Sim, todo governo que você não escolheu está perpetuamente pespegado da Vertigem do Mal Absoluto.
Por Alexandre Soares Silva (foto)
“A gente perdeu a alegria e muitas vezes a gente perdeu a esperança”, disse Gregório Duvivier, aos soluços, naquele programa lá dele que uma vez posto no ar é visto por menos pessoas do que antes de ter sido feito. Ou de até ter sido concebido na cabeça de alguém.
Menos visto que um espirro na cabine de um banheiro de oficina mecânica. Menos visto que a morte de uma formiga na borda de uma janela de cozinha, perto do pote de mel mal-fechado, numa manhã tranquila de abril.
Mas continuemos com Gregório Duvivier: ”A gente teve que fazer um esforço pra não adoecer de tanto trauma”.
Se referia ao mundo depois de 2018, ou na verdade depois de 2016, quando essa tribo ficou traumatizada com um reles impeachment.
“O pesadelo acabou”, li várias vezes no Instagram — nos perfis de escritores, chefs, atores, etc.
Sim, deve ser um pesadelo viver sob um governo que não é o que você escolheu.
“Não é isso, Alexandre! Não se faça de desentendido! Foi muito mais que um governo que não fui eu que escolhi, foi um governo que…”
Sim, todo governo que você não escolheu está perpetuamente pespegado da Vertigem do Mal Absoluto.
“Não é verdade, Alexandre. Nos governos tal, tal, tal, não era o que eu queria, mas eu sabia que eram pessoas fundamentalmente decentes…”
Não é o que você dizia na época, seu tonto que se engana com uma facilidade abismal.
Não simpatizo muito com essa gente que “teve que se esforçar pra não adoecer de tanto trauma” porque ser conservador é viver quase todo o tempo sob governos que não escolhemos. Acho normal, até confortável. A ideia de considerar os próximos quatro anos “um pesadelo” me parece uma fragilidade psíquica desprezível.
Nas primeiras horas depois da eleição do Lula senti um certo desânimo. Mas logo depois percebi que uma parte de mim estava até contente.
Eu estava, e estou, mais relaxado. Viver sob um governo que você defende (ou, no meu caso, que você mais-ou-menos defende, de vez em quando) causa uma tensão constante, como se você andasse por aí durante quatro anos com a barriga comprimida à espera de uma chicotada de toalha molhada.
Mas viver sob um governo que você despreza? Ora, é gostoso. Defendam vocês o seu governo aí. Eu só tenho que sentar numa poltrona e assar uns marshmallows enquanto observo vocês suando frio, tentando justificar os futuros Portos de Mariel e demais petezices que virão nos próximos anos.
Viver sob um governo que você despreza é o estado natural do homem. É pelo menos o estado natural de um conservador e, ainda por cima, cristão e tal (no momento, o máximo de definição religiosa que consigo dar de mim mesmo é “cristão e tal”). Não digo que não seja útil assumir o governo. Mas digo que é muito agradável quando ele nos escapa.
Mas digo isso porque sou otimista por natureza, e acredito naquela tese de que o Brasil não vai se venezuelar todo porque os outros governos de esquerda da América Latina precisam de um Brasil rico para lhes pagar a mesada. Esperemos que sim. Posso estar errado, mas, enfim, a longo prazo foi sempre sábio da minha parte apostar no adiamento dos apocalipses.
Sim, sei de mães de amigos meus que passaram mal com a eleição do Lula, e tiveram que ir pro hospital até. Mas são senhoras. Elas rezam terços com fervor e botam todo o coração no resultado de uma eleição. São naturalmente preocupáveis, alarmáveis, abaláveis. São, em outras palavras, senhoras, podem se sentir como quiserem. Mas Gregório Duvivier não é uma senhora. Não tem justificativa nenhuma pra ter passado os últimos quatro anos “fazendo esforço pra não adoecer de tanto trauma”. Isso é ridículo.
Meu amigo que acha que acordou de um pesadelo, você tem problemas pessoais. O que não é vergonha nenhuma. Quem não tem? Até o Tom Brady deve ter as suas angústias incomunicáveis. De quebra, talvez tenha alguns problemas mentais, o que também não é vergonha nenhuma. Essa mania de atribuir toda a sua infelicidade e angústia a um governo que não deixa você ser feliz como uma borboleta de desenho animado só pode ter uma consequência, e bem óbvia: assim que os dias passarem sob o governo que você ama e você perceber que continua infeliz, e que agora não tem ninguém a quem culpar, você vai ficar mais ou menos angustiado? Vai sentir que acordou de um pesadelo, ou que ele teve um plot twist e ficou pior?
Mas por que você não teve essa dose mínima de autorreflexão até agora, a ponto de dizer que “o pesadelo acabou” porque um governo se foi? Até um sapo-cururu tem mais autorreflexão que isso.
Quanto a mim fui feliz em todos os quatorze cretiníssimos e criminalíssimos anos de governo do PT, como fui sob o general Figueiredo e até sob o Sarney, e vou continuar feliz apesar de qualquer mera troca de governo.
Bota lá no governo o cadáver do Mao Tsé-Tung pra ver se eu falo em pesadelo. Mas nem que a vaca tussa. E por quê? Porque não tenho a fragilidade mental de um petista.
Revista Crusoé
