Daniel Zonshine atua como embaixador de Israel no Brasil desde outubro de 2021
Na decisão, devem ser considerados fatores que podem exigir boa articulação diplomática, como possível nova lista de brasileiros a serem repatriados
Por Lucyenne Landim e Fransciny Ferreira
A conclusão do plano de resgate de brasileiros que estavam na Faixa de Gaza em meio à guerra entre Israel e o grupo extremista Hamas, considerado o plano sensível e com necessidade de boa interlocução entre chefes diplomáticos, pode dar início ao processo de saída do embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zohar Zonshine.
Suas posições de desagravo ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) têm causado incômodo no Ministério das Relações Exteriores. Com a situação, o órgão diplomático brasileiro aguarda o desembarque do grupo de repatriados, previsto para às 23h30 desta segunda-feira (13), para fazer uma avaliação de riscos e, por fim, pedir oficialmente a saída de Zonshine.
Há, porém, outros fatores no cálculo da decisão: se outros brasileiros precisarão ser resgatados em Israel ou região; a atuação no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas); e as negociações comerciais com o país.
Fontes do Palácio Itamaraty contaram que a forma com que o embaixador israelense conduziu as tratativas desde o início do conflito fez com que o corpo diplomático optasse por evitar o contato com Zonshine. “Ao invés de cumprir com o quê prevê o cargo dele, de servir como uma ponte, como alguém que facilitaria o diálogo entre os dois países, ele resolveu criticar o governo de forma pesada, se tornando um opositor, e não cumprindo com o papel dele, de embaixador”, contou um assessor palaciano.
Dessa forma, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, preferiu tocar as negociações com autoridades que estão in loco em Israel. Mas, antes de ocorrer essa ruptura, o diplomata foi chamado até a sede do Itamaraty para uma reunião com a intenção de “aparar as arestas” e prestar esclarecimentos sobre suas críticas à postura da gestão brasileira diante do conflito. Depois desse encontro, ele mudou a postura.
Em entrevista a O TEMPO Brasília, em 24 de outubro, Zonshine também se restringiu a compartilhar informações sobre o encontro que teve com o secretário de África e Oriente Médio, embaixador Carlos Duarte. Ele enfatizou que o teor da discussão era confidencial: “Foi uma conversa aberta, sincera, entre países amigos, mas não vou entrar em detalhes sobre o conteúdo da conversa. Vamos manter os contatos com o Itamaraty, como fizemos até agora”.
Encontro de Zonshine com Bolsonaro atiçou incômodo
A gota d’água na relação que já estava estremecida foi o encontro de Zonshine com Bolsonaro na Câmara dos Deputados, na última quarta-feira (8), em um evento marcado pela Embaixada para “mostrar as atrocidades cometidas pelo Hamas”. O evento, repleto de parlamentares da oposição, foi divulgado pelo ex-presidente em suas redes sociais como uma ida ao Parlamento “juntamente com o embaixador de Israel”.
A Embaixada de Israel nega ter coordenado a presença de Bolsonaro, mas para diplomatas ouvidos por O TEMPO Brasília, muito ajuda quem não atrapalha. Também foi o ex-presidente quem recebeu as credenciais de Zonshine quando assumiu o posto de embaixador, em outubro de 2021, e ampliaram as relações entre Israel e Brasil. Foi após esse encontro na Câmara que aliados de Bolsonaro creditaram ao ex-presidente o sucesso na saída de brasileiros de Gaza, obrigando Mauro Vieira a reforçar o debate diplomático do governo Lula.
“Todo esforço para libertação dos brasileiros foi feito pelo governo do presidente Lula. Por instrução dele, acompanhamento diário, eu fui interlocutor dos contatos com todos os governos envolvidos, e foi isso que resultou na conclusão exitosa desse acordo entre os países envolvidos. Isso é o que eu posso dizer, isso é o que existe. Além disso, acho que é desinformação”, disse Mauro Vieira no domingo (12), disparando ainda sobre a relação que possui com Zonshine: “Não conheço”. Antes, o chanceler brasileiro já havia dito, em entrevista à GloboNews, que fala com o chefe do embaixador, não com ele.
Saída de embaixadores de postos diplomáticos
A Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, adotada pelo Brasil, define que o país que recebe o órgão consular estrangeiro poderá, a qualquer momento e sem ser obrigado a justificar a sua decisão, notificar a outra nação que o chefe da missão ou qualquer integrante do pessoal diplomático é “persona non grata” ou não aceitável.
Dessa forma, poderá retirar a pessoa em questão ou dar por terminadas as suas funções na missão. Se houver recusa em cumprir a decisão de não aceitar alguém do corpo diplomático, ou se não for aceita em prazo razoável, o país de recepção poderá renunciar a reconhecer tal pessoa como membro da Missão.
O Tempo
