sábado, junho 25, 2022

A imagem do Brasil no exterior não melhora




Alguns investidores querem distância dos problemas ambientais

Por Assis Moreira (foto)

O desgaste da imagem do Brasil e do capital de simpatia que sempre teve no exterior continua. Em paralelo, prosseguem as denúncias contra o país no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, como ocorreu nesta semana e deve se repetir na semana que vem.

Um dos choques recentes procedentes do Brasil veio com a imagem aterradora do assassinato de Genivaldo de Jesus Santos por agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Umbaúba (SE). Truculentos policiais da PRF imobilizaram e trancaram Genivaldo, 38 anos, em uma viatura da corporação e jogaram bomba de gás dentro do veículo. A imagem da “câmara de gás” da PRF deu a volta ao mundo.

Em seguida, os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips na região do Vale do Javari ilustraram o perigo que correm defensores da Amazônia, sobretudo nos últimos tempos. Chamou atenção a dimensão da ausência do Estado na região, estampada numa declaração do vice-presidente, o general Hamilton Mourão. Segundo o general, Bruno e Dom passaram a correr risco depois de ingressarem em uma “área que é perigosa sem pedir uma escolta”. Ou seja, a “Amazônia é nossa” é na verdade cada vez mais do crime organizado. O general Mourão preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal.

Também de novo rodou o mundo uma sangrenta operação policial, em maio, dessa vez com a morte de pelo menos 26 pessoas, na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro. No ano passado, tinha ocupado espaço na imprensa internacional a execução de 27 pessoas numa operação policial em Jacarezinho, também no Rio. E, no passado, outras.

Do início do governo Bolsonaro até agora, nada menos de 44 comunicações de relatores independentes das Nações Unidas foram enviadas ao Brasil sobre violações de direitos humanos no país. As comunicações envolvem questões de direito a alojamento e saúde, direitos dos indígenas, execuções por policiais, racismo, atentados a direito de opinião e de expressão etc. Mas a constatação nos meios de direitos humanos, em Genebra, é de que o governo de Jair Bolsonaro tem sido imbatível em desmontes de mecanismos de proteção variada na sociedade. A cara do país no exterior é a de seu presidente.

O Brasil recebeu mais questionamentos que as 41 comunicações para a Rússia e menos que as 48 para Arábia Saudita, 52 para a Turquia e 60 para a China no mesmo período. No período de um mandato e meio de Dilma Rousseff, foram enviadas 51 comunicações ao Brasil, e durante o curto período de Michel Temer outras 27.

Há dez dias, ao abordar a evolução global dos direitos humanos, a Alta Comissária para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, disse em relação ao Brasil estar “alarmada com as ameaças contra os defensores dos direitos humanos ambientais e dos povos indígenas, incluindo a exposição à contaminação por mineração ilegal de ouro”. Afirmou que “os casos recentes de violência policial e racismo estrutural são preocupantes, assim como os ataques contra legisladores e candidatos, particularmente os de origem africana, mulheres e pessoas LGBTQIA+, antes das eleições gerais de outubro”. E apelou às autoridades brasileiras para que “garantam o respeito aos direitos fundamentais e instituições independentes”.

Gustavo Huppes, assessor de advocacia internacional na Conectas, observa que a sociedade civil sempre utilizou o Conselho de Direitos Humanos da ONU e outros espaços da comunidade internacional para denunciar violações cometidas pelo Estado. “No entanto, é histórico o número de retrocessos que estamos presenciando neste governo”, afirmou. “O trabalho propositivo das organizações brasileiras no campo dos direitos humanos, feito em conjunto com países das Nações Unidas, nem sequer consegue avançar quando temos de denunciar e tentar garantir que não se percam direitos históricos já garantidos.”

Esta semana, organizações não governamentais como Conectas e Comissão Arns acusaram diante da comunidade internacional o governo de se omitir “diante de casos gravíssimos de violência letal cometidos por agentes do Estado no passado e no presente”. E de que, “infelizmente, o governo brasileiro não tem feito nenhum esforço para combater essas práticas violadoras cometidas por seus agentes de segurança pública, pelo contrário, tais práticas têm sido endossadas pelas autoridades locais, incluindo o presidente Jair Bolsonaro”.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) também ampliará denúncias de “escalada de violência e negligência do Estado brasileiro” na atual sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Para o Cimi, o que ocorre no Vale do Javari, onde foram assassinados Bruno e Dom, “está intrinsecamente relacionado ao desmonte das políticas e órgãos públicos de proteção aos povos originários e aos seus territórios”.

O Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, quando conclamou o governo a redobrar esforços para encontrar Bruno e Dom, observou que o Vale do Javari, uma das mais fortes concentrações no mundo de comunidades indígenas sem contato com o exterior, também era gravemente atingido pelo tráfico ilícito e atividades de extração mineral e pesca ilegal, e que atividades de grupos armados se intensificavam na área.

Essa é uma situação que chama atenção inclusive em outros foros que antes tenham outras atenções em relação ao Brasil. Recentemente, à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos, um dos maiores bancos do mundo convidou um pequeno grupo de jornalistas para um café da manhã com o CEO e alguns diretores. Na conversa, o chefe de investimentos globais observou que o Brasil tem tudo que a economia mundial precisa no momento, referindo-se a commodities. Mas logo ressalvou que investidores estrangeiros, ao falarem sobre o Brasil, abordam cada vez mais o problema de desmatamento e proteção da floresta. Ninguém queima dinheiro e sabe que o país dá bons retornos, mas alguns preferiam ficar longe de problemas ambientais e outros.

Nesta semana, ao receber 17 bispos da Amazônia, no Vaticano, o papa Francisco mostrou estar a par da violência e os encorajou a atuarem “sem medo de encarar os desafios” na região.

Valor Econômico

Bolsonaro quer controlar as eleições - Editorial




Ministérios da Defesa e da Justiça reivindicam autoridade para fiscalizar eleições, atribuição exclusiva da Justiça Eleitoral; ingerência desse tipo é motivo para impeachment

É absolutamente inaceitável a campanha de Jair Bolsonaro contra as eleições. Ele não apenas difunde inverdades contra o processo eleitoral, como vai colocando as instituições, uma a uma, a serviço do seu intento de difamação das urnas eletrônicas e da Justiça Eleitoral. Antes, envolveu o Ministério da Defesa. Agora, incluiu o Ministério da Justiça e a Polícia Federal.

Segundo a Constituição, as eleições são assunto da Justiça Eleitoral. Tal é a importância para o regime democrático dessa exclusividade de competência que o texto constitucional traz uma disposição drástica: “São irrecorríveis as decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), salvo as que contrariarem esta Constituição e as denegatórias de habeas corpus ou mandado de segurança”. Ou seja, a Justiça Eleitoral tem a última palavra, salvo em caso de matéria constitucional, a cargo do Supremo Tribunal Federal (STF).

No entanto, Jair Bolsonaro quer ter a última palavra sobre as eleições. Quer ditar não apenas as regras do sistema de votação – competência do Congresso –, como também o resultado eleitoral – definido pelo eleitor nas urnas e contabilizado pela Justiça Eleitoral. Em seu intento antidemocrático, vale-se da disseminação da desconfiança, numa tática escandalosamente golpista.

As Forças Armadas sempre colaboraram com a Justiça Eleitoral, tanto na logística e segurança das eleições como em questões técnicas. Por exemplo, o desenvolvimento da urna eletrônica contou com o auxílio de militares. No entanto, até o governo de Jair Bolsonaro, era impensável – uma vez que rigorosamente inconstitucional – que as Forças Armadas fizessem demandas públicas sobre a Justiça Eleitoral. Ou, como Jair Bolsonaro aventou em maio, pudessem realizar uma contabilidade paralela dos votos.

Em vez da colaboração cordial com a Justiça Eleitoral, o governo de Jair Bolsonaro deseja impor uma dinâmica de confronto entre Ministério da Defesa e TSE. Convidadas, as Forças Armadas não quiseram participar de um teste público de segurança da urna eletrônica. Na reunião da Comissão de Transparência do TSE, o representante do Ministério da Defesa nem sequer abriu a câmera. No entanto, o titular da pasta, general Paulo Sérgio Nogueira, enviou no dia 20 de junho um inusitado e inconstitucional ofício ao TSE comunicando que encaminhará técnicos militares para atuarem como representantes das Forças Armadas na fiscalização das urnas eletrônicas. Não cabe às Forças Armadas fiscalizar eleições, como também não lhes cabe fiscalizar o Legislativo, o Judiciário ou o Executivo. Não é demais lembrar que o Código Penal e a Lei do Impeachment definem como crime ações de ingerência no processo eleitoral.

Para piorar, o governo Bolsonaro envolveu o Ministério da Justiça e a Polícia Federal na sua campanha contra as eleições, conforme revelou o jornal O Globo. No dia 17, o ministro da Justiça, Anderson Torres, comunicou ao TSE que participará, por meio da Polícia Federal, de todas as etapas de fiscalização e auditoria das urnas eletrônicas e de “sistemas e programas computacionais eleitorais”. Mais uma vez, o bolsonarismo tenta inaugurar uma relação de conflito onde até agora havia colaboração harmoniosa. A Polícia Federal sempre auxiliou a Justiça Eleitoral nos testes de segurança das urnas e dos softwares empregados. No ano passado, uma investigação da Polícia Federal concluiu que, desde a implantação das urnas eletrônicas, não houve ocorrência de fraude.

O ofício de Anderson Torres é ilegal e inconstitucional. Não está entre as atribuições do Ministério da Justiça confrontar o TSE, tampouco realizar auditoria independente das eleições, como se estivesse acima da Justiça Eleitoral. Certamente, Jair Bolsonaro tem todo o interesse em controlar o sistema eleitoral, por meio da pasta da Justiça ou da Defesa. Mas, como é lógico, em países democráticos, as eleições não ficam a cargo do Executivo.

Os limites foram ultrapassados por Bolsonaro há muito tempo. Ministério Público, Legislativo e Judiciário não podem se omitir na defesa da Constituição e das eleições.

O Estado de São Paulo

Tudo ou nada à custa do Tesouro




A pesquisa Datafolha que mostra um quadro de estabilidade no cenário eleitoral foi recebida quase com comemoração no QG de Jair Bolsonaro.

Por Vera Magalhães (foto)

A maré de más notícias — que incluiu, nas últimas semanas, o assassinato duplo no Vale do Javari, de ampla repercussão interna e internacional, o descontrole no preço dos combustíveis combinado à intensa intervenção na Petrobrás e, nos últimos dois dias, o prende-solta do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro — sugeria a opositores e aliados de Bolsonaro uma distância ainda maior entre ele e o ex-presidente Lula.

Nada mais expressivo desse alívio que os ministros que, em maio, denunciavam fraude na pesquisa, descascavam o instituto nas redes sociais e propunham até enquetes sobre quem era mais confiável, o Datafolha ou figuras mitológicas, desta vez terem respirado aliviados.

Não será essa a única reação aos números. Vem aí uma licença para gastar até o último centavo para tentar reverter a distância e evitar que se acentue a possibilidade, confirmada nos dados do último levantamento, de que Lula obtenha uma vitória em primeiro turno, algo que não acontece no Brasil desde 1998.

No calor do pânico causado pela prisão de Milton Ribeiro e dos pastores lobistas amigos de Bolsonaro que, segundo a Polícia Federal, operavam um esquema de favorecimento mediante propina para destinar verbas do MEC, surgiu a ideia de turbinar o Auxílio Brasil para R$ 600, mesmo valor pago no auge da pandemia, em caráter emergencial, para desgosto do governo e graças a uma articulação que, na época, nasceu na Câmara, sob Rodrigo Maia.

Agora, o aditivo no benefício que substituiu e rebatizou o Bolsa Família vem a pouco mais de 100 dias das eleições. Trata-se de clara burla à vedação da lei eleitoral que impede novos gastos a menos de seis meses do pleito.

Há duas malandragens possíveis para operar o populismo eleitoral. Uma é a interpretação “literal”, para não dizer delinquente, do parágrafo 10 do artigo 73 da Lei Eleitoral. Ele diz que não pode haver “instituição” de novos gastos no período anterior às eleições. Ou seja: aumentar o benefício não seria novo gasto. Mesmo com essa mão do gato, a criação da “bolsa-caminhoneiro”, outra benesse busca-voto que vem sendo construída no Planalto, não seria justificável.

A outra saída, que pode ser combinada à anterior, é inventar uma urgência ou uma calamidade, como já chegou a admitir o titular da Casa Civil, Ciro Nogueira, usando a guerra da Ucrânia como pretexto.

Mesmo com esses subterfúgios, cabem ações por abuso de poder político e econômico junto à Justiça Eleitoral, pelo evidente uso de recursos da União numa tentativa tresloucada de dar sobrevida eleitoral a Bolsonaro. O problema é: que partido terá a coragem de ir à Justiça contra o aumento do Auxílio-Brasil ou a concessão de benefícios a caminhoneiros e para a compra de gás de cozinha diante do quadro de miséria, desigualdade e fome galopantes por que passa o Brasil?

Caberia ao Ministério Público, seja o Eleitoral, seja o de Contas, sustar a farra com dinheiro público que, ademais, não começou agora: vem desde a pedalada nos precatórios e passa pela tunga do ICMS de Estados e municípios para fingir que se está baixando o preço dos combustíveis. Isso sem falar na derrama de recursos para o fundão eleitoral e nas emendas ao Orçamento com que Bolsonaro fidelizou o Centrão para sua aliança.

Não há paridade de armas numa disputa com um presidente que está disposto a tudo para ficar no poder, seja torrando quantidades ilimitadas de recursos, seja destruindo a governança de empresas e instituições públicas, seja, se nada disso surtir efeito, investindo contra o próprio processo eleitoral. O vale-tudo está só começando.

O Globo

O que é uma mulher?




O movimento identitário, ao negar as definições tradicionais do que é uma mulher, quer permanecer na confusão até que fiquemos tão confusos que, ao ver um bodybuilder que colocou bobs no cabelo, a gente encolha os ombros e desista de tentar classificá-lo. 

Por Alexandre Soares Silva (foto)

O que é uma mulher? Não sei. Na verdade, sei, porque é óbvio. Minha tia Nice é uma mulher. Meu primo Marcos, o Marquito, é um homem. Por que querem nos deixar confusos? Você começa a se perguntar de qualquer coisa o que é essa coisa e de repente não sabe nada, como Sócrates.

“O que é uma mão?”. É isto aqui, ué (mostrando a mão). Mas o perguntador sorri, sabido, e pergunta se ela continua a ser uma mão se for esfrangalhada por um torno mecânico (continua, ué), ou se nascer uma mão na sua barriga (acho que sim, ué), ou se um mutante nascer com uma chaleira no final do braço (acho que não, ué). “O que é uma mão” — que pergunta irritante. Eu sabia até dois segundos atrás, mas agora estou tão confuso que estou tentando digitar com o cotovelo.

Claro, poderia ter falado que mulher é quem tem cromossomos XX. Ou quem tem uma vagina. Mas por favor não me façam pensar na vagina da minha tia Nice. Vai ser um Natal em família muito desconfortável se os meus primos souberem que escrevi uma coluna inteira sobre a vagina da minha tia Nice. Além disso, é desnecessário falar dessas coisas. Eu sei que ela é uma mulher sem precisar de exame de laboratório, do mesmo jeito que saberia que, se o meu primo Marcos aparecesse na minha casa com cílios postiços e uma voz insinuante, ele estaria numa fase meio confusa, sei lá, mas continuaria sendo um homem.

Esse ué que repeti várias vezes, essa vocalização do bom senso perplexo por estar sendo atacado, é exatamente o que o movimento identitário quer destruir. Uma sociedade inteira em que ninguém diga ué. Uma civilização inteira em que as pessoas deixem o bom senso atrofiar como fizemos com as nossas caudas na metade da era Cenozoica.

Falei de Sócrates. Bom, mas Sócrates, ao sair andando por aí perguntando o que é isso, o que é aquilo, e irritando todos os gregos da Tessália ao Peloponeso, realmente queria chegar numa definição racional das coisas. O movimento identitário, ao negar as definições tradicionais do que é uma mulher, quer permanecer na confusão até que fiquemos tão confusos que, ao ver um bodybuilder que colocou bobs no cabelo, a gente encolha os ombros e desista de tentar classificá-lo. É um homem ou uma mulher? Não sei mais, ele colocou bobs no cabelo, isso tornou tudo um mistério irresolvível para os meus sentidos — vou acreditar na resposta que ele mesmo der a essa pergunta, porque uma entidade mística (“identidade de gênero”) está sussurrando no ouvido dele o que ele é, e quem sou eu para desacreditar nas vozes dos espíritos?

Enfim, falo disso porque acabei de ver um documentário chamado What is a Woman?, lançado pelo americano Matt Walsh agora no início de junho. Matt Walsh é um jornalista, podcaster e escritor de alguns livros — entre eles o infantil Johnny, a Morsa, em que um menino brinca de ser morsa colocando duas colheres de madeira na boca, como se fossem as presas, e imediatamente um médico aparece na sua frente com um serrote para cortar os pés dele e colocar barbatanas. O livro é mal-ilustrado e a mensagem é demasiadamente óbvia, mas mesmo assim dá vontade de subir num helicóptero e distribuir milhares de cópias lá de cima, só pra ver a comoção de uma cidade inteira.

No documentário, Walsh entrevista pediatras, professores, filósofos, transgêneros, deputados, atletas etc. Pergunta para todos o que é uma mulher. Ninguém consegue responder. Nem as feministas no meio de um protesto feminista conseguem responder. Outros ficam irritados com a pergunta. Um professor universitário, ao ser perguntado o que é uma mulher, pergunta para Walsh por que ele quer saber isso. “Para saber a realidade”, diz Walsh. E o professor responde: “Me sinto muito desconfortável com esse termo, e se você não parar de falar em realidade essa entrevista vai acabar agora.”

Alguns outros não ficam irritados, usam um tom paternal de quem está ensinando o óbvio aos ignorantes que não foram para a faculdade nos últimos dois anos. “Agora sabemos que ‘mulher’ é uma construção social”. Esse “agora sabemos” é o lema deles. “Antigamente achávamos que A, mas agora sabemos que B”. E o que é B, que agora sabemos? É algo que lhes disseram num curso. São as criaturas menos socráticas do mundo, porque nunca põem em dúvida o que ouviram num curso.

Estava errado quando disse, lá para cima, que eles querem destruir o bom senso. O que eles querem é a criação de um outro bom senso. Um bom senso paralelo, que com o tempo vai se tornar o único que existe.

Revista Crusoé

Derrubada do direito ao aborto consolida os EUA como um campo ideológico de batalha




Por Sandra Cohen (foto)

Estados conservadores acionam leis restritivas enquanto os progressistas se articulam para acolher mulheres que recorrem à interrupção da gravidez.

Assim que a decisão da Suprema Corte dos EUA foi revelada, procuradores de estados conservadores como Missouri, Texas e Louisiana acionaram suas leis antiaborto, proibindo efetivamente a interrupção da gravidez. Em contrapartida, os procuradores de unidades progressistas, como Nova York e Illinois, tentaram assegurar às mulheres que o seu direito de escolha será preservado.

É nesse campo de batalha que os EUA se consolidam, com a derrubada de um direito constitucional que vigorava há meio século no país. A morte anunciada de Roe v. Wade, só foi possível a partir da reconfiguração patrocinada pelo ex-presidente Donald Trump, que imprimiu ao mais alto tribunal o viés conservador para as próximas gerações.

Graças aos juízes nomeados durante o seu mandato, prevaleceu a tese de que o direito ao aborto estabelecido em 1973 é um erro, como decidiu, por 6 a 3, esta manhã a Suprema Corte. “O tribunal fez algo que nunca fez antes: reverter um direito constitucional”, resumiu Joe Biden. O presidente defendeu a restauração de Roe v. Wade como legislação federal, mas a configuração atual do Congresso torna inviável esta mudança.

A questão divide o país geograficamente em dois pólos irreconciliáveis. A anulação deste direito reverbera imediatamente em metade dos estados, prontos para restringir ou proibir drasticamente a interrupção da gravidez. Põe em situação vulnerável cerca de 36 milhões de mulheres em idade reprodutiva, que precisarão cruzar fronteiras para fazer um aborto em um estado que preserve o direito.

Como definiu a procuradora-geral Letitia James, de Nova York, os americanos estão diante de um dos momentos mais sombrios de sua História. “Não se engane: enquanto outros estados retiram o direito fundamental de escolher, Nova York sempre será um porto seguro para quem procura um aborto.”

Não é tão simples. Grupos de defesa da interrupção da gravidez alertam sobre penalizações às mulheres que recorram a outros estados para chegar à clínica mais próxima. “Eu vou combater qualquer lei que proíba o livre trânsito de mulheres em busca do aborto”, afirmou o presidente.

G1

Por que você em breve poderá ter um gêmeo digital (e para que eles servem)




Especialistas dizem que pensar em gêmeos digitais de humanos pode estar a apenas uma década de distância

Por Jane Wakefield

Imagine se você pudesse criar seu próprio gêmeo, uma cópia exata de si mesmo, mas que vivesse uma vida estritamente digital.

Estamos vivendo em uma era em que tudo o que existe no mundo real está sendo replicado digitalmente — nossas cidades, nossos carros, nossas casas e até nós mesmos.

E, agora que o chamado metaverso está extremamente badalado — a ideia de um mundo virtual e digital habitado por avatares representando pessoas reais — os gêmeos digitais se tornaram uma das novas tendências tecnológicas mais comentadas nas redes.

Um gêmeo digital é uma réplica exata de algo no mundo físico, mas com uma missão única: ajudar a melhorar ou, de alguma outra forma, fornecer feedback à versão da vida real.

Inicialmente, esses gêmeos eram apenas modelos sofisticados de computador em 3D, mas a inteligência artificial (IA) combinada com a internet das coisas — que usa sensores para conectar algo físico à rede — permite que você construa algo digitalmente que está constantemente aprendendo e ajudando a melhorar sua inspiração real.

O analista de tecnologia Rob Enderle acredita que teremos as primeiras versões de gêmeos digitais humanos pensantes "antes do final da década".

'Rob Enderle diz que há considerações éticas a serem estudadas à medida em que gêmeos humanos digitais são desenvolvidos'

"O surgimento deles exigirá uma enorme quantidade de ponderações e considerações éticas, porque uma réplica pensante de nós mesmos pode ser incrivelmente útil para empregadores", diz ele.

"O que acontece se sua empresa criar um gêmeo digital de você e disser 'ei, você tem esse gêmeo digital para quem não pagamos salário, então por que ainda pagamos você?'"

Enderle acredita que a questão sobre quem é o dono de tais gêmeos digitais será uma das questões definidoras da iminente era do metaverso.

Já começamos a jornada em direção à criação de gêmeos com os avatares mencionados acima — mas estes atualmente ainda são bastante desajeitados e primitivos.

Na plataforma de realidade virtual da Meta (novo nome da empresa Facebook), Horizon Worlds, por exemplo, você pode dar ao seu avatar um rosto semelhante ao seu, mas não pode nem fornecer pernas a ele porque a tecnologia ainda está em estágios iniciais.

A professora Sandra Wachter, pesquisadora sênior em Inteligência Artificial (IA) da Universidade de Oxford, entende o apelo da criação de gêmeos digitais a partir de humanos: "É uma reminiscência de romances de ficção científica emocionantes e, no momento, esse é o estágio em que ele está".

'Professora Wachter diz que gêmeos humanos digitais permanecem apenas na ficção científica por enquanto'

Ela acrescenta que se alguém "for bem sucedido na faculdade de direito, ficar doente ou cometer um crime — dependerá da ainda debatida questão 'natureza versus criação'. Vai depender de boa sorte e má sorte, amigos, família, seu contexto socioeconômico e ambiente e, claro, suas escolhas pessoais."

No entanto, ela explica, a IA ainda não é boa em prever esses "eventos sociais únicos, devido à sua complexidade inerente. E assim, temos um longo caminho a percorrer até que possamos entender e modelar a vida de uma pessoa do começo ao fim, assumindo que isso seja possível."

Em vez disso, é nas áreas de design de produto, distribuição e planejamento urbano que o uso de gêmeos digitais é atualmente o mais sofisticado e extenso.

Nas corridas de Fórmula 1, as equipes McLaren e Red Bull usam gêmeos digitais de seus carros de corrida.

Enquanto isso, a gigante de entregas DHL está criando um mapa digital de seu armazém e cadeias de suprimentos para permitir que sejam mais eficientes.

'A McLaren tem um gêmeo digital de seu carro mais recente, que foi usado para ajudar no desenvolvimento do veículo real'

E cada vez mais nossas cidades também estão sendo replicadas no mundo digital. Xangai e Singapura têm gêmeos digitais, criados para ajudar a melhorar o design e as operações de edifícios, sistemas de transporte e ruas.

Em Singapura, uma das tarefas de seu gêmeo digital é ajudar a encontrar novas formas de locomoção para as pessoas, evitando áreas de intensa poluição. Outros lugares usam a tecnologia para sugerir onde construir novas infraestruturas, como linhas subterrâneas. E novas cidades no Oriente Médio estão sendo construídas simultaneamente no mundo real e no digital.

A empresa francesa de software Dassault Systemes diz que agora milhares de companhias estão interessadas em sua tecnologia de gêmeos digitais.

Até agora, a empresa criou gêmeos digitais para ajudar uma empresa de cuidados com os cabelos a projetar digitalmente frascos de xampu mais sustentáveis, dispensando a criação de inúmeros protótipos. Isso reduz o desperdício.

'As autoridades de Xangai, na foto, têm um gêmeo digital da cidade que elas usam para modelar seu desenvolvimento futuro'

E está permitindo que outras empresas criem novos projetos futuristas — de jetpacks a motocicletas com rodas flutuantes e até carros voadores. Cada um tem um protótipo físico, mas o refinamento desse modelo inicial ocorre no espaço digital.

Mas é na área de saúde em que se observa o valor real dos gêmeos digitais.

O projeto Living Heart, da Dassault Systemes, criou um modelo virtual preciso do coração humano que pode ser testado e analisado, permitindo que cirurgiões simulem e experimentem uma série de cenários e situações com o órgão, usando vários procedimentos e dispositivos médicos.

O projeto foi fundado por Steve Levine, que tinha motivos pessoais para criar um gêmeo digital. A filha dele nasceu com cardiopatia congênita e, alguns anos atrás, quando ela estava com quase 20 anos e com alto risco de insuficiência cardíaca, ele decidiu recriar o coração dela em realidade virtual.

O Hospital Infantil de Boston, nos Estados Unidos, está usando essa tecnologia para mapear as condições cardíacas reais dos pacientes. Já no hospital infantil Great Ormond Street, em Londres, uma equipe de engenheiros trabalha com médicos para testar dispositivos que podem ajudar crianças com doenças cardíacas raras e difíceis de tratar.

Fazer experimentos em um coração digital também tem o efeito de reduzir a necessidade de testes em animais — um dos aspectos mais controversos da pesquisa científica, diz Severine Trouillet, diretora de assuntos globais da Dassault Systemes.

A empresa agora planeja mais gêmeos de órgãos digitais, incluindo o olho e até o cérebro.

"Em algum momento, todos teremos um gêmeo digital, para que você possa ir ao médico e consiga cada vez mais fazer uma medicina preventiva e garantir que cada tratamento seja personalizado", diz Trouillet.

Talvez, ainda mais ambiciosa do que replicar órgãos humanos seja a corrida para construir uma versão digital de todo o nosso planeta.

A empresa de software americana Nvidia administra uma plataforma chamada Omniverse, projetada para criar mundos virtuais e gêmeos digitais.

Um de seus projetos mais ambiciosos é construir um doppelganger digital da Terra, capturando imagens de alta resolução de toda a sua superfície.

A Terra-2, como foi apelidada, usará uma combinação de modelos de aprendizado profundo e redes neurais para imitar ambientes físicos na esfera digital e apresentar soluções para as mudanças climáticas.

Em março de 2022, a Comissão Europeia, em conjunto com a Agência Espacial Europeia, entre outros, anunciou seus próprios planos de fazer um gêmeo digital do planeta, apelidado de Destination Earth.

Até o final de 2024, espera-se haver dados suficientes de observações e simulações em tempo real para criar um gêmeo digital que se concentrará em enchentes, secas e ondas de calor, além de desastres naturais como terremotos, erupções vulcânicas e tsunamis, e fornecerá aos países planos concretos para salvar vidas diante desses desafios crescentes.

BBC Brasil

O elogio da bandidagem




Ao admitir que agiu para libertar os sequestradores do empresário Abílio Diniz, Lula lembra como o PT sempre esteve disposto a perdoar autores de crimes hediondos, desde que seguissem sua cartilha ideológica.

Por Duda Teixeira (foto)

Com a língua solta em sua sexta campanha para o Palácio do Planalto, Lula tem revelado segredos que o seu partido preferiria esconder. Em um discurso na sexta, 17, ele admitiu que procurou o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Justiça Renan Calheiros para solicitar, em 1998, a libertação dos sequestradores do empresário Abilio Diniz. Naquele ano, os criminosos — cinco chilenos, dois canadenses, dois argentinos e um brasileiro — já estavam presos havia dez anos pelo crime, cujo objetivo era levantar 30 milhões de reais para financiar o grupo terrorista Movimento Esquerda Revolucionária, o MIR do Chile.

A louvação dos sequestradores é mais um sintoma da inclinação petista para romantizar e desculpar atos contrários à lei, contanto que seus protagonistas sigam sua cartilha de esquerda. Desde que, ainda em 1989, o delegado Romeu Tuma e o secretário de Segurança Pública, Luis Antônio Fleury Filho, afirmaram que havia material de propaganda do PT, como bandeiras, camisetas e bandeiras, com os sequestradores, o partido negou qualquer vínculo com o MIR do Chile. Havia ainda o temor de que o crime pudesse atrapalhar Lula em na eleição presidencial, a qual acabou sendo vencida por Fernando Collor. O PT sempre procurou se desvencilhar publicamente do MIR, mas em privado seguiu próximo ao grupo. O MIR participou, por exemplo, de diversas reuniões do Foro de São Paulo, idealizado pelo PT e pela ditadura cubana para reunir movimentos de esquerda na América Latina. As atuais declarações de Lula indicam que esse comportamento não se alterou. O MIR foi mais um agraciado pela inversão moral petista, assim como as Forças Armadas Revolucionária da Colômbia e o terrorista italiano Cesare Battisti.

Nenhum dos crimes praticados por essa trupe podem ser comparados a uma brincadeira juvenil. Abilio foi cercado pelos sequestradores em dois carros, encapuzado e levado para um cativeiro no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Foi colocado num cubículo subterrâneo de 5 metros quadrados, onde respirava o ar que entrava por dois pequenos buracos. Abilio foi solto seis dias depois, três quilos mais magro. No evento de campanha do dia 17, Lula chamou os sequestradores de “meninos”, com os quais foi papear dez anos depois do crime. “Eles estavam em greve de fome e iam entrar em greve seca, que é ficar sem comer e beber. A morte seria certa. Aí, então, eu fui procurar o ministro da Justiça, chamado Renan Calheiros”, disse Lula. “E eu fui à cadeia no dia 31 de dezembro conversar com os meninos e falar: ‘Olha, vocês vão ter de dar a palavra para mim, vocês vão ter de garantir pra mim, que vão acabar com a greve de fome agora, e vocês serão soltos. Eles respeitaram a proposta, pararam a greve de fome e foram soltos. E eu não sei onde eles estão agora.”

O italiano Cesare Battisti envolveu-se em quatro assassinatos em seu país. No primeiro, matou um policial com tiros nas costas e duas balas na cabeça. No segundo, de um joalheiro, Battisti foi o mandante. A vítima reagiu e atirou contra o próprio filho, que ficou paraplégico. Em seguida, foi atingida por uma bala na cabeça. A terceira foi um açougueiro, que caiu no chão depois de dois disparos. Battisti ainda se aproximou e deu um tiro de misericórdia. O quarto assassinado foi outro policial, à queima-roupa. Quando o terrorista, integrante do Proletários Armados Pelo Comunismo (PAC), foi encontrado pela polícia, estava em um local abarrotado de armas. Pegou treze anos de prisão. No Brasil, desde 2004, foi protegido pelo PT, que impediu sua extradição para a Itália. Quando o governo de Michel Temer ameaçou reverter seu refúgio antes disso, integrantes do PT, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, e do Sindicato dos Trabalhadores da USP, Sintusp, fizeram contato com o então presidente boliviano Evo Morales, para tentar encontrar outro refúgio para o criminoso, segundo o terrorista admitiu para a Folha. Battisti acabou sendo preso na Bolívia, em 2019, e enviado para cumprir pena na Itália.

As Farc, que frequentaram o Foro de São Paulo ao lado do MIR, admitiram nesta terça, 21, a culpa por mais de 21 mil sequestros, que ocorreram principalmente nos anos 1980, a mesma década em que os brasileiros viviam problema semelhante nas cidades. Seus membros também admitiram que cobraram resgates por reféns que já tinham sido mortos.

O efeito perverso dessa apologia da bandidagem é propagar os males que aterrorizam a sociedade. Na década de 80, o Brasil vivia uma epidemia de sequestros, que viravam manchetes nos jornais. Ocorreu então uma reação da sociedade, que cobrou medidas das autoridades. “Os sequestros vitimaram muitas pessoas de classe média e muitos ricos, que pressionaram por uma mudança na lei e por mais efetividade na polícia”, diz o advogado Flávio Meireles Medeiros, especialista em Direito Penal e ex-professor da PUC do Rio Grande do Sul. Uma lei de 1990 passou a considerar o crime de sequestro como hediondo, e suas penas foram esticadas. Os sequestradores de Abilio Diniz pegaram entre 26 anos e 28 anos. “O caso de Abilio e a configuração do sequestro como crime hediondo tiveram uma carga simbólica muito forte, o que levou o crime organizado a mudar sua lógica para praticar menos esse tipo de ação”, diz Alexys Lazarou, advogado de direito penal do Cascione advogados.

O depoimento de Lula, mais de três décadas depois do ápice dos sequestros, não estimulará uma nova onda desses delitos no Brasil. Hoje, os criminosos sabem muito bem o risco que correm. Também não há grupelhos armados de esquerda atacando desafetos ou roubando bancos. Mas o comportamento de elogiar os bandidos, nunca remediado, pode incentivar outras ações criminosas, que são contemporâneas e também se apresentam com uma roupagem ideológica.

Umas das maiores preocupações dos governos atualmente é com os protestos violentos, que podem paralisar países inteiros, a exemplo do que ocorreu com os Black Blocs no Brasil em 2013, com o Chile em 2019, com a Colômbia no ano passado e com o Equador atualmente. Na crise equatoriana, que teve início em 13 de junho, quatro pessoas já morreram.

Na Colômbia, no ano passado, um grupo de manifestantes criou o grupo Primeira Linha. Armados com escudos, facas e coquetéis-molotov, eles se colocavam na linha de frente dos protestos para enfrentar os policiais. Dezenas de seus membros ainda estão sendo identificados. Dezoito foram detidos há duas semanas. Um desses integrantes, Sergio Andrés Pastor González, foi acusado de vandalismo, tortura e agressões contra as forças de segurança. Segundo os promotores, ele e outros acusados cercaram dois pedestres, dizendo que eram policiais. Eles tiveram seus bens roubados, foram golpeados e feridos com facas. Os criminosos os amarraram a uma árvore, atearam gasolina e ameaçaram botar fogo.

Dois dias depois de Lula afirmar que agiu para soltar os “meninos” que sequestraram Abilio Diniz, o presidente eleito da Colômbia, Gustavo Petro, solicitou a libertação da “juventude” colombiana: “Somos a resistência da rebelião colombiana, das rebeliões contra a injustiça, contra um mundo que não deveria ser. Quantos jovens algemados, quantos jovens tratados como bandidos só porque tinham esperança, só porque tinham amor. Quero pedir ao procurador-geral que liberte a juventude. Libertem os jovens“. Os apoiadores de Petro se animaram e começaram a gritar: “Liberdade!”.

Revista Crusoé

Onda de esquerda encobre a diversidade de governantes - Editorial




As condições econômicas ruins alimentam a instabilidade político-partidária

Governos de esquerda já foram tão mal-sucedidos como os de direita na América Latina e o pêndulo atual se inclina para os primeiros, o que não significa que a nova onda traga um impulso reformista renovador importante. México, Argentina, Colômbia, Peru, Chile, Bolívia e Venezuela estão sob comando de líderes esquerdistas, aos quais pode se somar o Brasil, se Luiz Inácio Lula da Silva se mantiver muito à frente nas pesquisas, como agora.

Mas os atuais líderes são bastante distintos entre si, embora tenham de reagir às mesmas condições econômicas, que hoje são muito adversas em toda a região. Afligidos por inflação alta, baixo crescimento - exceto Colômbia - e alto desemprego, a paciência dos eleitores tem se mostrado no limite. Um exemplo deste estado de espírito se vê no Chile, onde foi eleito o presidente mais jovem da história do país, Gabriel Boric, 36 anos, com 55,9% dos votos. Pouco mais de um mês após a posse, sua popularidade despencou para 36%. Em junho, ela subiu para 44%, ainda abaixo dos 47% que o rejeitam. É o pior resultado para o período em relação aos antecessores Sebastián Piñera e Michelle Bachelet.

A ideologia não tem ajudado o presidente peruano Pedro Castillo, 51 anos, que em menos de um ano de governo foi alvo de duas tentativas de impeachment (na última, 55 deputados votaram contra e 54 a favor) e trocou seu gabinete ministerial quatro vezes. O Peru teve antes dele 4 presidentes em 4 anos.

Gustavo Petro, de 62 anos, é o novo membro dessa constelação. Ex-guerrilheiro do M19 e ex-prefeito de Bogotá, venceu um candidato exótico direitista, Rodolfo Hernández, por 11,28 milhões a 10,58 milhões de votos. Petro é o primeiro presidente de esquerda no país, após derrotar os partidos do establishment que se revezavam desde sempre no poder. A Colômbia é o país que mais crescerá entre as maiores economias da América Latina no ano, 5,8% segundo as projeções do FMI.

Um ponto em comum a todos, com exceção do chileno Boric, é a apologia do intervencionismo estatal, que produziu a ruína venezuelana e a estagnação argentina. O colombiano Petro, por exemplo, divulgou em plataforma eleitoral que em sua gestão o “Estado atuará como empregador de última instância, oferecendo emprego aos que queiram e possam trabalhar, mas não o encontram no setor privado” - uma promessa delirante. As intervenções nos preços dos peronistas na Argentina são conhecidas, seus efeitos devastadores também. Já Boric critica o modelo venezuelano e defende a responsabilidade fiscal. “A esquerda precisa abraçá-la, pois é garantia de que a vida do nosso povo vai melhorar”, disse.

Os eixos de governo anunciados por Boric - direitos sociais, melhor democracia, justiça e segurança, meio ambiente e crescimento inclusivo - figuram nos planos de todos os governos de esquerda da região. Há virtudes e grandes desafios. Redistribuição de renda e abrangentes programas sociais se chocam hoje com situações econômicas bastante adversas. Isso limita as intenções distributivistas, frustra promessas eleitorais e desilude eleitores, que votarão em candidatos de outros espectros políticos nos próximos pleitos, como tem ocorrido na Argentina, ou escolherão candidatos fora dos partidos tradicionais, como no Brasil, com Jair Bolsonaro, e na própria Colômbia, com Hernández.

As condições econômicas ruins alimentam a instabilidade político-partidária. Mesmo vitoriosos, Petro, Boric e Castillo, que criaram movimentos próprios, não têm maioria nos parlamentos, e o argentino Alberto Fernández a perdeu na eleição de meio de mandato. Boa parte das promessas eleitorais ficarão pela metade do caminho ou não serão executadas.

A maior promessa de renovação da nova safra de esquerda, Gabriel Boric, terá de governar a baixa velocidade até 4 de setembro, quando ocorrerá o plebiscito sobre a nova Constituição, elaborado pela Assembleia Constituinte, que dividiu o eleitorado ao meio. Boric poderá ter de acatar e agir sob premissas que não defende.

A renovação se combina com a ortodoxia ideológica em doses variadas nesses governos. Petro tem plataforma ecológica abrangente, embora possa inviabilizar sua gestão com sua ideia de não conceder mais licenças para exploração de petróleo. Boric lançou o plano “Menos Armas, Mais Segurança”, com proibição do porte de armas e reforma da polícia. Dos partidos mais “velhos”, porém, como o peronista argentino e o PT brasileiro, a expectativa é mais do mesmo, ou menos.

Valor Econômico

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