sábado, novembro 12, 2022

Comando lulista briga com a realidade financeira degradada e também com aliados recentes




Por Vinicius torres Freire

Geraldo Alckmin tentou baixar a fervura desta quinta-feira (10) desgraçada para as finanças do país, o vulgo "mercado nervoso". Outros do governo de transição e Luiz Inácio Lula da Silva decidiram espalhar mais brasa.

Decidiram brigar com a realidade, com os fatos da vida financeira e com aliados recentes da frentinha ampla, o que pode ter implicação até para a formação de coalizão no Congresso e na sociedade. Há meios e tempo para consertar o estrago. Pode ficar apenas uma cicatriz. Ou pode ser um começo de gangrena.

O que é "brigar com a realidade"? Esses desabamentos nos mercados financeiros significam que os donos do dinheiro passam a cobrar mais caro para manter seus recursos em reais, em títulos da dívida pública (empréstimos para o governo) e, por tabela, em ações de empresas e outros ativos domésticos. Cobram mais caro por causa do aumento do risco de inflação, desordem financeira geral e crescimento baixo, para resumir.

O real se desvaloriza (com risco de inflação extra). As taxas de juros sobem. O governo tem de pagar mais para financiar seu déficit; o setor privado vai pagar ainda mais caro a fim de levantar capital para investir, o crédito encarece. É uma descrição elementar do problema, que vai bem além.

Essa degradação financeira prejudica o crescimento econômico, sem o qual não haverá mais trabalho. O rendimento do trabalho equivalente a 60% dos rendimentos totais dos 20% mais pobres (e muito mais para outros níveis de renda).

Logo, não se vai diminuir a pobreza sem mais trabalho, principalmente. "Mercado nervoso" é uma piadinha tola sobre um problema muito real.

O comando lulista quis dourar a pílula do que Lula disse: ataques ao controle de déficit e dívida do governo, que seria um empecilho ao pagamento da "dívida social". "Não é bem assim", pois Lula já demonstrou ser capaz de fazer as duas coisas em seus governos.

Suponha-se que seja isso. Então, o que Lula tem dito seria corretamente compreendido caso já houvesse um ministro da Fazenda ou um conselho econômico crível e funcional.

Lula fez os discursos avacalhando "a tal estabilidade fiscal" em um momento em que discute uma gambiarra a fim de atenuar a pobreza e evitar um estelionato eleitoral de consequências políticas sérias. A gambiarra está quase aceita. O problema é que não há programa algum a dizer como a futura instalação elétrica vai ser feita de modo confiável. Isto é, a criação de algum método para conter o crescimento sem fim da dívida: um "teto Lula".

Diz-se que o problema imediato é o fato de que a despesa com o Bolsa Família seja colocada fora do teto de gastos, pior ainda se permanentemente fora do teto. Mas o teto de Michel Temer foi avacalhado pelo governo de trevas (2019-22), precisa de reforma e há como fazê-la, como dizem até lulistas. O problema maior, pois, é saber como vão ser as novas "regras fiscais", que podem ser várias, algumas mais, outras menos, convenientes para a situação brasileira e para os problemas crônicos do país.

Se tudo der certo, vai demorar meses para se definir a nova "regra fiscal". A fim de que a espera não seja tumultuada, é preciso ter um programa econômico, que ficaria evidenciado na escolha de uma equipe econômica confiável, capaz e com respaldo político, de Lula e da coalizão.

O plano precisa de mais: mudanças nos impostos, na administração pública e facilitação do investimento privado, para ficar no estrito mínimo. Estabilizado o paciente, é possível inventar formas novas e inteligentes de intervenção estatal. Mas, sem um plano de contenção de déficit e dívida, não vai dar certo. Para ser ameno.

Folha de São Paulo

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