutor em direito penal pela USP

Revista Crusoé

Viver sob um governo que você despreza é o estado natural do homem




Sim, todo governo que você não escolheu está perpetuamente pespegado da Vertigem do Mal Absoluto. 

Por Alexandre Soares Silva (foto)

“A gente perdeu a alegria e muitas vezes a gente perdeu a esperança”, disse Gregório Duvivier, aos soluços, naquele programa lá dele que uma vez posto no ar é visto por menos pessoas do que antes de ter sido feito. Ou de até ter sido concebido na cabeça de alguém.

Menos visto que um espirro na cabine de um banheiro de oficina mecânica. Menos visto que a morte de uma formiga na borda de uma janela de cozinha, perto do pote de mel mal-fechado, numa manhã tranquila de abril.

Mas continuemos com Gregório Duvivier: ”A gente teve que fazer um esforço pra não adoecer de tanto trauma”.

Se referia ao mundo depois de 2018, ou na verdade depois de 2016, quando essa tribo ficou traumatizada com um reles impeachment.

“O pesadelo acabou”, li várias vezes no Instagram — nos perfis de escritores, chefs, atores, etc.

Sim, deve ser um pesadelo viver sob um governo que não é o que você escolheu.

“Não é isso, Alexandre! Não se faça de desentendido! Foi muito mais que um governo que não fui eu que escolhi, foi um governo que…”

Sim, todo governo que você não escolheu está perpetuamente pespegado da Vertigem do Mal Absoluto.

“Não é verdade, Alexandre. Nos governos tal, tal, tal, não era o que eu queria, mas eu sabia que eram pessoas fundamentalmente decentes…”

Não é o que você dizia na época, seu tonto que se engana com uma facilidade abismal.

Não simpatizo muito com essa gente que “teve que se esforçar pra não adoecer de tanto trauma” porque ser conservador é viver quase todo o tempo sob governos que não escolhemos. Acho normal, até confortável. A ideia de considerar os próximos quatro anos “um pesadelo” me parece uma fragilidade psíquica desprezível.

Nas primeiras horas depois da eleição do Lula senti um certo desânimo. Mas logo depois percebi que uma parte de mim estava até contente.

Eu estava, e estou, mais relaxado. Viver sob um governo que você defende (ou, no meu caso, que você mais-ou-menos defende, de vez em quando) causa uma tensão constante, como se você andasse por aí durante quatro anos com a barriga comprimida à espera de uma chicotada de toalha molhada.

Mas viver sob um governo que você despreza? Ora, é gostoso. Defendam vocês o seu governo aí. Eu só tenho que sentar numa poltrona e assar uns marshmallows enquanto observo vocês suando frio, tentando justificar os futuros Portos de Mariel e demais petezices que virão nos próximos anos.

Viver sob um governo que você despreza é o estado natural do homem. É pelo menos o estado natural de um conservador e, ainda por cima, cristão e tal (no momento, o máximo de definição religiosa que consigo dar de mim mesmo é “cristão e tal”). Não digo que não seja útil assumir o governo. Mas digo que é muito agradável quando ele nos escapa.

Mas digo isso porque sou otimista por natureza, e acredito naquela tese de que o Brasil não vai se venezuelar todo porque os outros governos de esquerda da América Latina precisam de um Brasil rico para lhes pagar a mesada. Esperemos que sim. Posso estar errado, mas, enfim, a longo prazo foi sempre sábio da minha parte apostar no adiamento dos apocalipses.

Sim, sei de mães de amigos meus que passaram mal com a eleição do Lula, e tiveram que ir pro hospital até. Mas são senhoras. Elas rezam terços com fervor e botam todo o coração no resultado de uma eleição. São naturalmente preocupáveis, alarmáveis, abaláveis. São, em outras palavras, senhoras, podem se sentir como quiserem. Mas Gregório Duvivier não é uma senhora. Não tem justificativa nenhuma pra ter passado os últimos quatro anos “fazendo esforço pra não adoecer de tanto trauma”. Isso é ridículo.

Meu amigo que acha que acordou de um pesadelo, você tem problemas pessoais. O que não é vergonha nenhuma. Quem não tem? Até o Tom Brady deve ter as suas angústias incomunicáveis. De quebra, talvez tenha alguns problemas mentais, o que também não é vergonha nenhuma. Essa mania de atribuir toda a sua infelicidade e angústia a um governo que não deixa você ser feliz como uma borboleta de desenho animado só pode ter uma consequência, e bem óbvia: assim que os dias passarem sob o governo que você ama e você perceber que continua infeliz, e que agora não tem ninguém a quem culpar, você vai ficar mais ou menos angustiado? Vai sentir que acordou de um pesadelo, ou que ele teve um plot twist e ficou pior?

Mas por que você não teve essa dose mínima de autorreflexão até agora, a ponto de dizer que “o pesadelo acabou” porque um governo se foi? Até um sapo-cururu tem mais autorreflexão que isso.

Quanto a mim fui feliz em todos os quatorze cretiníssimos e criminalíssimos anos de governo do PT, como fui sob o general Figueiredo e até sob o Sarney, e vou continuar feliz apesar de qualquer mera troca de governo.

Bota lá no governo o cadáver do Mao Tsé-Tung pra ver se eu falo em pesadelo. Mas nem que a vaca tussa. E por quê? Porque não tenho a fragilidade mental de um petista.

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