Israel e o mundo precisam derrotar os jihadistas do Hamas se quiserem abrir caminho para a paz. Mas a paz ficará cada vez mais distante se Israel não neutralizar seus próprios radicais
O governo do Hamas em Gaza é incompatível com a paz. Para a milícia jihadista, qualquer solução de compromisso é só um passo atrás para poder dar vários adiante rumo ao seu objetivo: a aniquilação de Israel e a submissão do mundo ao islã. A Israel não resta alternativa senão obliterar a capacidade militar do Hamas e defenestrá-lo do governo. A comunidade internacional precisa pressionar Israel a respeitar as leis da guerra e minimizar danos a civis, mas um cessar-fogo a esta altura só daria ao Hamas a chance de recobrar forças e perseguir suas metas com mais brutalidade.
No entanto, se desbloquearia o caminho para a paz, a destruição do Hamas, sozinha, não é suficiente para pavimentá-lo. Se a ação militar não for complementada por uma estratégia política em relação aos palestinos, esse caminho será inviabilizado por décadas. O Hamas é só a cabeça mais brutal da hidra do radicalismo. Se essa cabeça for cortada sem uma alternativa digna para os palestinos, surgirão outras ainda mais ferozes. Crucial para evitar isso será formar uma coalizão de países árabes avessos ao jihadismo para instaurar um governo civil em Gaza, concomitantemente à normalização das relações entre esses países e Israel. Sobre essas bases, será indispensável retomar o processo para dar à luz um Estado palestino.
O Hamas sempre se opôs à solução dos dois Estados. Mas, mesmo que ele seja destruído, o caminho para a paz seguirá obstruído se Israel não contiver seus próprios extremistas. Há pouco, a imprensa israelense revelou um documento em que um ministro sugere transferir à força os palestinos de Gaza para a península do Sinai, no Egito. Outro ministro sugeriu que lançar uma bomba nuclear em Gaza seria uma “opção”. E o governo continua a tolerar, se não a incentivar, as agressões de colonos israelenses contra palestinos na Cisjordânia.
A colonização é parte da velha estratégia do premiê Benjamin Netanyahu de dividir para conquistar. Ao invés de enfraquecer o Hamas em Gaza e fortalecer seus rivais do Fatah, a facção mais moderada e secular que governa a Cisjordânia, Netanyahu abandonou Gaza à própria sorte, confiando em suas defesas, e acelerou a colonização na Cisjordânia, desmoralizando ainda mais o já decrépito Fatah. O objetivo era inviabilizar a instauração de um Estado palestino. Desde o primeiro governo Netanyahu, nos anos 90, o número de colonos quadruplicou, de 116 mil para mais de 465 mil.
A atual coalizão com partidos ultranacionalistas e extremistas religiosos levou essa política a um novo patamar. A crise expôs a sua falência. Mas, ao invés de revertê-la, o governo a está intensificando.
A mudança da atitude defensiva para a ofensiva em Gaza era inevitável. Mas Israel recusa tratativas para garantir algum alívio humanitário substancial. Para as perspectivas de longo prazo, a situação na Cisjordânia é, em certa medida, até mais preocupante. A Cisjordânia é o que há de mais próximo de um Estado palestino e o Fatah é o que há de mais próximo de um parceiro para um processo de estabilização política. Mas, em 2022, 146 palestinos foram mortos por israelenses na Cisjordânia e em 2023, antes do ataque do Hamas, já tinham sido ao menos 153. Desde então mais de 140 morreram e multidões foram expulsas de suas casas em verdadeiros pogroms.
Netanyahu deveria renunciar. Sendo isso improvável, deveria ao menos ordenar que os fanáticos retrocedam. Os moderados que passaram a compor o governo com a guerra deveriam fazer o que se espera deles: moderar o governo extremista. Mas nada disso está acontecendo, e, sob a cumplicidade dos moderados, os celerados estão aproveitando o foco em Gaza para aterrorizar a Cisjordânia.
O ataque selvagem do Hamas foi calculado para provocar uma retaliação selvagem de Israel e assim radicalizar mais os palestinos e os antissionistas nos países árabes e em todo o mundo. Desgraçadamente, a tática tem sido, em parte, bem-sucedida.
Israel e o mundo precisam obliterar os radicais do Hamas se quiserem abrir o caminho para a paz. Mas, se Israel não neutralizar seus próprios radicais, a paz ficará cada vez mais distante.
O Estado de São Paulo
