Crônica Junina – Memórias de um São João em Jeremoabo
Em Jeremoabo, os festejos juninos sempre foram mais do que simples celebrações: são encontros da alma com a memória, da fé com a alegria, do passado com o presente. É o tempo em que o útil se junta ao agradável, como se diz por aqui, quando o cheiro de milho cozido se mistura com o perfume da saudade.
Junho chega e já se escuta a alvorada pelas ruas, anunciando o começo de tudo. É o casamento do matuto, com seu cortejo divertido, é o forró pegado na Praça do Forró, onde o suor da dança se mistura com o riso solto do povo. Mas também é tempo de fé, com a novena de São João Batista, padroeiro da cidade, que enche a igreja e o coração do povo jeremoabense.
Mas como na vida nem tudo são flores, essa época também carrega a doçura da saudade. Como esquecer o sargento Humberto, que com sua farda da Aeronáutica jamais perdia uma novena? Hoje, ele canta com os anjos. Ou então o desembargador José Nolasco, presença ilustre e devota. E meu pai, João Isaías Montalvão, homem de valor, que hoje vive nas minhas lembranças e nos ensinamentos que deixou.
Na casa de minha mãe, a saudosa Mariata, o São João parecia um encontro de gerações. A residência se transformava num verdadeiro santuário de família: parentes de todo canto, camas armadas até nos cantinhos do quintal, alegria que não cabia nas paredes. Assim também era na casa da inesquecível amiga Valda de Hugo, que hospedava gente até do Espírito Santo. Aquilo sim era São João com alma!
As girândolas e bombas de Abelardo Santadana rodeavam a igreja e estremeciam a cidade com seus estampidos, como se os céus também festejassem conosco. Se fosse contar casa por casa, quantos não enchiam seus lares de parentes nessa época? Daria uma enciclopédia de afetos e tradições.
E por fim, não posso deixar de lembrar de José Lourenço, ex-prefeito, pai do atual gestor Tista de Deda. Foi ele o criador da hoje tão pequena Praça do Forró, que já não dá conta de tanto povo – moradores e visitantes que, ano após ano, retornam a Jeremoabo em busca dessa chama viva que é o São João.
Entre o cheiro de pólvora e o som da sanfona, a memória segue dançando em nossos corações. E assim, Jeremoabo segue sendo um pedaço de céu em forma de festa, onde cada lembrança vira fogueira acesa no terreiro da alma.
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Cordel Junino de Jeremoabo: Memórias de São João
Por: José Motalvao
🌾 Dedicatória
Dedico estas rimas simples
Com cheiro de milho e chão
À memória dos que amei
E que vivem no coração.
Ao povo bom de Jeremoabo,
Que faz do São João, tradição!
🪗 Capítulo 1 – Tempo de Alvorada
Em Jeremoabo, no sertão,
Quando junho se anuncia,
É alvorada que desperta
Com foguete e alegria.
É forró na madrugada,
É reza, é cantoria!
Tem casamento matuto,
Quadrilha e fogueira acesa,
Bandeirinha enfeitando o céu,
Sanfoneiro com destreza.
E no terreiro da praça,
A festa é uma beleza!
⛪ Capítulo 2 – Fé e Tradição
Mas nem só de forrobodó
Vive o povo festeiro.
Tem a novena sagrada
No coração do romeiro.
São João Batista é o guia,
Padroeiro verdadeiro.
A igreja se enche de luz,
De oração e devoção,
Com o povo todo unido
Num só ritmo e oração.
Jeremoabo se curva
Em fé e em gratidão.
🕯️ Capítulo 3 – Saudades no Arraiá
Mas nem tudo é só festejo,
Também chega a saudade...
Do Sargento Humberto, firme,
Exemplo de lealdade.
Com sua farda impecável,
Frequentava a irmandade.
Do doutor José Nolasco,
Desembargador de valor,
Presença nas novenas,
Homem digno, defensor.
E de meu pai, João Isaías,
Que partiu, mas deixou amor.
🏡 Capítulo 4 – A Casa Cheia
Na casa de dona Marita,
Minha mãe de coração,
Tinha cama até no santuário,
Parente de toda região.
Era São João em família,
Era festa e união.
E na casa de Valda de Hugo,
A alegria não cabia,
Gente até do Espírito Santo
Festejava com harmonia.
Seu lar era hospedaria,
Cheio de fé e simpatia.
🎆 Capítulo 5 – Foguetes e Estampido
Abelardo Santana,
Com girândolas na mão,
Rodava a igreja de bombas
Sacudindo o chão do sertão.
O estampido era anúncio:
“Começou o São João!”
Cada casa em Jeremoabo
Era pouso e alegria,
Se eu for contar morador
Dava livro, dava poesia!
Era gente de todo canto
Num só clima de harmonia.
🏛️ Capítulo 6 – A Praça do Forró
E por fim, uma homenagem
Ao José Lourenço, em memória,
Que sonhou e construiu
A praça que virou história.
Hoje a Praça do Forró
É palco de nossa glória.
Mas ela ficou pequena
Pra tanta gente animada,
Moradores e visitantes
Tomam conta da calçada.
É prova de que o legado
Não morre com a jornada.
🌟 Epílogo – O São João Nunca Acaba
O São João de Jeremoabo
É mais que festa no terreiro,
É lembrança que ilumina
O nosso chão verdadeiro.
É memória viva e quente
No coração do brasileiro.
Que essa chama nunca apague,
Mesmo o tempo nos levando,
Pois quem planta tradição
Vê a cultura germinando.
E no compasso do forró,
A vida vai se eternizando.

